Segunda-feira, Setembro 21, 2020
Inicio Sociedade Um clube único no mundo

Um clube único no mundo

Não é muito fácil imaginar hoje a “zona portuguesa” de Hong Kong quando a então colónia britânica tinha pouco mais de duas décadas de existência e as comunidades ocidentais ocupavam no litoral da ilha de Victoria uma estreita faixa conhecida como Praya, numa óbvia réplica da Praia Grande, a elegante marginal de Macau na outra margem do estuário.

Há portugueses de Macau presentes no momento da fundação de Hong Kong, em 1841, alguns ocupam até cargos administrativos de relevo, mas o grande êxodo para a nova colónia sucede em 1849, após o assassinato do governador Ferreira do Amaral, e os que chegam à nova cidade albergam-se à sombra da Igreja da Nossa Senhora da Imaculada Conceição, erigida em 1842 em Wellington Street. É esse, na actual zona de Central, o espaço inicial da presença portuguesa em Hong Kong, que ocupa ruas e locais que farão parte da história de uma comunidade, nomeadamente: Elgin, Upper Mosque Terrace, Albuthout, Wyndham, Connaught, Caine, Robinson.

O consulado português funcionava em Wyndham Street, assim como a maioria das companhias comerciais portuguesas que adoptaram igualmente a mesma zona para se fixarem. É desse núcleo constituído por comerciantes e funcionários da administração colonial britânica que surge, em 1866, a iniciativa de se criar uma associação da comunidade portuguesa, numa altura em que expatriados de outras nacionalidades, como os alemães e o seu Germania Clube, já dispunham de espaços próprios de convívio. A ideia partiu de dois dos mais bem sucedidos imigrantes, J. A. Barretto e Delfino Noronha, provavelmente descontentes com o crescente carácter selectivo do Hong Kong Club, que exclui a comunidade da sua frequência, e foi apadrinhada em Macau pelo governador Coelho do Amaral, que no dia 17 de Dezembro de 1866 o inaugura na companhia de um representante do seu homólogo de Hong Kong.

A primeira sede do Club Lusitano situava-se em Shelley Street, num edifício onde tinha funcionado o Cosmopolitan Hotel, e, apesar do seu emblema original representar uma mulher num acto de protecção a duas crianças, teriam que passar mais de cem anos para que caísse um das “regras de ouro” do clube, que interditava o acesso de mulheres a boa parte das suas instalações.

Quando da fundação do Lusitano, que surge apenas um ano mais tarde do que o Hongkong and Shanghai Bank, a instituição que é um dos emblemas de Hong Kong, havia já referências à actividade na colónia de um Clube Venatório e de um Club de Recreio, este uma antecipação da colectividade que, com o mesmo nome, se tornou no grande rival do Lusitano.

Pelo Lusitano passa então o núcleo da actividade de lazer de uma comunidade cada vez mais numerosa e com maior influência na vida da colónia e os anos que se seguem assistem a espectáculos e a iniciativas tão variadas como encenação de peças de teatro, ensino da língua portuguesa, oferta de lembranças ao escritor Camilo Castelo Branco, celebração do tricentenário da morte de Luís de Camões e hospedagem de “ilustres hóspedes” oriundos de Macau. O Lusitano consolida a sua fama e influência e, em 1920, muda a sede para Ice Street.

Clube de comunidade num meio fechado como foi durante muitos anos a colónia, o Lusitano não esteve imune às divisões e intrigas que não poucas vezes afectaram os portugueses de Hong Kong e a sua história é também marcada por tentativas de dissidência, de formação de novas colectividades, por gorados movimentos de fusão com outros clubes, pelo alinhamento ou oposição face ao poder em Macau, pela polémica sobre os desnacionalizados (portugueses que tinham obtido a nacionalidade britânica) mas a tudo resistiu, inclusivamente a grandes dívidas bancárias que contraiu na década de 1960 quando o espectro da Revolução Cultural lançou fortes dúvidas sobre o futuro e a viabilidade de Hong Kong.

Um dos momentos mais nobres do Lusitano foi a sua transformação em sede das companhias portuguesas de Voluntários, perante a ameaça de invasão japonesa de Hong Kong, e, quando esta se concretizou no dia de Natal de 1941, em centro de acolhimento de refugiados portugueses, antes da sua evacuação para Macau, um dos raros locais na Ásia que escapou aos movimentos do exército nipónico.

Hoje, o Lusitano procura na sua incrível solidez financeira argumentos para combater o progressivo esvaziamento da comunidade portuguesa em Hong Kong e deve muito da sua pujança aquele que foi, sem dúvida, o mais influente dos seus presidentes, Arnaldo de Oliveira Sales, eleito para o cargo em 1967. Oliveira Sales, que desempenhou inúmeros cargos de relevo na administração de Hong Kong, como o de presidente do Urban Council, nasceu em Cantão mas viveu a maior parte da sua vida em Hong Kong, onde, a partir de 1967, lançou as reformas que permitiram ao Lusitano ser aquilo que hoje é: um dos clubes de comunidade mais sólidos do Mundo.

 

* Autor de “The Boys from Macau” – Edição Livros do Oriente

 

 

 

 

 

ARTIGO