Breve enciclopédia portuguesa da tradução da poesia chinesa clássica 

Poetas concretistas brasileiros, jesuítas portugueses ou diplomatas e professores da actualidade pertencem a um limitado grupo de profissionais de língua portuguesa que se dedicou à tradução da poesia clássica chinesa. Desde o Livro dos Cantares, a mais antiga antologia existente de poemas chineses, passando pela poesia da Dinastia Tang, a tradução nasce muitas vezes a partir de segundas línguas, embora sejam de referir casos em que a passagem para o português seja feita de forma directa. A publicação de várias obras nas últimas décadas levou a MACAU a preparar uma breve enciclopédia da tradução de poesia chinesa para o português.

 

 

Texto Catarina Domingues 

 

A 

Antologia da Poesia Clássica Chinesa 

Colectânea bilingue em chinês e português de poesia da Dinastia Tang (618-907). A obra de Ricardo Primo Portugal, com supervisão de Tan Xiao, foi lançada em 2013 pela Editora UNESP (Universidade Estadual Paulista), em parceria com o Instituto Confúcio na mesma universidade. A obra integra a tradução de 204 poemas de 33 poetas, incluindo nomes como Li Bai, Du Fu, Wang Wei, Bai Juyi, Meng Haoren e Li Shangyin.  

 

António Graça de Abreu (1947, Porto, Portugal) 

Escritor, professor e historiador, licenciou-se em Filologia Germânica e é mestre em História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses. Viveu entre 1977 a 1983 na China, onde trabalhou nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras e como professor de português. “Fui para Pequim através do PCP-ML (Partido Comunista de Portugal marxista-leninista), que era o único partido maoista que existia na altura e que tinha relações institucionais com a República Popular da China”, relembra Graça de Abreu à MACAU. O professor revela que “havia muita China para descobrir”. Graça de Abreu começou a aprender mandarim, a ler poesia chinesa. “Com a ajuda dos meus camaradas de trabalho, começámos a tentar traduzir poemas para o português, inicialmente foi Li Bai.” 

António Graça é autor de várias obras, incluindo cinco antologias de poesia chinesa: Poemas de Li Bai (1990), Poemas de Bai Juyi (1991), Poemas de Wang Wei (1993), Poemas de Han Shan (2009) e Poemas de Du Fu (2016). “Os poetas da Dinastia Tang são os grandes poetas de sempre da China”, constata o tradutor, realçando que hoje em dia são conhecidos e respeitados por toda a população, incluindo o antigo líder chinês Mao Zedong. O autor recebeu o Prémio de tradução da Associação Portuguesa de Tradutores e Pen Club por Poemas de Li Bai.  

 

Amizade 

A relação de amizade entre letrados era um dos temas que pode ser observado na poesia da Dinastia Tang. De referir que os poetas Li Bai e Du Fu viajaram juntos ao longo de um ano pela China. “Subiram à Taishan, montanha sagrada do taoismo já nessa altura, isso identificava-os, unia-os, trocavam poemas uns com os outros”, realça o professor português António Graça de Abreu.  

“As suas pinceladas amedrontam o vento e a chuva/ e suas poesias fazem chorar espíritos e demónios.” Estas são palavras de Du Fu dedicadas a Li Bai, que o tradutor brasileiro Sérgio Capparelli refere na sua página pessoal na Internet. 

“A Du Fu da aldeia de Shaqiu” é o nome de um poema escrito por Li Bai. Na tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi para o português pode ler-se: 

 

Enfim, por que razão  

estou aqui?  

Fiz meu retiro  

na aldeia de Shaqiu  

Ao pé das muralhas,  

apenas árvores seculares  

Nelas, dia e noite,  

a voz do outono.  

O vinho de Lu  

não consegue  

me deixar bêbado  

e os cantos comoventes de Qi  

não tocam mais  

meu coração.  

Minhas saudades de você  

são como as correntes  

do rio Wen  

que, sem fim,  

se precipitam para o sul. 

 

 

 

B 

Bai Juyi (白居易) 

Poeta chinês, nasceu e cresceu na Província de Henan e viveu entre 772 e 846, período intermédio da Dinastia Tang. Completou os Exames Imperiais no ano 800 e ocupou vários cargos públicos, nomeadamente o de Governador de Hangzhou e Suzhou. Posições antagónicas assumidas pelo poeta em relação a incursões militares ou políticas governamentais diminuíram a influência que tinha na corte e o exílio. Foi alternando os cargos públicos com momentos de meditação. Abandonou vários cargos também por motivos de saúde. No final da vida, viveu em reclusão. Existe o consenso entre especialistas e tradutores que Bai Juyi escrevia de forma simples, sendo a sua obra lida pelas massas. Conta-se que lia os poemas a uma criada, destruindo os que não eram entendidos. Bai Juyi foi prolífico e escreveu cerca de 3000 poemas. A sua especialidade era o “Estilo Antigo” (gutishi) mais coloquial, muitas vezes narrativo. 

“Canto do remorso perpétuo” (tradução de António Graça de Abreu) é um dos mais conhecidos poemas de Bai Juyi e conta a história do trágico amor entre o Imperador Xuanzong e a concubina Yang Guifei (ver Xuanzong). Trata-se de um extenso poema narrativo com 840 caracteres. 

 

 

C 

Camilo Pessanha (1867, Coimbra – 1926, Macau) 

Poeta português que viveu mais de 30 anos em Macau. Além de Clepsidra, obra poética única, Pessanha traduziu oito elegias chinesas da Dinastia Ming (1368-1628), publicadas em 1914 num jornal de Macau. Apesar de conhecedor da língua chinesa, Pessanha teve a orientação de um nativo neste trabalho. “Isolei a traducção de cada um dos versos, e dentro d’ella conservei, nos limites do possível, ás ideas e symbolos a ordem original. Isto é, da poesia chineza busquei trasladar com exactidão o que era trasladavel – o elemento substantivo ou imaginativo; – porquanto o elemento sensorial ou musical, resultando de uma technica metrica especialissima”, escreveu Camilo Pessanha no jornal de Macau O Progresso. 

