Terça-feira, Julho 7, 2020
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O fio da escrita

“Chega de conversa mole. Vamos fazer coisas!”, desabafa Fernanda Cavacas, especialista em literaturas africanas, num comentário à política da língua que tem vindo a ser desenvolvida no quadro dos países e comunidades falantes do português.
A oradora, convidada a participar no colóquio “Lusofonia: Os Caminhos da Escrita”, que se realizou em Macau em Junho, numa iniciativa do Instituto Português do Oriente (IPOR) não hesita ao concluir que muito pouco ou nada tem sido feito neste domínio pelos poderes constituídos com o propósito de dar vida formal ao “fio de afectividade” que une à partida nações e culturas diversas ao redor da mesma língua. O fio que ninguém nota no colar vistoso de missangas e que costura o tempo, ao parafrasearem-se as palavras de Mia Couto, escritor dos mais difundidos da lusofonia e cuja imagem foi escolhida para inaugurar este colóquio.
“Já passaram várias décadas e a política não tem conseguido ultrapassar pequenas barreiras à constituição de facto de uma comunidade. Não me venham dizer que é difícil. A União Europeia fez-se e são países muito diferentes uns dos outros!”, argumenta Fernanda Cavacas, a quem propostas não faltam, assim como a indignação por não as ver já concretizadas.
“Estamos a fazer um apelo aos poderes políticos que se calhar não estão tão motivados quanto nós”, admite também José Carlos Venâncio. O sociólogo, também ora­dor convidado, considera que deveria ser possível “instrumentalizar a lusofonia no sentido de uma melhor posição a granjear no mundo, no quadro das relações internacionais”.

“Ainda não chegámos lá”

“A história está ainda muito próxima”, justifica Fernanda Cavacas sobre o processo de reconciliação dos vários mundos em português com um “mundo português”. Referindo-se a Angola e Moçambique, faz notar que “há ainda muitas tensões” ao cabo de trinta anos de história de independência. “Nós – cada um dos países africanos – não tivemos o engenho e a arte para fazer esta descolonização de uma forma pacífica, de entendimento, de partilha”, reflecte Fernanda Cavacas. “Também não é pacífico porque os próprios países têm também em si várias nações e grupos étnicos que não se entendem entre eles. É um percurso, ainda não chegámos lá”, conclui.
A própria escritora moçambicana Paulina Chiziane, cuja obra conheceu destaque neste encontro, confidenciava com o público ao segundo dia do colóquio que não ficara imune durante algum tempo à mágoa associada a uma língua que só mais tarde concluíra que era a sua. “Temos a nossa independência há trinta anos, e essa é uma das razões pelas quais temos toda esta discussão à volta da língua”, explica, ressalvando porém que esta é uma discussão antiga do pós-independência que ficou em suspenso após o início da guerra civil.
Agora, defende, é tempo de reatar o diálogo entre a língua portuguesa e as línguas nacionais em Moçambique (divididas em oito agrupamentos, das quais as mais faladas são macua e tsonga). “Agora que voltámos a serenar, se calhar esta é a altura óptima para retomar todo o projecto linguístico que estava a ser desenhado para Moçambique”, considera.
Também, por isso, a dificuldade em achar consenso em torno do termo lusofonia. Para outro dos convidados, o escritor angolano Ondjaki, o termo “remete demasiado para um dos países da dita lusofonia”, pelo que prefere falar de uma “comunidade de língua portuguesa”. “Esta comunidade é plural, feita de muitos países, e de muitas comunidades.

Uma questão de sotaques

“Há ainda alguma arrogância por parte de alguns que se acham donos da língua”, defende Fernanda Cavacas, cujas lições de bom português são conhecidas do programa televisivo “Acontece”, da responsabilidade de Carlos Pinto Coelho, que esteve também em Macau na apresentação do seu livro ‘A Meu Ver’.
“Todos nós temos sotaque. A língua é feita de todos estes sotaques, não podemos correr o risco de perder nenhum porque essa é a nossa riqueza” – defende Fernanda Cavacas, explicando que ainda não foi atingida a maturidade necessária para compreender e aceitar o fenómeno linguístico que resulta da apropriação da língua portuguesa no quadro das diversas comunidades de falantes.

Eu, o Outro

O que têm em comum a obra do escritor de Macau Henrique Senna Fernandes e a do escritor angolano Luandino Vieira?
O traço de unidade foi encontrado por José Carlos Venâncio, que deu a conhecer um trabalho de investigação no campo da sociologia literária sobre os reflexos de uma pós-colonialidade nas expressões criativas produzidas nos países e territórios onde é falado o português.
“Dominação Colonial” é a obra onde o sociólogo angolano descobre uma marca comum que atravessa continentes e que designa como “alogeneidade”. O autor exemplifica, citando dois escritores da lusofonia: “É uma não pertença. Há uma preocupação em traduzir o outro para o conhecer, para com ele se identificar. Isto, no caso de um escritor como Senna Fernandes em relação aos chineses, como no caso de Luandino Vieira em relação aos angolanos etnicamente integrados, os angolanos dos musseques.”
Ainda no colóquio, a inquietação identitária foi vista à luz das obras “Contos Chineses”, de Deolinda da Conceição, e “As Alucinações de Au Ge”, de Zixin Liao, sendo que esta última, já com edição em francês, deverá conhecer em breve tradução para a língua portuguesa através do IPOR.

