Sexta-feira, Junho 5, 2020
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Design com alma chinesa

É nas escolas de design da China, de onde saem todos os anos cerca de dez mil designers de “canudo” na mão, que está a geração que vai mudar tudo. É a convicção do estudioso de Hong Kong David Lui. Ao fim de 20 anos a produzir para consumo Ocidental, a China quer agora conquistar o mundo com o seu design. Os contingentes aumentam nas escolas. Macau e Hong Kong estão na corrida. É uma revolução silenciosa, mas o designer australiano Ken Cato avisa: “O que lá vem é um tsunami!”
“Há uma nova geração que está a aprender muito com o design japonês e o ocidental e pode agora criar um design de características chinesas”, acredita o académico de Hong Kong David Lui que, nos últimos dois anos, tem participado activamente em programas de intercâmbio entre instituições de ensino de Hong Kong e a cidade chinesa de Wuhan.
Para reforçar, o designer australiano Ken Cato, com larga experiência no mercado chinês, aposta nos jovens formados no estrangeiro que estão a regressar à China: “Eles farão a diferença!”
Na senda do futuro do design chinês, Lui lança outro dado para a mesa: os novos artesãos das cidades chinesas mais remotas. Crê serem esses os detentores dos signos que permitirão criar um design de alma chinesa: “Nessas cidades há muita gente a estudar artes. Aí está a ser produzido um estilo mais artístico. Nem se pode dizer que seja design, é uma espécie de habilidade. Mas julgo que é nesse tipo de artesanato que está a chave para a revolução do design. É só dar um passo em frente”.
Curiosamente, os trabalhos manuais estão na génese do design chinês. O “Livro dos Ofícios” (Kao Gong Ji), o primeiro documento técnico sobre estas artes, findo entre 400 d.C. e 500 d.C., a época em que Confúcio viveu, apresenta as técnicas básicas de produção, os requisitos do design. Para o director do Museu de Arte de Macau (MAM), Ung Vai Meng, “o conceito de design e criação dos tempos antigos estavam claramente definidos” neste livro, assim introduz o tema do design no catálogo da exposição “Trabalhos da China”, com obras de designers chineses e de Macau, que integrou a 22a Bienal Internacional de Design Gráfico, Brno 2006, na República Checa.
Ainda que o primeiro logotipo do mundo tenha sido criado na China durante a Dinastia Song, época de intensa actividade comercial no país, há cerca de mil anos, o coordenador do curso de design do Instituto Politécnico de Macau, Stephen Chung, lembra que essa não é a história do design moderno, que tem cerca de cem anos de existência: “Era uma fase em que a China estava mais fechada ao exterior e pouco desenvolvida”. O isolamento teve as suas consequências e o conceito moderno só entrou no país em meados dos anos 80.
Foi ainda na China que surgiram as primeiras impressões a cores, mas Ung garante ter sido Hong Kong o primeiro palco do design da China. A região pretende agora afirmar-se como a grande plataforma do ensino da disciplina no País.

Um mercado
apinhado de esperanças

As atenções centram-se de facto na educação. Nos últimos anos foram criadas, no Continente, em Hong Kong e em Taiwan centenas de cursos de design e disciplinas integradas em cursos de gestão, bem como programas de apoio a empresas para aprofundamento dos conhecimentos nesta área. Em Macau, apenas o Instituto Politécnico oferece licenciatura em design formando alunos na área de multimédia e design gráfico, de interiores, de produto, de moda. O primeiro curso foi criado em 1994, assegura a professora de design do IPM Ada Tam.
Existem mais de 400 escolas de design na China. É sobretudo nas instituições de Xangai, Pequim, Cantão e Shenzhen que estão ser formados os novos contingentes. A Academia de Belas Artes de Cantão mudou-se para um edifício de oito andares, com capacidade para 3000 estudantes de design industrial, cinco vezes mais do que a sua anterior capacidade.
Desde que a Universidade de Hunan abriu a primeira escola de design em Changsha há 24 anos, não param de surgir cursos. Se em 1990 apenas 12 universidades tinham departamentos de design industrial, em 2002 o número subia para 300, com mais de 900 cursos a nível superior. São números que terão sido apontados, em 2002, na primeira Conferência da IDSA (Industrial Designers of America), em Pequim, sobre o Ensino de Design.
Em Hong Kong, onde 11 estabelecimentos de ensino incluem a disciplina no seu currículo, a oferta não é menor. A região revela-se generosa até ao nível de cursos de formação profissional. Segundo os dados fornecidos pela Associação de Designers de Hong Kong, no ano lectivo de 2003 só o Instituto de Educação Vocacional daquela região formou 1306 designers, embora a um nível não superior. No ano seguinte o número escalou para 1413.
O Governo Central não pára de investir, criando bolsas de estudo e incentivos para jovens em início de carreira. O design está na moda. “Está a fazer-se literalmente tudo para apoiar a disciplina”, garante David Lui.
Em Macau, o nível de adesão ainda é mais notório. Em 2005, os alunos do IPM levaram para casa 22 “canudos”, este ano o número quase duplicou – 42. “A nova geração está muito interessada no design, sobretudo no gráfico”, diz Chung. No IPM o intercâmbio com Hong Kong anda sobre rodas, garante Chung.
O aumento de trocas entre instituições de ensino de Hong Kong e do Continente é uma realidade. “São muito importantes porque o design é ensinado de formas diferentes”, diz Lui. Encontra semelhanças entre o modelo de ensino daquela região administrativa especial e o ocidental, onde o processo criativo e de desenvolvimento de conceito é sublinhado. No Continente, enfatiza-se a capacidade de gestão de clientes e o trabalho em equipa.
Com este intercâmbio, se os chineses do Continente vão tacteando melhor os conceitos modernos, os hongkongers assimilam mais a cultura chinesa, cujo potencial ainda está por explorar. Países com uma forte tradição cultural como a Índia e a China “têm mais condições para produzir um bom design”, sublinha Lui. Chung põe Macau no mesmo saco: “A cultura é uma mais-valia.”

