Terça-feira, Julho 7, 2020
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O sonho do imperador

 

Há muito tempo que o leão encanta Macau com a sua dança, mas foi nas cortes asiáticas que nasceu e cresceu. Fez-se grande amigo dos chineses há mais de mil anos e, em Macau, logo no despontar do século passado, já se pavoneava nas procissões chinesas sobre póneis de Timor. Inscreveu ainda o seu capítulo na História da China ao assumir cumplicidades com os cantores de ópera cantonense pela causa de Sun Yat-Sen. No período da Dinastia Qing, a ópera chinesa e a dança do leão andavam de mãos dadas. Foram as companhias de ópera que navegavam nos lendários Barcos Vermelhos, quais ciganos do Delta do Rio das Pérolas, que deram a conhecer as modernas coreografias da dança do leão. Eram os actores que faziam desta uma arte do palco em Macau, Hong Kong e na região do Delta, mais tarde adaptada pelas escolas de kung fu. Hoje à dança não se junta a voz dos cantores, mas as percussões dos músicos. Um dos registos mais antigos descreve mais de cem leões entretendo o imperador com muitas vozes a pontuar as coreografias.

“Em Macau, só ganhou popularidade nos anos 40” (do século passado), garante Pun Keng Man, o presidente da Associação Desportiva Lo Leong, que à data nem era nascido. São histórias que fazem parte da memória da mítica colectividade, uma das mais antigas e importantes associações da região e da Ásia.

Durante o período da invasão japonesa da China muitos mestres do Delta do Rio das Pérolas se refugiaram em Macau e Hong Kong e aí passaram testemunho das artes marciais e de dança do leão e dragão. O mestre Lo, que teve o pai de Pun como seu primeiro aluno, foi um desses peritos a enterrar bem fundo as raízes do leão em Macau no final dos anos 30. “Era um dos mais notáveis mestres chineses de dança do leão”. Com Leong fundou a associação baptizando-a com os próprios apelidos. “Tinha com ele uma grande amizade por terem partilhado o mesmo mestre”. Pun conta que Lo veio para Macau com a irmã, por estar envolvida num movimento de guerrilha contra os japoneses. “A guerra ganhava terreno na China e Lo mudou-se para Macau juntamente com a irmã e os seus estudantes”.

Apesar da luta contra a ocupação japonesa continuar a ser uma das causas de Lo e Leong, a verdade é que “não tinham a intenção de recrutar pessoas para combate, mas reunir apoio para a China nesta guerra animando as ruas com desfiles”. Era ainda propósito “reunir fundos para financiar as tropas chinesas”. Foi com este objectivo que foram fundadas em Macau muitas associações de artes marciais. Daquela época, apenas restam três, mas a Lo Leong é a mais activa, tendo nas suas fileiras mais de 300 membros. A dança do leão não deixa de ser extremamente popular, existindo dez colectividades dedicadas a esta arte na região. Não há semana que passe em Macau sem o som dos címbalos, gongos e tambores a acordar os leões. Percorrem a cidade em carrinhas de caixa aberta, anunciando a sua presença com os sons acutilantes das percussões. Abrem lojas, inauguram eventos, abençoam casamentos. Espalham sorte e alegria por onde passam. Mas houve o tempo em que a dança do leão esteve em causa por as gentes de má índole verem naquela fantasia a camuflagem perfeita do crime.

 

Malfeitores em Hong Kong

 

A portuguesa Ana Maria Amaro, que se dedicou ao estudo desta arte, no seu livro “O Brinco do Leão”, publicado na década de 80 do século passado, afirma que existia nos responsáveis das associações de dança do leão a intenção de prevenir o treino de “malfeitores”, que utilizariam os processos de luta aprendidos para o crime. Sugere mesmo a comparação entre os mandamentos da Lo Leong e os juramentos da secreta Hong Mun que tinha ramificações em Macau nos inícios do século passado. No sexto mandamento, a Lo Leong deixa o aviso a quem quiser integrar a sua formação. “Um praticante nunca deve ser belicoso”. No nono, apela aos praticantes que não hostilizem quem não professa o budismo. O seguinte mandamento explicita que “o lutador não deve ser agressivo, ambicioso e fanfarrão”.

Quem prestasse juramento à Sociedade Hong Mun tinha de obedecer a certas regras sob pena de ser castigado “pelo Céu e pela Terra” caso se servisse da sociedade para praticar o mal ou incitasse os seus irmãos a envolverem-se em desordens. Ainda de acordo com “O Brinco do Leão”, também os que “virassem casaca”, empregassem a sua superioridade para oprimir os fracos ou importunassem as suas cunhadas com propostas amorosas então mereciam a mesma punição.

A criação de mandamentos inspirados nas secretas parecia ser medida de precaução fundada. Inclusivamente, os anos 50 e 60 vieram a revelar-se complicados para o leão de Hong Kong. Eram muitos os que vestiam a sua pele para lutas menos nobres. O presidente da Lo Leong garante que em Hong Kong era assim que muitos treinavam para o crime, “o que não estava dentro do espírito da dança do leão ou do dragão”.