Literatura macaense?

Mas que lugar para a literatura macaense no quadro das várias escritas da lusofonia? “Muito reduzido”, admite o editor Rogério Beltrão Coelho, da Livros do Oriente, editora que já publicou diversas obras de autores de Macau.
Presente e interventivo entre o público que assistiu ao colóquio, Beltrão Coelho pensa até que é bastante problemático o recurso à expressão “literatura macaense”, considerando que será mais correcto falar de uma literatura de Macau: “Para dizer que existe uma literatura macaense era preciso definir quais as balizas, quais os padrões em que essa literatura se poderia inserir. Isso faria com que os autores tivessem que ser estudados, que houvesse entre eles um fio condutor que os identificasse como uma corrente literária e que fossem discutidos, que houvesse massa crítica.”
Além disso, admite, os livros de Macau “enfrentam um problema de afunilamento do interesse do leitor devido ao facto de ser um tema muito específico”, que, para além disso, não tem merecido grande atenção dos meios académicos. Apesar disso, há a registar a existência de uma tese de mestrado sobre a obra de Rodrigo Leal de Carvalho e de uma tese de doutoramento sobre a literatura de Macau que está a ser desenvolvida também por uma investigadora portuguesa.
Além disso, a literatura local enfrenta também os obstáculos que se colocam à generalidade dos países da lusofonia na hora de usarem os canais de distribuição: o livro é caro e não circula.
Propondo soluções para a difusão do livro, Fernanda Cavacas no decorrer do colóquio interrogava-se, e interrogava responsáveis da comunidade de falantes de português: “Porque é que não pensam em pequenas coisas como o desalfandegamento dos livros, a criação de uma união de livreiros e editores para nos podermos conhecer?”

Paulina Chiziane

“Descrever o mundo não significa absolutamente nada, não significa que se seja machista ou feminista. Escrevo porque acho que devo. Só isso.”

Primeira romancista moçambicana com “Balada de Amor ao Vento” (Caminho, 2001), Paulina Chiziane não se dá bem com a ideia de uma escrita no feminino. Apesar de a mulher ser protagonista nos quatro romances que escreveu, e estar habituada a que a sua obra seja identificada com este meio universo, a escritora explica antes que o mote para a literatura nasce de uma sensibilidade particular e não de uma afirmação feminista.
“Sinceramente, enquanto mulher, às vezes emociono-me com a nossa condição de vida e vou rabiscando algumas linhas que acabam por ser um livro”, conta tolerante com quem coloca uma etiqueta na sua escrita: “as pessoas gostam de achar que é, talvez porque a voz do feminino esteve sempre ausente da literatura”.
Emocionou-se com o universo da mulher, tal como com a guerra civil em Moçambique, após o que iniciou uma actividade literária regular, já com quatro títulos publicados pela editora portuguesa Caminho. A sua obra mais recente, “Niketche. Uma História de Poligamia” (Caminho, 2004), escreveu-a no entanto por outras razões. São “estórias de marido e mulher”, explica, que foi recolhendo ao longo dos tempos e que “castigam” pelo riso a poligamia masculina em Moçambique. “Escrevi para me divertir. Saiu um livro meio maluco, mas foi bonito”, conta de sorriso aberto.Para além das duas obras mencionadas Paulina Chiziane publicou, ainda, “Ventos do Apocalipse (Caminho, 1999) e “O Sétimo Juramento” (Caminho, 2000).

Ondjaki

“Todo o trabalho literário tem que ser honesto. Isso nota-se”.

