Quinta-feira, Dezembro 3, 2020
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Ir ao Brasil para descobrir a origem de Macau

 

Texto João Paulo Meneses

 

“O nome Macau é uma corruptela da palavra chinesa A-ma-ngao, que significa ‘Abrigo ou Porto de A-má’, deusa dos navegantes, o que terminou em Amacau ou Macau. Na verdade, o nome é uma alusão à pequena cidade da China, possessão lusitana, que fica na província de Cantão e tinha uma imensa influência no comércio do Extremo-Oriente, num mundo onde Portugal tinha uma política de expansão desde o século XVI, sendo o município citado, uma província lusitana ultramarina”, pode ler-se no site da Prefeitura de Macau, município de 788 quilómetros quadrados e cerca de 31 mil habitantes, localizado no Estado do Rio Grande do Norte, e apresentado como “o único município do Brasil a possuir nome no idioma chinês”.

Além da desactualização histórica, há outra coisa que impressiona neste pequeno texto oficial: apesar de não haver documentos que o provem ou desmintam, é esta a versão que vinga junto das autoridades da cidade situada na foz do Rio Piranhas. Mas está longe de ser a única, como veremos.

 

 

Em todos os documentos oficiais, consta a informação de que Macau-RN (como é designada, numa alusão ao Estado a que pertence) nasceu sob inspiração da Macau situada no Sul da China. A bandeira do município, aliás, é a prova mais evidente disso mesmo, pelo que as outras versões que vão coexistindo sobre a origem do nome obrigariam a reescrever a história – o que em Macau-RN poucos parecem interessados em fazer. A jornalista local Regina Barros lamenta que “não haja nenhum investimento no resgate e preservação da memória local”.

Apesar da história da Macau brasileira ter apenas cerca de 200 anos, não existem ou não foram descobertos até agora documentos que suportem qualquer uma das possibilidades. É aliás uma história cheia de lacunas por preencher. Os descendentes dos fundadores e os pescadores que aí viviam foram obrigados a procurar outro destino, que acabou por ser a Ilha de Macau. Mas sobre a ilha original sabe-se também pouco, como mostra um livro publicado este ano, Ilha de Manoel Gonçalves: vida e morte. João Felipe da Trindade investigou a origem da ilha, mas evitou meter-se na polémica do nome, como confessou à MACAU. “No livro, não discuto a questão do nome Macau. Não tenho maiores conhecimentos ou informações para defender uma ideia ou outra.”

 

 

Uma explicação que veio de Macau

É atribuído ao antropólogo e historiador Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) o primeiro esforço para compreender um nome que já “aparece em documentos do século XVIII”, mais concretamente 1797, segundo Cascudo, num texto intitulado “O município de nome chinês”.

Aí Cascudo conta que escreveu a D. José da Costa Nunes (1880-1976), bispo de Macau entre 1920 e 1953, para saber “o que quer dizer Macau” e que foi o “deão Manuel Patrício Mendes, vigário-geral e governador da Diocese,” quem lhe respondeu, explicando que “Macau é uma contracção de Ama-goa ou Ama-kao, valendo ‘porto de A-má’, ‘abrigo de A-má’,” e que “A-má é a deusa Neong-ma, protectora dos navegantes, dizendo-se comummente ‘Má’ ou ‘A-má’.” “Do Macau chinês, porto da deusa Má, senhora dos navegantes, nos veio da denominação para o nosso Macau salineiro e acolhedor”, conclui Luís da Câmara Cascudo, no que se veio a tornar a versão oficial sobre a origem do nome da cidade que vive essencialmente da indústria da extração do sal.

 

 

“A versão que liga o nosso topónimo ao topónimo chinês foi propagada pelo mestre Luís da Câmara Cascudo através da revista Bodas de Ouro da Ordenação Sacerdotal de Monsenhor Joaquim Honório da Silveira, de 1952, e no seu livro Nomes da Terra, de 1968,” conta o escritor Getúlio Moura Xavier.

Como se percebe, a fundamentação é pouco mais do que dedutiva. Existiam semelhanças geográficas entre as duas localidades (um istmo a separar a antiga ilha, habitada por pescadores), mas para que o porto do Sul da China tivesse inspirado a denominação no Norte do Brasil seria necessário que algum dos fundadores de Macau-RN tivesse estado em Macau. E disso não há provas. Sabe-se que no grupo inicial estavam os portugueses Martins Ferreira e seus genros Antônio Joaquim de Souza, Manoel Antônio Fernandes, José Joaquim Fernandes, Manoel Fernandes e o brasileiro João Garcia Valadão, o João da Hora, mas não há registo de que qualquer um deles tenha viajado para Oriente.

Ainda assim, o médico e historiador Amaury Bezerra escreveu que “como a maioria dos primeiros habitantes da região era de origem portuguesa e muitos tiveram passagem por Macau, viram certa semelhança geográfica entre as regiões e assim baptizaram a localidade”.

 

 

Araras ou influência francesa?

O historiador Olavo de Medeiros Filho (1934) terá sido o primeiro a contestar a versão de Cascudo, em 2003. Mas o antigo director do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte acabou por não desenvolver a ideia de que Macau-RN se inspirou na arara vermelha, conhecida como Macao.

