Segunda-feira, Setembro 21, 2020
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Cooperação que vem de longe

Na Achada de Santo António, um dos bairros nobres da Praia, área onde se situam algumas das principais embaixadas no país, incluindo a da China, está o edifício da Assembleia Nacional, um dos mais majestosos do arquipélago, construído pela cooperação chinesa no início da década de 1980.

Não muito longe, a menos de um quilómetro, na Av. Cidade de Lisboa, a principal artéria da capital cabo-verdiana, o Palácio do Governo, edifício que concentra vários ministérios do Executivo do arquipélago, ostenta uma arquitectura que não deixa dúvidas de se estar perante mais um projecto chinês, financiado e construído na íntegra por Pequim, estava a década de 1990 no início.

Mas a República Popular da China deu recentemente outro passo que evidencia a atenção particular que tem para com Cabo Verde, ao financiar e construir a primeira e única barragem em todas as nove ilhas habitadas do país, um projecto que deverá alterar radicalmente a agricultura na ilha de Santiago, a mais populosa do país e onde se situa a capital.

A barragem do Poilão (na foto), no concelho de Santa Cruz, foi construída em 18 meses, tem 26 metros de altura e 153 de comprimento, proporcionando uma albufeira com capacidade para armazenar 1,2 milhões de metros cúbicos de água e foi executada pela empresa Recursos e Energia Hidráulica de Guangdong, do grupo chinês Yuan Da.

A China é ainda responsável por uma parte significativa dos investimentos na principal unidade de saúde do arquipélago, o Hospital Agostinho Neto, na Praia,

Para o médio prazo, a China prepara-se, como ficou firmado aquando da visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, Li Zhaoxing, em Janeiro último, para avançar com novos projectos de envergadura, nomeadamente o Estádio Nacional, uma segunda barragem em Cabo Verde, uma unidade de cerâmica na ilha da Boavista e uma unidade de pesca industrial em S. Miguel, no interior de Santiago.

Para além dos investimentos físicos em Cabo Verde, a China mantém, praticamente desde a independência do país, a 5 de Julho de 1975, uma cooperação estreita na saúde, na agricultura e na educação, formando nas suas universidades centenas de quadros e fazendo deslocar para o país africano técnicos para trabalhar nestas áreas.

 

Investimentos de Macau

 

Mas não é só no âmbito da cooperação institucional que as atenções chinesas se detêm em Cabo Verde. O empresário de Macau David Chow, ligado ao negócio da hotelaria e casinos, prepara-se para colocar a China como um dos países com maiores investimentos privados em Cabo Verde.

Em causa estão mais de 100 milhões de dólares norte-americanos que o empresário se prepara para investir num complexo que inclui hotéis, restaurantes e, entre outras valências, um casino, no ilhéu de Santa Maria, cujos oito hectares estão situados a escassos 200 metros da baia da Gamboa, que liga a capital cabo-verdiana ao mar.

Apesar de os detalhes para que o investimento arranque ainda no decorrer de 2006 estarem a ser ultimados, o Governo já deu uma indicação clara de que este pode ser uma realidade, ao aprovar recentemente, em Conselho de Ministros, uma resolução que desafecta o ilhéu do mapa das áreas protegidas no arquipélago, com indicações que permitem a edificação do espaço.

Isto aconteceu pouco depois de David Chow ter feito uma visita de trabalho a Cabo Verde no âmbito das tramitações preparatórias para o investimento.

Finalmente, uma das mais-valias que Cabo Verde tem para atrair as atenções de Pequim é a sua localização estratégica. Situado a escassos 500 quilómetros da costa ocidental de África, Cabo Verde está a meio caminho marítimo entre a Europa, as Américas e África, tendo o Governo já tornado público, como prioridade, conseguir que a China olhe para o arquipélago como uma plataforma preferencial de entrada no mercado estratégico africano.

 

*Jornalista da Lusa, em Cabo Verde

 

Uma relação estratégica

 

A “promoção” de Cabo Verde ao estatuto de “País de Desenvolvimento Médio” vai implicar a perda de privilégios. Responsáveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros vêem na China “um dos parceiros privilegiados” com que o país conta para enfrentar os novos desafios. Desenha-se uma relação estratégica com benefícios para ambas as partes.

Em Janeiro de 2008 Cabo Verde completa a transição de País Menos Avançado (PMA) para País de Desenvolvimento Médio (PDM) do Conselho Económico e Social (ECOSOC) da ONU. Um processo que significa que o arquipélago conseguiu um patamar de desenvolvimento significativo, como o atesta o facto de estar no topo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-África) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Mas, ao mesmo tempo, é, com a transição, colocado perante a nova e difícil realidade de ter que caminhar cada vez mais pelo seu próprio pé, com uma substancial diminuição das ajudas que a comunidade internacional dedica às nações que integram os PMA.

Este é o grande desafio da política externa cabo-verdiana no médio prazo, cujo objectivo é “ancorar” o seu desenvolvimento em países e organizações de países economicamente sólidos e estáveis através de uma intensa cooperação, como é o caso da União Europeia, os Estados Unidos, o Brasil e, entre outros, a República Popular da China.

E a China, em particular, vem assumindo, há mais de 30 anos, um papel preponderante no desenvolvimento do arquipélago, com uma cooperação, no entender do director-geral da Cooperação do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde, Pedro Alves Lopes, “equilibrada, estável e tranquila” embora não seja “a uma grande escala”.

Este dirigente sublinha este aspecto como importante no desígnio cabo-verdiano de fazer uma transição de País Menos Avançado para País de Desenvolvimento Médio “sem sobressaltos”, tendo em conta que são “inúmeras as vantagens” que o país perde com a saída do grupo dos PMA, como, por exemplo, os empréstimos de longo prazo a baixas taxas de juro e com largos períodos ausentes de obrigações quanto ao pagamento: “Precisamos ter do nosso lado os nossos parceiros para que este período decorra sem sobressaltos de maior para a nossa vulnerável economia.”

No mesmo alinhamento, o director-geral de Política Externa do Ministério dos Negócios Estrangeiros cabo-verdiano, Severino Almeida, coloca a China em destaque no “xadrez actual” da diplomacia de Cabo Verde, apontando Pequim como “um dos parceiros privilegiados” com que o país “conta para levar avante o seu desenvolvimento”.

Por outro lado, reitera que, de facto, uma das opções do actual Governo para o desenvolvimento nacional consiste no aproveitamento da sua localização estratégica, “procurando ainda capitalizar eventuais vantagens de pertencer à Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO)”.

Segundo o mesmo responsável, cabe a Cabo Verde criar as condições para servir de “gateway” para África, pois são os interessados que têm que decidir e fazer opções. “Cabo Verde teria muito a ganhar se a China e as empresas chinesas utilizassem estas ilhas como plataforma para o continente africano”, defende, adiantando, todavia, que isso não depende apenas da vontade de Cabo Verde, porque “é aos potenciais clientes que, numa lógica de mercado, cabe a opção ou decisão última de utilizar ou não Cabo Verde neste sentido”.

Severino Almeida conclui consolidando a ideia de que as relações entre Pequim e a cidade da Praia são “sólidas e pragmáticas” com “um grande futuro pela frente” e em “benefício dos dois países”.

 

R. B.

 

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