A violência avultou-se e o governo de Hong Kong tomou medidas drásticas, proibindo por completo a dança do leão. É por isso que, hoje em dia, em muitos países, é necessário obter autorização para esta prática. “Em Macau, a história era bem diferente: os mestres não permitiam que estas artes fossem usadas indevidamente”.

O governo português apreciava tais iniciativas lúdicas e “por volta dos anos 30 começou a convidar as associações para grandes eventos locais, porque era a favor da preservação e popularidade desta tradição”. Pun recorda que “uma equipa de filmagens portuguesa fez, em 1964, um registo sobre cultura chinesa e convidou a Lo Leong para uma demonstração de dança do Leão na baía da Praia Grande”.

 

Um brinco de leão a luzir em Macau

 

Nas décadas de 50 e 60, havia em Macau uma dezena de colectividades desportivas onde se praticava ginástica e lutas chinesas, mas só a Associação dos Lanes de Peixe, a Lei Lau e a Lo Leong davam notas do talento periodicamente. De todas elas era a Lo Leong que mais se destacava pela perícia dos mestres, mas foi encerrada em finais de 1966, reabrindo mais tarde, para em pouco mais de uma década revolucionar a dança do leão. “Porque a sociedade também mudou, foram introduzidas várias mudanças nos adereços e ainda surgiram novos movimentos como os saltos e a possibilidade do leão rolar no chão”. E foi em Macau que mais se inovou, contagiando com este espírito muitas associações asiáticas.

Entre 1984 e 1987, Pun foi convidado para actuar num espectáculo de variedades muito famoso em Hong Kong. “Nessa época, o nosso repertório aumentou e melhorou muito. A dança do leão era popular e começava a internacionalizar-se, pois essas imagens foram transmitidas por canais de televisão noutras partes do mundo, como no Canadá”.

Uma das mais populares manobras do mundo é da autoria de Pun. “Somos uma associação pioneira nesta área. Somos muito contemporâneos. Esforçamo-nos por levar mais longe o repertório de dança do leão”.

Os novos sopros da mudança podem cobrir as raízes de novas ideias tirando esperança ao futuro de ver retida esta tradição tal e qual como era. Não é uma preocupação de Pun que vê “muita gente interessada nesta arte, havendo mesmo cada vez mais eventos desportivos a incluir esta modalidade”. Contudo, admite que haja perdas “porque a dança do leão na sua origem é extremamente complicada”. São muitos os movimentos e as regras. “Exige que se seja muito meticuloso e isso não vai ao encontro dos nossos tempos”. Actualmente, o público está mais interessado “no espectáculo visual desta arte” do que na sua essência.

Depois de uma década de inovações, nos anos 90, “procura-se agora encontrar um padrão para as manobras mais recentes por forma a que também os novos números desta arte possam ser incluídos nos grandes eventos desportivos internacionais”. A dança do leão passou assim a outra fase da sua história. “Continua a fazer-se esse trabalho para que as regras fiquem bem estabelecidas e definidas para serem partilhadas por todos. No corrente ano, nos 2osJogos Asiáticos em Recinto Coberto, em Macau, esse trabalho estará completado. E se tudo correr bem a modalidade vai entrar nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008. Pun está confiante na presença de Macau. “Temos muitas possibilidades”, até porque a Lo Leong colhe vitórias em muitas competições internacionais. O ano passado trouxe a medalha de ouro para Macau num concurso internacional no Canadá. Entre 1990 e 2005 a associação de Macau venceu por nove vezes o Concurso Aberto para Danças de Leão do Sul de Macau e foi campeã três vezes da Taça Lion King Cup.

 

* com Ina Chiu

 

Dar sopro de vida ao leão

 

Não é qualquer um que dá vida a um leão recém-nascido. Só quem veste esta pele há muitos anos tem o poder de o acordar e sente esse apelo de dar alma ao leão que vai dançar. O presidente da Associação Desportiva Lo Leong de Macau, Pun Keng Man, é mestre nesse despertar dos leões. “Há mais de 15 anos que os traz ao mundo”, naquela que é conhecida como a tradição Hoi Guong, o acordar do leão.

Junto ao altar da trindade taoista protectora dos dançarinos do leão, na sede da associação, na Areia Preta, acende paus de incenso.  Numa bandeja, um velho rizoma de gengibre, um símbolo de poder, é almofada de um novo pincel de caligrafia chinesa. Aí está o vermelho puro do cinábrio  (chu sa, em cantonês, ou zhusha, em mandarim) que vai dar vida ao leão.

Feita a adoração, Pun investiga o animal adormecido murmurando orações em cantonês. Aproxima-se e afasta-se depois em passos largos para prender ao chifre uma flor de ouro, engravatando-o assim com uma fita de cetim. Dá-lhe a coragem e honra para as muitas lutas que travará, garantindo um futuro de boas acções para o leão, que, reza a lenda, terá perdido a cabeça por ter praticado o mal. Honra assim a deusa Kun Iam (Guan Yin, em mandarim) que, sentindo o seu arrependimento, lhe devolveu a vida atando uma fita vermelha à cabeça.

