Terça-feira, Junho 2, 2020
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Um festim de culturas

Mais do que uma trupe de malabaristas, trapezistas, dançarinos, músicos e contorcionistas, o Circus Baobab é um projecto cultural que pode ter salvo muitas vidas. E realizou os sonhos de muitas outras. Quem o diz é Isabelle Sage, directora de produção do primeiro circo africano, escolhido para abrir o Festival de Artes de Macau. Para o jovem dançarino Yamoussa Camara, ela é como uma mãe. Há oito anos era um dos muitos adolescentes da Guiné-Conacri que começava os dias sem saber se veria o pôr-do-sol. “Eles têm um entendimento da vida diferente do dos europeus, que são como crianças mimadas. Eles agradecem estar vivos todos os dias, porque são sobreviventes”.
Camara perdeu o pai ainda jovem. Foi uma das muitas vítimas dos confrontos militares internos. Aos sete anos, “vendo a aflição da minha mãe, que não tinha dinheiro para a comida”, meteu-se num avião com destino à Europa. Sage diz que “passou despercebido porque era pequenino, mas uma hospedeira deu por ele antes do avião descolar”. Camara viu-se então obrigado a ficar mas, dez anos depois, o Circus Baobab realizou o seu sonho: “Ser artista”.
A primeira vez que a trupe, fundada em 1998, saiu do continente africano foi exactamente para actuar em França. Desde então, têm visitado muitos países e Camara garante que ninguém o arranca da Guiné, onde estão a sua mãe e a família: “Tenho de levar dinheiro para casa para lhes dar prazer”.
Sempre quis ser artista e foi assim que ganhou os primeiros tostões depois do pai morrer. Hoje “quero ser um grande coreógrafo e viajar pelo mundo inteiro”. Sente que é a esperança de tantos outros jovens que vivem em situação precária no seu país e por toda a África. “São vistos como heróis, embaixadores do seu país. Não gostam de actuar para pessoas com tais dificuldades. Ressentem-se muito”, confidencia Sage, que já trabalhou no Afeganistão, em Beirute e Sarajevo.
No final dos anos 90, Sage e outros artistas franceses rumaram à Guiné-Conacri para criar o primeiro circo africano. “Queríamos proporcionar aos jovens a possibilidade de abandonarem um determinado nível social, de encontrarem emprego. Mas não era só um projecto humanitário, era também artístico e cultural”. Acreditam que a cultura é uma forma de desenvolver economicamente uma sociedade. Assim, “abrimos novas portas a estes jovens, que viviam numa situação precária”.
No início, “tudo aquilo me espantou muito, não sabíamos o que era o circo”. Para Camara, “este tipo de projectos culturais são muito importantes no mundo inteiro. Somos um exemplo de sucesso, de como a cultura pode mudar a vida das pessoas”.

Passado que não passa no Vietname

No cenário de uma cortina de bambu e de um palco de água habita a alma de marionetas com quase um milénio de história. Vêm das aldeias do Vietname, onde ainda hoje o pescador amanha o peixe e o agricultor lavra a terra. “É uma tradição viva”, garante Do Thi Mui, a encenadora do Teatro de Marionetas de Água Thang Long, que entre 12 e 19 e Março montou um palco ao ar livre, junto o Templo de A-Má.
Fascinadas com aquele mundo de fantasias, onde há danças de dragões, búfalos flautistas, fadas e unicórnios a levitarem sobre as ondas, as crianças de Macau morderam o isco desta velha tradição num showcase que aguçou o apetite para a maratona de espectáculos daquela que é uma das artes mais populares do Vietname.
“Gosto do peixe”, diz uma aluna chinesa, com 11 anos de idade, da Escola dos Moradores de Macau, uma das três instituições de ensino convidadas a participar no showcase. Outra aluna, de 6 anos de idade, tenta fugir à chuva que cai furiosamente sobre a calçada do Largo da Barra. Confessa que “não esperava nada daquilo”. E elege como maiores atracções a dança dos pavões e a música.
As crianças aprenderam ainda muito sobre os instrumentos tradicionais que acompanham a aventura das marionetas no palco flutuante. Ali reflectem os sons arrancados da terra que embalam, por exemplo, o pescador na sua faina. Esse foi aliás um dos sketches favoritos da pequenada, sobretudo por causa do humor. A encenadora diz que é a parte mais popular do espectáculo, seja no Vietname, em França ou no Brasil, onde esta companhia deu um ar da sua graça em 1996. Foi “uma experiência muito boa”, recorda Do Thi Mui, pois “os brasileiros têm uma cultura festiva”.
No Vietname esta arte é muito popular. Miúdos e graúdos, homens e mulheres aprendem a construir as marionetas segundo um saber antigo. Mas nem todos os materiais de origem podem hoje ser empregues. Esse é o elemento de modernidade no trabalho desta companhia de teatro. Os temas, esses, continuam a dizer respeito à tradição antiga, que “ainda se mantém”, explica Do Thi Mui, que se orgulha de liderar a Thang Long: “Antigamente, as mulheres não podiam integrar estas companhias. Há muitos anos as aldeias competiam entre si através das peças de marionetas, mas as mulheres de diferentes aldeias não guardavam segredo” sobre as surpresas que cada aldeia preparava e, por isso, acabaram por verem proibido o acesso a esta arte. Só nos anos cinquenta é que voltaram ao palco. E, como a própria Do Thi Mui, algumas assumem hoje em dia os destinos das trupes.

