Filmes de Macau e Portugal premiados na estreia

O filme São Jorge do português Marco Martins venceu as categorias de melhor realizador e melhor actor no Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios – Macau. A produção local entrou também para a história desta primeira edição do festival com a obra da cineasta de Macau Tracy Choi a vencer o prémio do público. O evento “teve uma boa reacção da indústria internacional”, realçou a organização do evento.

 

 

O filme português São Jorge, que teve estreia asiática em Macau, arrebatou duas das principais categorias do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios – Macau (IFFAM, na sigla inglesa). O protagonista Nuno Lopes e o realizador Marco Martins foram premiados com as estatuetas para melhor actor e melhor realizador.

Nuno Lopes, na altura em Lisboa, agradeceu o galardão através de um vídeo. “É uma honra para mim”, disse o actor, que já tinha vencido o Prémio Especial de Melhor Actor na secção “Orizzonti” do Festival Internacional de Cinema de Veneza com este mesmo filme. “Quero dedicar este prémio ao meu melhor amigo e o melhor realizador que alguém pode ter, Marco Martins”, realçou o actor português de 38 anos.

Já Marco Martins referiu a dificuldade de fazer o filme, relembrando que levou cinco anos a concluí-lo. “Foi um filme difícil de fazer num período da nossa história recente em que a cultura parece não ter qualquer importância no nosso país”, vincou, deixando ainda um agradecimento aos residentes do bairro da Jamaica, no Seixal, e do bairro da Bela Vista, em Setúbal, que foram retratados na película.

 

 

São Jorge conta a história de um homem desempregado que começa a trabalhar em cobranças de dívidas de forma a sustentar a família. Sobre a obra, o realizador e produtor indiano Shekhar Kapur, que presidiu ao painel de júris, disse: “Quando comecei a ver o filme, olhei e pensei: ele [Nuno Lopes] não está a fazer nada. Porque é que ele não está a fazer nada? O que é que se está a passar? E depois, de forma muito gradual, ele agarrou-me e eu vi as pequenas nuances, e nessas pequenas nuances ele deu-me uma abertura para a sua mente, ele abriu o seu coração e a sua alma”.

Kapur destacou ainda a “interpretação muito difícil” do jovem actor. “É muito difícil para um actor ficar apenas quieto e nessa quietude mostrar o interior da sua mente e da sua alma e das suas emoções, e, através das suas emoções e da sua alma, expor o mundo.”

 

Sisterhood de Macau conquista público

Uma das grandes revelações do festival foi Jennifer Yu, que arrecadou o galardão de melhor jovem actriz. Yu deu vida a uma das personagens de

Sisterhood, primeira longa-metragem da cineasta local Tracy Choi, que conquistou o prémio do público. Sisterhood é uma co-produção de Macau e Hong Kong e conta a história de amor entre duas massagistas e amigas. “Estou muito, muito feliz, este prémio é um grande incentivo”, reagiu Tracy Choi na entrega da estatueta.

O filme argentino The Winter de Emiliano Torres foi consagrado a melhor obra em competição; Lyndsey Marsal foi distinguida como melhor actriz pelo papel desempenhado no filme de Adam Smith Trespass Against Us, e Free Fire do Reino Unido apresentou o melhor argumento. A representar o Brasil esteve Elon não acredita na morte, do realizador brasileiro Ricardo Alves Júnior, que ganhou o prémio de melhor contribuição técnica. Já o “Premio do júri” foi para Trespass Against Us.

 

 

Além dos premiados, destaque ainda para Polina, danser sa vie, filme francês realizado por Valérie Müller e Angelin Preljocaj, com Juliette Binoche no elenco, que teve estreia asiática em Macau e abriu este festival.

O programa do IFFAM contemplou iniciativas paralelas como a Crouching Tigers Project Lab, com encontros e workshops destinados a profissionais da sétima arte em busca de oportunidades de co-produção e co-financiamento para projectos cinematográficos.

João Pedro Rodrigues e João Guerra da Mata ganharam um financiamento de dez mil dólares para o projecto da longa-metragem San Ma Lo 270.

 

 

“Confiança para as edições futuras”

A directora do IFFAM, Maria Helena de Senna Fernandes, considerou que a primeira edição do festival não foi a “ideal”, mas tratou-se de uma “tentativa positiva”.

“Acho que ainda há coisas que podemos fazer melhor, mas sendo uma primeira edição, tivemos uma boa reacção da indústria internacional, o que nos dá confiança para edições futuras”, apontou.

A responsável realçou a qualidade “muito alta” dos filmes e uma selecção para “diferentes gostos”, lamentando, porém, a fraca adesão do público. “Temos de melhorar para atrair mais gente para ir ao cinema. A dispersão das salas de cinema é um facto [que temos] realmente de ultrapassar”.

Maria Helena de Senna Fernandes não desvendou detalhes para o futuro do evento, que também ficou marcado pela demissão do director artístico Marco Müller três semanas antes do festival começar: “Para o ano temos de pensar em quem é que vai ser o director artístico e saber como vamos organizar”, notou a responsável.

O Festival Internacional de Cinema de Macau foi organizado pela Direcção dos Serviços de Turismo de Macau e pela Associação de Cultura e Produções de Filmes e Televisão de Macau, contando com um orçamento de 55 milhões de patacas.

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Prémios

Melhor Filme

The Winter de Emiliano Torres (Argentina)

 

Melhor actor

Nuno Lopes, São Jorge (Portugal)

 

Melhor actriz

Lyndsey Marsal, Trespass Against Us (Reino Unido)

 

Melhor jovem actriz

Jennifer Yu , Sisterhood (Macau)

 

Melhor realizador

Marco Martins, São Jorge (Portugal)

 

Melhor argumento

Free Fire de Ben Wheatley (Reino Unido)

 

Melhor contribuição técnica

Elon não acredita na morte de Ricardo Alves Júnior (Brasil)

 

Prémio do público

Sisterhood de Tracy Choi (Macau)

 

Prémio do júri

Trespass Against Us de Adam Smith (Reino Unido)