Sexta-feira, Junho 5, 2020
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O grande salto

 

 

 

No início do século XVI, em plena dinastia Ming, Wan Hu, um funcionário governamental vivia obcecado com a ideia de viajar para o Espaço. E um dia decidiu mesmo aventurar-se. Construiu uma cadeira com dezenas de pequenos foguetes, feitos de tubos de bambu, e pediu aos seus servos que acendessem os artefactos explosivos, acreditando que iria ser o primeiro astronauta do mundo. Depois de uma grande explosão, a cadeira e o homem desapareceram… e nasceu a lenda.

Cerca de 500 anos depois esse sonho antigo tornou-se realidade. Em 2003,  Yang Liwei subiu ao espaço na missão espacial Shenzhou V. Em Outubro de 2005, permanecem em órbita, durante cinco dias, dois astronautas chineses: Fei Junlong e Nie Haisheng, na missão Shenzhou VI. Para trás ficaram quatro missões não tripuladas e o lançamento de dezenas de satélites científicos; de comunicações; de observação; de navegação e meteorológicos.

Actualmente, a Lua é o limite. Alguns especialistas apontam 2020 como a data provável para a primeira missão tripulada ao solo lunar; outros acreditam que possa ser mais tarde. Antes disso, Pequim ambiciona desenvolver um laboratório espacial que possa evoluir para uma estação espacial. É a concretização de um projecto delineado em 1968 por Qiang Xuesen, pai do programa espacial chinês, que apresentara à liderança do Partido Comunista Chinês a ambição de colocar no Espaço dois astronautas, em 1973. Mas a tensão vivida durante a Revolução Cultural e os problemas acabaram por adiar esse projecto para o século XXI.

 

Potência espacial emergente

 

Será que podemos nesta altura falar na China como uma potência espacial nas relações internacionais? Jason Pun, professor no departamento de Física da Universidade de Hong Kong e antigo funcionário da NASA (Agência Espacial Norte-Americana), considera que “talvez seja ainda cedo” para se falar da China como uma potência espacial. “Se nos restringirmos aos países que já colocaram seres humanos no espaço, é claro que os chineses passaram a integrar um clube do qual só faziam antes parte os Estados Unidos e a ex-União Soviética. Mas se englobarmos outras actividades, desde o lançamento de satélites à exploração espacial, temos também de salientar o papel desempenhado pela União Europeia”, alerta.

Em qualquer dos critérios, e a exemplo do que acontece em termos económicos, a China emerge como uma potência que, dentro de 15 anos, pretende aproximar-se dos seus competidores. “O mais espantoso no programa espacial chinês é o cumprimento do calendário das missões previstas, algo que hoje em dia nem os norte-americanos conseguem”, sublinha Jason Pun, explicando que para lançar missões como as da Shenzhou V, ou VI, “são precisos vários sectores de alta ciência a trabalharem em conjunto e integrados por especialistas capazes de lidar com todas as aplicações necessárias a uma missão espacial. E poucos países são capazes de o fazer!”, conclui.

 

Projectar a visão do mundo

 

A China projecta também no Espaço a sua visão do mundo. O documento orientador da política espacial chinesa  – “White Paper on China’s Space Activities” – espelha uma estratégia de desenvolvimento económico baseada no progresso tecnológico, bem como a necessidade de garantir um programa espacial autónomo, auto-suficiente e, acima de tudo, independente. Declaração que assenta que nem uma luva nos princípios expressos por Deng Xiaoping, nos anos oitenta.

Naturalmente, os avanços extraordinários conseguidos pela China são subsidiários da transferência de conhecimentos que os cientistas chineses obtiveram dos seus congéneres. Recorde-se que o pai do programa espacial da China, Qian Xuesen, formou-se nos Estados Unidos e que, numa fase inicial, as contribuições mais significativas vieram da antiga União Soviético, quando, antes do cisma sino-soviético, os dois países cooperavam em várias matérias, incluindo na tecnologia espacial. Mais recentemente, desde o início dos anos noventa, os dois países deram de novo as mãos. É mais ou menos assumido que a cápsula da série Shenzhou importa muitos traços da série Soyuz, modelo de nave espacial soviético colocado pela primeira vez em órbita em 1966. Ao nível do treino, os candidatos a taikonautas (designação dos astronautas chineses) passaram pela Star City, pequena cidade espacial, perto de Moscovo, onde são realizados testes e simulações de missões espaciais tripuladas.

