Segunda-feira, Agosto 3, 2020
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Passo a passo, pelas ruas da história

 

 

Embalados pelas ondas do Delta do Rio das Pérolas, com mais leito por onde correr para os mares do Sul da China, os chineses ergueram há mais de cinco séculos o Templo de A-Má. É a pedra de toque do percurso que em Julho de 2005 a UNESCO elevou a Património Cultural da Humanidade. Ali, onde um dia os portugueses, segundo a tradição, a salvo de uma tempestade, encontraram o nome para esta terra abençoada, começa a história da cidade antiga. Num longo passeio pelas memórias, o historiador Jorge Cavalheiro lembra o passado que não volta e um presente que Macau deu ao mundo: a sua multiculturalidade.

O Sol monta a brasa na calçada portuguesa que banha o Templo de A-Má. Jorge Cavalheiro lança o olhar sobre o monumento que parece ter brotado dos rochedos da encosta da Colina da Barra. Agrada-lhe a harmonia entre a obra humana e a Natureza. No pequeno lanço de degraus do templo entram e saem os passos apressados dos turistas. Muitos turistas chineses, que em Macau espreitam do buraco da fechadura o mundo ocidental, ainda hoje pedem sorte e saúde à deusa A-Má. O historiador português, que há muitos anos fez desta região sua morada, acredita que ali estão “os inícios de Macau”.

Durante vários séculos, pescadores festejaram as alegrias e carpiram desaires da faina do mar naquele espaço sagrado. “Aqui passavam as mulheres e os homens com os seus chapéus de bambu de abas muito largas. Vestidas com calças pretas e uma espécie de cabaias, elas andavam descalças e com as crianças num suporte às costas. Mais do que simplesmente turistas, eram verdadeiros crentes”.

Era ali, junto ao templo, que os juncos dormitavam depois de horas a fio na pesca. Professor na Universidade de Macau, Jorge Cavalheiro defende uma herança histórica que não sorri à calçada portuguesa, hoje morada de um quiosque de pintura ainda fresca, decorado como manda a tradição europeia, onde reluz a bugiganga turística.

 

A Barra do templo dos chineses

 

Onde hoje se encontra uma mescla de motivos do Oriente e Ocidente, o mundo antigo era profundamente chinês. Nada disso existia, “era tudo mar”, esclarece o historiador, lançando o braço no ar que cobre o horizonte que encara o templo.

No tempo que se contava pela Lua, as festas do Ano Novo Chinês eram “um ritual de retorno aos tempos míticos da origem, da pureza; aos tempos sagrados em que os homens, com forte formação moral, eram solidários”. Em resposta ao apelo do recomeço de uma nova vida, os pescadores ali rumavam, “agradecendo as bênçãos do ano anterior, pedindo também a boa sorte para o ano que começava”.

Os vendilhões eram outros habitués. Eram muitos, acentua. Os negociantes saltimbancos renovavam as suas vendas de acordo com a estação do ano. No Verão, o fufá, espécie de taufu mole em calda doce; e a gelatina preta, feita a partir de uma erva escura e servida com um molho doce, davam sempre boas contas ao fim do dia.

Conta o historiador que os vendedores ambulantes se concentravam em vários pontos da cidade, compondo uma feira gastronómica volante. Negociantes de espírito nómada que foram gradualmente desaparecendo. “As transformações económicas de Macau e o desinteresse dos jovens pela ocupação” fizeram definhar a prevalência desta actividade, sobretudo nos anos 70 e 80. Mais recentemente, “por questões higiénicas”, o governo proibiu o negócio. A Jorge Cavalheiro bate a saudade do colorido e da animação, que “são parte do património de Macau e integram a memória colectiva de uma geração”. Imagina “uma zona pedonal e tradicional com este ambiente recriado de acordo com as condições higiénicas recomendáveis”.

Já na Calçada da Barra, numa verdadeira gincana pelo passeio, contornando as árvores e evitando os carros, impõe-se aquele edifício de toque arabesco: o Quartel dos Mouros, segundo estandarte do Centro Histórico de Macau. “Tem uma messe e parece que serve bons pratos”, recomenda Cavalheiro. Fica bem próximo da Casa do Mandarim, ainda a ser recuperada. Este edifício chinês foi morada de Zheng Guanying, escritor que inspirou muitas das ideias de Sun Yat-Sen e Mao Tse Tung. Sobre a Casa do Mandarim ainda há-de cair o véu. Por ora, resta-nos aquele cume tradicional, podendo ainda seguir-se as linhas chinesas num ou noutro intervalo do tapume.

Até desaguar no Largo do Lilau, os pés dividem-se entre o asfalto e o passeio, tão estreito que as raízes das árvores se encavalitam na superfície em busca de liberdade. Já no alto, a clareira do Largo do Lilau, espaço das histórias macaenses, acolhe a nascente que noivou tantos portugueses. O povo sabe que quem daquela água beber jamais esquecerá Macau.

 

Ao largo da Lilau dos macaenses

 

Num tear de sábias palavras, o historiador tece a trama do cenário macaense. Nos finais do século XIX e princípios do século XX, algumas famílias endinheiradas ali se estabeleceram. “Tinham trabalhado em Hong Kong e usaram parte das suas economias para comprar uns casebres chineses e construir casas. Eram famílias conhecidas e edificaram alguns palacetes”.

