Quinta-feira, Julho 2, 2020
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O espírito de Macau

 

 

O ar afável de fazer girar a conversa prendia quem o conhecia ou os que com ele privavam. No Clube Militar, na Assembleia Legislativa, nos espectáculos e acontecimentos desportivos ou em muitas outras ocasiões, Cheong Vai Kei, que nos deixou em Dezembro, evidenciava sempre a mesma postura.

O sorriso aberto, a atenção com que ouvia o interlocutor e a cordialidade que colocava em todos os contactos que mantinha, eram traços marcantes de uma personalidade que nas últimas décadas contribuiu para que Macau ultrapassasse sem sobressaltos as transformações sociais, políticas e económicas verificadas nos últimos anos. A morte do empresário e antigo deputado, constituiu, de facto, uma enorme perda, uma vez que o presidente do Clube Militar era uma figura de consenso, de união entre as várias comunidades residentes na Região Administrativa Especial de Macau. Personificava o verdadeiro espírito de Macau, como notam os amigos e os que ao longo da sua vida trabalharam com ele nas mais diversificadas áreas. No desporto, na política, no associativismo.

“Era um homem inteligente, de consensos, que procurava sempre encontrar as melhores soluções. Um profundo conhecedor da realidade de Macau”, lembra o deputado e membro do Conselho Executivo, Leonel Alves. O antigo deputado Jorge Fão destaca a actuação na Assembleia Legislativa. “Conhecia as matérias de muitas áreas, as suas opiniões eram muito importantes. Era discreto, não gostava de falar muito, mas dava um grande contributo, nas Comissões Especializadas, aos trabalhos da Assembleia Legislativa”.

Natural de Macau, onde nasceu em Setembro de 1957, Cheong Vai Kei esteve durante anos ligado ao desporto, tendo exercido funções no Comité Olímpico (secretário-geral), na Comissão Organizadora do Grande Prémio e dos Jogos da Ásia Oriental.  Manuel Silvério que, conjuntamente com Cheong Vai Kei e Morais Alves, trabalhou durante anos na promoção do desporto local e na afirmação de Macau no contexto internacional, recorda o seu trabalho foi incansável nos bastidores a trabalhar em prol de Macau. Amigo do seu amigo, vai ser muito difícil substitui-lo no Comité Olímpico”.

Presidente do Clube Militar desde 2001, mantinha uma forte ligação à comunidade portuguesa. José Brás Gomes, vice-presidente da colectividade, diz que “era um grande homem, com características especiais, um conciliador, que fazia a ponte entre as comunidades portuguesa e chinesa”. Manuel Geraldes, que em 1995 convidou Cheong Vai Kei a integrar a direcção do Clube Militar, considera que se tratava de “um homem bom, apaziguador, atento aos problemas dos outros. Com grande sensibilidade política e um enorme sentido universalista, mostrou sempre grande atenção aos problemas sociais”. Facetas que demonstrou na maneira como conduziu o Clube Militar ao longo dos últimos anos, em que a agremiação “continuou a ser um ponto de encontro e de referência para a comunidade, um marco da gastronomia portuguesa e uma porta aberta a todas as comunidades de Macau”. O cônsul-geral de Portugal em Macau, Pedro Moitinho de Almeida, sublinha que “foi sempre impecável com a comunidade portuguesa”.

Licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade de Adamson (Filipinas), estava ligado ao ramo da construção civil (era director-geral das empresas Good Faith Property Investment e da Cheong Land Investment). Integrava o conselho de administração da empresa de transportes públicos Transmac, foi membro da Câmara de Comércio de Macau e vice-presidente da Federação Nacional da Juventude da China. Deputado nomeado na anterior Legislatura, era próximo do actual Chefe do Executivo, tendo sido um dos dinamizadores da candidatura de Edmund Ho a Chefe do Executivo, em Maio de 1999.

A secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, recorda a disponibilidade que sempre evidenciou: “É uma grande perda. Sempre bem disposto, era amigo de todos e gostava de ajudar as várias comunidades”.

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