O entendimento sino-russo poderá levar à colaboração numa missão lunar dentro de menos de 20 anos, ou mesmo à construção de um satélite que possa ser colocado em órbita em torno de Marte.

 

Cooperação com o Brasil 

 

Se em termos de missões espaciais a China recorre sobretudo à Rússia, no que concerne ao desenvolvimento de satélites tem dois outros parceiros privilegiados: o Brasil e a União Europeia.

Com os brasileiros, a China desenvolveu o Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS). Trata-se de um conjunto de dois satélites que permitem a prevenção e controlo, por exemplo, da desflorestação ilegal na Amazónia, bem como a monitorização do nível dos recursos hídricos e das características da ocupação do solo ou do crescimento urbano. A construção e lançamento do CBERS 1 – já não está em funcionamento – e do CBERS 2 cifrou-se em 1,2 mil milhões de patacas (150 milhões dólares), para os quais a China contribuiu com 70 por cento do financiamento, ficando os restantes 30 por cento a cargo do Brasil.

André Mileski, especialista em assuntos espaciais e jornalista da publicação brasileira “Tecnologia e Defesa”, considera que na base desta cooperação estão “semelhanças geofísicas, tais como a vasta extensão territorial, grandes reservas de recursos naturais, forte potencial agrícola e extensas áreas despovoadas e de difícil acesso”. Mas importa também o facto de os dois países beneficiarem mutuamente do conhecimento e da experiência acumulada. Por um lado, aponta, “a experiência brasileira em metodologias de interpretação de dados de controlo remoto e meteorologia”; por outro, “o programa espacial chinês, desenvolvido desde os anos cinquenta com os foguetões Longa Marcha, lançou vários tipos de satélites, entre os quais os geo-estacionários e de reentrada na atmosfera, particularmente importantes no projecto sino-brasileiro”.

Mileski considera ser este projecto “um marco nas relações políticas entre dois países em vias de desenvolvimento”. O programa CBERS “foi o primeiro projecto de alta tecnologia desenvolvido em conjunto por países do chamado terceiro-mundo”.

 

Galileo: a China na Europa

 

Uma das ambições do programa espacial chinês é a criação de um sistema autónomo de satélites de navegação e posicionamento. A China tem apenas um sistema de três satélites que, ao contrário do GPS norte-americano, do GLONASS russo e do Galileo europeu – ainda em fase de lançamento de satélites – não oferece graus de posicionamento precisos à escala global. É nesse contexto que a China iniciou a participação no Galileo, patrocinado e desenvolvido pela União Europeia (UE) e pela Agência Espacial Europeia (AEE).

Em Outubro de 2003, Pequim e Bruxelas assinaram um acordo que suscitou fortes reservas por parte dos Estados Unidos. A China contribui com 268 milhões de dólares num projecto orçado em quase quatro mil milhões de dólares. A China assume-se como o principal aliado não europeu do Galileo.

Para a UE a participação chinesa é crucial, a julgar pelas declarações da espanhola Loyola de Palacio, comissária europeia dos transportes e indústria à época da assinatura do acordo: “A China ajudará o Galileo a tornar-se uma infra-estrutura de primeiro plano, a nível mundial, para o mercado dos serviços de localização”. O vasto e dinâmico mercado chinês surge como a “galinha de ovos de ouro” para os europeus, uma vez que o Galileo se apresenta como um sistema de posicionamento com alto grau de precisão que irá servir sectores que vão das telecomunicações aos transportes marítimos, terrestres e aéreos, passando pela agricultura, pescas, serviços financeiros e actividades de protecção civil.

