Empresas de Macau concretizam papel de plataforma 

Há cada vez mais empresas da RAEM, pequenas, médias e grandes, a voltarem-se para os países de língua portuguesa. Aqui apresentamos três exemplos de empresários que estão a tirar o conceito de plataforma do papel.

 

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro e Tiago Alcântara

 

Afonso Chan trabalhou quase duas décadas na administração pública em Macau, incluindo oito anos no Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau). Em 2014, juntou-se à Charlestrong Engenharia, Tecnologia e Consultoria Ltd, empresa fundada dois anos antes, que actua sobretudo em Macau, Timor-Leste e no continente africano, no ramo da imobiliária e da construção.  

“Em Moçambique, iniciámos o nosso primeiro projecto em 2014”, lembra agora o empresário, sublinhando que a Charlestrong foi a primeira empresa local a investir no sector do imobiliário naquele país africano. O projecto, em parceria com o Fundo de Fomento para a Habitação de Moçambique, envolveu a construção de 240 apartamentos para o parque residencial da Vila Olímpica de Maputo, cuja primeira fase foi construída por um consórcio liderado por uma empresa portuguesa.  

O grupo de apartamentos ficou concluído em Março de 2016. O próximo passo seria a venda. “Mas tivemos azar, cruzámo-nos com a crise económica e, neste momento, estamos com alguma dificuldade”, nota Chan. 

 

 

 

Explorar parcerias 

Afonso Chan sugere “uma nova forma de cooperação”, que implica a associação a empresas estatais do Interior da China. O grupo de Macau já recebeu a autorização do governo moçambicano para fazer um estudo de viabilidade para a construção de uma central térmica à boca da mina de carvão na região de Tete. O projecto deverá ser uma parceria com a China Machinery Engineering Corporation, “uma das maiores empresas chinesas estatais da área energética”, salienta Chan. 

E o mesmo deverá acontecer com outra empreitada da Charlestrong em Moçambique. O projecto consiste na construção de 35 mil casas sociais no país. “Vamos aproveitar a vantagem dessas empresas estatais, o que também faz parte da iniciativa ‘Uma Rota, uma Faixa’. Os chineses querem investir fora e Macau tem todas as vantagens para servir de plataforma”, vinca. 

Quem também quer fazer uso da iniciativa chinesa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ – versão simplificada do nome “Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda para o Século XXI”, plano de infra-estruturas lançado por Pequim que pretende revitalizar as ligações históricas entre o Oriente ao Ocidente – é a Perfeição. Esta jovem empresa foi fundada há dois anos pela antiga presidente da Assembleia Legislativa de Macau Susana Chou.  

Em entrevista à MACAU, a directora executiva da Perfeição, Chan Hansi, explica como fazê-lo: “Na China, temos excesso de capacidade produtiva e já não temos tanto mercado interno, sobretudo as empresas que trabalham em grandes construções. Então como é que elas vão sobreviver? Têm de procurar novas oportunidades fora do país”. E neste processo de internacionalização e mediação, a Perfeição pode “desempenhar um papel importante”, diz. “Chegamos a um país de língua portuguesa e existe uma ligação mais familiar [a uma empresa de Macau] do que com o Interior da China”, continua a responsável, para quem o conhecimento da língua portuguesa é uma mais-valia. 

A Perfeição, que tem como missão principal “fazer de Macau a plataforma entre a China e os países de língua portuguesa”, faz estudos de mercado e presta serviços de tradução, interpretação e consultoria a empresários dos dois lados. Entre os vários clientes, Chan Hansi refere o apoio dado a uma empresa da província chinesa de Zhejiang para a obtenção de uma licença de pesca em Timor-Leste. “Eles já tinham tentado várias vezes, mas não tinham conseguido, porque o governo timorense não conseguia perceber que tipo de empresa era aquela.” 

 

 

 

Nova rota aérea coloca Portugal no horizonte dos empresários  

Apesar de considerar o universo dos países de língua portuguesa um mundo de oportunidades que vai permitir ao empresário chinês “entrar na Europa, África e América Latina”, a directora executiva da Perfeição reconhece que “é preciso conhecê-lo e estudá-lo”. É necessário também, considera Chan Hansi, entender os sinais que chegam de Pequim. “Politicamente [o Governo Central] está a apoiar Macau a realizar a plataforma. Tem de se entender as diferentes estruturas, tem de se perceber o lado da lusofonia, tem de se passar o tempo a estudar”, nota a responsável, sublinhando que as novas ligações aéreas entre Pequim e Lisboa poderão ajudar no reforço do investimento chinês em Portugal, nomeadamente na área do turismo. 

A companhia aérea Beijing Capital Airlines deu início aos voos entre as duas capitais em finais de Julho deste ano. Ao todo, realizam-se três voos semanais com a duração de 13 horas. “Os empresários podem investir, por exemplo, em resorts de golfe em Portugal” sugere a empresária, realçando que é necessário “ter mais imaginação”. 

Também o empresário local John Lo acredita que “Portugal terá várias oportunidades nos próximos cinco anos”. O presidente do Grupo Excelente elege os sectores da hotelaria e imobiliária como “áreas em crescimento” no país europeu.  

 

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Mais por vir 

Empresas de Macau estão envolvidas em metade dos dez protocolos assinados em Junho no encontro de empresários chineses e dos países lusófonos, realizado em Cabo Verde. O Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM) levou uma delegação de 66 empresários ao Encontro para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, na Cidade da Praia, ao qual se juntou ainda mais de 60 empresários do Interior do País – cerca de três dezenas dos quais integrados em delegações específicas das províncias de Liaoning, Fujian e Hunan. A delegação chinesa foi organizada pelo Conselho de Promoção do Comércio Internacional da China (CCPIT, sigla em inglês). Segundo dados do IPIM, os protocolos assinados envolvem as áreas da construção civil e materiais de construção, cuidados de saúde, intercâmbio e distribuição de café e referem-se à cooperação entre empresas da China, Angola, Cabo Verde, Portugal e Macau. 

Depois de Cabo Verde, as delegações da China e de Macau deslocaram-se a Lisboa para o Fórum empresarial das oportunidades de negócio entre Portugal, China e Região Administrativa Especial de Macau, que contou com mais de 200 participantes e resultou na assinatura de dois projectos entre empresários da RAEM e de Portugal, na área da informação e da saúde. O próximo encontro de empresários lusófonos, de Macau e chineses vai realizar-se, em 2018, em Portugal.