Lusofonia cara-a-cara
Quem são os principais representantes dos países lusófonos na China? Aqueles que são as verdadeiras pontes entre a China e as nações de expressão portuguesa? A Revista Macau apresenta os diplomatas dos países lusófonos em solo chinês, mostra por onde estiveram e quais são as suas áreas de interesse
São 15 os embaixadores que representam os países de língua portuguesa neste momento em território chinês. À excepção de S. Tomé e Príncipe, que não possui relações diplomáticas com a China, todos os países lusófonos, da América Latina a África, passando pela Europa e pela Ásia, têm representações diplomáticas no país.
Algumas nações, como Portugal, Angola e Brasil, estabeleceram mais do que uma representação em território chinês, o que demonstra que a diplomacia lusófona na China está em clara expansão. O Brasil, por exemplo, inaugurou este ano uma representação consular na cidade de Cantão, capital da Província de Guangdong.
Em Macau, existem consulados-gerais de Portugal e Angola, enquanto Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau estabeleceram representações honorárias. Por sua vez, Hong Kong recebeu, no início deste ano, um novo consul-geral de Angola. Já em Pequim, a nova “aquisição” lusófona é a Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária de Timor-Leste, que domina a língua chinesa.
Angola
Cônsul-geral na RAEM
O ministro conselheiro Pedro Sobrinho foi nomeado em Julho o segundo cônsul-geral em Macau. Pedro Sobrinho, 61 anos, foi durante oito anos ministro conselheiro na embaixada de Angola em Cabo Verde. O novo cônsul angolano em Macau tem o curso de Administração Pública da Escola Nacional de Administração Pública de Portugal e o mestrado em Relações Internacionais.
Cônsul-geral em Hong Kong
Cupertino de Jesus Pio do Amaral Gourgel, 48 anos, foi nomeado Cônsul-Geral de Angola em Hong Kong em Fevereiro deste ano. Com licenciaturas nas áreas de Química, Oceanografia e Marketing por instituições de ensino superior angolanas, portuguesa e dos Estados Unidos, este é o primeiro cargo de diplomata que desempenha. Grande parte do seu currículo inclui cargos na companhia nacional de petróleo de Angola, Sonagol, onde desempenhava o cargo de director de marketing em Hong Kong.
Embaixador em Pequim
João Garcia Bires é desde Outubro o novo embaixador de Angola em Pequim. Divide a vida da diplomacia com a escrita, sendo autor de três obras literárias. Depois de completar os estudos superiores na antiga União Soviética, exerceu o cargo de professor universitário e de vice-reitor da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique. No desempenho da actividade política, Garcia Bires exerceu o cargo de embaixador de Angola em Moçambique, em acumulação com o de embaixador extraordinário e plenipotenciário de Angola na Swazilândia e Malawi.
Brasil

Cônsul-geral em Hong Kong e Macau
Antônio José Rezende de Castro nasceu no Rio de Janeiro há 63 anos. Em 2010, foi nomeado cônsul-geral para Hong Kong e Macau após ter encabeçado o Consulado do Brasil em Houston, nos Estados Unidos, durante três anos. Depois de se licenciar em Administração Pública em Brasília graduou-se, em 1971, pelo Instituto Rio Branco, a Academia Diplomática brasileira, ingressando na carreira diplomática. Após ter desempenhado várias funções no Ministério das Relações Exteriores, serviu como diplomata na Europa, na América Latina e como ministro-conselheiro em Tóquio. Assumiu as suas primeiras responsabilidades como Chefe de Missão no Consulado-Geral da Ciudad del Este, no Paraguai, em 2000, e foi promovido a embaixador em Dezembro de 2004, ocupando então o posto na Embaixada do Brasil no Quénia.
