Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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A Religião Popular

 

 

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Texto Fernando Sales Lopes*

 

A chamada religião popular chinesa, grosso modo, pode definir-se como a veneração das divindades enquadradas numa complexa hierarquia governada no seu topo pelo Imperador de Jade. São sujeitos nas crenças da religião popular: os espíritos dos míticos e lendários humanos; os espíritos deificados de guerreiros e heróis que habitam o mundo do sobrenatural; os espíritos da natureza não personalizados (reminiscências animistas); os espíritos demoníacos que vagueiam pela terra e pelo mundo subterrâneo, como os fantasmas de humanos perdidos (kuais,鬼) ou que desapareceram por acidente ou de forma violenta, antes da data marcada nos Registos Celestiais; e os antepassados.

 

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Hierarquia das divindades

 

O panteão da Religião Popular Chinesa consubstancia-se em duas ordens básicas. A primeira é composta pelas Divindades Celestiais – oriundas do Budismo, Taoismo e da própria religião popular – pelos heróis da mitologia e pelos primeiros criadores, inventores e descobridores. A segunda ordem engloba os cultos aos homens e mulheres deificados em consequência da sua vida como heróis, guerreiros e benfeitores (por estas qualidades eles são membros da burocracia celestial, e intercedem por aqueles que os veneram e lhes fazem oferendas); e os espíritos dos mortais que se revelaram como “Shen” depois de um milagre, sonho, premonição, ou bênção que lhes seja atribuída. As divindades da segunda ordem, de maior ou menor importância, homens ou mulheres, são, pois, todas aquelas que por razões diversas atingiram a designação de “Shen” (神). Todas as divindades têm as suas biografias, em regra épicas, e aos espíritos são atribuídas todas as necessidades, modos de estar e comportamentos humanos. Têm mulher, família, e alguns, também, concubinas; são corajosos, mas também vulneráveis; podem ter apetites extremos de comida e de bebida, de sexo e aventura, para além do gosto pelo álcool com que se podem iludir, como acontece com o Deus do Fogão (Chou Kuan, Zao Jun) (灶君) na sua viagem anual de entrega do relatório no Ano Novo Lunar. Mas também podem ser corrompidos e muitas vezes são pagos, com dinheiro (falso, claro), para mentirem ao Imperador de Jade, e assim proporcionarem uma ida para um lugar menos turbulento, em vez das profundezas demoníacas da terra.

 

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Os três pilares da religião popular

 

Todo o edifício da religião popular chinesa assenta em três pilares (três o necessário e suficiente para o equilíbrio), e nos seus ensinamentos se estrutura (os três ensinamentos 三教) a saber, no Budismo (Mahayana mas também no Tântrico), no Taoismo e, terceiro, nos rituais da vida e seus ciclos, nos pensamentos e reflexões de filósofos, cortesãos e letrados, que deixaram matéria escrita, principalmente depois de Confúcio. Acrescem a todo este conjunto de “ensinamentos” os rituais autóctones das diversas regiões do território chinês. Este cruzamento de fontes e práticas enraizadas na ancestralidade estruturou uma mescla de crenças, rituais e visões da vida e da morte (como parte da vida). Uma “religião” muitas vezes apontada por uns como um sincretismo englobando o Budismo o Taoismo e o Confucionismo, por outros apenas como um estranho e complicado conjunto de crendices e superstições, e por outros, ainda, como uma simples heterodoxia. Contudo ela engloba filosofias, crenças e práticas de uma riqueza e complexidade que transcende as classificações simplistas. A religião popular é uma “religião” da vida e dos ancestrais, que se pratica em casa ou fora dela (na rua, nos lugares sagrados, ou auspiciosos, em templos) nos cultos e rituais dos ciclos e suas transições, no apelo à protecção das divindades e ao seu culto, mas também nas práticas divinatórias. Para entendermos a sua importância para a “unidade nacional” recordemos os Ritos de Zhou2 virados já para a organização do Estado, e a sua leitura confucionista que os explica, os normaliza, e os “codifica” como uma verdadeira instituição do poder (o rito – a regra – a lei), e lembremo-nos que estamos nesse tempo no início da construção de uma China que se quer unificada, imperial, que necessita de algo que uniformize a vida das variadas gentes na crença, e nos comportamentos social e familiar, na relação com o Estado, e com os espíritos dos antepassados, onde se incluem as divindades ancestrais.