 

Cecília Meireles (1901, Rio de Janeiro –1964, Rio de Janeiro) 

Escritora brasileira, autora de várias obras de poesia, foi professora de Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literária. Traduziu peças de teatro de Federico García Lorca e Rainer Rilke. É autora de Poemas Chineses, lançado em 1996 a título póstumo com base em anotações da autora. São cerca de 70 poemas de Li Bai e Du Fu, a partir de traduções do inglês e francês. 

 

Concretistas 

A poesia chinesa teve forte influência no movimento artístico concretista, que chegou ao Brasil na década de 1950. A poesia concreta pretende romper com a unidade do verso, substituindo-a pelo princípio do ideograma e apostando num geometrismo extremo. Este movimento tem como expoentes máximos no Brasil os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari e José Lino Grünewald. Haroldo de Campos publicou Escrito sobre Jade – Poesia Clássica Chinesa (ver Haroldo de Campos). 

 

Contemplando a Grande Montanha  

Da autoria de Du Fu, poeta da Dinastia Tang, este é “um dos poemas mais conhecidos da literatura chinesa e é até hoje citado em conversação diárias, principalmente os dois últimos versos”, refere à MACAU o brasileiro Ricardo Primo Portugal, autor de uma das traduções. O poema foi escrito no ano 736 após Du Fu ter falhado mais uma vez os exames imperiais e, de regresso à terra natal, contempla o Monte Tai (Taishan), objecto de veneração desde tempos antigos. O título em chinês 望岳 (wàng yuè) traduzido à letra significa “Contemplando Yue”. O termo Yue refere-se às grandes montanhas do taoismo da China: Songshan (Henan); Taishan (Shandong); Huashan (Shaanxi); Hengshan (Hunan), e novamente Hengshan (na fronteira de Hebei e Shanxi). Vários autores de língua portuguesa, incluindo o brasileiro Ricardo Primo Portugal e o português António Graça de Abreu, traduziram este poema. 

 

Versão de Ricardo Primo Portugal: 

E eis o Grande Tai – como dizê-lo 

além de Lu e Qi tudo é verdura  

Aqui divino e belo se concentram  

se lado sul ou norte claro-escuro  

O peito estende às nuvens que acumulam  

olhos distendem pássaros que entram  

É preciso alcançar o extremo o cume  

de um só olhar mil picos se apequenem. 

 

Versão de António Graça de Abreu: 

Eis a montanha das montanhas, 

um mar de verdura entre dois reinos, 

criação, esplendor da natureza, 

madrugada e entardecer, luz e sombra, 

De peito aberto diante de terraços de nuvens, 

os olhos faiscantes com aves de regresso ao ninho. 

Ao alcançar o cume da montanha, um olhar. 

Todas as outras montanhas, tão pequenas! 

 

 

D 

Du Fu 杜甫 (ou Tu Fu) 

Nasceu em Gongxian na Província de Henan e viveu entre 712 e 770. É considerado pela tradição, a par com Li Bai, o maior poeta da literatura chinesa. Chumbou nos exames imperiais para ascender a mandarim várias vezes, conseguido passar apenas por volta dos 40 anos. A carreira no serviço público acabaria, no entanto, por ter pouca expressão devido à eclosão da Rebelião de An Lushan, entre 755 e 763 (ver Rebelião de An Lushan). Du Fu, considerado um homem de família, tornou-se numa pessoa atormentada e os versos que escreveu ficaram marcados pela guerra e pobreza. Morreu aos 58 anos na miséria, enquanto descia o rio Xiang, na Província de Hunan. “É muito difícil conhecer a vida do poeta Du Fu e não se emocionar. Mais difícil ainda é ler a sua vida nas linhas e nas entrelinhas dos versos. Seus poemas compõem, no conjunto, uma narrativa dramática e comovida. E ao mesmo tempo, um mapa e uma história do país que ele tanto amou”, escreveram os tradutores Sérgio Capparelli e Sun Yuqi. O também conhecido “santo dos poetas” deixou cerca de 1400 poemas, dedicando-se ao “Estilo Novo” (jintishi) e realizando o octeto (lüshi) com mestria.  

Em 2016 o Instituto Cultural (de Macau) publicou o livro bilingue (em chinês e português) Poemas de Dufu, com a tradução de António Graça de Abreu. 

Um dos grandes acontecimentos da vida deste poeta foi ter conhecido Li Bai. A ele dedicou este poema que se segue, traduzido por Sérgio Capparelli em conjunto com Sun Yuqi. 

 

Poema dedicado a Li Bai: 

Já há dois anos  

na capital do leste  

Cansado de esbarrar  

em intrigas e artifícios  

Homem selvagem,  

diante de tantos frutos do mar e carne,  

De um prato de legumes  

ainda não consegui me satisfazer  

Onde encontrar o arroz verde,  

impregnado de elixir,  

Para acabar  

com minha palidez?  

Aborrecido, onde dinheiro  

para os bons remédios?  

Das montanhas e florestas  

meus traços são agora apagados  

O senhor Li,  

muito honrado na Corte  

Rompeu suas relações,  

e se dá à pesquisa mística  

Ele também deve viajar  

ao país de Liang e Song,  

Já marcamos encontro  

para a colheita de cogumelos mágicos.  

 

 

E 

Estrutura do poema clássico 

Na apresentação da obra Antologia da Poesia Clássica Chinesade Ricardo Primo Portugal, o autor explica que foi durante a Dinastia Tang que as pesquisas formais e estudos linguísticos atingiram um nível de refinamento, em parte devido ao desenvolvimento do ambiente literário e dos próprios Exames Imperiais, “que demandavam a sistematização de conteúdos”. Nessa altura codificaram-se e definiram-se as formas em uso, que constituem os modelos clássicos, predominantes até à chegada do Modernismo. 