Namoro Portugal/China

Primeiro arranjou músicas lusófonas menos conhecidas, ou injustamente ignoradas, para um concerto que intitulou de CPLP (Canções Populares em Língua Portuguesa). Depois, Manuel Paulo ouviu o Oriente nas suas músicas durante o espectáculo da Ala dos Namorados e da Orquestra Chinesa de Macau, na Fortaleza do Monte, no dia 17 de Março. Dois momentos especiais que encantaram a assistência.
O CPLP “é um projecto para concerto”. Durante um ano Manuel Paulo garante que vai andar na estrada, “mas de momento não existe a ideia de gravar um disco, porque o grupo, pelas suas características, é intemporal”. O grande interesse reside “em reactivar canções de que gostamos, arranjá-las para a nossa sonoridade, sem nunca as trair”, explica o músico da Ala dos Namorados.
Assim coabitam no mesmo espectáculo, as “Noites da Madeira”, de MAX, “Mocinho Bonito”, de Billy Blanco, e “Lua Nha Testemunha”, de B.Leza. Também estão no alinhamento “Xote”, de Gilberto Gil, e “Fado da Tristeza”, de José Mário Branco.
Muitas das músicas que arranca dos baús da música ligeira portuguesa “caíram no esquecimento colectivo”. Manuel Paulo refere-se, por exemplo, às de Tristão da Silva e de Francisco José. Admite até que tinha “o preconceito de que toda essa música era serôdia, desinteressante e de alguma forma o espelho de um salazarismo cinzento”, até perceber que “temos canções ao nível do que de melhor se fez nessa época em todo o mundo”.
Manuel Paulo considera que “toda a música tem um enorme interesse cultural e é a forma de arte mais próxima das pessoas”. Por isso considera que aquela “fusão bem sucedida” a que deram corpo no encontro entre a Ala e a Orquestra Chinesa de Macau, “transcende a lusofonia”, demonstrando que culturas diferentes não são de forma alguma herméticas, antes podendo “valorizar-se mutuamente”.
É um encontro a repetir e que “devia ficar registado”, porque “Macau é um ponto de partida privilegiado para o Oriente, sendo Portugal um ponto de partida da China para o Ocidente”. Por isso esta experiência realizada em Macau, diz, gostava de mostrar no Ocidente e na China.

Macaenses em festa na Vila Paraíso

O teatro foi outra das artes de palco privilegiadas no Festival de Artes de Macau. Em várias línguas, sobretudo em mandarim e em cantonense. Mas foi o patuá do Grupo de Teatro Dóci Papiáçam di Macau que mais se destacou. Os dois espectáculos da “Vila do Paraíso”, em estreia no Centro Cultural, nos dias 25 e 26 de Março, esgotaram e a organização, o Instituto Cultural, foi forçada a marcar uma terceira sessão desta peça humorística representada no dialecto de Macau.
A “Vila Paraíso” foi edificada nos anos cinquenta. Foi a redoma da cultura macaense nas décadas que se seguiram, até que sopraram os ventos da modernidade, ali semeando a mudança da paisagem física e humana. Sem perder o ar de boa vizinhança, a vila deixou de ter a magia dos encontros de outrora. Às portas do handover, o inesperado acontece e põe à prova quem escolheu a “vila” como morada. Com um toque de comédia, o encenador e dramaturgo Miguel de Senna Fernandes faz assim a sua crítica às mudanças que têm ocorrido em Macau.

Programa em revista

O Macaco de Saudieu – Circus Baobab (Guiné-Conacri)
Teatro de Marionetas de Água Thang Long
(Vietname)
Doming Lam e a Nova Música Chinesa – Orquestra de Macau
24 Preludes de Chopin e Chorale – Compagnie Marie Chouinard (Canadá)
O Sabor do Cappuccino – Centro de Artes Dramáticas de Xangai
A Magia de Brahms – Orquestra de Macau
Ala dos Namorados e Orquestra Chinesa de Macau
Vitorino e Septeto La Habana 99 (Portugal e Cuba)
Beleza Virtual – Teatro de Lavradores (Macau)
Gémeos Trocados – Associação de Ópera Chinesa dos Kaifong de Macau
Cenários da Europa Setentrional – Orquestra de Macau
Bazar do Bambu, actuações ao ar livre
Vila Paraíso – Grupo de Teatro Dóci Papiáçam di Macau
O Melhor de Image 2006 – Theathe Image (República Checa)
Exposição Anual de Artes Visuais de Macau 2006
Os Pés de Lótus Dourado – Companhia de Ópera de Pequim de Wuhan
Balagan – Circo Extravaganza (Alemanha)
Lúčnica – Ballet Folclórico Nacional da República Eslovaca

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