Oriente com história para uma mais-valia cultural

Mas quando se pensa em mercado global, a cultura sem a devida estilização pode acabar por ser uma grande armadilha. Muitos empresários chineses acreditam que irão conquistar a bolsa do mundo com um design “muito vermelho”. Que o diga o famoso designer de Hong Kong, Tommy Li. Por vezes, os seus clientes do Continente querem uma imagem “muito chinesa” na abordagem ao mercado externo. “Assim não alcançam sucesso”, afirma Li, convencido de que os chineses terão de atravessar o mesmo deserto que os nipónicos percorreram. Tudo para encontrar o oásis: a alma do design.
Os japoneses primeiro copiaram, depois passaram duas décadas a limpar o nome e hoje em dia são um sucesso. Também eram muito nostálgicos nos anos 60, mas “souberam esculpir e encontrar um estilo global, simples e com a sua alma”. Implantar o design chinês no mundo significa criar um choque no mercado, “ser muito contemporâneo”. Li acredita que o designer tem de pensar no mercado e não tanto em estilos.
Com clientes em Pequim e Cantão, o famoso designer de Hong Kong Tommy Li nunca abriu um ateliê na China, onde as rendas e a força de trabalho são muito mais baratas do que na região administrativa especial. Aí mesmo, onde a mão-de-obra chinesa especializada aufere menos de metade do valor dos salários da congénere de Taiwan e de Hong Kong. Todavia, Li, no comando de um ateliê a operar em áreas tão diversificadas como o branding, o design gráfico, de interiores ou de produto, não faz esse voo de cegonha porque “o ambiente de trabalho é importante e as condições de negociação mudariam pois seria tratado como um empresário local”.
Na China, os profissionais têm dificuldade em impor-se. O académico de Hong Kong David Lui analisa ao detalhe: “A verdade é que terminam o curso e trabalham durante dois anos para grandes empresas. Depois, abrem o seu próprio negócio e conseguem manter o mesmo salário tendo apenas um ou dois clientes.” Por não terem tanta experiência ao nível técnico e da gestão, correm o risco de comprometer a qualidade do seu trabalho.

Macau com o design cada vez menos dividido

Liderado por profissionais de primeira água como o macaense Victor Marreiros ou James Chu, o design cultural, sobretudo o gráfico, é muito preponderante em Macau. O primeiro é funcionário do Instituto Cultural e o segundo trabalha no Museu de Arte. Ambos são funcionários do Governo, “tendo, por isso, uma liberdade acrescida na criação”,frisa Li. Já os profissionais que actuam na área comercial enfrentam sérios obstáculos: como o mercado é pequeno, na luta para manter os poucos clientes disponíveis, comprometem a qualidade. Esta é a visão de Tommy Li, de uma forma genérica. Mas em Macau, o cenário começa a mudar de figura e os jovens parecem ser os mais interessados nas novas oportunidades.
Empoleirada no balcão do seu stand, um dos 42 que animaram em Julho a III Exposição de Finalistas da Escola de Artes e Design do IPM, Vanessa Cheah é freelancer do mundo da moda há alguns anos. Desenhou os uniformes dos Jogos da Ásia Oriental 2005 e já prepara a pena para assinar os modelos dos 1os Jogos da Lusofonia, em Outubro. Aposta no futuro dos designers de moda em Macau: “O mercado evoluiu muito”; “por causa da liberalização do jogo”, justifica, por seu turno, a professora Ada Tam, frisando a crescente procura de designers gráficos e de multimédia em Macau.
É provável que a disparidade de qualidade entre o design cultural e o comercial diminua. Na esperança disso mesmo vive Keith Lei, outro finalista do IPM. Tem uma apetência natural para o design cultural, mas tem energia para abraçar o desafio do comercial. No seu trabalho descobre-se a iconografia de Victor Marreiros que nas suas raízes – chinesa e portuguesa – busca a matéria-prima de um design com pronúncia contemporânea, decifrando códigos que influenciam duas gerações de designers na região. Lei milita na mais recente. Para o seu trabalho final de curso desenvolveu um conceito com raízes no legado histórico de Macau, para criar a identidade do património da região: “É um passado único no mundo: são cerca de 450 anos de partilha entre portugueses e chineses”.
Stephen Chung e Tam descobrem nos seus alunos um novo olhar sobre Macau, sobretudo desde a inclusão do Centro Histórico de Macau na lista do Património Mundial da UNESCO, em 2005. “Atribuem-lhe mais importância, que já é fonte de inspiração”. Comparativamente aos estudantes de Hong Kong, têm mais matéria-prima para apurar o cozinhado de ideias, adianta o mesmo responsável.
Apesar dos ecos da mudança no mercado local, os designers de Macau, de uma forma geral, mantêm o tom do lamento. Alguns falam de clientes inexperientes à espera de serem surpreendidos. Contudo, sentem também o desconhecimento que estes têm do design. No jogo das diferenças entre Macau e o Continente, este continua a ser mais um traço comum às duas partes: o problema do cliente.