Distinguem-se o “Estilo Antigo” (gutishi), em que se trabalham formas mais tradicionais, de origem popular, com poucas restrições ou delimitações formais, e o “Estilo Novo” (jintishi), com regras definidas e formas fixas. No “Estilo Novo”, a forma básica é o octeto regular (lüshi). O quarteto regular (jueju) era definido como um lüshi cortado, reduzido ou “suspenso”. Havia também o changlü (lüshi alongado), em que se adicionavam versos. O verso chinês no jintishi – e na maior parte dos gutishi – era de métrica fixa em cinco ou sete sílabas, refere o autor, realçando que no caso do gutishi encontram-se ainda composições que alternam as métricas ou que as modificam com a utilização de versos menores. “Cite-se também o ci (canção), forma que tende a maior variedade métrica. Essa ‘poesia cantada’ ou ‘letra de música’ foi praticada pela maioria dos poetas em alguma medida e ganhou popularidade crescente ao final da Dinastia Tang, vindo a assumir um lugar central na Dinastia Song”, escreve Primo Portugal. 

 

 

F 

Funcionário do Estado  

Foram vários os poetas que se candidatavam aos Exames Imperiais, o que permitia ascender à classe dominante. “Uma das provas é a poesia. Isso começa na Dinastia Han, depois é institucionalizado a sério com regras muito rigorosas na Dinastia Tang. Todos os candidatos a mandarim tinham que escrever poesia”, salienta o tradutor e historiador português António Graça de Abreu. Já o brasileiro Ricardo Primo Portugal chama a atenção para a “função cerimonial importante” da poesia. “O intelectual, o administrador do Estado, tinha de ser um homem sofisticado, tinha de saber escrever poemas para uma situação cerimonial”, refere, constatando que o “poema brinde” era bastante comum nesta época.  

 

 

G 

Gil de Carvalho (1954, Lisboa)  

Escritor, poeta e crítico literário português. Também sinólogo e tradutor, é autor de várias obras, incluindo Uma Antologia de Poesia Chinesa, publicada em 1989. A obra abarca vários séculos, começando com o Shijing (Livro dos Cantares), considerado o clássico da poesia chinesa, passando depois para a colecção Chuci (Canções de Chu), datada de cerca de 300 a.C., apresenta obras de poetas da Dinastia Tang, como Du Fu, Li Bai e Wang Wei, continuando até ao século XVIII. “Os poemas foram transpostos a partir do original, mas com recurso – no meu caso indispensável – a pelo menos uma tradução em línguas ocidentais”, escreveu Gil de Carvalho numa introdução à obra. O autor lançou também em 2004 Poemas Anónimos – Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos. 

 

 

H 

Han Shan 寒山  

Pouco se sabe sobre este poeta chinês. Não se conhece o seu verdadeiro nome, nem se realmente terá existido. No entanto, várias fontes revelam que terá vivido entre os séculos V e VI. Uma antologia da Dinastia Tang reúne três centenas de poemas deste monge poeta. “Toda a gente tem dúvidas se existiu ou não, mas o que existe é a poesia dele com o nome dele”, refere o tradutor António Graça de Abreu, autor de Poemas de Han Shan, uma edição bilingue com 156 poemas.  

 

Habito a montanha 

ninguém me conhece 

Entre as nuvens brancas 

o silêncio, sempre o silêncio. 

 

A tradução de Graça de Abreu reflecte a ligação do poeta, um eremita em retiro na montanha, à natureza. O poeta budista é também um dos autores de interesse do antropólogo e tradutor brasileiro Leandro Durazzo, ele próprio budista. “Independentemente de ter existido ou não, está presente de uma forma muito forte na obra de alguns poetas da geração beat, [como] Jack Kerouac”, diz Durazzo, referindo-se ao livro Os Vagabundos do Dharma (Os Vagabundos Iluminadosno Brasil). Na obra, o autor dá vida a Japhy Ryder, personagem inspirada no poeta e ensaísta budista americano Gary Snyder, que traduziu Han Shan do chinês para o inglês. 

 

Haroldo de Campos (1929, São Paulo –2003, São Paulo, Brasil) 

Haroldo Eurico Browne de Campos formou-se em Direito em São Paulo em 1952, ano em que fundou, com o irmão Augusto de Campos e Décio Pignatari, o Grupo Noigandres, de poesia concretista. Entre as obras que publicou, conta-se Escrito sobre Jade – Poesia Clássica Chinesa, de 1996. A colectânea, que apresenta traduções do Shijing (Livro dos Cantares) e da poesia de Wang Wei, Li Bai, Du Fu, Mao Zedong, entre outros, foi reeditava e ampliada em 2009. No que diz respeito à tradução, Campos defendia a utilização da palavra “transcriação”. Perante a impossibilidade da tradução de um texto, contempla-se a recriação desses textos (ver transcriação). 

 

 

I 

Internet  

A poesia clássica chinesa ou a sua tradução podem ser consultados sem dificuldade na Internet. A exposição virtual desses trabalhos tem atraído novos tradutores, como é o caso do brasileiro Leandro Durazzo: “A Internet é um manancial inesgotável de tudo o quanto é língua. Nas coisas mais recentes que tenho traduzido, tem muitos poemas que descobri procurando no site www.chinese-poems.com, que está dividido por dinastias, autores, com transcrições para o pinyin e com traduções para o inglês”. O brasileiro refere ainda à MACAU que, através do Facebook, tem tido contacto com a tradução de poesia contemporânea.  

Neste mundo virtual é também possível ter acesso a várias das traduções em língua portuguesa. Na página www.capparelli.com.br, de Sérgio Capparelli, o autor brasileiro publicou o extenso trabalho que desenvolveu na área da tradução da poesia chinesa. A obra da poetisa Li Qingzhao, traduzida em conjunto com a chinesa Wu Di, não foi além do suporte digital. 