Para acalmar os receios de Washington, Bruxelas insiste na tese segundo a qual o Galileo é um programa exclusivamente civil, sem ambições militares. Certo é que existe sempre uma forte dimensão securitária e militar em qualquer sistema de posicionamento por satélite, por definição, um activo estratégico. Aliás, o GPS foi criado com objectivos militares e só mais tarde passou a ter um sinal aberto – com menor grau de precisão – para uso civil.

 

Tecnologia sensível

 

Os norte-americanos temem que a dimensão económica e civil do Galileo sirva para que a União Europeia consiga assumir-se como uma alternativa aos EUA em termos geoestratégicos. Aliás, já indirectamente assumida por líderes europeus como o presidente francês, Jacques Chirac. O que mais preocupa Washington parece contudo ser a presença da China no projecto, tal como assinala o académico Frank Umbach, presidente do Comité Europeu do Conselho para a Segurança e Cooperação na zona Ásia-Pacífico: “Numa altura em que os dois lados do Atlântico procuram resolver divergências em torno da intervenção norte-americana no Iraque, estratégias diferentes face à China, como a do projecto Galileo, podem abrir novas brechas na relação transatlântica”.

Sempre que uma nação emergente procura dar passos em sectores de alta tecnologia enfrenta o problema de encontrar parceiros dispostos a transferir esse conhecimento de valor acrescentado. André Midelski lembra a propósito que “existem limitações na cooperação espacial entre a

China e os Estados Unidos, visto que este país dificilmente permite transferência de tecnologia”. Jason Pun considera contudo que, no médio prazo, essa estratégia mudará: “Assim que os chineses provem que podem trazer mais valias, acredito que seja inevitável a participação da China no projecto da Estação Espacial Internacional. Apesar de, no curto prazo, existir uma tendência de incremento da competição, no futuro outros líderes vão perceber que a cooperação beneficia a todos”.

Grande parte dos avanços nas tecnologias de ponta começam no campo da investigação ligada ao aperfeiçoamento militar e espacial para depois serem importados para a economia civil –  são os denominados spin-offs. O caso mais conhecido é o da Internet, mas a contribuição que a alta tecnologia espacial e militar trouxeram ao quotidiano dos cidadãos, em todo o mundo, é imensa. A investigação em materiais aplicados à vida de um ser humano dentro de uma nave espacial tem gerado inventos posteriormente comercializados em sectores chave como a informática, a biotecnologia ou a nanotecnologia (engenharia de átomos e moléculas), o que gera vantagens competitivas decisivas na economia global. Quer isto dizer que “um programa espacial cria as condições para a formação de uma plataforma perfeita entre o mundo militar e o sector industrial”, sustenta Jason Pun.

Existe uma dimensão geopolítica sempre subjacente a qualquer projecto espacial. Isso aconteceu de forma explícita durante a Guerra Fria e de maneira um pouco mais implícita nos dias de hoje. Wong Yiu Wah, curador adjunto do Museu do Espaço de Hong Kong, entende que “qualquer programa  espacial visa também a projecção de poder”.

A verdade é que o Tratado sobre os Princípios que Governam as Actividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço, aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, estabelece que o Espaço não pode ser alvo de apropriação e que os estados não podem colocar em órbita qualquer tipo de armamento nuclear ou de destruição em massa.

 

Shenzhou: a “Nave Divina”

 

A Shenzhou VI foi lançada no dia 12 de Outubro de 2005, no Centro de Lançamento de Foguetões e Satélites de Jiuqian, no Deserto de Gobi, na Mongólia Interior. Permaneceu em órbita durante cinco dias com dois astronautas a bordo: Fei Junlong e Nie Haisheng. Tratou-se da segunda missão espacial tripulada da China, dois anos depois de Yiang Liwei ter viajado na Shenzhou V.

A cápsula orbital, com 2,25 m de diâmetro e 2,8m de comprimento, tem o formato de um cilindro. Na parte interior existem prateleiras com equipamentos e provisões, além de instrumentos para a realização de experiências científicas. É aqui que a tripulação permannece e trabalha.

