População marítima | Entre a terra e o mar

No Porto Interior, existe uma família de pescadores que experimentou viver em terra, mas acabou por voltar ao barco; um homem que passa mais de 200 dias em alto-mar a pescar camarão; e um casal que vendeu a embarcação, comprou um apartamento e procura agora o mar em passeios matinais. A pesca foi uma importante actividade económica em Macau. Hoje é um sector sem futuro e grande parte da população marítima foi forçada a ir para terra. Houve, porém, quem se mantivesse ancorado ao cais.

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro e Tiago Alcântara

 

Ao longe, barcos a passar, e aqui, um ligeiro, lento tremor. A família Kuan mantém-se indiferente a tudo isso. Pai, mãe e um dos filhos estão sentados no chão, na sala de estar. É uma sala como outra qualquer: a um canto, um globo terrestre, a Oceânia virada para nós; um relógio de parede adiantado 15 minutos; calendário que ficou preso a 10 de Abril; deuses para trazer sorte em cima de uma cómoda de madeira escura; e fotografias de Kuan Sok Mui, uma das filhas do casal, medalha de ouro em ciclismo acrobático nos Jogos da Ásia Oriental de 2009. Pouca coisa nesta sala nos faz lembrar que estamos no barco ZhuXiang 2913, fundeado no cais do Porto Interior. Só mesmo este novo tremor, uma embarcação que volta a passar aqui perto.

A família Kuan deixou o mar em 1998, foi para terra. Havia falta de peixe, era difícil contratar quem quisesse trabalhar como pescador. Chan Fui, a mulher, ficava então em casa a tratar dos filhos e o marido, Kuan Peng, saía para trabalhar. Ganhava 15 patacas por dia, não chegava para sustentar uma família de seis filhos. E por isso, dois anos mais tarde, voltaram para alto-mar. Quatro milhões foi quanto custou o novo barco: três andares (incluindo a cave), quatro quartos, uma sala, 34 metros de comprimento, equipamento moderno.

– “Estamos sempre no barco, deixamos a casa em terra para os nossos netos e netas”, começa por dizer Chan Fui. É ela que vai responder à maioria das perguntas.

– “Só saímos para ir ao yam cha”, completa o marido, referindo-se à tradicional refeição do sul da China.

– “Por ano, quantos dias vivem no barco?”, pergunto.

É a mulher que volta a falar:

– “365 dias, o ano inteiro.”

 

 

Mudanças na actividade

Ao longo destes dias de pesquisa, não encontrámos outros casos como o da família Kuan que, apesar de ter um apartamento em terra, escolheu viver no barco. O caminho que se tem feito nos últimos anos é em direcção à terra.

Números oficiais revelam que a população marítima de Macau em 2016 era composta por 1020 pessoas, sendo constituída principalmente por não residentes a trabalhar nas embarcações. Já dados de 1996 referem que a população marítima alcançava nesse ano 2995 pessoas, representando 0,7 por cento da população local.

Se no passado a comunidade vivia exclusivamente no barco e não tinha casa em terra, hoje em dia observa-se uma vivência partilhada entre as embarcações e o apartamento, entre a vida profissional e pessoal. Antigamente, a pesca era uma actividade familiar, em que as três gerações de uma família chegavam a partilhar o mesmo barco. Mas hoje a geração mais nova dos filhos do mar estudou, foi à universidade, ficou em terra. Quem se mantém no negócio tem de contratar trabalhadores de fora do círculo familiar. Na maioria dos casos vêm do Interior do País.

 

 

Kuan e Chan são novamente uma excepção. Quando segue para alto-mar, este barco onde nos encontramos transporta 11 pessoas, incluindo seis trabalhadores e três dos filhos do casal. Kuan e Chan tiveram seis filhos, três rapazes e três raparigas. Eles terminaram o ensino básico e, a partir dos 14 anos, foram para a pesca com os pais; elas fizeram universidade, ficaram em terra. “Os miúdos não estavam bem na escola, tínhamos medo que seguissem maus exemplos e, por isso, vieram viver connosco no barco”, lembra agora a mãe.

