Segunda-feira, Agosto 3, 2020
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Macau no caminho das empresas portuguesas

 

 

 

Os números comprovam o sucesso: mais de 80.000 visitantes e a concretização de 35 projectos comerciais ao longo dos quatro dias em que decorreu a X Feira Internacional de Macau (FIM), realizada no Centro de Convenções da Torre de Macau, entre os dias 20 e 23 de Outubro. Sob o mote “Promoção da Cooperação Regional e Desenvolvimento da Economia Diversificada”, 110 delegações, provenientes de 36 países ou regiões, usaram a FIM como montra. Afinal, ver e ser visto era o objectivo.

Organizada pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), com a co-organização de várias entidades locais e regionais, o evento destacou-se também pela maior participação de sempre de empresas portuguesas na FIM. Reflectindo o actual interesse da China pela Lusofonia, os restantes países de expressão portuguesa ocuparam a área exterior dedicada às exposições: Brasil, Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné-Bissau, Moçambique e Angola distribuiram-se por um total de 40 stands representativos de 25 empresas e organismos de promoção.

Portugal apresentou-se com 30 empresas, incluindo os sectores agro-alimentar, têxteis e confecções, novas tecnologias, mobiliário, materiais de construção e produtos farmacêuticos. Contudo, as empresas dedicadas à produção e distribuição de vinhos foram as que suscitaram maior interesse junto dos visitantes.

José Eduardo Lopes, presidente das Caves de Santa Marta, situadas na região demarcada mais antiga do mundo, o Douro, considera “o mercado asiático cada vez mais aliciante.” Depois de Macau, a delegação duriense continuaria o périplo até Cantão, capital da província de Guangdong, e a Xangai, capital económica da China.

Manuel Geraldes, delegado do Instituto das Empresas para os Mercados Externos (ICEP) na Região Administrativa Especial de Macau, reiterou o sentido das intenções dos empresários portugueses: “Macau por si só é um mercado algo limitado para os exportadores portugueses. Mas através do turismo, especialmente do que provém da China Continental, funciona como uma montra de produtos que poderão depois ser exportados para a República Popular da China”. A Feira Internacional de Macau, já com 10 edições, “ganhou um importante estatuto de bolsa de contactos e de negócios. Oportunidade, essa, que deve ser aproveitada pelos empresários portugueses”, alertou Manuel Geraldes.

De facto, grande parte das exportações portuguesas para Macau e Hong Kong aumentaram 11 por cento no primeiro semestre deste ano, sendo que 20 por cento dessas vendas reportam-se a equipamentos eléctricos e cinco por cento aos vinhos.

Os empresários portugueses procuram orientar-se para lá das retomas sempre adiadas.

 

A porta sempre aberta

 

Narana Coissoró foi um dos visitantes atentos da X FIM. Na qualidade de investigador chefe do Instituto do Oriente (I.O.) da Universidade Técnica de Lisboa, o académico deslocou-se a Macau a propósito de um projecto que o I.O. desenvolve: “Macau como placa giratória das relações económicas da China com os países lusófonos”.

“Viemos falar com os empresários portugueses, os representantes políticos na RAEM e também com o senhor Chefe do Executivo, Dr. Edmund Ho. Havemos de ir também a África e aos restantes países lusófonos. O projecto termina daqui a três anos e contamos apresentá-lo em Macau”, revelou.

Neste sentido, Narana Coissoró nota que Macau mais não faz do que aproveitar, e deixar que aproveitem, as muitas especificidades que detém. “Não é de estranhar que Macau tenha servido como porta, quer para a China, quer para os países lusófonos, já que tradicionalmente a cidade está ligada à lusofonia”, explica, garantindo que o interesse é recíproco.

Por parte da China, a adesão à Organização Mundial do Comércio acelerou o processo da elevação do gigante asiático a potência mundial. Das implicações desse processo fazem parte as relações com os países lusófonos.

Angola, afirma Narana Coissoró, é o exemplo mais evidente dessas relações. O ouro negro angolano é tão precioso para a indústria chinesa como a capacidade construtora dos asiáticos para o desenvolvimento angolano.

“Apesar de a China ter sido a grande potência a ajudar Angola e Moçambique a conquistarem a independência, não dormiu à sombra dos seus feitos passados e renova constantemente os seus laços. A grande política da China é estar presente, adaptar-se às novas realidades, neste caso à globalização.”

Relativamente a Portugal, acredita que o país tem um papel fundamental a desempenhar. “Se Macau é a placa giratória na China, Portugal é a placa giratória na Europa. A China tem outros canais, mas Portugal é um dos acessos da China à União Europeia”. Além disso, continua, “Portugal tem relações privilegiadas com os PALOP.”

Todavia, considera ainda que o actual momento de crise que Portugal atravessa, “cada vez mais grave”, lamenta Narana Coissoró, faz com que a prioridade seja “ultrapassar os problemas internos.” Depois, “quando levantarmos economicamente a cabeça, cá estaremos para dar um abraço a Macau e à China. Como antigamente”, vaticina.

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