Cônsul-geral em Xangai
Marcos Caramuru de Paiva, 57 anos, natural do Rio de Janeiro, é um diplomata com uma longa experiência nas áreas financeira e económica. Foi embaixador na Malásia entre 2004 e 2008, presidente da Unidade de Inteligência Financeira em 2003, secretário da divisão de Assuntos Internacionais no Ministério das Finanças entre 1996 e 2003, e director executivo do Grupo Banco Mundial durante três anos.
Cônsul-geral em Cantão
Kywal de Oliveira, 65 anos, é natural do Rio de Janeiro e foi nomeado para dirigir o novo consulado-geral do Brasil em Cantão no ano passado. Licenciado em Ciências Jurídicas e Sociais pela antiga Universidade do Estado da Guanabara, iniciou a preparação à carreira de diplomata em 1971. A sua primeira missão chegou em 1976, ao ser nomeado segundo secretário da embaixada brasileira em Buenos Aires, Argentina. Desde então, passou por Roma, Madrid, La Paz e Miami, desempenhando vários cargos nessas embaixadas. A primeira nomeação como cônsul-geral teve lugar em 1995, em Sidney. Foi também embaixador em Timor-Leste e cônsul-geral em Roterdão. No seu percurso, recebeu várias condecorações não só do Brasil mas nos países por onde passou.
Embaixador do Brasil em Pequim
O embaixador Clodoaldo Hugueney, 68 anos, é formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em Ciências Económicas pela Universidade do Chile, tendo iniciado a preparação à carreira diplomática no Ministério das Relações Exteriores. Em 1993, assumiu o cargo de embaixador em Caracas (Venezuela). Assumiu vários cargos públicos no Ministério das Relações Exteriores, incluindo o de chefe do departamento económico e sub-secretário para a integração e relações comerciais e económicas externas. Passou por Santiago, Washington, Londres, Bruxelas e Genebra a encabeçar missões diplomáticas, como as da Comunidade Europeia ou das Nações Unidas.
Cabo Verde
Embaixador de Cabo Verde em Pequim
Júlio César Freire de Morais, nascido em Moçambique há 52 anos, é embaixador de Cabo Verde em Pequim desde Julho de 2005. Tem o grau de mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de Kiev (Ucrânia), sendo fluente em russo. Antes de ser nomeado embaixador em Pequim, foi durante seis anos director-geral do departamento de Cooperação Internacional do Ministério de Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades. Grande parte da sua carreira foi feita nesse ministério. Porém, entre 1991 e 1994, assumiu funções de encarregado de negócios na Embaixada de Cabo Verde na Federação Russa.
Cônsul Honorário de Cabo Verde em Macau
O empresário e ex-deputado à Assembleia Legislativa de Macau David Chow Kam Fai, 60 anos, natural de Hong Kong, foi nomeado Cônsul Honorário de Cabo Verde em Macau em 2001. O proprietário dos empreendimentos turístico Doca dos Pescadores e Landmark Macau é licenciado em Gestão Hoteleira com uma especialização na indústria do jogo. Foi eleito deputado por sufrágio directo pela primeira vez em 1996. Nas primeiras eleições após a transferência, o seu mandato foi renovado, tendo-se retirado da vida política em 2009. Em 2006, integrou a lista dos dez talentos da China e foi distinguido com o Prémio de Altruísmo da China – Filantropo Benemérito do Ano 2008.
Guiné-Bissau
Embaixador da Guiné-Bissau em Pequim
O embaixador Arafan Ansu Camara foi nomeado para dirigir a embaixada da Guiné-Bissau em Pequim em 2010. O veterano diplomata trabalhou na Suécia, na Guiné-Conacri e na ex-União Soviética.
Timor-Leste
Embaixadora de Timor-Leste em Pequim
Vicky Tchong é a segunda embaixadora de Timor-Leste em Pequim. Foi nomeada em 2011 Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária.