Se pudessem voltar atrás, os Kuan escolheriam ser pescadores, ter a mesma rotina: acordar às quatro da manhã, lançar as redes ao mar, depois recolher o peixe, o camarão, as redes por volta das dez da noite.

 

 

Estranhos em terra

A terra não serviu, e por várias razões:

– “Não tenho educação, não sei fazer nada além de pescar”, diz Kuan Peng.

– “Não há empresas que nos queiram contratar em terra e não conseguimos ganhar tanto dinheiro como no barco”, acrescenta a mulher, referindo que, por mês, chegam a lucrar com a venda de peixe entre 50 a 60 mil patacas.

Kuan Peng nasceu num barco, é filho de pescadores, tem 68 anos. Chan Fui, originária de Zhongshan, Província de Guangdong, nasceu no seio de uma família de agricultores. Tem 65 anos. Foram apresentados por um casamenteiro. Era essa a tradição.

– “Um regulamento na China dizia que os pescadores podiam casar com raparigas chinesas do Interior do País”, diz agora o filho, Kuan Pui Hong, 37 anos. Kuan, o pai, permanece em silêncio, olha para o chão, como se não fosse nada com ele. O filho continua:

– “Naquela altura, os pescadores raramente casavam com pessoas de terra [de Macau], mas com filhas de pescadores ou mulheres do Interior da China.”

A nossa conversa é entretanto interrompida por visitas. Fazem a manutenção do barco. Por momentos, as luzes apagam-se. Chan Fui é quem permanece na sala. Fala sobre o primeiro encontro:

– “Ele [Kuan Peng] costumava pagar os impostos ou levar o peixe para Xiangzhou. Fui lá com os meus amigos, foi uma oportunidade de nos conhecermos.”

Até ao início do século XX, na China, os pescadores não podiam casar-se fora da comunidade marítima. O documentário Gente Sobre a Água, do realizador português Rui Nunes, que retrata a vida da comunidade piscatória de Macau, refere que no final do século prevalecia, ainda assim, o casamento entre descendentes de pescadores.

 

 

No filme, Rui Nunes fala ainda sobre uma comunidade que, durante séculos, era discriminada pela restante população. Na China imperial, os pescadores pertenciam à classe mais baixa da população e uma lenda descrevia-os como sendo descendentes de uma minoria étnica vítima de uma maldição e condenada a viver longe de terra firme. Mas actualmente historiadores acreditam que os pescadores tradicionais são descendentes de pessoas que foram forçadas a refugiar-se junto à orla marítima por razões políticas, económicas e sociais. Encontraram na pesca um modo de subsistência, nota ainda o documentário.

“Em meados do século XVIII, um édito imperial autorizava os pescadores a construir casas em terra e apelava à restante população para que não os afugentasse. No entanto, só em 1911, quando a revolução chinesa transforma o Império do Meio em república é que as gentes do mar passam a ser consideradas em termos legais em pé de igualdade com os demais cidadãos. Na prática, a discriminação face a esta comunidade continuou até aos dias de hoje”, refere o documentário, filmado entre 1997 e 1998.

 

 

Por dinheiro

O sinal de tufão baixou a meio do dia. É fim de tarde, no Porto Interior não há sinais de inundações, sentem-se ainda fortes rajadas de vento. O tufão trouxe de volta os pescadores a terra. Chan Meng Kam também regressou, tem hoje tempo para falar connosco, antes de voltar a partir. Subimos até ao barco, ancorado entre outros barcos. É como percorrer a casa, a privacidade de outras pessoas até, finalmente, chegar ao espaço de Chan. Subimos até à ponte de comando, ao primeiro andar, onde também está o quarto do capitão-pescador. Televisão, computador, uma pequena secretária, pouco mais. À porta, fotografias de família.

