Terça-feira, Junho 2, 2020
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China “precisa” da rede em português

 

 

 

“A China precisa dos países de língua portuguesa”. A tese é assumida, sem rodeios, por Wang Cheng An, alto quadro do Ministério do Comércio e responsável pelo incremento da cooperação económica e comercial entre a China e esses países. Mas então porquê? Por que razão uma potência emergente “precisa” desses mercados de expressão portuguesa? O que leva o Governo Central a eleger essa relação como desígnio nacional?

A ponta da meada desvenda-se no fio de uma economia sem fronteiras. Em 2005, a China importou cerca de 130 milhões de toneladas de crude para fazer face a um consumo de 330 milhões de toneladas. Em 2006, prevê-se que esse apetite pelo “ouro negro” aumente cinco a dez por cento. A este ritmo, o segundo maior consumidor mundial de petróleo, atrás dos Estados Unidos, enfrentará no curto prazo necessidades quatro vezes superiores à sua capacidade de produção de crude. A profunda remodelação do tecido produtivo da “fábrica do mundo”, bem como a metamorfose do seu consumo interno, exige ainda um enorme esforço de equilíbrio da balança comercial. Às importações de energia e de matérias-primas adicionam-se crescentes necessidades – e exigências – por parte de uma população urbana que se multiplica à medida de um êxodo rural que já fez migrar mais de 80 milhões de pessoas.

 

Rede estratégica

 

Com a “ascensão económica pacífica” – contraponto à hegemonia militar norte-americana – a China afirma-se pelo conceito global de diplomacia económica. O presidente do Fórum Luso-Asiático, Arnaldo Gonçalves, sublinha a propósito a drástica redução de efectivos no Exército Popular de Libertação e a modernização das Forças Armadas, na linha das forças rápidas de intervenção – à semelhança da Europa –, bem como o papel central da China no diálogo antinuclear com a Coreia do Norte. Iniciativas, explica, que apaziguaram receios da comunidade internacional face ao crescente poderio do “gigante asiático”. Contudo, sinaliza aquele especialista em relações internacionais, a China encontra-se ainda desprovida das redes de “parceiros tradicionais” que a Europa e a América do Norte cultivaram ao longo dos tempos, com elas garantindo um fluxo regular de recursos. No jogo dos interesses geoestratégicos, no qual a maioria das pedras-mestras segue alinhamentos há muito definidos, a China “vira o tabuleiro” a seu favor ao aplicar uma regra que lhe é peculiar: a perseverança em materializar, no longo prazo, a sua visão própria do mundo.

Com esta aposta em países em vias de desenvolvimento, a China evita dispersar recursos por mercados já alinhados e condenados à saturação prematura, concentrando-se antes em optimizar relações com pólos de vasto potencial de crescimento: América Latina e África. A extensão e a diversidade dos seus recursos, história e localização geográfica, identificam no conjunto dos países de língua portuguesa – 220 milhões de pessoas e a quinta língua mais falada no planeta – mercados ideais para a formação e desenvolvimento de redes estratégicas. Aí a China encontra o que “precisa” para a sua modernização interna e ascensão internacional. Por seu turno, as várias frentes de expressão portuguesa apostam nos benefícios da parceria estratégica, contra a opção insustentável da concorrência hostil com a China.

 

Brasil na linha da frente

 

O Brasil é o país de língua portuguesa com uma parceria mais estreita com a China, ao ponto de ambos assumirem posições concertadas em diversos fóruns internacionais, como foi o caso da conferência ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC) em finais do ano passado, em Hong Kong. As trocas comerciais entre estes dois países crescem ao vertiginoso ritmo de 30 por cento ao ano, desde a adesão da China à OMC, em 2001. Mais do que fonte de minérios e de produtos alimentares, o Brasil é uma porta aberta para a América Latina, através da posição de relevo que ostenta no Mercosul, região económica que, segundo vários analistas internacionais, conhecerá uma explosão do consumo no futuro próximo. Entretanto, o Brasil reconheceu a China como economia de mercado, facto relevante aos olhos da comunidade internacional. E é conhecido o apoio da China para que o Brasil ganhe assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Na África de expressão portuguesa e em Timor -Leste, à China interessam os ricos depósitos de minérios e outros recursos naturais; nomeadamente em Angola, com quem nos últimos três anos aumentou em sete vezes o volume de importações de petróleo. Mas esses mercados permitem também escoar milhares de toneladas de contentores empilhados nas costas da China. É com Moçambique que decorrem negociações para a construção de um vasto posto de abastecimento e distribuição de produtos chineses para toda a África Austral – desde têxteis a bens de consumo, passando por medicamentos e ingredientes usados na Medicina Tradicional Chinesa. Do outro lado do tabuleiro, o interesse chinês é avaliado como veículo para uma economia competitiva e, acima tudo, sustentada. Recorde-se que o investimento chinês nesses países tem sido maioritariamente direccionado para a rede de infra-estruturas: auto-estradas, caminhos-de-ferro, pontes, portos de águas profundas, hospitais, escolas, edifícios governamentais…