Depois da cápsula de reentrada ter regressado à Terra, a cápsula orbital funciona como um satélite, ficando em órbita durante meio ano com a finalidade de efectuar observação terrestre.

A cápsula de reentrada tem um diâmetro máximo de 2,51m e um comprimento de 2,5m. Como o nome indica, esta é a parte da Shenzhou que regressa à Terra, por isso inclui três lugares sentados, alguns pára-quedas de reserva, duas portas e uma janela. A cápsula de reentrada inclui seis antenas, vários equipamentos de controlo, um painel de ligação à cápsula de propulsão, sensores e motores de aterragem, entre outros aspectos.

A cápsula de propulsão tem a forma de um cilindro com um cone truncado. Com um comprimento de 2,9m e um diâmetro máximo de 2,8m, esta parte da Nave tem um par de painéis solares instalados, um radiador exterior e quatro engenhos de propulsão que estão localizados na base da cápsula. O módulo adicional é uma caixa que inclui uma câmara de 1.6m, com capacidade de resolução CCD.

 

J. C. M.

 

1955: Qian Xuesen, “pai do programa especial chinês”, regressa à China vindo do Massachusetts Institute of Techology (MIT), Estados Unidos..

1958: Qian apresenta ao  Governo planos para o primeiro satélite chinês e do primeiro foguetão.

1968: Qian Xuesen funda o Flight Medical Space Center e lança as bases para o Projecto 714, que pretende colocar no espaços dois astronautas em 1973.

1972: Projecto 714 é cancelado por falta de verbas.

1970: A China lança o seu primeiro satélite, utilizando um míssil balístico intercontinental, o Longa Marcha 1. O satélite transmitiu durante 26 dias a música revolucionária: “O Oriente é Vermelho” – tema que veio a dar o nome à primeira série de satélites chineses.

1975: A China consegue com sucesso recuperar um satélite em órbita.

1979: O jornal Wen Hui Bao publicou uma fotografia de um astronauta chinês em treino com um fato espacial, demonstrando que a China realizava já testes de simulação de um modelo de nave espacial.

1988: Pequim anuncia um programa espacial ambicioso, que inclui uma série de novos satélites, missões tripuladas e a construção de uma estação espacial.

1989: O presidente russo visita Pequim, relançando a cooperação sino-soviética em várias áreas, incluindo o acesso da China ao know-how soviético no Espaço.

1990: A China lança e recupera um “biosatélite” que contém 60 animais e plantas.

1992: É anunciado o Projecto 921, programa que visa colocar no espaço missões tripuladas.

1999: A China lança a primeira missão espacial não tripulada. A Shenzhou I esteve um dia em órbita.

2001: Lançamento da Shenzhou II. O voo durou oito dias, tendo completado 108 voltas à Terra.

2002: A Shenzhou III inclui três ovos fertilizados.

2002: A Shenzhou IV, a última missão-teste, está em órbita durante seis dias de Dezembro, testando os equipamentos necessários para um missão tripulada.

2003: A China lança a primeira missão tripulada, a Shenzhou V, com o astronauta Yan Liwei a bordo. O antigo piloto da Força Aérea esteve 21 horas no Espaço, tornando-se um verdadeiro herói nacional.

2005: Fei Junlong e Nie Haisheng estiveram cinco dias numa missão espacial que cimentou o lugar da China como terceira potência espacial, a seguir aos Estados Unidos e à Rússia.

2007: A Shenzhou VII levará três astronautas com a missão de repararem naves no Espaço (Space Walk).

2008-2010: Shenzhou VIII e XIX. Serão missões não tripuladas e ficarão em órbita. Uma décima missão incluirá astronautas treinados para lançar as bases do laboratório espacial chinês.

2012-2017: Lançamento de missões não tripuladas à Lua.

Até 2020: Construção da Estação Espacial Chinesa.

2020: Realizar uma missão tripulada à Lua.

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