No Largo do Lilau a luz desfaz-se em contrastes pela tarde que se escapa no tempo. As portadas castanhas das janelas trancam segredos antigos, moradas de famílias endinheiradas que ,no tempo da II Guerra Mundial, desfizeram-se de “faqueiros e muitos bens”. Com outras crises, “muitas acabaram por vender as casas, que valorizaram nos anos 80”. Agora, “há cerca de 20 anos que aqui não mora ninguém”.

O eco do silêncio dessas casas que se acercam do largo não fica sem resposta. Na moldura arquitectónica portuguesa mora, afinal, uma família chinesa. Com a porta da rua escancarada, provoca as casas fechadas. À filha do dono da casa, a pequena Choi Kay Weng, agrada a presença de curiosos. E o pai desfaz-se em sorrisos. Choi lá se dispersa na brincadeira com o seu pequeno cachorro. Corre despreocupadamente no largo, que há mais de 40 anos era palco das tropelias de muitas crianças, sempre de olho na senhora das torradas, que todos os dias corava o pão nas brasas. Não tarda as escolas dão por findo o dia e ao largo  regressa a animação. A senhora das torradas não voltará.

Partimos do Largo do Lilau, pela Rua do Padre António, em direcção à grande praça portuguesa – o Largo do Senado. Mas antes daqueles tesouros da Macau Antiga e desconhecida, erguem-se os imponentes edifícios que a UNESCO fez Património Cultural da Humanidade. Das igrejas neoclássicas, ainda hoje o pano de fundo da fé da comunidade, ao Teatro D. Pedro V, renovado teatro de eleição dos macaenses, passando pela Biblioteca Sir Robert Ho Tung, compõe-se um dos cenários mais nobres da cidade.

 

O passo largo português

 

Pela estreita Calçada do Tronco Velho toma-se o pulso ao coração da cidade. O colossal Leal Senado namora a sua praça. Com a Avenida Almeida Ribeiro aos seus pés, eleva-se o pináculo da singularidade multicultural de Macau. O enxame de gentes, que nem à noite recolhe, faz daquele um espaço real.

Aceso o rastilho das memórias, nos olhos de Jorge Cavalheiro reflectem-se os riquexós, que até ao final da II Guerra Mundial dominavam as artérias de Macau. “Só depois veio a era dos triciclos, havendo até – imagine-se – chauffeurs privados que levavam as crianças à escola” e onde se acomodavam “as senhoras e os senhores” até àquele destino favorito da cidade – a famosa Almeida Ribeiro. Abundavam as lojas de artigos sofisticados, “comprava-se uma gravata ou uma camisa mais delicada. Também existiam muitas ourivesarias”.

Nas arcadas dos edifícios do Largo do Senado, muitos dos quais foram em tempos solarengas residências, ainda hoje se distribuem muitas lojas, mas não as de outrora. Os alfaiates continuam a tecer os sonhos das senhoras, mas nas ruelas paralelas.

Torneado o largo, quase na sombra da Igreja de São Domingos, o historiador lamenta o desaparecimento da barbearia Xangai, tão procurada pelos portugueses, gratos por tratos e carinhos raros. Entrar naquela redoma chinesa era como viajar no tempo. Em seu lugar, um armazém de dois andares, sem montra, oferece-se ao Largo do São Domingos. Arranjadas as fachadas portuguesas, satura-se o interior de modernidade.

De alma lavada na alvura do edifício da Santa Casa da Misericórdia, segue-se até ao grande estandarte de Macau, as Ruínas de São Paulo, onde dizem estar esculpida a história da religião católica na Ásia. As casas da Rua de São Paulo tinham outras vidas. Jorge Cavalheiro ainda é do tempo em que ali viviam muitas famílias ricas. Também essas relíquias da construção portuguesa não resistiram ao tempo e ali brotam agora traçados menos singulares.

Pela Colina do Monte insinuam-se as Ruínas de São Paulo. A clivada escadaria acolhe o manto de admiradores. No altar da cidade, brilha a coroa da Acrópole de Macau.

Depois do recorte das muralhas da Fortaleza do Monte, o caminho é descendente, em direcção à Casa Garden, sede da Fundação Oriente. Todos os santos ajudam porque esse também é espaço religioso e de encontro de culturas. A Fortaleza da Guia fica a um salto, na cidade pequena e sedutora das gentes que por ela passam. Com a tarde cai o pano de outra Macau, mais uma das suas muitas faces. As luzes da história antiga da cidade acendem-se e a do Farol da Guia é a última de percurso de 25 sítios, mas a que mais longe projecta o Centro Histórico.

 

A História na ponta da língua

Há muitos anos que o historiador Jorge Cavalheiro conduz pela Macau Antiga os olhares de quem lhe dedica o dia-a-dia. A todos surpreende, nos recantos que revela, com a História que conhece como à palma da mão. Também este português terá bebido da fonte do Lilau… e nunca mais esqueceu a cidade que aos dez anos lhe foi confiada como morada. Por Macau se quedou até ir estudar História na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Em Portugal, viria a leccionar por escassos anos, regressando a Macau já nos anos 80. Foi na Escola Comercial Pedro Nolasco que pela primeira vez contou com uma plateia de alunos.

Activo participante de numerosos projectos de valorização da História de Macau, no final dos anos 90, rumou ao Japão para ensinar Cultura e Literatura portuguesas, bem como História de Portugal. Em Quioto, aprendeu a língua e a cultura japonesa, know-how que posteriormente transmitiu em algumas conferências. Especialista também na arte de beber o chá, Cavalheiro regressou a Macau há dois anos, passando testemunho na Universidade de Macau.

 

 

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