Quando voltarmos a descer, vamos encontrar alguns dos trabalhadores deste barco, vamos tirar fotografias uns aos outros, enquanto o sol se põe, tons rosa. Ao fundo, embarcações já vão estar a deixar de novo Macau.

 

 

Mas ainda cá em cima, Chan Meng Kam pousa para a fotografia, ao volante, de rádio na mão. Nos anos 1960, explica, as mensagens chegavam a terra pela boca dos outros. Os pescadores que regressavam a Macau eram os fiéis depositários dos que permaneciam no mar. Já na década seguinte, os pescadores comunicavam entre si através de rádios. Chan ainda instalou um em casa, mas o sinal não sobrevivia à distância do amor. Durante muitos anos, foi também a estação de rádio local que levou mensagens importantes até às embarcações. “Todos os dias, a determinada hora, a rádio fazia a previsão meteorológica e, se houvesse mensagens urgentes para os pescadores, como a morte de um familiar, também transmitiam isso”, refere o capitão-pescador.

Chan Meng Kam tem 58 anos, esteve sempre ligado ao mar. Filho de pescadores, nasceu num hospital, em terra, mas viveu sempre à beira-mar. Enquanto foi à escola, vivia num ‘barco-casa’, uma pequena embarcação estacionada perto do porto. “Não servia para a pesca, apenas para viver”, completa, referindo ainda que, em 1983, a passagem de um tufão destruiu grande parte destes ‘barcos-casa’. “O Governo também queria que estas pessoas se registassem e muitos dos pescadores foram para terra”, refere.

 

 

A partir dos 14 anos, logo após terminar o ensino básico, Chan começou a trabalhar com os pais na pesca. Aos 30, já casado, mandou construir o primeiro barco e foi por essa altura que comprou também uma casa, onde vive hoje a família e para onde vai quando está em Macau.

Chan Meng Kam dedica-se sobretudo à pesca de camarão. A rede é lançada três vezes por dia, o camarão vendido a outro barco que, por sua vez, vai fazer negócio no Interior do País ou em Hong Kong. Neste processo, o capitão vem a casa apenas um ou dois dias por mês. “Eu diria que passo entre 220 a 250 dias por ano no barco, e ao longo de 100 dias, o barco está ancorado no porto, incluindo na época de defeso.”

O pescador admite que sempre pensou viver em terra, mudar de ramo de actividade, mas que para financiar a educação dos três filhos, que terminaram o ensino superior, teve de se manter ligado à pesca. “Quando ponho os pés em terra, sinto-me em casa.”

 

 

Indústria a desaparecer

Neste cais, onde hoje entrevistamos a família Kuan e o pescador Chan Meng Kam, viveu no passado uma numerosa comunidade de pescadores. Habitavam juncos, não tinham casa em terra. Testemunha desses dias, Rui Nunes, realizador do documentário Gente Sobre a Água, acompanhou ao longo de cerca de dois anos a vida a bordo de uma família que acabaria por se mudar para terra.

No documentário, são apontadas várias razões para a queda da indústria da pesca, em tempos “uma das principais actividades económicas de Macau”. A crescente poluição das águas e a conquista de terrenos ao mar através da construção de aterros foram determinantes para inviabilizar a pesca costeira, forçando a ida da população marítima para terra. A migração viria a intensificar-se a partir dos anos 1980.

 

 

“Era incontornável”, salienta Rui Nunes à MACAU. “A partir do momento em que os bancos de peixe abandonaram a zona da costa de Macau, as condições desse tipo de pesca tornaram-se absolutamente impossíveis e, portanto, as pessoas ou investiam em embarcações maiores e, nessa altura, já não viviam nelas. Iam largos meses fazer pesca à distância e já não ia a família toda, mas os homens da família, ou pelo menos os mais activos. Havia sempre que ficar alguém a fazer a retaguarda”, refere.

