Terça-feira, Julho 7, 2020
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À procura da Montanha Perfumada

São apenas 45 minutos de automóvel. É o tempo que demora uma viagem entre Macau e Zhongshan. Mesmo assim, pelo caminho, Josephine Lau continua a não perceber o súbito interesse da revista MACAU: “Mas, por que é que vocês escolheram Zhongshan?“
Josephine, uma guia nascida e criada em Zhongshan descreve do seguinte modo a inserção dos estrangeiros na vida da cidade: “À volta de Zhongshan há diferentes zonas de desenvolvimento. A maior parte dos estrangeiros só vêm aqui mesmo para investir. Os estrangeiros não vivem no centro da cidade. Vivem nas zonas à volta.”
A caminho de Zhongshan passa-se por Sanxiang, onde há menos de dez anos abriu uma fábrica de calçado. Hoje emprega cerca de 40 mil pessoas, que fazem as sapatilhas da moda. Para além da cidade dos sapatos, há também a cidade das mobílias, dos electrodomésticos, da electrónica, da iluminação… O que se fabrica aqui vai chegar, em breve, às prateleiras das lojas do outro lado do mundo. Passar nesta estrada seria um autêntico pesadelo para qualquer industrial europeu ou americano.
Os problemas do comércio mundial são imediatamente esquecidos com uma paragem num jardim tipicamente chinês, às portas de Zhongshan. O maior jardim privado da cidade nasceu como uma declaração de amor de um filho para a sua mãe. A senhora Yueng escapou a um emprego na fábrica, para trabalhar numa loja mesmo no meio do jardim. “É mais calmo trabalhar aqui do que noutros locais. Estou aqui aqui há cinco anos.”, diz, enquanto vende uma recordação.O estaleiro revolucionário

Na verdade, Zhongshan já se chamou Xiangshan (Montanha Perfumada). Mas, apesar da mudança de nome e da chegada das fábricas, nunca deixou de cheirar bem. Pelo menos, tendo em conta o grande número de parques e de jardins.
Um passeio à beira rio revela um espaço pouco convencional: as árvores e a relva convivem com gruas, carris e armazéns industriais. É um jardim que não esconde as origens: entre 1950 e 1999 funcionou aqui um estaleiro naval. “Antes estavam aqui casas, mesmo em frente ao rio. Depois as casas foram derrubadas, para construir o estaleiro”, diz Tin Ieoc Wah, uma sexagenária que veio aqui passar a manhã. “Trabalhavam aqui muitas pessoas. Na altura, as estradas não estavam desenvolvidas. Por isso, a construção de navios era uma das indústrias mais importantes de Zhongshan.”
Foi sobretudo para pessoas como Tian que, na altura de construir um jardim, o estaleiro não foi totalmente destruído. A equipa de arquitectos que desenhou o projecto quer que os mais velhos venham aqui contar histórias. Até porque este estaleiro viveu todos os primeiros momentos da República Popular da China, do Grande Salto em Frente à Revolução Cultural.
Não são só os mais velhos que se apropriaram deste espaço, antes uma zona industrial e suja da cidade. Os artistas ocuparam os armazéns do estaleiro, onde agora funciona a galeria de arte da cidade. Junto à linha de água, um jovem adormecera sobre um livro. Ao longe, três noivas pousam para o álbum de casamento.
Há quatro anos, este projecto ganhou um prémio atribuído pela Sociedade Americana de Arquitectos Paisagistas (ASLA) e tornou-se local de romaria de arquitectos e estudiosos. Aliás, a Zhongshan não faltam prémios. Em 1997 recebeu o galardão da Habitat, das Nações Unidas, para a cidade que, de uma forma inovadora, mais contribuiu para melhorar a qualidade de vida dos habitantes.
De facto, as ruas de Zhongshan contradizem a imagem tradicional de uma cidade industrial. As bermas das estradas estão ocupadas por árvores. No chão não há qualquer vestígio de lixo. Nem mesmo no mercado Sha Gang – o maior mercado da cidade, muito famoso entre os trabalhadores migrantes – há qualquer papel no chão.
”No início, nos anos oitenta foi imposta uma multa para quem deitasse lixo ao chão”, explica Pun Kai Iu. A humilhação também não era dispensada: “Quem infringia a lei também poderia ser obrigado a varrer a rua durante 15 minutos a meia hora.” Na altura, as lojas tinham mesmo um funcionário para verificar se a lei era cumprida. Hoje já não é preciso, porque, em termos de limpeza, as gentes de Zhongshan apanharam o jeito. Iu conta esta história com um sorriso nos lábios. Este motorista nasceu em Zhongshan e viveu de perto esta política de higiene”. ”Já reparou que não há cães na cidade?”, atira. De facto não há cães, nem gatos… “No centro da cidade é proibido ter qualquer tipo de animais. Antes a cidade estava cheia de cães vadios. Quando o governo quis fazer uma cidade limpa e decidiu impor restrições aos animais de estimação.” Mas não há regra sem excepção. Algures no meio dos arbustos ouve-se miar. É um gato ilegal…