Tchong fez toda a educação primária e secundária em Díli e licenciou-se na Universidade Normal Nacional de Taiwan, prosseguido estudos de pós-graduação na Universidade La Trobe, em Melbourne. Antes de ser nomeada para dirigir a embaixada timorense na capital chinesa, desempenhava funções de secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Secretário-Geral Adjunto do Fórum Macau
Marcelo Pedro D’Almeida, 55 anos, é desde Março o novo secretário-geral adjunto do Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que tem sede em Macau. Natural de Farim, na Guiné-Bissau, Marcelo Pedro D’Almeida licenciou-se em Economia pela Universidade de Havana, em Cuba, onde também se especializou em Comércio Externo. Frequentou uma formação diplomática e consular em Portugal em 1990 e 1991 e iniciou carreira como economista no Gabinete de Estudos e Planificação do Ministério do Comércio e Turismo da Guiné-Bissau em 1993. Cumulativamente, desempenhou várias funções como administrador de empresas, encarregado de negócios em várias embaixadas guineenses espalhadas pelo mundo e na área da consultadoria, entre outros.
Moçambique
Embaixador de Moçambique em Pequim
António Inácio Júnior, 48 anos, foi nomeado para chefiar a Embaixada de Moçambique em Pequim em 2002. Nascido em Quelimane (costa de Moçambique), é licenciado em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Relações Internacionais de Maputo e possui um diploma em Ciências do Desenvolvimento e Cooperação Internacional pela Universidade Moderna de Lisboa. Ingressou no Ministério moçambicano dos Negócios Estrangeiros em 1981. Em 1996, foi nomeado chefe do departamento de África e Médio Oriente e, em 1997, promovido a conselheiro do ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação. Antes de ser nomeado embaixador, desempenhou a função de director da divisão de África e Médio Oriente durante quatro anos.
Portugal
Cônsul-geral de Portugal em Macau
Manuel Cansado de Carvalho, 52 anos, foi nomeado cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong em 2009. É licenciado em Direito pela Universidade Católica de Lisboa. Diplomata desde 1987, tem experiência em Relações Europeias, tendo também estado envolvido em questões de Defesa, na transição da Europa de Leste, direitos humanos e assuntos asiáticos. Esteve envolvido em todas as presidências portuguesas do Conselho da União Europeia e foi porta-voz da Presidência portuguesa, em Bruxelas, em 2007. Esteve presente como membro da delegação portuguesa em mais de 30 sessões do Conselho Europeu, incluindo o lançamento da Estratégia de Lisboa e o euro. Foi temporariamente embaixador de Portugal em Cabo Verde.
Cônsul-geral de Portugal em Xangai
Joaquim Alberto de Sousa Moreira de Lemos, 50 anos, é natural de Lisboa e licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa. A primeira função enquanto diplomata foi na embaixada de Brasília entre 1991 e 1995. Passou ainda pela embaixada de Madrid, onde desempenhou funções durante quatro anos. Foi nomeado cônsul-geral de Portugal em Lyon em 2004. Tornou-se especialista em assuntos do Mediterrâneo e chefiou a representação diplomática portuguesa na Tunísia. Chefia a delegação portuguesa em Xangai desde 2009.
Embaixada de Portugal em Pequim
O diplomata José Tadeu da Costa Sousa, 61 anos, natural do Porto, é embaixador de Portugal em Pequim desde 2010. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi secretário-executivo adjunto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, director-geral dos Assuntos Comunitários e director de Serviços dos Assuntos Multilaterais. Foi também cônsul-geral em Paris e acumulou cargos de embaixador em vários países do Sudeste Asiático - Tailândia, Singapura, Vietname, Camboja, Malásia, Myanmar e Laos.
Uma família que quer conhecer-se melhor
A China e os países lusófonos são uma “família” que se formou há oito anos, diz Rita Botelho Santos, secretária-geral adjunta do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau) e coordenadora do Gabinete de Apoio ao Secretariado Permanente do mesmo Fórum. Estes dois mundos tão diferentes entre si estão a ver as relações económicas e comerciais a consolidar-se, mas “ainda há trabalho a fazer”. Além disso, a China e os países lusófonos querem apostar no intercâmbio cultural, como forma de promover uma “maior aproximação”.