 

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Terra, Céu, e o mundo subterrâneo (inferno)

 

Na cosmogonia chinesa, o mundo é encarado como um organismo total e complexo, composto por três partes: céu, terra e as profundezas onde se encontra o Inferno. Embora a terra seja a parte do mundo dos vivos, o céu a parte dos deuses, e as profundezas dos espíritos, tal não significa uma arrumação cómoda e estática, já que o eterno movimento dos contrários na procura do equilíbrio pode a todo o momento transformar, ou alterar as suas posições. O céu e a terra vivem numa interligação constante, pois as transformações de um afectam sempre o outro. É para o céu que olha o agricultor quando cultiva a terra, e é da qualidade de ambas as partes o resultado benéfico, ou não, das suas colheitas. Assim as divindades da terra são veneradas em todos os lugares. O deus da terra, antes de ser um Tou Tei penate que cuida das famílias de um pequeno bairro, respondendo perante o Deus da Cidade, era efectivamente a divindade da terra, da ἀγρός (agrós), fonte da riqueza e sustento da vida dos homens. No céu por onde andam os espíritos bons e as divindades, a quem se sacrifica em troca de benesses, governa o Imperador de Jade, (玉皇;玉帝) ou Shang Di, ou, Huang Shang Di, que entre muitos outros nomes, para além destes, também é chamado de Tian, que significa o céu, ou Senhor do Céu. Seres vivos ou materiais inertes, comportamentos, emoções, deuses ou diabos, espíritos bons ou maus, todos nascem da mesma energia vital, dessa força primordial a que se chamou de qi (气).A sua dualidade que é o motor do movimento e da sua eterna mutação encontra-se no yin (elemento feminino) e no yang (elemento masculino) e no yin-yang  (陰陽,阴阳) qualquer que seja o comportamento, característica ou qualidade, a sua origem, estádio ou entidade, pode ser compreendido explicado e alterado. E só o equilíbrio balanceado entre os dois elementos pode trazer felicidade, saúde, harmonia, paz. Enfim, todo o infinito de desejos, desde o governo dos homens, ao comportamento do espírito, à espiritualidade, ou à “vida” dos espíritos. Por isso, nesta mundividência não se podem separar os deuses dos homens, ou os espíritos bons dos maus, todos são criados pela força vital do qi, e todos podem ser tudo.

 

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As divindades festejadas em Macau

 

Todas ou quase todas as divindades do panteão da religião popular são festejadas em Macau, contudo algumas delas têm maior relevo e esplendor, pela sua importância na própria estrutura do panteão, ou na maior fé que nelas se deposita, por vezes relacionada com a importação por comunidades que ao longo dos séculos afluíram a Macau e aqui se fixaram. Debruçar-nos-emos sobre essas relações em pormenor quando tratarmos destes eventos. Os grandes momentos lúdicos são aqueles que comemoram os aniversários dessas divindades (regidos pelo calendário lunar chinês) que começam sempre dias antes com espectáculos de ópera em sua honra, dádivas (sacrifícios) queima de pivetes e panchões, práticas divinatórias e banquetes, com uma especial atenção para com os idosos. Será interessante salientar que todos estes festejos, pelo menos em Macau, se realizam com a participação pecuniária de vizinhos, do mais necessitado ao mais abastado, comerciantes e crentes, que com as suas dádivas – devidamente inscritas em caracteres bem visíveis e publicitadas no local das festividades – permitem a sua continuidade, e afirmam o sentido de pertença.

 

O Taoismo e a religião popular

 