O negócio no sangue

O festival do Cheng Meng tivera lugar dias antes da nossa visita, em princípios de Abril. Nesse dia, os habitantes de Zhongshan cumpriram a tradição de subir ao ponto mais alto das redondezas, que nesta cidade é o pagode Fufeng: uma torre com 300 anos, situada no topo de uma colina, dedicada aos heróis do país. No resto do ano, só mesmo os visitantes se dão ao trabalho de fazer este percurso, apenas possível a pé. Chegados lá acima, Au Yin Wai e a mulher estão ofegantes. “É óbvio que estou cansado, depois de fazer este caminho todo”, diz Au, indignado com a pergunta. O casal de Henan dedica-se ao comércio de brindes e foi para fazer negócio que veio a Zhongshan. “Aqui tudo é muito calmo. A vida parece ser mais descontraída. ”
O resto da zona histórica é plana. Além disso, pode-se sempre passear num dos muitos riquexós que se alinham ao longo das ruas. Montado no riquexó, o senhor Chao não tem dúvidas em relação ao percurso a seguir: ir às compras. “Costumo levar os visitantes à rua mais antiga, a Sun Wen Xi, depois levo-as aos centros comerciais.”
A rua Sunwen Xi é a baixa, na acepção europeia da palavra: é aqui que estão os principais monumentos,templos, museus… e, é claro, as lojas. O senhor Chao, do riquexó, vai explicando como, no que diz respeito às compras, tudo vai mudando: onde havia uma antiga loja da amizade vendem-se agora calças de ganga e um restaurante típico chinês passou a ser uma loja de hambúrgueres.
Só a arquitectura se mantém. São edifícios de estilo europeu, construídos no início do século XX. Há também edifícios de traça chinesa, com influência europeia. Para perceber a história destas paredes não é preciso ir muito longe. Basta entrar num prédio cor-de-rosa, situado estrategicamente mesmo a meio da rua. É o Museu do Comércio.
Lá dentro fica-se a saber que negociar está no sangue das habitantes de Zhongshan. “No comércio, primeiro aprende-se com os estrangeiros, depois luta-se contra eles”, está escrito a letras douradas.
A prova é feita no último andar. Aqui estão quatro maquetas de edifícios, construídos algures nos anos vinte do século passado: são os primeiros centros comerciais da China. Os primeiros com vários andares, produtos europeus e – esta foi uma verdadeira revolução – mulheres a atender. Os donos destes centros comerciais nasceram aqui, na cidade de Zhongshan. Tinham outro ponto em comum: todos emigraram para o estrangeiro e, mais tarde, voltaram à China com novas ideias para fazerem dinheiro.

