Terça-feira, Junho 2, 2020
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Moçambique: O regresso dos chineses

 

 

Quase de um dia para o outro, a China tornou-se no sexto investidor estrangeiro em Moçambique, com números que, distantes ainda dos alcançados pelos sul-africanos, prometem uma contínua e rápida subida na escada dos principais parceiros económicos daquele país africano de língua portuguesa.

Há dois anos apenas, a China era o 26o investidor em Moçambique, na altura com verbas na ordem dos 300 mil dólares americanos; mas, em 2005, os 5,75 milhões de d’olares americanos que injectou no país só foram ultrapassados por capitais e projectos oriundos da África do Sul, Reino Unido, Zimbabué, Portugal e Maurícias. Em 2005 as trocas comerciais entre os dois países totalizaram 125 milhões de euros, dobrando os valores de um comércio que assentou, sobretudo, nos sectores do têxtil, do calçado e dos electrodomésticos. Como resultado dessa relação económica cada vez mais forte, a população chinesa aumentou igualmente no último ano, e também por números expressivos – mais de 50 por cento, fixando-se agora em cerca de 1500 pessoas.

Já houve um tempo em que em Moçambique residiam quase 20 mil chineses, muitos deles representado a terceira e quarta gerações fixadas na então colónia portuguesa. Mas o êxodo que se seguiu ao conturbado período da descolonização e da independência, entre 1974-75, reduziu a comunidade a poucas dezenas de pessoas. O cenário está agora a mudar, com uma nova imigração chinesa, sobretudo ligada aos negócios, que vai surgindo pelas onze províncias moçambicanas.

“Está-se muito bem aqui”, diz num português bastante bom Mei Kai, oriunda de Fukien, a viver em Maputo desde 2003. “A vida é calma e as pessoas muito simpáticas”, acrescenta esta empregada de um supermercado chinês.

Como acontece um pouco por todo o Mundo, também em Moçambique a China está na moda e a sua presença, para já, parece não suscitar os receios de “concorrência perigosa” com as indústrias e comércios locais.

Em Moçambique, pelo contrário, a China “é muito bem vinda”, como assegurou recentemente o presidente Armando Emílio Guebuza, que respondeu a receios da forte presença asiática no continente africano com o exemplo do seu próprio país. Guebuza destacou o papel da China no combate à pobreza absoluta, que afecta mais de metade dos 19 milhões de moçambicanos, e considerou que as relações bilaterais têm sido benéficas para os dois países.

Nos últimos anos, quase todos os meses tem havido visitas recíprocas de delegações dos dois países, tanto a nível de governo como de empresários, e a atracção pela China levou ao anúncio feito pelo ministro da Educação, no final de 2005, de que o mandarim poderá ser introduzido no currículo das escolas moçambicanas.

“A China e a sua língua estão a ganhar uma crescente importância e nós não nos podemos alhear disso”, disse o ministro Aires Aly.

Macau aproveita oportunidades

E enquanto a China aumenta a sua visibilidade nos sectores da construção e obras públicas, madeiras e têxteis, a sua Região Administrativa Especial de Macau reforça igualmente o peso em Moçambique.

Em 2004, Stanley Ho fez saber que está interessado na Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), após o Estado português ter aceite transferir a maioria do capital que detém para a parte moçambicana. Enquanto aguarda pelo desenrolar do “dossier” HCB, o milionário dos casinos já se posicionou no vale do Zambeze, através da Geocapital Holdings, um empresa de que é um dos principais accionistas, com o português Fer­­ro Ribeiro, e que pretende ser o pivô no aproveitamento dos recursos naturais, nos domínios da energia hidroeléctrica e térmica, do carvão, gás, da agro-indústria, do transporte ferroviário, portos, minerais ferrosos e não ferrosos, imobiliário e turismo.

Já este ano, a Geocapital anunciou o seu envolvimento numa outra empresa, Mozacorp, para actuar nos sectores da mineração, imobiliário, produção de algodão e pecuária, igualmente no vale do Zambeze, a região mais rica de Moçambique e onde se situam a HCB e importantes minas de carvão exploradas pelos brasileiros da Companhia Vale do Rio Doce.

A China contemporânea, designadamente a República Popular da China, está envolvida com Moçambique desde o início da década de 1960, quando apoiou a FRELIMO na luta que o movimento desencadeou contra a administração colonial portuguesa e que conduziu à independência em 25 de Junho de 1975. Mais recentemente, o Governo chinês construiu e ofereceu a Moçambique os edifícios-sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Assembleia da República, bem como o único palco de congressos existente em todo o país, o Centro de Convenções Joaquim Chissano, na capital moçambicana. Mas a presença chinesa nesta parte da costa oriental africana tem raízes bem mais profundas.

Relações seculares

Em 1421, quase 80 anos antes dos portugueses, uma esquadra chinesa fundeou nas águas de Sofala, como era então designado o actual território de Moçambique, no âmbito do que poderão ter sido fantásticas expedições da China por várias partes do Mundo.

A teoria de que as expedições lideradas pelo almirante Zheng He poderão ter dobrado o Cabo da Boa Esperança, em direcção a Cabo Verde e aos Açores, à América do Norte e à Patagónia, entre muitos outros destinos, ainda continua por provar. Mas diversos relatos, como as crónicas de Ma Huan e de Fei Xin, que participaram em viagens pela costa africana ainda antes de 1421, bem como testemunhos de viajantes sobre a “magnífica” porcelana chinesa, ao longo do Índico africano, parecem atestar o pioneirismo das viagens marítimas chinesas ao longo da costa do actual Moçambique.

Ainda hoje, em recônditas ilhas do Norte ou nas movimentadas artérias das grandes cidades de Maputo e da Beira, na enorme mistura da moçambicanidade, o sangue chinês é bem visível em traços de muitas pessoas com quem nos cruzamos. Parte desse sangue perdura das viagens marítimas e do comércio que chegou do Oriente; outra, mais recente, resulta da grande migração chinesa para Moçambique, iniciada em 1858, com a chegada de 30 trabalhadores a Lourenço Marques. Memórias já desaparecidas dessa presença são a Rua da China e a Associação de Beneficência A Oriental, ambas na cidade da Beira. Agora, os novos imigrantes trazem com eles os símbolos da China dos dias de hoje: centros comerciais e produtos de baixo preço.

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