Era uma vez.. um território onde era escassa a oferta de livros em línguas eurpeias. Esses tempos, porém, podem ter dias contados com o aparecimento, recente e quase simultâneo, de novas livrarias e secções com publicações em línguas portuguesa e inglesa, que se juntam às já existentes. Um reflexo da sociedade local, dado o cada vez maior número de residentes estrangeiros e consequente maior procura de livros. A história de Macau, pelo menos no que se refere à leitura, parece querer caminhar para um final feliz.
Mariana Palavra (texto) e Fernando Madeira (fotos)
To Bloom... florescer, ostentar frescura. A designação inglesa deu origem a um dos mais recentes espaços de leitura e leitores. Mesmo ao virar da esquina, no Largo do Pagode do Bazar, os livros da Bloom aparecem em duas línguas, desde que a livraria abriu as portas há alguns meses. “Foi com essa ideia de começar a criar uma colecção de livros que aposto nas obras portuguesas que não existiam em Macau, nomeadamente de novas editoras que surgiram em Portugal. Temos muita arte e aqueles livros que vão inspirar a vida de uma pessoa”, enumera António Falcão, um dos responsáveis pela livraria. Livros relacionados com a China, a defesa do ambiente, a salvação do planeta ou obras de autores portugueses traduzidas para inglês prometem ligar-se ao leitor, numa relação mais pessoal do que comercial, como esclarece António Falcão. “Queremos estabelecer uma ligação entre os livros e as pessoas que nos visitam, não é só querer vender, queremos ter objectos que vão passar a fazer parte da vida das pessoas”.
Fim dos tróleis
A Bloom foi sendo escrita devido à escassez em Macau de livros em línguas europeias. A Internet e deslocações à vizinha Hong Kong eram algumas das alternativas para quem não lê caracteres chineses.
Foi também por essa razão que a BookaChino começou a ganhar forma. “Há uma óbvia necessidade de haver um mercado. Há muitos expatriados a vir agora para Macau. Há macaenses e chineses que querem obter publicações inglesas mas não conseguem, têm que ir a Hong Kong. Tenho muitos amigos que iam lá ao fim-de-semana e voltavam com um trólei de revistas e livros”, conta Jason Broome, da BookaChino.
A livraria abriu as portas nos Novos Aterros do Porto Exterior (NAPE), no início deste ano, mas a ideia começou a nascer há cerca de dois anos, numa altura em que já era dada como certa a chegada de mais estrangeiros para residir em Macau. Shonee Mirchandani, proprietária de várias livrarias em Hong Kong, veio à RAEM espreitar eventuais oportunidades de negócio. A viagem acabou por não dar frutos. No entanto, em meados de 2006, com a colaboração de Jason Broome, este projecto comercial começou a dar os primeiros passos.
De livro em livro, as prateleiras da loja começaram a ficar compostas. Actualmente, na BookaChino podem folhear-se publicações em língua inglesa, nomeadamente grandes êxitos de ficção, livros especializados em economia e também revistas variadas para contentar corpo, mente, aspirações artísticas ou sociais. Leituras para “um mercado em expansão”, como explica Jason Broome. “Em Macau há muito potencial para uma série de coisas. Alguns dos meus amigos abriram bares, restaurantes e outros negócios. Então, em vez de fazer algo que eles estão a fazer, por que razão não fazer algo que ninguém está a fazer?”. Entretanto, porém, já há mais gente a fazê-lo.
Na Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, a um passo do Tap Seac, está localizada a Plaza Cultural Macau, uma ampla livraria, que sempre reservou um cantinho à língua inglesa, nestes já longos anos da sua existência. Apesar do canto ainda ser suficiente para a procura, a Plaza Cultural Macau começou a ler os sinais da mudança. “Macau começou a mudar. Cada vez mais estrangeiros, que falam sobretudo inglês, estão a viver cá. Por outro lado, também têm vindo muitas pessoas da China Continental. Muitos deles querem aprender a língua inglesa”, explica Waiman Sit, funcionária da Plaza Cultural Macau. A piscar o olho para o negócio, a livraria resolveu abrir, mesmo na porta ao lado, uma secção inglesa. As viagens e a ficção são as especialidades da (pequena) casa. Waiman Sit ainda anda às voltas com o computador e com um negócio que até agora desconhecia. Foi contratada em Abril para se ocupar do atendimento desta secção inglesa que abriu em meados desse mês. Entrou assim pela primeira vez no mundo dos livros. “O que mais gosto são os livros de viagens. Adoro viajar! Mas ainda não tive tempo de explorar tudo o que está nas estantes”, afirma Waiman Sit, com uma alegre desconfiança de que passará a ter mais tempo para ir passando os olhos pelo mundo.
