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O posto de Xangai

Dulce Dias (texto e fotos)

Este posto na China é uma criança desejada. Assim define Joaquim Moreira de Lemos o cargo de cônsul geral de Portugal em Xangai que agora ocupa. Mordido pelo “bichinho” da Ásia, em 2007, quando foi à Indonésia, ficou de olhos postos nas oportunidades. E quando viu a vaga para Xangai, não hesitou.

O posto de Xangai
é uma criança desejada

Para Joaquim Moreira de Lemos, Xangai é a cidade onde tudo está a acontecer e sente-se um privilegiado por poder ver ao vivo e a cores o crescimento desmesurado da China. Aos 48 anos, acabadinhos de fazer – a 1 de Setembro -, sente-se uma criança aos pulinhos de entusiasmo, como ele próprio confessa. Um entusiasmo com o qual contagiou a família – a mulher, Paula, e o filho, João. Entre a decisão e o momento de aterrar, de armas e bagagens, na megalópole chinesa, toda a família se empenhou a estudar a língua, rendida já às promessas da cidade grande.

O Cônsul que queria ser arquitecto

Extremamente optimista, bem-humorado e afável, o cônsul é também meticuloso e organizado. Não é pois de estranhar que, aos 15 anos, soubesse exactamente o que queria fazer da vida. Queria ser arquitecto. Foi ungido pela família com os óleos que o deviam tornar arquitecto – diz, com esta capacidade de brincar com as palavras que o caracteriza. Enquanto todos os outros meninos sonhavam ser bombeiros ou jogadores de futebol, Joaquim queria ser arquitecto e perpetuar a obra do avô, que nunca conheceu mas que trabalhou com o mestre do modernismo Raul Lino, e com ele foi um dos co-participantes do chamado Movimento da Casa Portuguesa.
Depois um belo dia, aos 17 anos, quando acabou o então sétimo ano, fez um teste no Instituto Português de Orientação Profissional. E a este organismo público deve o que é hoje, admite. A elevada capacidade persuasiva apontava para uma carreira em Direito. Uma mudança de planos que o pai, homem esclarecido, aceitou de bom grado. Assim, em 1979, Joaquim Alberto de Sousa Moreira de Lemos é admitido na Faculdade de Direito de Lisboa. Dois anos depois, detestava o curso. Mas como é muito disciplinado e gosta de terminar tudo o que começa, só saiu da Faculdade em 1984, já com o diploma de Direito no bolso e uma honrosa média de 14 valores.

O caso do professor e da aluna

Um dia, acompanhou uma colega que queria inscrever-se na reitoria para dar aulas. Mas acabou por ser Joaquim Moreira de Lemos quem se inscreveu e pouco tempo depois estava a leccionar a cadeira de Ciência Política e Direito Constitucional.
Um pormenor, é certo, em termos de percurso profissional, mas um momento crucial para a vida pessoal. Numa das suas turmas, estava aquela que viria a ser a senhora consulesa geral em Xangai. Com humor, recorda que foi mais “um caso” de um professor com uma aluna – nada de grave, o professor tinha então 23 anos e a aluna 19!
Podia ter ficado a dar aulas na faculdade, ou na firma de auditoria Arthur Andersen, por onde passou, ou ter ingressado na advocacia, mas preferiu o concurso de adido de Embaixada, do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O seu primeiro posto consular foi em Brasília e é sempre com um brilhozinho nos olhos que nos fala dos tempos do Brasil. E até nos confessa que desfilou numa Escola de Samba, vestido de marinheiro, em ‘Lycra’, mas garante que as fotografias estão escondidas num cofre... Do consulado de Brasília, passou para o de Madrid, em Espanha, e para o de Lyon, em França. Pelo meio, andou pela zona do Mediterrâneo. Foi responsácel pela representação diplomática na Tunísia. Na altura, para facilitar o contacto com os seus interlocutores, explicava-lhes que nasceu em Lisboa, encostado às muralhas do Castelo - mas do lado de fora, do lado dos mouros.
Especialista nas questões do Mediterrâneo, Joaquim Moreira de Lemos vira-se agora para outro mar, o da China. Mas quando lhe falamos do final da carreira, um dia, como embaixador, e lhe perguntamos onde a imagina, é com sotaque brasileiro que nos responde: “Sabe que eu não sei?...”

 


  IV Série - N° 14
  



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