Festival Literário de Macau | Letras de outros mundos

Deixou de ser um festival exclusivamente centrado na China e nos países de língua portuguesa para dar lugar a muitas outras geografias. Mais global do que nunca, a 6.ª edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, juntou este ano mais de 70 convidados de cerca de 20 países e regiões. Temas da actualidade, como a crise dos refugiados e a migração, estiveram em destaque.

© Eduardo Martins/Festival Literário de Macau

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Eduardo Martins/Festival Literário de Macau e Gonçalo Lobo Pinheiro

 

“Gostamos mais do festival assim do que gostávamos de vê-lo antes e penso que as pessoas também”, começa por dizer Hélder Beja, director de programação do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Passam poucos minutos das 11 da manhã, sentamo-nos num café a poucos minutos do edifício do Antigo Tribunal, casa-mãe do evento literário.

O festival, organizado desde 2012 pelo jornal de língua portuguesa Ponto Final, é hoje mais internacional do que nunca. Nesta edição de 2017, Macau olhou um pouco para todo o mundo: Singapura, Canadá, Irão, Suíça, Estados Unidos, Turquia, Irlanda e Índia são apenas alguns dos 20 países que estiveram representados por 70 convidados entre 4 e 19 de Março em Macau. “Era um festival puramente centrado no encontro entre as línguas chinesa e portuguesa e isso mudou há dois anos”, nota Hélder Beja.

 

© Gonçalo Lobo Pinheiro

 

O programa de 235 páginas desta sexta edição, com capa desenhada pelo artista local Eric Fok, é prova disso mesmo: entre os convidados estiveram dois dos finalistas do Man Booker Prize de 2016, a canadiana Madeleine Thien e o escocês Graeme Macrae Burnet; também os franceses Philippe Graton e Clément Baloup, homens da banda desenhada, que esteve representada pela primeira vez neste festival.

A tradução literária, a escrita biográfica, a literatura de viagem e a ficção chinesa contemporânea foram alguns dos temas em discussão no festival, que este ano também se debruçou sobre a actualidade, com debates sobre a crise dos refugiados, o terrorismo e a migração. Alguns exemplos: a realizadora Clara Law, natural de Macau e a viver na Austrália, apresentou Letters to Ali, a história de um rapaz afegão que procura asilo político na Austrália; de Portugal foi convidado o repórter José Manuel Rosendo, que cobriu ao longo de vários anos os conflitos no Médio Oriente e que em Macau participou na sessão “Europa, Refugiados e Terrorismo Islâmico”.

 

© Eduardo Martins/Festival Literário de Macau

 

O festival organizou ainda cerca de 30 sessões em escolas oficiais e privadas. “O Rota das Escolas é a parte mais importante do Festival Literário de Macau”, considera o director de programação. “Os miúdos são de facto impressionantes e as sessões acabam sempre com uma partilha incrível entre os autores e os jovens.”

O festival literário deu início este ano também ao Programa de Escritores em Residência, uma ideia já antiga e que resultou nesta edição de uma parceria com o Departamento de Inglês da Universidade de Macau. Grace Chia, autora de Singapura, foi a primeira convidada a integrar o projecto. “Tem uma série de actividades com os alunos, uma master class, um workshop, uma sessão de leituras e, ao mesmo tempo, tem o resto do tempo livre para escrever e trabalhar nos seus projectos”, explica Hélder Beja.

E que impacto tem tido o festival entre a população de Macau? O responsável considera que a forte adesão ao Concurso de Contos, que já vai na quinta edição, reflecte um crescente interesse pela escrita. “No que toca à comunidade chinesa, há muitas pessoas a escrever para o concurso de contos, até mais do que falantes de língua portuguesa de Macau, porque a maior parte dos contos em língua portuguesa vem do Brasil e de Portugal”.

© Eduardo Martins/Festival Literário de Macau

 

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Encontro entre dois mundos

O Rota das Letras continua a ser um palco privilegiado de encontro entre a China e os países de língua portuguesa. Yu Hua, presente nesta edição, é um dos nomes mais traduzidos da literatura contemporânea chinesa e autor das obras como To Live e China in Ten Words. Do Interior da China, destaque ainda para a presença de Qin Wenjun, escritora de literatura infantil, e dos poetas Ouyang Jianghe e Wang Jianxin.

No universo de língua portuguesa, a sexta edição do evento ficou marcada pelo regresso do jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos e pela presença de autores como Pedro Mexia, Bruno Vieira Amaral e João Morgado. A literatura de Cabo Verde fez-se representar pelo escritor e ministro da Cultura e das Indústrias Criativas Abraão Vicente; do Brasil veio Natália Borges Polesso, vencedora do prémio Jabuti; da Guiné-Bissau, Abdulai Silá, autor de Eterna Paixão; e a escritora e activista cultural Deusa d’África deu voz a Moçambique.

Em representação de Macau, estiveram autores portugueses e chineses. Carlos Morais José, José Manuel Simões e Inocência Mata juntaram-se a Lawrence Lei, Rai Mutsu e Eric Chow neste grupo de escritores locais.

 

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Alexis Tam: “Hino à integração, diálogo e intercâmbio cultural”

O contacto entre as escolas e os autores é, segundo o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura da RAEM, Alexis Tam, um dos “méritos indiscutíveis” do festival Rota das Letras, que tem tido a capacidade de “sair do edifício do Antigo Tribunal e chegar a várias instituições de ensino”, permitindo aos mais novos “uma experiência especial”.

À MACAU, Alexis Tam referiu ainda que o evento tem permitido reforçar o papel da região como centro de intercâmbio cultural entre a China e o universo lusófono e de promoção da língua e cultura portuguesas. “Vai de encontro à estratégia governativa de promoção da utilidade da língua portuguesa, quando a mesma se assume essencial ao desenvolvimento.” Por último, acrescenta Tam, o evento “é um reflexo da história de Macau na medida em que é um hino à integração, ao diálogo, ao intercâmbio cultural que acontece agora, como no passado, nesta pequena cidade do delta do Rio das Pérolas”.