Mas mesmo quem continua hoje a trabalhar no ramo, como é o caso da família Kuan, diz que há cada vez mais limitações à actividade:

– “A pesca é melhor em Hong Kong, porque o mar é mais profundo do que em Macau, mas nos últimos anos um regulamento proibiu que pescássemos aí”, refere Chan Fui.

– “Andamos à deriva”, acrescenta o marido, Kuan Peng.

Quais são as alternativas, pergunto. Kuan Peng volta à conversa:

– “A trabalhar como vendedor de peixe vamos ganhar entre 7000 ou 8000 patacas por mês, a limpar barcos ou a recolher lixo do mar são 200 ou 300 patacas diárias.”

 

 

Fora de perigo

Chao Tin Fok e Ng Chou Mui não tocavam na rede de pesca há pelo menos oito anos. Verde, de nylon, retirada agora de uma caixa guardada debaixo do sofá. Atrás vêm chapéus de palha, também linha, uma régua e o que é necessário para fazer uma rede de pesca. Pousam tudo em cima da mesa.

Numa das paredes, fotografias dos pais de Chao Tin Fok, o patriarca da família. A preto e branco, pose séria, também pescadores. E ao lado, uma imagem de um barco, onde o casal viveu até 1988. A embarcação, com três metros de largura e 18 de comprimento, foi vendida nesse mesmo ano à então administração portuguesa. Chao e Ng lembram-se do mês exacto, foi Fevereiro. Tinham comprado por 125 mil patacas, fizeram negócio por 195 mil.

 

 

Nesse barco viviam dez pessoas: as crianças eram cinco e faziam os trabalhos mais fáceis, como a limpeza, e os adultos tratavam da pesca. Durante o período lectivo, os mais novos mudavam-se para uma casa de madeira na Taipa. “Entretanto, os dois irmãos do meu marido tinham arranjado emprego, foram para terra e não tínhamos quem trabalhasse connosco”, diz Ng Chou Mui.

A falta de mão-de-obra fez com que o casal se mudasse definitivamente para terra. Para trás ficaram cinco décadas de mar, uma vida dedicada à pesca, casamentos a bordo, quedas ao mar.

 

 

Em terra, foram contratados pelo Museu Marítimo de Macau, que tinha aberto as portas há apenas um ano, para fazer viagens turísticas de barco. “No início não nos habituámos a viver aqui, porque o ar e a comida do mar eram mais frescos, mas, por outro lado, achávamos que viver no barco era muito mais perigoso”, refere Ng, que considera que os tufões e as tempestades constituíam o maior perigo de uma vida no mar. “Os nossos amigos que viviam em barcos ficaram com muita inveja, porque finalmente já não nos tínhamos que preocupar com o tempo.”

O casal vive hoje no Beco do Sal, a poucos minutos do cais. Chao e Ng admitem que, pela manhã, enquanto passeiam, vão ao encontro do mar.

 

 

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Preservar uma cultura

Nos tempos passados, a pesca era um negócio de família, mas hoje vive à base de trabalhadores do Interior do País. Os juncos tradicionais, construídos por mestres em Macau, deram lugar a embarcações maiores e modernas. Com a queda da actividade piscatória e a ida dos pescadores para terra, indústrias relacionadas com actividade e práticas culturais ou religiosas associadas aos pescadores foram pouco a pouco desaparecendo.

Para tentar manter viva a cultura da pesca local, Chan Yat Fung, um dos filhos do pescador Chan Meng Kam, criou a Associação da História e Cultura Portuária. O objectivo é divulgar a actividade piscatória através de visitas guiadas, exposições, passeios de barcos e investigação.

O pai, Chan Meng Kam, também vice-presidente da Associação de Auxílio Mútuo dos Pescadores, deixou, além disso, registadas mais de quatro décadas de vida no mar no livro Esta Geração de Pescadores, uma obra que tem como base diários que escreveu a partir dos anos 1970.