Leitores chineses aderem
Cristina Lai há muito que anda nestas andanças dos livros. Trabalha na Livraria Portuguesa desde a sua abertura, em 1985. Pelo meio, ainda esteve ausente cerca de quatro anos, mas acabou por regressar. Dezoito anos de casa que lhe permitem ir anotando as mudanças. “Depois de 1999, comecei a notar que há mais jovens a aprender português. Não sei se por causa do curso do Direito, não sei. O Instituto Português do Oriente (IPOR) também tem tido mais alunos de português”. Cristina Lai sabe do que fala porque estes alunos passam cada vez em maior número pela Livraria Portuguesa. Procuram livros de estudo, mais técnicos, ou de aprendizagem do português. “Pelo contrário, temos menos clientes portugueses. Muitos partiram antes de 1999, os que ficaram são fiéis, continuam a vir mas talvez comprem menos”, lamenta. A crise parece também ter atingido os livros para crianças e jovens, obras que se vendem muito menos. No entanto, a língua e a cultura portuguesas não estão de todo fora de moda, nomeadamente junto dos turistas de Hong Kong e até dos japoneses que por aqui passam. “Por altura dos cursos de Verão de língua portuguesa, vêm cá sempre muitos bolseiros japoneses, compram livros e música popular portuguesa”. Como que a rivalizar, é também significativo o número de estudantes da China Continental que procura na Livraria Portuguesa obras relacionadas com Portugal.
De facto, a comunidade chinesa local não passa ao lado destes espaços de leitura em línguas estrangeiras. Em alguns casos, são até os principais clientes. “Vêm muitos pais à livraria comprar para os filhos gramáticas e outros livros de estudo da língua inglesa”, esclarece Waiman Sit, funcionária da Plaza Cultural Macau.
A livraria abre a porta a outras línguas, com a oferta, ainda limitada, de gramáticas em espanhol, alemão ou francês. Na BookaChino também passam cada vez mais jovens estudantes chineses, à procura da língua inglesa, através dos livros.
Religião trilingue
Lamentam que o espaço seja reduzido. As Filhas de São Paulo queriam dar mais livros e leituras, sobretudo agora que as escolas e as bibliotecas parecem querer reforçar os respectivos acervos. De qualquer forma, na área da Livraria S. Paulo – já com décadas de existência - conseguem tripartir as prateleiras em línguas chinesa, portuguesa e inglesa. Apesar das publicações religiosas dominarem o espaço, é com orgulho que as irmãs apresentam um catálogo mais diversificado. “Temos livros de diferentes géneros. Os portugueses, por exemplo, encontram aqui obras da área do direito, temos livros destinados às crianças e aos adolescentes também com muita saída”, explicam as irmãs Domenica e Francesca.
As Irmãs Paulinas ou Filhas de S. Paulo chegaram a Macau em 1969. Nesse mesmo ano, nascia a Livraria S. Paulo. A localização nem sempre foi a mesma, porém, os princípios não se alteraram com o correr dos anos. “Este é um local para as pessoas também encontrarem alguma tranquilidade. Um espaço para todos que procuram alguma paz”, afirma Domenica Roña.
As alterações demográficas do território não passam ao lado das Irmãs Paulinas. Nos últimos dois anos, têm aparecido na livraria cada vez mais estrangeiros, sobretudo americanos, à procura de livros em língua inglesa. Pelo contrário, os portugueses estão em tendência inversa. Durante muitos anos, os clientes chineses eram inexpressivos, agora são a maioria. “Aparecem também muitos chineses do Continente, nomeadamente jovens, que compram não só guias de viagem mas também bíblias. Como nem todos são cristãos, a Bíblia deve ser também uma forma de aperfeiçoarem o inglês”, comenta Domenica Roña.