 

 

J 

Joaquim Guerra (1908, Lavacolhos, Fundão – 1993, Lisboa) 

Sacerdote jesuíta português, que criou um sistema de romanização do mandarim e traduziu os principais clássicos chineses, entre eles o Shijing (ver Shijing). Em 1933, Guerra partiu para a China, onde leccionou no Seminário de São José, Macau; frequentou mais tarde Teologia em Xangai, dedicando-se também à aprendizagem do chinês. Regressado do Norte da China, trabalhou na Missão de Zhaoqing, de onde foi expulso em 1951. Em tempos conturbados conheceria a prisão. Depois passou por Macau, regressando a Portugal em 1959. Foi professor de chinês no Instituto de Línguas Africanas e Orientais durante vários anos. 

 

Jueju绝句 

Trata-se de um quarteto e cada um dos versos tem o mesmo número de caracteres chineses. Autores da poesia clássica consideram que um bom jueju deve ter a capacidade de expressar o conteúdo em poucos caracteres. Os jueju com cinco ou sete caracteres chineses por verso são os mais comuns – chamam-se wujue e qijue, respectivamente. A Dinastia Tang (618-907) foi a era do desenvolvimento deste género.  

“Tudo Exaltação” é o título do poema 漫兴 (Man Xing) de Du Fu, traduzido pelo brasileiro Leandro Durazzo: 

 

Tudo Exaltação 

Sei bem que meu barraco é baixo e simples 

e assim me vêm do rio as andorinhas 

com lama nos bicos, sujando instrumentos e livros 

caçando mosquitos e, nisso, trazendo-os a mim.  

 

漫兴 

熟知茅斋绝低小 

江上燕子故来频 

衔泥点污琴书内 

更接飞虫打著人 

 

 

 

K 

Kaifeng (开封) 

Localizada na Província de Henan, a cidade de Kaifeng nasceu com o nome de Daliang, em 364 a.C. No século VII, transformou-se num importante entreposto comercial, tornando-se capital durante a Dinastia Song do Norte (960-1126). Invasões de povos do Norte tornaram Kaifeng quase uma cidade fantasma, reconstruída mais tarde, mas sem voltar a alcançar a importância de outrora. A poetisa Li Qingzhao passou nesta cidade uma parte da sua juventude. Sobre isso, o jornalista e tradutor brasileiro Sérgio Capparelli escreveu: “Quem, essa mulher, na belle époque de Kaifeng, antes que existisse a França e os franceses, e que vive numa China que se torna complexa, com uma elite ávida por literatura, teatro e música?” 

 

 

L 

Leandro Durazzo (1986, Santos) 

Antropólogo, escritor e tradutor brasileiro licenciado em Ciências Sociais, mestre em Letras e doutorando em Antropologia Social na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Autor dos livros de poesia Tripitaka (2014) e de prosa Histórias do Córrego Grande (2015), Durazzo tem o blogue Transcriação, onde publica “traduções em processo, malabarismos verbais, coreografia móvel da máquina tradutória”. É aí que aparecem alguns trabalhos na área da tradução da poesia clássica chinesa, incluindo o poema “No vinho”, de Tao Yuanming (séc. IV e V), também publicado na revista literária euOnça. Durazzo explica à MACAU que o poema foi traduzido a pedido de uma reverenda budista e que a relação com o budismo foi uma das razões que o aproximou da poesia chinesa. Chama ainda a atenção para uma longa tradição brasileira na tradução de poesia clássica chinesa: “Ideias de poesia e estética oriental como influência para diversas tradições de poesia e estética ocidental, a própria relação dos estudos académicos, filosóficos e, no meu caso específico de interesse, estudos budistas, ali no fim do séc. XIX, início do séc. XX estava começando a ficar muito convidativo para vários dos pensadores, intelectuais, poetas no Ocidente”. 

Durazzo estudou mandarim, embora realce que não domina o idioma e que recorre a outras línguas no processo de tradução. 

 

 

Li Bai 李白 (701-762) 

Também conhecido como Li Po, nasceu na Província de Sichuan – outras versões apontam para a Ásia Central, na área onde está hoje o Quirguistão. É considerado ao lado de Du Fu, de quem foi contemporâneo e amigo, o maior poeta da literatura chinesa. Adepto do taoismo, era boémio, aventureiro e conta a lenda que morreu afogado, quando, embriagado, tentava alcançar o reflexo da lua. Ainda jovem, deixou Sichuan para viajar pelo país e em 742 chegou a Chang’an (actual Xi’An), onde a poesia que escrevia foi reconhecida. Cansado do ambiente de intrigas e corrupção da Corte acaba por se afastar. 

Dos cerca de mil poemas que sobreviveram, Li Bai fala sobre a natureza, o amor pela pátria e constrói universos imaginários. “A historiografia literária costuma traçar paralelos entre a sua poesia e de grandes românticos visionários ocidentais, como Hölderling e Blake”, refere Ricardo Primo Portugal na introdução à obra Antologia da Poesia Clássica Chinesa, referindo ainda que grande parte do trabalho de Li Bai são baladas em géneros tradicionais, de maior espontaneidade e liberdade formal. Já fora da corte, os versos revelam a vontade de viver isolado nas montanhas e de fazer alguma coisa pelo país.  

Em 1990 o Instituto Cultural de Macau publicou a antologia Poemas de Li Bai, com tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu. O livro teve uma segunda edição em 1996. 

 

 

Li Qingzhao李清照 (1084 – 1155) 

Escritora e poetisa da dinastia Song, nasceu em 1084, na Província de Shandong, no seio de uma família de letrados. Em 1101 casou-se com Zhao Mingcheng, com quem partilhava vários interesses, nomeadamente o da escrita de poesia, colecção de arte e epigrafia. Distinguem-se várias fases nas obras de Li Qingzhao, desde a sua vida de casada ao período de viuvez. Sérgio Capparelli e Wu Di são autores de Poemas-ci Completos de Li Qingzhao, primeira tradução brasileira, bilíngue, com os 43 poemas-ci de Li que chegaram até os dias de hoje, mais 13, cuja autoria lhe é atribuída.  