A tese teve acolhimento no livro Um Rio Grande e Macau (2005), do macauense Getúlio Moura Xavier. “Sem querer provocar polémica ou muito menos desmerecer a grandeza do professor Câmara Cascudo, considero como mais acertado os vestígios históricos da arara vermelha no vale do rio Açu, que tem o nome científico ‘Ara macao’, assim identificada pelos jesuítas. Os ingleses trocaram apenas ‘o’ por ‘w’ para chamá-la ‘macaw’. Luís da Câmara Cascudo aventou a ligação, mas não informou a existência de evidências históricas, de semelhanças geográficas ou de qualquer ordem que possibilitassem fazer a ligação do nosso topónimo ao nome chinês, em sua origem”, afirma Xavier.

 

 

No seu blogue “Baú de Macau”, Getúlio Moura Xavier junta uma citação de um livro português de 1584 (Do Clima e Terra do Brasil) em que se diz: “Este Macao he muito hermoso, he todo preto e este preto espargido de uerde que lhe dá muita graça”. As araras vermelhas habitariam a região do Vale do Açu e eram chamadas, pelos indígenas, de “Macaw.” Este autor tem usado o mapa-múndi de Cantino, de 1502 (Biblioteca Estense, Modena, Itália), onde “figuram três araras macau no nordeste das terras do futuro Brasil, onde as naus europeias chegaram, entre o final do século XV e início do século XVI”, de forma a reforçar a tese.

Daí que Getúlio considere que “há 40 anos, as autoridades da Macau brasileira desfilaram pelas suas ruas exibindo o brasão da Macau chinesa como se fosse seu, uma situação lastimável e até deprimente aos olhos de hoje. Este brasão ampliado num painel, utilizado no referido desfile, encontra-se no museu da cidade salineira”. O escritor constata ainda que “na bandeira da Macau brasileira consta a expressão ‘A-Ma-Ngao’, do antigo povoado chinês, adoptada pela cidade brasileira por desconhecimento de outra versão que definisse o seu topónimo, além da versão de Câmara Cascudo, sem uma pesquisa mais acurada, nem antes nem depois de 1975, até o lançamento do livro Um Rio Grande e Macau, em 2005”.

 

 

Mais recentemente, em 2012, surgiu uma terceira hipótese, desta vez relacionada com uma localidade francesa, que também se designa Macau, situada a 30 quilómetros de Bordéus. A tese ainda não foi estudada suficientemente, mas aponta-se a semelhança geográfica com a Macau francesa e a etimologia das palavras que lhe terão dado origem: malum cavum (lugar perigoso) ter-se-ia contraído com macallus (fossa), o que resultaria num lugar de difícil navegação, devido aos bancos de areia e correntes fortes, junto ao rio Garona. Fátima Paulet, uma macauense que vive em França, tem sido a principal animadora desta versão, reforçada pelo facto de haver navegadores franceses na região brasileira nos séculos XVI e XVII, como tem lembrado Getúlio Xavier. “Consideramos importante aprofundar a pesquisa sobre o tema, agora com três hipóteses”, diz. “Por enquanto a Macau brasileira faz homenagem a Macau chinesa”, conclui Getúlio Moura Xavier. “Com as evidências encontradas, a história parece se inverter. A Macau chinesa, possivelmente, presta homenagem a Macau brasileira, ao tratar da origem do nome Macau.”

 

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O primeiro encontro ‘formal’

Alguns macaenses residentes no Brasil visitaram nos últimos anos Macau-RN, mas a viagem feita por Rogério P. D. Luz, autor do blogue “Crónicas Macaenses”, pode ser considerado o momento mais formal.

Este macaense a residir em São Paulo esteve em 2013 na cidade e encontrou-se com o prefeito. Daí surgiu um convite para que Kerginaldo Pinto visitasse a Casa de Macau em São Paulo, o que aconteceu.

O autarca macauense prometeu nessa altura intensificar o conhecimento mútuo, convidando o coro da Casa para actuar na cidade e surgiu também a hipótese de realizar uma exposição sobre a cidade situada no Sul da China, mas nada disso se concretizou. A prisão de Kerginaldo em 2015, sob acusação de fraude, não terá ajudado.

À MACAU, Rogério Luz confessa algum desânimo. Mas “pelo menos, fiquei com sentimento de missão cumprida, pois levei um abraço macaense, nem que tenha sido um abraço solitário, mas fiz conhecer essa Macau brasileira à toda nossa comunidade.

 

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O mito do carro do Grande Prémio

Conta-se em Macau-RN que um carro que iria competir no Grande Prémio de Macau terá sido despachado da Europa para Macau e foi parar à cidade do Rio Grande do Norte. Tudo porque, no documento da alfândega, não se dizia “Macau-China”, mas apenas Macau. Mito ou realidade, a história não foi confirmada por João Costa Antunes, contactado pela MACAU. Em Macau-RN também não é fácil encontrar responsáveis políticos de assinalável longevidade, já Kerginaldo Pinto não foi o único prefeito macauense a ser preso na última década.

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