Macaenses na sala de aula para aprenderem o crioulo dos avós

Vários macaenses marcaram presença na primeira aula de patuá, crioulo de base portuguesa de Macau, na Universidade de São José (USJ), na esperança de aprenderem mais sobre a história e a língua falada pelos seus avós.

 

Texto Inês Santinhos Gonçalves | Fotos Carmo Correia, da agência Lusa

 

As aulas de patuá são um projecto antigo do linguista Alan Baxter, antigo director do Departamento de Português da Universidade de Macau (2007 – 2011) e especialista em crioulos de base portuguesa, que no ano passado regressou a Macau para dirigir a Faculdade de Humanidades da USJ. “É importante [organizar estas aulas] porque não se fazem noutra instituição e acho importante a comunidade conhecer mais a realidade da sua língua tradicional, saber mais sobre a história, também sobre o funcionamento da língua, quais são as palavras que a integram e como é a gramática da língua”, explicou, indicando que “não são precisamente aulas de patuá”, mas “um curso sobre a escrita em patuá”, em que se vão ler textos em patuá dos séculos XIX e XX.

No entanto, “é bem provável que alguns [alunos] saiam falando alguma coisa”, já que vão ser lidas e representadas peças de teatro nas fases finais.

O patuá, derivado do crioulo ‘kristang’ de Malaca e que incorpora português e chinês, foi em tempos língua corrente da comunidade macaense, mas acabou por cair em desuso. Hoje, o dialecto é preservado essencialmente através do grupo de teatro Dóci Papiaçam di Macau, que encena uma peça por ano maioritariamente falada no crioulo.

Baxter quis dar também um impulso ao organizar estas aulas, cujo primeiro módulo terá oito sessões.

O curso vai abranger diferentes épocas e géneros, incluindo versos, lengalengas, adivinhas, cartas “supostamente pessoais”, peças de teatro e “um pouco de um romance escrito por José dos Santos Ferreira”. “No século XIX temos por exemplo versos tradicionais que representam um patuá bem mais antigo. Depois temos algumas narrativas, alguns pasquins que têm um conteúdo socio-político interessante. Chegamos à virada do século XX e temos também textos de teatro (…) e gradualmente chegamos à época mais moderna, depois da II Guerra Mundial. Chegamos a ler e comentar material do escritor mais conhecido do patuá, José dos Santos Ferreira (Adé)”, resume.

Esclarecendo que o patuá “é um crioulo da grande família de crioulos da Ásia” – no início do século XX havia aproximadamente 20 variedades de crioulo de base portuguesa no continente –, Baxter sublinha a importância do seu ensino em Macau. “É uma parte intrínseca da cultura macaense, é uma peça fundamental da cultura deles”, salienta.

O curso que começou é aberto a todos, mas foi particularmente pensado para a comunidade macaense, e na primeira turma, de 16 alunos, muitos tinham efetivamente essa ligação familiar. “Como veem sou macaense. Tenho interesse pela estrutura frásica, gramatical do próprio crioulo. Tem que ver com as minhas raízes”, diz Elisa Monteiro, que se inscreveu com o irmão Adriano Gaspar, ambos com fisionomia típica macaense, que mistura traços portugueses e chineses.

Elisa não fala patuá, mas lembra-se de algumas “expressões mais engraçadas” da avó paterna. “Acho que é importante porque no fundo somos macaenses e faz parte da nossa identidade”, explica.

Adriano concorda: “É sempre bom conhecermos as nossas raízes e o patuá faz parte da nossa cultura, é uma grande oportunidade de aprender sobre as nossas raízes”.

O jovem não acredita que o crioulo macaense possa voltar a ser falado correntemente, mas acha que pode ser “reutilizado de outras formas, por exemplo pelo teatro dos Dóci Papiaçam di Macau”. “Temos os poemas e algumas músicas, pela arte pode-se reinventar o patuá”, diz.

Motivos semelhantes levaram Angela a inscrever-se nas aulas, até porque pertence ao grupo de teatro. “Faz parte da nossa cultura, é um dialecto falado na geração mais velha, a nossa geração não conhece assim tão bem. Acho essencial para a nova geração manter esse dialecto”, explica.

A jovem, que veio com a amiga Mariana, usa algumas expressões “mais por brincadeira” como “Filo di quim?”, uma pergunta que os macaenses mais velhos fazem quando conhecem alguém “para saber se conhecem os meus pais”.

Mariana concorda e exemplifica com a expressão “ui di comizaina, comizaina” (muita comida). “Quando dizemos alguma coisa que as pessoas possam entender e não queremos, mandamos uma boca [em patuá]”, graceja.

2017-02-23
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