 

 

M 

Machado de Assis (1839, Rio de Janeiro – 1908, Rio de Janeiro)  

Escritor brasileiro e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, escreveu romances, contos, poesia, peças de teatro, críticas, crónicas e correspondência. Dos quatro livros de poesia que publicou, Falenas, de 1870, introduz oito poemas chineses – incluindo dois de Du Fu – a que chamou Lira Chinesa. A tradução foi feita a partir do francês, da obra Le Livre de Jade de Judith Walter. 

 

 

Mao Zedong 毛泽东 (1893, Shaoshan – 1976, Pequim) 

Fundador da República Popular da China. Além de político, foi teórico e poeta. O brasileiro Ricardo Primo Portugal, que está a terminar a tradução da obra poética do líder chinês, relembra Mao Zedong como um poeta moderno que escrevia de acordo com padrões clássicos: “A grande referência dele em matéria de poesia clássica é Li He, um poeta muito interessante da dinastia Tang e de uma grandiosidade impressionante.” 

 

 

N 

Natureza 

A relação entre o homem e a natureza – ou a fusão dos dois – é um dos temas de destaque na poesia clássica chinesa. Muitos dos poetas, “às vezes desgostosos com o mundo dos homens, retiravam-se”, salienta o tradutor António Graça de Abreu, referindo que Wang Wei e Du Fu são dois exemplos disso mesmo. “Wang Wei cria uma espécie de quinta nos arredores de Chang’An, o Du Fu também tem um retiro, onde se isola. Aí não falam com os homens.” 

Ao longo dos tempos surgiram vários movimentos poéticos ligados à natureza. A Poesia dos Campos e Jardins (tiányuán shī 田园诗), género focado numa ligação a uma natureza doméstica – jardins, quintais, campos de cultivo e cujo mestre é Tao Yuanming, e a Poesia das Montanhas e Rios (shanshui shi 山水诗), onde os poemas devem ser lidos em ligação com uma obra de arte ou como uma espécie de arte textual, invocando uma imagem ao leitor. Wang Wei e Meng Haoren foram importantes elementos desta escola. 

Sobre esta relação próxima com a natureza, Ricardo Primo Portugal acrescenta: “É uma relação com a natureza mais do que metafórica, é uma relação de fusão com a natureza. Wang Wei, por exemplo, era especializado naquele poema mais curto de quatro versos, o jueju. Um exemplo é ‘A Cascata dos Pássaros’, em que ele praticamente se funde com a vida de uma cascata e é um poema todo construído em sonoridades ricas e imagens visuais”. 

 

A Cascata dos Pássaros 

quietude caem as flores da canela 

à noite pousam a montanha cala 

súbito aponta a lua – a primavera 

desperta em brados pássaros cascata 

 

 

O 

Ouyang Xiu 欧阳修 (1007 – 1072) 

Natural de Sichuan, foi um estadista, poeta, filósofo, arqueólogo e historiador da Dinastia Song do Norte. De acordo com uma pequena biografia publicada na obra Uma Antologia de Poesia Chinesa, de Gil de Carvalho, era um homem “pouco ortodoxo, mas conservador, amigo dos prazeres da existência, crítico literário, músico” e “das personalidades mais fascinantes da época”. Nesta colectânea, Gil de Carvalho traduz um único trabalho do poeta. 

 

O marmeleiro em flor 

Ano passado na Primeira Lua Cheia 

As lanternas do mercado das flores eram brilhantes como o dia 

A lua subiu ao cimo do salgueiro 

E eu e o meu amor, pelo crepúsculo, nos encontrámos. 

 

Este ano, na Primeira Lua Cheia 

São as mesmas, a lua e as lanternas. 

Mas o homem do ano passado – onde está ele? 

Cobertas de choro 

As mangas do meu vestido primaveril. 

 

 

P 

Poemas Completos da Dinastia Tang  

Antologia compilada no século XVII (Dinastia Qing) por ordem imperial chinesa e que contém aproximadamente 49 mil poemas escritos por 2200 autores. Trata-se do principal acervo de grande parte das obras dos poetas hoje conhecidos. 

 

Poetisas  

Sobre a presença das mulheres na poesia clássica chinesa, Ricardo Primo Portugal, autor d’A Poesia Completa de Yu Xuanji, diz à MACAU: “Na sociedade chinesa, na maior parte da história, as mulheres tiveram um papel secundário e, muitas vezes, não tinham educação formal. Já nas castas superiores, as mulheres tinham muitas vezes escolaridade e muitas se projectavam”. O autor refere ainda a “figura da cortesã” durante a Dinastia Tang. “Eram de famílias com uma certa cultura, às vezes famílias de funcionários do Estado que faliram, caíram em desgraça ou passaram por algum tipo de tragédia. Essas moças tinham uma formação culta e eram treinadas como entertainers. (…) Podia haver também uma certa comunicação com a situação de prostituição, mas não necessariamente, a cortesã é sobretudo uma grande entertainer, é uma mulher elegante, culta, que sabe agradar, que sabe trazer beleza para a vida das pessoas. [A poetisa] Yu Xuanji era isso” (ver Yu Xuanji). 

O brasileiro Sérgio Capparelli também passou para o papel uma série de trabalhos de poetisas chinesas, como Li Qingzhao, que viveu durante a Dinastia Song. Sobre Li Qingzhao, Capparelli sublinha que, tal “como outras mulheres, escrevia poemas menosprezados pelos círculos literários, simplesmente por terem sido escritos por mulheres”. 

 

 

Q 

Qu Yuan 屈原 (c. 340–278 a.C.) 

Viveu durante o Período dos Reinos Combatentes e foi o primeiro poeta chinês a assinar um texto e o principal autor do Chuci (Canções de Chu), a segunda grande antologia de poesia da China antiga. “Li Sao” (“Elegia da Separação” ou “Ao Encontrar o Sofrimento”) é considerado “o mais notável dos poemas longos da literatura chinesa”, escreveu o tradutor português Gil de Carvalho na sua obra Uma Antologia de Poesia Chinesa. Conta-se que a Festividade do Barco Dragão celebra a morte deste poeta. 

