Terça-feira, Junho 2, 2020
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Parceria com privilégios

 

 

 

Em 2005, cinco anos depois da transferência de administração em Macau, Portugal e a China reforçaram os contactos bilaterais ao mais alto nível, com a deslocação do presidente português a Pequim e do primeiro-ministro chinês a Lisboa.

As visitas de Jorge Sampaio, em Janeiro, e Wen Jiabao, em Dezembro último, pretenderam dar um novo impulso às relações entre os dois países, tendo a China atribuído a Portugal o estatuto de parceiro estratégico. No quadro da União Europeia, apenas a França, Alemanha, Espanha e Reino Unido têm essa “distinção”.

A parceria estratégica global “envolve vários domínios, desde o diálogo político ao reforço das relações económicas e culturais e da cooperação nas áreas da educação, da ciência e tecnologia, da justiça e da saúde”, explicou o embaixador de Portugal na capital chinesa. Santana Carlos lembra a propósito que a China “é hoje um parceiro privilegiado em termos internacionais e todos os países desejam ser distinguidos com esse tratamento especial”.

Quando se fala em relações bilaterais China-Portugal, a economia surge em primeiro lugar. Os dois países querem duplicar as trocas comerciais nos próximos três anos. Um objectivo ambicioso, mas que Santana Carlos considera ser possível de alcançar. “Entre 2002 e 2005, as exportações portuguesas quase que quadruplicaram (de 80 milhões para mais de 300 milhões de dólares norte-americanos), o que indica que será possível manter essa tendência”, nota, sublinhando que o aumento das trocas comerciais “não pode ser assegurado apenas pelo crescimento das exportações chinesas, mas de uma forma equilibrada”. O comércio bilateral atingiu em 2005 os mil  milhões de dólares.

 

Conselho Empresarial dinamiza negócios

 

A abertura em Fevereiro da delegação do ICEP em Xangai e a entrada em funcionamento, no segundo semestre de 2006, de um centro de distribuição de produtos portugueses na China, devem contribuir para a subida das exportações portuguesas, mas Santana Carlos pensa que compete aos empresários aproveitar as condições criadas pelos governos dos dois países.

O Conselho Empresarial, constituído por homens de negócios portugueses e chineses, criado no decorrer da visita de Jorge Sampaio à China, é outro dos instrumentos que pode potenciar o aumento das trocas comerciais. O Conselho Empresarial tem como objectivo facilitar os contactos entre pequenas e médias empresas, realizando regularmente seminários, encontros e debates entre empresários dos dois países. A parte portuguesa vai ser dirigida por Ilídio Serôdio, líder da Profabril Consulplano Grupo, que conhece bem o mercado chinês.

A parceria estratégica entre a China e Portugal tem ainda como mercados prioritários os países africanos de expressão portuguesa. Wen Jiabao afirmou, no final da visita a Lisboa, que Portugal e a China “querem explorar em conjunto os mercados dos países de língua portuguesa”. Em resposta, José Sócrates disse que Portugal “pode oferecer muita coisa à China, além da hospitalidade e do clima. Primeiro, pode afirmar-se como parceiro da China em África. A China dispõe de capital, nós conhecemos o terreno, a língua, as tradições”, concluiu o governante português.

 

Ensino do Chinês em escolas portuguesas

 

A área da educação é outro dos sectores em que os dois países vão acentuar a cooperação. A introdução do Chinês no ensino curricular em Portugal vai ser primeiro testada em algumas escolas localizadas em zonas onde residem grandes comunidades chinesas. O objectivo é responder aos que nascem em Portugal e também ao aumento do interesse pela língua chinesa por parte dos jovens portugueses.

O desconhecimento do Português é, de resto, a grande dificuldade dos chineses que residem em Portugal, o que justifica a criação de escolas luso-chinesas. “Fizémos um inquérito e uma coisa onde todos coincidiam era no problema da escolaridade dos filhos”, diz Ana Maria Amaro, directora do Centro de Estudos Chineses, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCPS).

O ensino do Português como língua estrangeira continuará, por outro lado, a ser desenvolvido na China com o apoio do Instituto Português do Oriente. Mais de 300 chineses aprendem actualmente a língua de Camões em várias universidades chinesas. Santana Carlos destaca a abertura, em Setembro de 2005, de um novo leitorado na Universidade de Comunicação de Pequim, e mostra-se optimista em relação ao reforço do ensino da língua, uma vez que tem aumentado o interesse pela aprendizagem do Português.

O ministro português da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, que deve visitar Pequim em 2006, pretende agora dar um novo impulso ao Centro China-Portugal para a História das Ciências, que se dedica ao estudo das relações científicas dos séculos XVII e XVIII entre a Europa e a China. Criado em Junho de 1999, visa promover a colaboração entre historiadores e cientistas chineses e portugueses, mas a sua actividade tem sido dimuta.

Em 2008, Portugal e a China vão assinalar os 300 anos do morte do jesuíta Tomás Pereira, que desempenhou importante papel na aproximação entre a China e o Ocidente. Durante 35 anos, entre 1672 e 1708, trabalhou em Pequim no Observatório Astronómico, sendo um dos responsáveis pela modernização do pensamento científico chinês no século XVII.

 

Repensar programa Eureka-Ásia

 

O projecto de cooperação científica entre Portugal e a China, “Eureka-Ásia”, cuja última edição decorreu em Macau, em 2000, vai ser alvo de uma avaliação cuidadosa, pois além de Portugal e da China participavam na iniciativa outros países e instituições, designadamente a União Europeia. “Temos que aferir se a China continua ou não interessada no programa e se a União Europeia mantém atenção sobre a iniciativa. É necessário saber se o Eureka-Ásia continua a ser viável com o mesmo formato ou se devemos encontrar outro modelo, reajustando o programa à realidade actual”, frisa Santana Carlos.

Na área da Justiça, Portugal e a China vão negociar acordos sobre extradição e transferência de pessoas condenadas e, na Saúde, estão em curso acções de cooperação, acordadas durante a visita em Novembro de 2005 a Pequim do ministro português Correia de Campos.

Na Defesa, o panorama é idêntico, tendo sido assinado recentemente um protocolo de cooperação. Em Janeiro, China e Portugal criaram uma comissão mista para definir áreas futuras de cooperação militar.

“As relações entre as Forças Armadas dos dois países são uma componente chave do relacionamento geral entre China e Portugal”, disse o ministro chinês da Defesa, Cao Ganchuan, no final de um encontro com o homólogo Luís Amado. “O Exército Popular de Libertação atribui grande importância ao desenvolvimento da cooperação amistosa com as Forças Armadas Portuguesas”, acrescentou.

 

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