O Taoismo nasce como uma filosofia. Tem-se por seu fundador Lao-Tsé, ou Laozi (老子), o “Velho Mestre” que terá sido o autor de uma das mais importantes obras do Taoismo, o Tao Te Ching (道德經) – à letra, o Clássico do Tao e do Te. Não se sabe ao certo quando nasceu – pois são muitas as versões em redor desta questão, desde o ter sido contemporâneo de Confúcio (孔子, 孔夫子) ou até ao ter vivido no período dos reinos combatentes (戰國時代, 战国时代) de meados do século V a.C. até à unificação da China em 221 a.C. e, ainda, os que defendem ser o Tao Te Ching um livro da dinastia Han, pese embora ser considerado uma compilação de textos muito antigos. Aceita-se, contudo que terá sido no séc. VI a.C. que viu a luz do dia, e que terá exercido as funções de conservador dos arquivos imperiais na decadente dinastia Zhou. O que se sabe do Velho Mestre, já que sobre a sua vida ele não escreveu, foi contado por outros, nomeadamente Zhuangzi ou  Zhuang Tze (庄子, 莊子) grande filósofo taoista (369 – 286 a.C.) na sua obra. O Mestre Zhuang, assim significa o seu nome desempenhou um papel fulcral no desenvolvimento e reflexão da filosofia taoista, deixando em livro as suas reflexões nos diálogos com os discípulos. Embora o conceito Yin-Yang seja conhecido antes do Taoismo – já o Confucionismo o tinha operacionalizado – a verdade é que será no interior desta filosofia que a sua importância se torna nuclear pois nela se consubstancia o equilíbrio dos contrários, tão presente no Taoismo em todas as suas expressões. Por isso a imagem caracterizadora do Yin-Yang surge normalmente como sua identificadora. O Taoismo, uma filosofia pura, viria a ser transformado numa religião, e o Velho Mestre deificado e colocado no topo da hierarquia da nascente religião. Esta surge séculos depois do desaparecimento de Lao-tsé, podemos dizer que à revelia dos seus ensinamentos. A reflexão sobre o ser, a existência, o caminho, a moral, viria a dar lugar na componente religiosa a um complexo doutrinal ligado ao ritual e à superstição, sendo criado um panteão de divindades com o Velho Mestre no topo. Clarifique-se contudo que o Taoismo como filosofia e o Taoismo como religião são distintas e diferentes continuando até aos nossos dias uma como filosofia, e a outra como uma religião per si, ou integrada na mescla da religião popular. A importância do Taoismo na estruturação da “doutrina” da religião popular chinesa é enorme, dando-lhe um enquadramento temporal, na génese das divindades (ver caixa A Deificação dos Deuses), seus feitos, e ligações aos princípios fundamenais do heroísmo, dignidade fidelidade. Também a componente divinatória, transcendente e ritualista são um dos seus contributos visíveis. A componente taoística, ou dos seus princípios e práticas na religião popular são inúmeros havendo estudiosos que a consideram como sendo a “religião do taoismo tradicional”. Contudo teremos que ter em conta que a presença notória do Taoismo, mas também do Budismo e do Confucionismo não significam a perda de autonomia destas filosofias e religiões, que coexistem nas suas variadas escolas.

 

Macau e a religião popular

 

O Sul da China é por assim dizer a pátria do Taoismo, e embora disseminado por todo o espaço chinês, é bem notória a sua presença nesta zona, não só no desenvolvimento do pensamento filosófico, como no dos diversos ramos do Taoismo religioso, que é o que aqui nos interessa analisar. Essa presença revela-se para além da conservação da cultura e práticas taoistas, na coexistência de diversas tendências, e na conservação de elementos já desconhecidos no Interior da China, ou na riqueza de um fusão enriquecedora em termos de um cultura a conservar e para o qual Macau tem contribuído desde sempre (ver caixa Música Ritual Taoista). Macau desempenha um papel único na preservação da cultura chinesa, principalmente da religião popular, tradições, e conhecimento das práticas da ligação com divindades e antepassados, seu modus operandi, e os seus significados. No Interior da China, os ventos da História ao longo dos séculos fizeram com que as práticas religiosas populares sofressem graves golpes quanto à sua conservação e permanência, quer por proibições e desencorajamento da sua prática, ou pura e simplesmente apagadas da vivência quotidiana da população. Se é certo que a Revolução Cultural foi um tempo por todos reconhecido como trágico para a cultura popular (destruição de templos e mosteiros, e eliminação de práticas apontadas como feudais e supersticiosas), na verdade muito antes – da China, dos imperadores à República – muitos foram os atentados à preservação das práticas populares. Práticas, por exemplo, como as oferendas aos deuses ou aos antepassados, os papéis votivos, a sua queima, e a própria comemoração com cor, festa e estrondo, em nome do combate à crença e à superstição perderam o seu esplendor e fizeram esquecer significados e simbolismos. De assinalar que muitas das tradições em alguns lugares mais remotos não sofreram completa erosão, e que as comunidades chinesas ultramarinas ou emigrantes também não deixaram desaparecer o conhecimento, contudo não será menos certo que a pureza acabou por ser maculada pela distância que levou à reinvenção e mesmo à adaptação às culturas das terras de acolhimento. Contudo em Macau foi diferente, as crenças e a cultura populares não sofreram quaisquer formas de descriminação pelo que se conservaram até aos dias de hoje. Embora os entendidos se refiram apenas a Hong Kong como o local da preservação desses tesouros tal, pensamos, deve-se ao facto da historiografia dominante ser em língua inglesa, o que a torna universal, e à falta de divulgação da verdadeira importância desta terra ao longo dos séculos, que foi, nos últimos quase quinhentos anos, sem sobressaltos, o garante da permanência da rica cultura popular chinesa, notório na antiguidade dos seus lugares de devoção (templos, mosteiros e nichos, alguns consagrados Património Mundial) no culto das diversas divindades que aqui têm os seus seguidores e continuam a ser celebradas, como outras já esquecidas fora de Macau, como é o caso Dragão Embriagado, hoje reconhecido como Património Intangível da China. China que depois da política de abertura, mais concretamente durante os finais dos anos 80 e 90, começou a recuperar a cultura popular chinesa como pertença do povo e da cultura nacional, e que em Macau tem a reserva de tudo aquilo que aqui foi conservado como um verdadeiro tesouro.