Segundo Rita Santos, a saúde das relações entre a China e os países lusófonos está bem e recomenda-se. “Com a criação do Fórum Macau, em 2003, os laços de amizade e cooperação entre a China e os países de língua portuguesa aumentaram bastante. Antes, quando ia ao Interior da China e falava em países de língua portuguesa, as pessoas só conheciam Portugal e Brasil. Hoje já sabem que também existem países africanos, nomeadamente Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique, e também Timor-Leste na Ásia,” recorda.
A responsável salienta que sem o contributo de Macau teria sido mais difícil construir esta família. “A RAEM beneficia da localização geográfica, da língua portuguesa como um dos idiomas oficiais e laços históricos para contribuir para a união entre os países. Muitas dessas pessoas [lusófonas] sentem-se bem integradas em Macau, como se fosse a sua casa. Os residentes desses países contam com o nosso apoio e estão a ser um bom veículo de comunicação para as próprias nações,” explica.
Ambos os lados cooperam hoje tanto ao nível económico e comercial como na Administração pública, promovendo encontros e acções de formação. Desde a criação do Centro de Formação do Fórum Macau na Universidade de Macau espera-se que esse nível de cooperação seja maximizado. O mesmo se aplica à área cultural.
“Depois da criação do Fórum, a China e os países de língua portuguesa têm um objectivo comum. Todos nós queremos trabalhar para o bem da família do Fórum Macau. Todos falamos com coração e esperança que o futuro seja brilhante em termos de cooperação económica e comercial. Também tem estado a alargar-se à área cultural”, salienta Rita Santos.
Desde 2008, o Fórum Macau apoia a organização da semana cultural dos países de língua portuguesa em Macau, que é posta em andamento anualmente pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais e as associações lusófonas da RAEM, com a denominação de Festival da Lusofonia.
“A semana cultural é apenas a apresentação de espectáculos e das artes dos países, mas é também mais um caminho de cooperação que se reflecte depois na cooperação económica. O conhecimento mútuo das culturas permite uma maior aproximação e relação de amizade que se poderá desenvolver em outras áreas de cooperação”, frisa a secretária-geral, acrescentando que o volume de trabalho tem-se adensado ano após ano. “Ainda temos muito a fazer à nossa frente, o que significa que todos nós vamos continuar a dedicar a nossa atenção para que Macau possa ser uma plataforma plena.”
Rita Santos acredita que tem que haver uma maior consciencialização dos residentes de Macau para a importância de aprender e dominar o português e também o mandarim. “É importante para que qualquer empresário ou autoridade do Interior da China encontre rapidamente pessoas para poder comunicar na RAEM.”
O futuro das relações é bastante risonho. Pelo menos foi essa a mensagem transmitida na última reunião ministerial do Fórum organizada em Macau, em Novembro de 2010. “Ficou provada a importância que os dois lados imprimem ao Fórum Macau. Não só o primeiro-ministro da República Popular da China, mas também ministros dos países de língua portuguesa deram ênfase nos seus discursos ao papel de Macau para as relações luso-chineses. O primeiro-ministro Wen Jiabao salientou o seu reconhecimento do papel de plataforma de Macau, e avançou com a criação do fundo de desenvolvimento do Fórum e o estabelecimento do centro de formação em Macau. Medidas que dão uma nova vida ao organismo e também um novo rumo de desenvolvimento.”
As trocas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa aumentaram 46,35 por cento em 2010, para 91,42 mil milhões de dólares norte-americanos, de acordo com dados divulgados pela alfândega chinesa. Os dados resultam de um ano de fortes trocas comerciais entre a China e todos os países de língua portuguesa, durante o qual Pequim vendeu produtos no valor de 29,56 mil milhões de dólares e comprou bens no valor de 61,85 mil milhões de dólares. O Brasil é o principal parceiro lusófono da China, seguido de Angola e Portugal.


