Quarta-feira, Dezembro 2, 2020
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Macau entre os gigantes

 

Forum Macau

 

Texto Luciana Leitão

 

Ao longo da última década, o Fórum Macau ajudou a que alguns países de língua portuguesa tivessem maior visibilidade para as autoridades chinesas e configurou-se como um clube no qual os representantes daquelas nações criaram laços mais fortes facilitando a assinatura de acordos no terreno. Diplomatas lusófonos acreditam que Macau actua enquanto mediador e catalisador de alguns pequenos negócios.

A embaixadora de Timor Leste Vicky Tchong aponta que o Fórum tem favorecido algumas oportunidades de investimento. “Sete cartas de intenções foram assinadas com Timor no nono Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, entre o sector privado do países lusófonos e a China”, diz, a título de exemplo.

António Inácio Júnior, embaixador moçambicano na China, afirma que o Fórum poderia fazer mais para favorecer o diálogo entre as partes, enquanto o embaixador angolano em Pequim, João Garcia Bires, considera o território como a plataforma ideal dada a comunhão histórica e linguística.

 

O comércio

Desde 2009, a China tornou-se o parceiro comercial número um do Brasil, ultrapassando os EUA e qualquer um dos países europeus. Do lado do país sul-americano, há um excedente comercial, com as exportações a superarem as importações. Nos últimos anos, porém, o superavit comercial tem vindo a ser cada vez menor e Valdemar Carneiro Leão, embaixador brasileiro em Pequim, aponta que o futuro depende de vários factores, entre os quais a desaceleração do crescimento de Pequim.

Na África de língua portuguesa, Angola é o líder na parceria comercial com a China. As relações entre os dois países iniciaram-se no âmbito de um empréstimo chinês para apoiar a reconstrução do país, o que se traduziu numa oportunidade para que o país lusófono conseguisse colocar alguns dos seus produtos no Oriente. Aos poucos, as trocas comerciais entre os dois Estados aumentaram, com Angola a recuperar algum peso, dado o interesse chinês pelo petróleo. “Hoje, além do petróleo, há outros produtos angolanos na República Popular da China”, afirma o embaixador de Angola, acrescentando que há ainda espaço para o comércio de outro tipo de bens angolanos, como o ananás, o abacaxi, o abacate e o café.

O financiamento chinês em Angola tem sido bastante elevado. “Se hoje temos três linhas de comboio a funcionar, é sobretudo graças ao financiamento chinês e aos seus técnicos”, declara. E o mesmo se pode dizer em relação às estradas. Para o futuro, o diplomata acredita existirem ainda mais oportunidades de investimento. “Temos de pensar no sector mineiro, agro-pecuário, agricultura e construção civil”, enumera.

O terceiro parceiro comercial do gigante asiático é Portugal, apesar da quebra das trocas comerciais este ano. Dados oficiais indicam que nos primeiros seis meses de 2013, o comércio entre os dois países desceu 7,39 por cento. Entre os principais produtos que Portugal importa encontram-se os têxteis, sapatos, tecidos, plásticos, equipamento acústico, materiais de ferro, cerâmicas e equipamentos de luz. Já as vendas à China traduzem-se em condensadores eléctricos e acessórios, plásticos primários, papel, medicamentos, têxteis e vinho.

 

O início da reconstrução

As trocas comerciais entre Moçambique e a China começaram através do apoio chinês “à luta pela libertação”, afirma António Inácio Júnior. Aos poucos, a China tornou-se um dos principais parceiros comerciais do país lusófono, apesar do excedente de que goza. O comércio entre ambos atinge valores superiores a mil milhões de dólares, com as exportações da China a alcançarem em 2011 os 177.160 dólares e as importações 248.307 dólares. O investimento sino no país africano tem ocorrido sobretudo ao nível das infra-estruturas, com a construção de grandes edifícios públicos, estradas e linhas férreas.