A China como Portugal reconhecem que as excelentes relações diplomáticas, reforçadas pelo êxito da transferência de administração de Macau, não encontram paralelo no âmbito comercial. Embora o comércio bilateral tenha aumentado cinco por cento em 2005, aproximando-se dos dez mil milhões de patacas (USD 1250 milhões), ficou aquém das expectativas chinesas. As esperanças recaem agora sobre o novo estatuto a que o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, elevou as relações bilaterais. Durante a sua visita a Portugal, em Dezembro último, assumiu o nível preferencial de “parceria estratégica” (ver páginas 44 a 48), estatuto que sinaliza ao empresariado chinês a importância dos mercados em causa. Sendo uma das portas de entrada possível na Europa de uma vasta gama de produtos chineses – dos têxteis aos automóveis ligeiros – Portugal assume na União Europeia empatias estratégicas com a China, como foi patente no caso da sensível questão do levantamento do embargo à de venda de armas.

 

Trunfo Macau

 

Estados Unidos, União Europeia e outras potências económicas batem-se também por oportunidades nos mercados de língua portuguesa. Mas a China apresenta um trunfo importante: Macau, hoje uma região administrativa especial, ontem o primeiro interposto comercial e cultural entre Oriente e Ocidente.

Ciente desse potencial dinamizador, o Governo Central definiu a RAEM como plataforma preferencial das relações entre a China e os países de língua portuguesa. A ratificação oficial dessa estratégia surgiu em Outubro de 2003 pela voz da vice-primeira-ministra chinesa, Wu Yi, por ocasião do primeiro “Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, que reuniu em Macau os ministros da Economia de Angola, Brasil, Cabo Verde, Gui–né Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. O êxito dessa iniciativa levaria à criação do denominado “Fórum Macau”, organismo que promove oportunidades de negócio nesses mercados junto do empresariado chinês. Entretanto, a China abriu linhas de crédito para esses países, inicialmente de 20 mil milhões de patacas (USD 2500 mil milhões), entretanto reforçadas para o dobro.

Quatro séculos de diálogo civilizacional fazem de Macau um ponto de contacto ideal, reforçado por circunstâncias da modernidade como sejam o facto de ter mantido o português como uma das línguas oficiais e um sistema jurídico que obedece à mesma matriz seguida pelos países de língua portuguesa. Não deve também ser desprezado o coeficiente afectivo nessa ligação, lembra Rita Santos, coordenadora do Gabinete de Apoio ao “Fórum Macau”. “A língua une-nos”, sublinha.

Os residentes da RAEM, mas também os do interior do país, vêem demonstrando crescente apetência pela aprendizagem do português, razão pela qual instituições locais que leccionam a língua e a cultura portuguesas se preparam para alargar a sua oferta. No caso do Instituto Politécnico de Macau, está a ser criado um centro de investigação vocacionado para o estudo dos países de língua portuguesa. Outras instituições preparam programas curriculares a pensar nos milhares de alunos oriundos desses países que pretendem aprender chinês.Aliás, são já mais de oito mil os alunos africanos que frequentam cursos de chinês. Ainda a operar em estágio embrionário, e maioritariamente ao nível governamental, o objectivo de longo prazo do “Fórum Macau” passa por alargar a cooperação ao tecido empresarial (o que dependente de um maior conhecimento mútuo e justifica a aposta em acções de formação) que tem pautado a actuação desse organismo. Por norma são ainda as grandes empresas estatais chinesas que investem nos mercados de língua portuguesa, assegurando participações em empresas locais. Enquanto decorrem os preparativos para o segundo Fórum ministerial, agendado para o final deste ano, em Macau, assume-se a prioridade da elaboração de um guia para o investimento nos mercados lusófonos, dirigido especificamente aos pequenos e médios empresários chineses.

A estratégia da China nos países de língua portuguesa tem criado significativas oportunidades de negócio, como é o caso da parceria entre a petrolífera brasileira Petrobrás e a sua homóloga chinesa para a exploração de petróleo em São Tomé e Príncipe. E se os primeiros resultados do Fórum são animadores – as trocas comerciais entre a China e os mercados de expressão portuguesa registaram aumentos na ordem dos 30 por cento, menos de dois anos após o início deste projecto. “Isto é apenas o princípio”, vaticina Ambrose So, cônsul honorário de Portugal em Hong Kong e membro da direcção da Geocapital. Esta empresa de capitais chineses, liderada por Stanley Ho, sustenta a operação financeira através da qual a transportadora aérea portuguesa, a TAP, pretende assumir o controlo da sua congénere brasileira, a Varig.

Entretanto, a Geocapital assinou em Dezembrodo ano passado, em Macau, um protocolo que fixa avultados investimentos no Vale do Zambeze, em Moçambique.

 

L. P.

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