Os clientes mais fiéis continuam a ser os católicos. Por isso, aproveitando-se do facto de estar localizada a poucos passos da igreja, a Livraria S. Paulo está aberta aos domingos, “para apanhar as pessoas quando saem da missa”, brincam as irmãs.
Letras musicais
Nasceu livraria, mas parece ser a música que sempre comandou. Debruçada sobre o Largo do Senado, a Pin-to Livros começou por combinar palavras e sons. Livros em língua chinesa e, por vezes, perdidos numa estante, obras em língua inglesa relacionados com arte e cultura... No ar, desde sempre se ouviu a música colocada à venda num dos cantos da sala. “Adoro estar aqui, adoro música e às vezes tenho oportunidade de conhecer músicos e até escritores...não muito famosos”, conta divertida Inês Kuan, que trabalha nos tempos livres na livraria.
A páginas tantas, a música, alternativa aos circuitos comerciais, passou a pedir mais espaço. Nasceu assim, em Setembro de 2006, a Pin-to Música, um lance de escadas acima. Por arrasto, para o novo espaço, foram também os livros de design, arquitectura ou fotografia... em língua inglesa. “À Pin-to vêm muitos estrangeiros...portugueses. Trinta a quarenta por cento dos nossos clientes são portugueses”, explica a sorrir um dos vários jovens que trabalham a tempo parcial nas Pin-to. Tal como os colegas e o patrão, é um apaixonado pela música. “Adoro este trabalho, adoro a música, posso ouvi-la o tempo todo, ler já não gosto tanto, não tenho esse hábito”, confessa.
Para além de uma maior oferta musical, a abertura da Pin-to Música fez também multiplicar os livros em língua inglesa. Para além da arte, os romances são a mais recente (e tímida) aposta, assim como os livros para crianças.
Ler o Espaço
Para além de palavras e imagens, as novas livrarias querem também oferecer um espaço. Um local onde apeteça ficar. O Carrossel não teve uma tarefa fácil, uma vez que queria agradar a um público exigente... crianças dos 2 aos 12 anos. Para criar um mundo de fantasia não existem só os livros infantis, há móveis coloridos e até um cavalinho de carrossel. “Gosto muito de trabalhar aqui. É muito divertido, as crianças brincam neste espaço, é sempre uma divertida confusão. Não podem, mas querem sempre subir para o cavalo”, conta deliciada Amy Ng, funcionária do Carrossel. O espaço abriu no Natal de 2006 precisamente por não existir em Macau nenhuma livraria exclusivamente dedicada às crianças. Os livros são em língua inglesa, os clientes, porém, são sobretudo portugueses e chineses. “É uma forma das crianças brincarem desde cedo com a língua inglesa. A dona da loja, que é portuguesa, fica muito feliz por saber que muitos chineses vêm cá. É bom saber que não há uma barreira de culturas”, refere Amy Ng, satisfeita por trabalhar pela primeira vez neste tipo de negócio.
Para abrir o apetite aos leitores, a BookaChino combina livros, café e bolinhos. “Teremos clientes que vêm pelo café, pelos doces e por tudo o resto. Se vamos a qualquer café do mundo, olhamos à volta e as pessoas estão a ler livros, revistas e jornais. Por isso, se nós vendermos livros, revistas e jornais, os clientes não trazem os seus. É uma situação vantajosa para ambas as partes”, explica Jason Broome, precisamente sentado junto ao pequeno bar que compõe parte do espaço da BookaChino.
Vermelho e branco são as cores que fazem a Bloom. O espaço convida à tal ligação entre leitor e livro, desejada por António Falcão. Uma vez que se pretende dar vida à literatura, o espaço é utilizado para apresentação de obras. “A ideia era criar um eixo no centro da cidade com coisas que acontecem, criar uma rede de criatividade, a começar pela livraria e por outras actividades que tivemos e vamos ter”, esclarece. E a Praça do Pagode do Bazar pode bem ser o ponto de partida para uma leitura de Macau...