Ocidentais com mais liberdadena China para criar

Existem muitos problemas a ultrapassar até o produto “designed in China” se impor. Mas o futuro é auspicioso, acredita o designer francês Romain Vauchez. Chegou a Hong Kong há quatro anos com a mulher e já tem um filho “made in China”. Trabalha numa empresa estrangeira, numa fábrica em Shenzhen, uma cidade que fica a pouco mais de uma hora de distância de Macau. Vauchez tem ambições e já se lançou como freelancer em Hong Kong na área de design gráfico, de produto e até da prototipagem. Concebe com o mesmo rigor um cartaz, um relógio ou uma mala. Acalenta um sonho: “Ter o maior ateliê de design da China”. Veio para ficar porque aqui tem “mais liberdade de criação”. Vauchez concorda com o colega Mathiew Charlier, com morada na China há seis anos, quando este diz :“Aqui há mais responsabilidades e um nível maior de exigência. Em França, não atingiria os objectivos tão rapidamente, nem seria assim bem compensado num tão curto espaço de tempo por um esforço maior.”
Nos últimos anos, a China tem contratado designers ocidentais e de Hong Kong para criarem produtos do agrado do mercado global. Também o Ocidente tem enviado as suas “tropas” para conhecer de fio a pavio o maior mercado do mundo. Foi o caso da Volkswagen de Xangai, que teve de pedir autorização à empresa-mãe para alterar o interior de um dos seus modelos. Aquilo que pode ser mais apelativo ao gosto sino poderá resultar num flop no Ocidente.
Até agora os chineses não têm torcido o nariz ao que vem de fora, mesmo que não seja concebido a pensar nos seus atributos. Mas é sol de pouca dura, acredita o professor de design de Hong Kong, David Lui, garantindo porém que os chineses continuam a consumir os produtos pensados para o Ocidente: “Dão a volta ao mundo e acabam também nos escaparates de Hong Kong”, a grande metrópole das compras do Extremo Oriente. Uma ironia do destino.
Apesar dos resultados positivos do esforço a poente, o designer australiano Ken Cato, um habitué do mercado chinês, não vê o Ocidente a preparar-se para dar resposta à revolução do design na China, que se arma em várias frentes.
O design é sem dúvida a chave para entrar no mercado global. Mas antes desta revolução estalar, os chineses têm que encontrar a alma do design. É uma corrida ao ouro. Para trás fica “o made in China”, que já não doura o cartão de visita do grande Império do Meio. A Gata Borralheira que laborava noite e dia fornecendo o grande Ocidente com os produtos “made in China” é agora uma bela princesa, ganhando o Vietname ou mesmo a Tailândia o estatuto de novas cinderellas, quais motores renovados da produção do mundo.
O futuro é auspicioso. Se Tommy Li vê nos chineses os diamantes do design do devir, os designers franceses Mathiew Charlier e Romain Vauchez admitem ser surpreendidos de ora em quando por algum trabalho, mas apontam o dedo a alguma falta de criatividade. Já Ung Vai Meng considera que os profissionais ocidentais nem sempre compreendem os signos da cultura oriental, falhando assim a sua percepção do nível de profundidade do desenvolvimento do conceito dos designers na China, “onde afinal foi criado o primeiro logótipo do mundo”.
David Lui tem fé nas futuras gerações, como Ken Cato, para quem a revolução do design chinês já está em curso. Mas os estudiosos apontam para um atraso de 20 anos, embora defendam que não serão precisas duas décadas para apanhar o comboio. Como Cato, muitos acreditam que o país vai mudar muito mais e que o design de alma chinesa conquistará o mercado dentro de dez anos.

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