 

Corte Celestial e Corte Imperial

 

Não há dúvida que as semelhanças entre a corte divina do panteão da religião popular chinesa, e a estrutura palaciana e administrativa da corte imperial são evidentes, nomeadamente nos títulos profissionais de algumas divindades, (generais, magistrados, letrados, funcionários superiores, entre outros da burocracia imperial) e no vestuário mandarínico, cortesão e militar. Também os locais onde nos templos se expõem as suas imagens, se denominam de palácios. Muitas das relações entre os crentes e as divindades, principalmente as que se observam através do papel caligrafado, usam, também elas, normas e linguagem dos peticionários imperiais. Nas festividades, quer em representações de óperas, quer nas procissões da imagem da divindade, é notório o desenvolvimento de temas épicos e cortesãos, nas primeiras, e a exibição de artes marciais, e longos cortejos etnográficos com figuras populares mas também com soldados imperiais, para além de dragões e leões que em danças, saúdam a divindade e limpam o espaço das más influências, nas segundas. Há quem defenda o contrário afirmando que a hierarquia do poder, essa sim, se baseia na hierarquia do panteão da religião popular chinesa. Esta, embora de difícil demonstração, é ainda uma hipótese em aberto.

 

A Deificação dos Deuses 

 

Fengshen Yanyi (封神演義, 封神演义),a Investidura dos deuses é o nome de um dos maiores romances da Dinastia Ming (1368-1644) que numa centena de contos supostamente narrados pelo rei Wu de Zhou, descrevem a queda da dinastia Shang (1600-1046 a.C.) e a ascensão da Zhou (1046-256 a.C). Trata-se de uma novela épica do séc. XVI, de autor incerto já que é atribuída tanto a Xu Zhonglin (許仲琳, 许仲琳) como a Lu Xixing (陸西, 陆西星). O épico texto narra a história do impiedoso imperador Zhou de Shang, numa constante aventura onde se entrecruzam heróis taoistas, representados por estranhas figuras antropomórficas ou de grotescos animais, e objectos, com espíritos malévolos. Tudo se envolve numa guerra entre o bem e o mal. Di Xin (outro nome por que é conhecido Zhou de Shang) encantado pela sua concubina mata ministros e conselheiros fiéis, protagonizando macabras cenas de violência, tentando destruir os próprios filhos. Daji, a concubina que afinal era um espírito de raposa, como se descobre no fim do romance, será exorcizada pelo rei Wu de Zhou que funda esta dinastia. Mas o motu contínuo que leva ao equilíbrio dos contrários também justifica o facto de nesta luta heróica não haver vencidos nem vencedores. Todos são heróis de um dos lados e do outro, por isso todos os que morreram são elevadas aos céus e deificados. É nesta grande aventura que surgem grande parte das divindades da religião popular, com as suas histórias e desempenhos, actos heróicos e fantásticos, que as elevam ao patamar da deidade.

 

Música Ritual Taoista de Macau Património intangível

 

Em 2011 a “Música Ritual Taoista” de Macau, que acompanha os ritos de oferenda taoistas, foi integrada na Lista Nacional do Património Imaterial da China. As características únicas deste tipo de música em Macau devem-se às próprias características da terra como local de cruzamento de gentes que vão deixando marcas das suas culturas resultando para Macau numa mais-valia em campos diversos. Juntando-se às diversas anteriores vagas migratórias, muitos taoistas vindos do interior da China instalaram-se em Macau. Ligados à Escola de Quanzhen e à Tradição Zhengyi (Huoju) introduziram localmente estas variedades regionais da Música Ritual Taoista do Guangdong, que vieram, juntar-se às influências anteriores convivendo em harmonia com os diversos géneros. Ao longo de dois séculos foi-se criando um estilo próprio como resultado das influências diversas, o que resultou num reportório – único no mundo – resultante, essencialmente da combinação daqueles dois géneros, com mais de meio milhar de canções preservadas.

 

*Historiador, Mestre em Relações Interculturais

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