 

 

R 

Rebelião de An Lushan 

Em Dezembro de 755, An Lushan, general a liderar tropas do nordeste da China, marchou em direcção à capital com 150 mil soldados. A derrota das forças imperiais levou à perda da capital Chang’an e à fuga do Imperador Xuanzong. A revolta desencadeou um descontentamento social em larga escala, desenrolando-se uma guerra civil com efeitos devastadores. Terminou em 763, mas a Dinastia Tang nunca se recuperou totalmente dos efeitos desta rebelião e a vulnerabilidade da defesa do império tornou-o permeável a invasões externas. 

 

 

Religiosidade 

O tradutor brasileiro Ricardo Primo Portugal resume desta forma a espiritualidade de vários poetas: “Existem grandes poetas fortemente budistas, cito o Wang Wei, com uma poesia ligada à meditação. Você vai encontrar isso em Bai Juyi, Meng Haoren. Tem também o grande mestre taoista, por excelência seria o Li Bai, que trabalha todo o imaginário taoista numa poesia desregrada, que apresenta na verdade uma vida de diversidade, ousada, forte, corajosa, de entrega para a natureza, para a vida. Em Du Fu você tem uma poesia realista, extremamente bem escrita, construída de acordo com os cânones confucianos. É um homem que estudou para ser um funcionário de Estado à maneira confuciana e que escrevia com toda uma preocupação realista a respeito de como você organiza a sociedade, a vida familiar”. 

 

 

Ricardo Primo Portugal (Porto Alegre, Brasil, 28 de Fevereiro de 1962) 

Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é escritor e diplomata, encontrando-se neste momento a trabalhar no consulado-geral do Brasil em Bruxelas. Entre as várias obras publicadas, contam-se a Antologia da Poesia Chinesa – Dinastia Tang e Poesia Completa de Yu Xuanji, ambas com supervisão da mulher, Tan Xiao.  

O interesse pela poesia oriental aparece na vida deste brasileiro no final da adolescência. “Tinha alguma relação com a poesia chinesa, traduzida a partir do trabalho de grandes modernistas, por exemplo de Ezra Pound ou do mexicano Octávio Paz. Em português havia traduções de poemas chineses feitos principalmente pelo Augusto de Campos, Haroldo de Campos, poetas concretistas e também por alguns poetas portugueses.” Foi um interesse que se renovou em 2003, quando foi viver para a China, onde permaneceu cerca de oito anos (Pequim, Xangai e Cantão). Foi aí que se começou a dedicar à poesia da Dinastia Tang. “Traduzir Du Fu, por exemplo, de uma certa maneira é como se debruçar sobre a língua portuguesa e traduzir Camões, é inevitável, você tem de fazer isso. É uma grande referência.” 

O tradutor frisa que traduz directamente da língua chinesa para o português, admitindo, porém, que “devido à complexidade da poesia chinesa tradicional, é muito importante ter sempre a supervisão de um falante nativo”. 

Um segundo volume de poesia da dinastia Tang está neste momento a ser preparado e inclui nomes como Wang Bo. Ricardo Primo Portugal está a terminar também a tradução da obra poética do ex-líder chinês Mao Zedong. 

 

 

S 

Sérgio Capparelli (1947, Uberlândia, Brasil) 

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Ciências da Comunicação pela Université de Paris II, Capparelli é escritor e tem vários livros publicados, especialmente para o público infanto-juvenil. Entre 2005 a 2007, viveu em Pequim, onde trabalhou na agência de notícias Xinhua. Traduziu, em conjunto com Wu Di, a poesia completa de Li Qingzhao, disponível online, e lançou em 2012 Poemas Clássicos Chineses – Li Bai, Du Fu, Wang Wei, um trabalho em conjunto com Sun Yuqi. 

Antes da China, já se dedicava à leitura de livros de história e filosofia chinesa, já tinha lido a colectânea de poemas traduzidos a partir de outras línguas por Cecília Meireles (ver Cecília Meireles). “Tradução não era nem nunca foi meu campo e assim preferi me afastar das teorias e me contentar com o prazer que tinha sentido ao ler Cecília Meireles. A bem da verdade, fui um pouco mais longe e adquiri traduções francesas, inglesas, espanholas e italianas dos dois autores traduzidos pela brasileira”, refere o autor à MACAU. Nessas novas fontes de leitura, teve acesso aos poemas de Wang Wei. “Ainda hoje, os poemas de Wang Wei me dão um grande prazer estético, sem mais explicações. Sinto também prazer na leitura de Du Fu, visto que vivemos em escala planetária em um tempo igual ao dele, e compartilho as suas reacções que vão além do sofrimento e da autocomiseração.” Até que, em 2006, tropeçou em Li Qingzhao. “Ela, sim, me encantou e me fez dar saltos mortais e piruetas na Wangfujing, de Pequim. Era uma mulher forte, de grande sensibilidade, que enfrentava uma fase terrível da história da China.” 

O autor, que admite não ter conhecimentos suficientes da língua chinesa, prefere utilizar o termo “passar para o português” em vez de “traduzir”. Foi exactamente por não ter o domínio da língua original, que Capparelli abandonou a tradução da poesia chinesa. 

 

Shijing 诗经 

Clássico da Poesia, também conhecido como Livro das Odes ou Livro dos Cantares é a mais antiga antologia de poesia chinesa. Acredita-se que foi compilada por Confúcio e é composto por 305 poemas, hinos e canções que vão desde a dinastia Zhou (1027-771 a.C.) ao Período da Primavera e Outono (770-476 a.C.). 

 

 

T 

Taishan 泰山 (Monte Tai) 

Classificado Património Mundial da UNESCO em 1987, localiza-se a Oeste da Província de Shandong. Ao longo de milénios, imperadores de várias dinastias fizeram peregrinações à montanha de 1545 metros, considerado um local sagrado. Poetas compuseram versos e deixaram a sua caligrafia no local, como é o caso de Li Bai. Sérgio Capparelli traduziu assim um poema de Li Bai: 

 

Monte Tai 

Subo o Monte Tai 

madrugada ainda, 

para admirar 

o nascer do sol: 

Com as mãos,  

separo as nuvens. 