A China é também o principal parceiro comercial da Guiné-Bissau desde 1974, altura em que começou a investir timidamente no país. Nos últimos tempos, tal como nos restantes Estados africanos, está a financiar infra-estruturas básicas e construção pública. “Infelizmente, a Guiné-Bissau não tem empresários capazes de fazer o mesmo na China”, afirma o embaixador em Pequim Malam Sambu. Para os próximos dez anos, o diplomata espera que a relação cresça. “O nosso país tem muitos recursos humanos, diamantes, ouro, petróleo, que são interessantes para a China.” Por isso, espera ver mais exportações destes e de outros produtos, como a madeira ou a noz, enquanto a Guiné-Bissau deverá continuar a importar produtos essenciais, além de mobília, roupas, arroz, bicicletas e geradores.

Por outro lado, o comércio entre a China e Timor Leste é algo diferente do que ocorre noutros países. “Quase 70 por cento das nossas instituições foram destruídas e o nosso país não tem indústria, por isso dependemos da importação de comodidades”, explica a embaixadora de Timor Leste na China, Vicky Tchong. O comércio com a China tem vindo a desenvolver-se gradualmente desde 2002 e hoje o país asiático é o quinto parceiro comercial de Timor. Da China chegam sobretudo materiais de construção e produtos básicos.

Já com Cabo Verde, a história da cooperação começa com investimentos de pequenos empresários. Em 1999, firmou-se um acordo de cooperação económica e comercial e, desde então, o gigante asiático tem financiado infra-estruturas do arquipélago. A cooperação tem assumido também outras formas, através da execução de projectos, formação a curto prazo, assistência médica, cooperação técnica e ajuda humanitária.

 

Visão alargada

Na última década, o Fórum Macau tem servido como mediador, mas para os próximos anos os diplomatas acreditam que deverá mudar de estratégia. O embaixador angolano, por exemplo, afirma o organismo deveria centrar-se na formação de quadros, já que, dada a comunhão linguística, seria mais fácil se Macau assumisse esse papel.

O embaixador moçambicano acredita que os próximos anos deveriam servir para consolidar os primeiros passos dados. Assim, agora é altura de promover parcerias entre as empresas chineses e dos países lusófonos, ajudando no campo dos investimentos recíprocos e formação de quadros. Além disso, acredita o diplomata de Moçambique, para que a China entre mais facilmente e com vantagens mútuas nos mercados africanos, o Fórum deveria passar a promover a “internacionalização das empresas chinesas” que se encontram já nos países lusófonos. António Inácio Júnior sugere ainda que seja criado um gabinete de investigação para analisar a evolução das trocas comerciais e os mercados prioritários.

Já Malam Sambu, da Guiné-Bissau, gostaria de ver no futuro delegados do Fórum a deslocarem-se com maior frequência a Pequim para uma troca de ideias com os representantes dos países lusófonos. E, tal como os seus congéneres, acredita que o Fórum pode agora ter um “papel mais activo” na formação dos recursos humanos, de maneira mais organizada. “Gostaria de ver uma calendarização dos cursos”, sugere.

A investigadora da Universidade de Coimbra Carmen Amado Mendes aponta que para ser “mais eficaz”, o Fórum pode melhorar a coordenação com os diferentes ministérios ou instituições, bem como ser mais acessível aos investidores.

 

A continuidade

O secretário-geral do Secretariado Permanente do Fórum de Macau, Chang Hexi, explica que os próximos anos serão de continuidade, com a instituição a consolidar a “mesma estratégia” que tem vindo a usar. Entre as principais metas alcançadas na última década, o secretário destaca os encontros anuais de empresários da China e dos países lusófonos, as conferências ministeriais, além das visitas ao Interior da China e os contactos efectuados com empresários locais. Depois de tal trabalho desenvolvido, o secretário acredita que é agora tempo de “inovar e reforçar as actividades no âmbito empresarial e diversificar os meios de promoção da cooperação”.

Rita Santos, secretária-geral adjunta do Secretariado, afirma que a instituição irá continuar a fazer crescer o número de pessoas falantes de português e a estabelecer acordos de cooperação entre universidades e institutos de Portugal e Macau em sectores como a administração e a gestão de recursos humanos, promoção e marketing, bem como a aumentar o número de empresas lusófonas na RAEM.

 

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