A corrida ao ouro

Na verdade, até meados do séc. XX, Zhongshan era uma cidade de emigrantes. Sem arroz no prato, tornava-se irresistível o apelo dos angariadores, de Macau e de Hong Kong. Eram eles que levavam os habitantes de Zhongshan para outras paragens, como as plantações do Havai e para a corrida ao ouro, em S. Francisco.
“Conheci muita gente daqui que foi para outros países para procurar ouro ou para trabalhar”, diz Lin Iat Kuong que, ao longo dos seus 84 anos, assistiu às muitas transformações da China. “Mas eu era agricultor e não tinha dinheiro para sair. Por isso, preferi ficar aqui até à reforma.” Kuong vive mesmo ao lado da casa do herói da cidade: Sun Yat Sen. Também ele nasceu aqui e foi um emigrante. Aos treze anos de idade foi para o Havai e frequentou a escola em Honolulu. Terá sido nestas ilhas que contactou, pela primeira vez, com as ideias que o transformaram no revolucionário que ajudou a derrubar dinastia Qing e fundar a República.
A própria casa mostra os traços do carácter revolucionário de Sun Yat Sen. Por exemplo, a entrada faz-se pelo lado Norte, numa desafio claro às superstições chinesas (manda a regra que se deve entrar pelo Sul). “Era um grande homem. Sun Yat Sen deu um grande contributo ao país”, diz Kuong, muito orgulhoso do seu famoso conterrâneo. Esta casa-museu fica na aldeia de Cuiheng, a cerca de meia hora de carro do centro da cidade. É a grande atracção da zona e uma visita obrigatória para quem passa por aqui. Ali ao lado, também se pode visitar a Cidade do Cinema: um estúdio de vocacionado para os filmes históricos que celebram a fundação da República.
Mas, na verdade, nem sequer é preciso sair do centro da cidade para encontrar as constantes referências a Sun Yat Sen: um grande jardim, a universidade, estátuas… O próprio nome da cidade é uma homenagem ao líder. Na China, Sun Yat Sen é conhecido como Zhongshan. Quando morreu, em 1925, a cidade adoptou o nome do mais ilustre filho da terra.

Um banho de leite e café

Apesar de muito popular entre os chineses, Zhongshan também é um bom destino para estrangeiros. É relativamente fácil meter conversa com as pessoas na rua. Mas nada melhor do que socializar enquanto se toma banho. E aqui há muitos sítios para o fazer, porque Zhongshan também é conhecida pelas suas termas.
O resort termal mais conhecido fica a meio do caminho entre Zhongshan e Macau e, por isso, é uma opção para relaxar na viagem de regresso. Logo à chegada, os visitantes são recebidos por uma grande fotografia de Deng Xiaoping. O líder chinês ficou aqui, nos anos oitenta, quando preparava a criação da Zona Económica Especial de Zhuhai. E também aqui deixou uma história para contar. Aos 79 anos, subiu o monte Luo San Mei (fica ali mesmo atrás do resort). Ao chegar ao fim do caminho, prometeu que não voltava para trás. Era preciso abrir novos caminhos.
É história repetida até à exaustão por todos os trabalhadores do resort. Afinal, esta foi a época gloriosa do hotel. Decidiu-se que as águas termais da zona iriam, a partir daí, também ter uma vocação económica. E, pela primeira vez, construi-se um hotel na China com capitais vindos do país e do estrangeiro. “Estas foram as primeiras termas a abrir em Zhongshan. Mas, hoje, aqui à volta, há mais cinco ou seis. Há uma forte competição entre elas”, diz Ruan Shao Lan com um ar prático. Ruan é uma jovem com um ar executivo, que há três anos tem a difícil tarefa de publicitar o hotel e bater a concorrência.
A competição aguçou a imaginação e engenho de Ruan e dos colegas. A grande atracção é o Éden: um grande jardim, com um ar zen, mais de 30 piscinas vaporosas (afinal a temperatura da água oscila entre os 30 e os 40 graus). Sempre rodeadas de árvores e de funcionários preparados a dar uma massagem aos corpos mais doridos. Ao longe, entre as árvores e palmeiras, soltam-se fumos e um líquido castanho. O cheiro é de café, mas deve ser uma ilusão (são dez horas da manhã). Segue-se o aroma e confirmam-se as suspeitas: é mesmo café, mantido numa piscina a 42 graus. Uma tigela gigante à espera do mergulho do próximo hóspede mais ensonado. Quem não se dá bem com o café pode mergulhar (literalmente) noutros sabores que lhe tirem o sono. Por entre as árvores vai aparecendo a piscina de leite, essências, menta e até vinho! Sabores à escolha conforme a hora do dia e o gosto do freguês.
Com tanta escolha, passa-se ao lado do mais óbvio: aproveitar as propriedades terapêuticas destas águas. “Temos duas piscinas para tratamentos específicos. Os mais idosos, sobretudo as pessoas que têm reumatismo, vêm cá muito para se submeterem a este tipo de tratamentos médicos.” E pode dar jeito, depois de um fim-de-semana exaustivo a andar pelas ruas de Zhongshan.

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