 

Tan Xiao 谭笑 (1976, Hengyang, Província de Hunan)  

É licenciada em Letras pela Universidade Zhong Nan de Changsha e mestre em Linguística pela Universidade de Línguas Estrangeiras de Guangdong. Foi intérprete tradutora de português-chinês da Embaixada do Brasil em Pequim e trabalha actualmente como tradutora e professora de chinês para estrangeiros. Casada com o tradutor e diplomata Ricardo Primo Portugal, foi Xiao quem fez a supervisão das obras Antologia da Poesia Chinesa – Dinastia Tang e Poesia Completa de Yu Xuanji. 

 

Tang 唐 (618-907)   

Nome de uma dinastia chinesa e início de uma época de expansão. A reunificação do país, herança da dinastia anterior, trouxe unidade à civilização, uma administração centralizada e maior crescimento económico. Foi promulgado um código de leis administrativas e penais e o sistema de selecção dos funcionários do Estado, através dos Exames Imperiais, foi aperfeiçoado. A capital imperial durante a maior parte deste período foi Chang’an, com uma população que variou entre um milhão e meio e dois milhões e que atraia comerciantes e intelectuais do mundo inteiro. “Foi uma das primeiras vezes da história da Humanidade que um grande império se relacionava com o mundo diplomaticamente e não militarmente, prioritariamente”, refere o tradutor Ricardo Primo Portugal. 

A governação do Imperador Xuanzong (712-755), um homem ligado às artes, é considerado o período de ouro desta época dinástica. Em 755 seria deposto durante a Rebelião de An Lushan. O império nunca se recuperaria totalmente desse episódio. Com a reunificação da China este foi o momento em que “a cultura chinesa chegou a um grau de unificação e maturidade em 3000 anos de história”, refere Ricardo Primo Portugal. De acordo com o autor de Antologia da Poesia Clássica Chinesa, definem-se quatro períodos literários nesta dinastia: (1) Desde a fundação (618) até a subida ao trono de Xuanzong (712), época que foi importante na fixação de géneros; (2) Era Xuanzong até à Rebelião de An Lushan foi considerado o período auge, com destaque para os poetas Du Fu, Li Bai e Wang Wei; (3) Desde finais do século VIII até cerca de 820, caracterizou-se por um círculo literário activo e teve Bai Juyi como um dos representantes, e (4) Período final, que conta com poetas como Li He e Yu Xuanji. 

 

Tao Yuanming 陶渊明 (365–427)  

É considerado um dos grandes poetas do período das Seis Dinastias. Recebeu várias ofertas de trabalho no governo, que aceitou para sustentar a família. Acabaria, no entanto, por se retirar, regressando a casa e dedicando-se aos afazeres do campo. Cunhou a expressão, “Florescer da Flor de Pessegueiro”, um termo hoje adoptado em chinês para “utopia”. Leandro Durazzo é autor da tradução para português do seguinte poema: 

 

no vinho 

moro em meio aos homens 

mas nenhum barulho me perturba. 

“Como pode ser?”, você pergunta, 

seu coração distante se confunde. 

crisântemos colhidos dos arbustos 

montanhas bem ao longe. 

a luz por suas névoas são brilhantes 

e os pássaros voltando todos juntos. 

em tudo há sentido verdadeiro 

mas não tenho palavras pra dizê-lo. 

 

Transcriação  

Na tradução ‘transcriadora’, defendida pelo concretista brasileiro Haroldo de Campos, a forma de apresentação do conteúdo é importante. Haroldo de Campos acreditava que na tradução de um poema, o essencial não era a reconstituição da mensagem, mas do sistema de signos em que está incorporada essa mensagem. Ricardo Primo Portugal, com uma formação ligada a Campos, defende: “A poesia jamais é apenas significado, o texto poético é um texto em que o significado se constrói pela forma”. 

 

Tradução  

Até aos dias de hoje, pouco tem sido feito na área da tradução da poesia clássica chinesa para a língua portuguesa. De destacar o trabalho das últimas décadas dos portugueses António Graça de Abreu e Gil de Carvalho e dos brasileiros Ricardo Primo Portugal e Sérgio Capparelli. “Em Portugal existem trabalhos importantes desde há muito tempo mas eles são muito pouco numerosos se formos comparar, por exemplo, com o trabalho que os americanos, ingleses e franceses fizeram”, refere o tradutor e diplomata Ricardo Primo Portugal.  

 

dificuldade de ~  

O escasso domínio da língua chinesa é uma das maiores dificuldades na tradução dos versos clássicos. António Graça de Abreu, que aprendeu mandarim, realça que, sem o apoio de nativos ou de outras traduções, o trabalho seria difícil de concretizar. “Aprendi a lidar com dicionários, a comparar com outras traduções, portanto tinha sempre ajuda”. No caso de Sérgio Capparelli, o pouco domínio da língua fez com que abandonasse definitivamente a tradução do chinês. À MACAU Capparelli explica: “Do chinês para o  português, era clara a perda da musicalidade que envolve sentido e forma em duas línguas, com estruturas sintácticas tão díspares”. Já Ricardo Primo Portugal, que traduz directamente do chinês, realça que a tradução poética só é possível quando se é capaz de reconstruir o texto da língua original na própria língua. O autor procura “criar uma espécie de poema português alterado, híbrido, sinicizado de uma certa forma”, diz. “Usando os recursos da tua língua. Mas esses recursos são recursos sonoros, recursos visuais. É preciso reproduzir a sonoridade, reproduzir a visualidade daqueles significados do original. Se eu fizesse apenas uma transcrição de significados, eu ia fazer uma espécie de prosa, eu ia perder o essencial.” 