Com apenas 23 anos, Ondjaki foi para muitos leitores uma espécie de revelação oriunda de uma Angola jovem, disposta a brincar com as palavras. Foi essa a idade com que se deu a conhecer com a publicação do romance “Bom Dia Camaradas” (Caminho, 2003), no mesmo ano em que recebia uma menção honrosa no prémio literário António Jacinto com a sua poesia (“Acto Sanguíneu”).
Formou-se em Portugal, com uma licenciatura em Sociologia, mas de chofre logo confessa que pouca afinidade tem com o diploma. Interessam-lhe as pessoas, as letras, as artes plásticas ou o teatro e lança-se apaixonadamente no debate sobre a língua – tendo trazido a propósito uma comunicação sobre as relações entre oralidade e escrita, em língua portuguesa, ao colóquio do IPOR.
Também pintor, Ondjaki concebe uma escrita plástica, trabalhada a partir do registo próprio da oralidade, que permita ao leitor “dançar com as palavras quietas”, e que bebe de outros autores como Manuel Rui, Ruy Duarte de Carvalho, Manuel de Barros ou Jorge Guimarães Rosa.
Esta escrita, reinventada a língua, autoriza depois o novo léxico produzido pelos escritores a sair à rua, a cair na boca do mundo, e acontece sobretudo nos países africanos de expressão lusófona. “Não significa que sejamos detentores de um esquema de reprodução de palavras. Não é isso que interessa. O que me espanta é que noutros países, como Portugal, isso não esteja a acontecer”, afirma.
O escritor angolano tem já sete obras publicadas, entre contos, romances e poesia – “momentos de aqui” (Caminho, 2001), “O Assobiador” (Caminho, 2002), “Há Prendisajens com o Xão” (Caminho, 2002), “Quantas Madrugadas Tem a Noite” (Caminho, 2004), “Ynari. A Menina das Cinco Tranças” (Caminho, 2004) e “E se Amanhã o Medo” (Caminho, 2005). Mais recentemente, aventurou-se no audiovisual com um documentário sobre Luanda contemporânea (“Oxalá Cresçam Pitangas – Estórias de Luanda”) com estreia a acontecer em Setembro na capital angolana e também em Lisboa . Neste momento prepara um livro de contos sobre a sua infância e, em 2007, promete novidades em forma de romance…

Macau no fio da lusofonia

Com um programa ambicioso para dia e meio de mesas-redondas sobre as relações entre língua e história e língua e literatura, o colóquio de 19 e 20 de Junho último abriu o apetite a oradores e público para aprofundar a discussão em torno deste difuso espaço da lusofonia. Afinal, Macau, incluso pelo reconhecimento oficial e uso da língua, encontrou no ‘fio de missangas’ proposto para pensar a diáspora da língua portuguesa uma série de afinidades a partir das quais pode reflectir sobre si próprio.
Entre estas afinidades, o problema da afirmação de uma identidade e o papel da língua neste projecto, tema que foi extensamente abordado pelos vários intervenientes. Com Fernanda Cavacas, que inaugurou o colóquio com uma comunicação sobre os diferentes estatutos do português na África de expressão lusófona (“Uma língua a várias vozes”), com José Carlos Venâncio, que dissertou sobre a obra de Henrique de Senna Fernandes e a forma como esta reflecte as construções simbólicas que permitem ao sujeito reconhecer-se face aos outros (“A literatura Macaense e Henrique Senna Fernandes”) , e mesmo com a escritora Paulina Chiziane, que ao contar ”estórias de uma mulher africana” acabou por dar a conhecer ao público a forma como se digladiou com uma língua que só mais tarde aceitou como sua, o português.
As literaturas de Macau também foram tema de debate, com a apresentação de uma análise à obra de Deolinda da Conceição por Gustavo Infante, do leitorado de português da Universidade de Pequim (“Rio de Pérolas, rio de confluências: marcas civilizacionais nos contos de Deolinda da Conceição”), e de uma amostra das tendências da escrita nos novos escritores macaenses de língua chinesa numa comunicação de Stella Lee (“Os escritores chineses de Macau: visão actual do jovem macaense”). “Les hallucinations de Au G’, obra de Liao Zixin que ainda não conhece tradução portuguesa, foi o título sob análise, da própria autora, justamente a representar também literariamente o trajecto de alguém que procura descobrir a sua pertença identitária (“O percurso de Ao Ge”).
Neste colóquio, moderado pela presidente do instituto Português do Oriente, Maria Helena Rodrigues, participaram ainda David Brookshaw (“A lusofonia como tradução e a tradução da lusofonia”) a propósito das particularidades no processo de tradução do português dentro da lusofonia, o escritor angolano Ondjaki sobre as relações entre as linguagens oral e escrita (“dançar com as palavras quietas”), e Fernando Sales Lopes, que deu conta da sua experiência pioneira no ensino das “Culturas Lusófonas”, no caso particular, a alunos chineses de “Língua e Cultura portuguesas” da Universidade de Xangai – que durante um ano estudaram em Macau – enfatizando a importância do ensino da diversidade lusófona, para quem estuda a língua portuguesa, como via para a compreensão do Outro, só possível pelo conhecimento e respeito pelas outras Culturas (“Notas soltas sobre a lusofonia”).
À margem dos debates foram lançados em Macau também os livros “Dominação Colonial. Protagonismos e heranças” (Estampa, 2005), de José Carlos Venâncio, e “A Meu Ver”, (ASA, 1999, 2.ª Ed.) de Carlos Pinto Coelho’, obra com um conjunto de fotografias do próprio acompanhadas de textos produzidos sobre estas por autores de todo o espaço de língua portuguesa.

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