 

U 

“Uma borboleta apaixonada pela flor”  

Poema de Li Qingzhao, autora que numa segunda fase da sua vida – e poesia – transportou para o papel a angústia da morte do marido Zhao Mingheng. Neste poema, a poetisa faz referência a Chang’an, capital da China ao longo de várias dinastias. Aqui a tradução de Sérgio Capparelli e Wu Di: 

 

Noite sem fim. Pouco prazer, muita dor.  

Estava em Chang’an, mas dentro de um sonho,  

E não conseguia encontrar o caminho. 

Queria dizer que a primavera deste ano tem cores belas,  

Flores e lua compondo sombras e brilhos.   

 

Um jantarzinho às pressas, poucos copos e pratos,  

Mas vinho fino de ameixas ácidas:  

Bem como o agridoce do meu coração!  

Bêbada, não ponha flor nos cabelos! Flor, deixa de rir!  

E a primavera como eu, a envelhecer. 

 

 

V 

Vinho 

São várias as referências ao vinho encontradas nas obras poéticas dos autores clássicos, incluindo o poema anterior “Uma borboleta apaixonada pela flor”, de Li Qingzgao. Sobre Li Bai, por exemplo, o tradutor português António Graça de Abreu escreveu na introdução ao livro Poemas de Li Bai: “Li Bai embebeda por demais a sua vida e a sua poesia, para bem de todos nós”. Também Ricardo Primo Portugal deixou escritas as seguintes palavras sobre este poeta da Dinastia Tang: “Inspirava-se no vinho para a composição de uma poesia celestial, marcada pela transcendência, capaz, contudo, de referir-se também aos factos materiais e históricos”.  

Numa entrevista à revista de poesia e crítica literária Sibila sobre a obra de Yu Xuanji, Ricardo Primo Portugal refere que na poesia desta autora há “a exaltação do vinho e da festa; a ideia recorrente de que ‘tudo na vida acontece como sucessão de pares opostos’ – alegria e tristeza, prazer e dor…; a referência à imortalidade”.  

 

 

Wang Wei 王维 (699–759)  

Poeta, músico e pintor chinês nascido na Província de Shanxi no seio de uma família aristocrata. Em 721 passou os Exames Imperiais. “As pinturas-poemas de Wang Wei se perderam, chegando-nos, hoje, apenas cópias feitas por outros artistas. Mas são conhecidos cerca de 400 de seus poemas. (…) Diferente de Du Fu, seus poemas não são realistas, tratando da guerra, da injustiça e dos problemas sociais. E também não incorporam uma visão romântica, exaltando a alegria, o prazer de viver o presente e viagens imaginárias por paisagens taoistas, como Li Bai”, escreveu o tradutor brasileiro Sérgio Capparelli na sua página de Internet, referindo que, como poeta, Wang Wei é conhecido pelas suas quadras, descrevendo cenas bucólicas “com uma grande economia de palavras”. Próximo do budismo chan (zen), passou uma parte da vida em contemplação, voltando por diversas vezes à Corte, onde exerceu funções de administrador ou de conselheiro militar. 

 

 

X

Xuanzong 玄宗 (658-761 ou 762)  

Imperador que governou durante a Dinastia Tang. Grande incentivador das artes e letras, era músico, calígrafo e próximo do poeta Li Bai. Apesar de ter sido um governador responsável nos primeiros anos, foi-se afastando das decisões de Estado. Apaixonou-se pela concubina Yang Guifei, relação considerada uma das mais trágicas histórias de amor do país. Yang usaria a sua influência para favorecer familiares, cujas políticas acabariam por arruinar a autoridade do governo. Com a Rebelião de An Lushan, Xuanzong foge da capital, permitindo que Yang Guifei seja executada. 

O poema Chang Hen Ge (长恨歌) de Bai Juyi, que o tradutor português António Graça de Abreu traduziu como “Canto do Remorso Perpétuo”, retrata esta história de amor. Aqui uma parte: 

 

“O cortejo avança a medo, estandartes hesitam, param, recomeçam a marcha, 

a vinte léguas da capital os seis batalhões recusam continuar. 

A menina das sobrancelhas finas é estrangulada diante dos cavalos, 

jazem por terra os enfeites de seus cabelos, ninguém os recolhe, 

penas de martim-pescador, um pássaro de ouro, alfinetes de jade. 

O imperador esconde o rosto, não foi possível salvá-la, 

chora, suas lágrimas misturam-se com o sangue da beldade morta.” 

 

 

Y 

Yu Xuanji 鱼玄机 (844 – 869)  

Poetisa de Chang’an, viveu durante a Dinastia Tang. Considerada a primeira poetisa feminista chinesa, contestando a posição das mulheres na sociedade, é autora de versos passionais. Yu casou-se aos 16 anos como segunda mulher, convertendo-se mais tarde em cortesã e monja taoista. Morreu aos 26 anos, condenada por homicídio. “Existiu uma corrente de monjas taoistas intelectuais que actuavam na Dinastia Tang e que era uma corrente muito importante, elas tinham monastérios próprios e eram mulheres muito fortes, com uma presença muito forte na sociedade”, refere o autor Ricardo Primo Portugal, que traduziu a obra poética de Yu. O especialista refere que é com a poetisa que “a voz feminina se apresenta pela primeira vez como uma voz forte e impositiva na relação afectiva”.  

Os poemas da autora foram publicados em vida na colecção Fragmentos de Uma Terra de Sonhos no Norte, que não sobreviveu até aos dias de hoje. Os que permaneceram foram recompilados na Dinastia Song (960-1279). 

 

 

Z 

Zhonghua Zihai 中華字海 

Maior dicionário de língua chinesa, publicado em 1994, e que reúne cerca de 85 mil caracteres. É uma ferramenta importante na tradução para o português, segundo refere o tradutor António Graça de Abreu. “É uma espécie de Dicionário de Morais da China, tem lá tudo e também é bibliográfico, tenho aprendido imenso com esse dicionário”. 

 

Zhao Mingcheng 赵明诚 (1081 e 1129) 

Casado com a poetisa Li Qingzhao, também ele foi poeta durante a dinastia Song (ver Li Qingzhao).