É na testa que Pun lhe dá o primeiro toque de cinábrio, sob a forma de um tridente, bem no centro do espelho que tão bem caracteriza os leões do sul, “afugentando os espíritos” que ali vêem o seu reflexo.

Rodopia em redor do leão, acordando todos os seus sentidos. Para que o mal e o bem estejam no horizonte do leão são “acendidas” luzes nos olhos  representando a presença de um espírito religioso, a “clareza” é dada da esquerda para a direita. Depois são as orelhas “onde o vento passará a correr suave”, garante Pun que prossegue para o nariz, “afastando os espíritos e aproximando o que é bom e justo”. O puro vermelho na língua “faz com que a chuva seja suave”.  No final desenha uma linha em todo o dorso, da cabeça à cauda, queimando papelinhos brancos em torno do leão “para exorcizá-lo das coisas más que vivem no seu interior”.

Pun vai abrindo portas até o novo espírito encontrar a alma do leão e o despertar. A resposta é lenta mas firme. O felino pisca um e outro olho, mexe as orelhas, abre e fecha o maxilar, multiplicando-se os movimentos.

Recebe assim o novo espírito para trazer sorte e fortuna a quem o convida para dançar depois de salpicado com o orvalho das folhas, que acompanham o gengibre e o cinábrio no tabuleiro. Pun avisa que se o leão nunca tiver passado pelo ritual junto ao altar, o azar bate à porta daquele para quem dançar.

À medida que os gongos, os tambores e os pratos vão tecendo a banda-sonora típica daquele cenário de misticismo soltam-se ainda panchões. Pun parece mais enérgico. Antes com calma, tinha citado de memória, passo a passo, toda a coreografia e simbologia do Hoi Kuong. Agora parece um ginasta, um acrobata, um homem diferente, respondendo com maior entusiasmo ao seu novo leão que no final assume o protagonismo numa performance nas três vénias ao deus do altar. Quem assiste, também é brindado pelo leão que anima as hostes com a sua grande expressividade.

Toda esta cerimónia é de inspiração budista, ou não fossem os leões de Pun sulistas. Ainda cansado dos passos gigantes que deu em torno do felino de fantasia, do grande transe que é o Hoi Kuong, Pun, diz que o cinábrio tem poderes mágicos e “é um símbolo de imortalidade”. Substitui o sangue da vítima imolada, dando aos dançarinos um poder maior do que os homens para fazer o leão dançar.

Só um leão novo pode acordar. Contudo, sempre que é requisitado, limpa-se as pintas de cinábrio dos olhos para o trazer de volta à vida. E nem sempre é o mestre da associação que leva a cabo a performance, podendo esta ser também executada pelo dono da loja que requisita o ritual.

Reza a história que na origem desta cerimónia estão duas lendas chinesas. Durante a Dinastia Jin (314 – 420 D.C.) um pintor chamado Gu Kaizhi, famoso pelos seus retratos, tinha o estranho hábito de nunca pintar os olhos. Um dia alguém lhe perguntou o motivo de tal bizarraria. “As pinceladas mais realistas de um quadro subtil são as dos olhos”.

Outro pintor, Zhang Sengyou, foi requisitado para pintar um mural para o mosteiro An Le em Nanquim. Os dragões não tinham pupilas nos olhos e o abade do mosteiro pediu a Zhang que as pintasse, mas o pintor recusou. Acreditava que os dragões pudessem fugir das paredes e escaparem-se no céu. O abade não ficou convencido e mandou pintar as pupilas em alguns dragões, os mesmos que fugiriam pouco depois, não desacreditando Zhang. Pun tem pelo acto de pintar os olhos do leão o maior respeito, “afinal estamos a dar-lhe essência.”

 

“Macau é hoje o meu lugar especial”

 

Em meados dos anos 80 rumou a Macau “na esperança de encontrar o grande mestre”. Paulo Araújo mal tinha pisado terra e o som dos címbalos, do gongo, invadiram-no de alegria. “Tinha acabado de chegar e percebi logo que tinha valido a pena”. Hoje em dia dirige a única escola de leão do Sul de Portugal

 

Foi mágico o primeiro encontro entre os alunos de Paulo Araújo e os da Associação Desportiva Lo Leong de Macau. O mestre português saca o momento do baú de memórias, valorizando esse como um dos episódios mais especiais da história da sua escola.

Quando os alunos de Paulo Araújo chegaram ao hotel lisboeta já os dançarinos da Lo Leong dormitavam nos quartos. “Era tarde e os miúdos estavam exaustos”. Ao outro dia  partilhariam o palco. Iam finalmente conhecer-se. Até então nunca tinham trocado palavra. A manhã despertou e os leões espreguiçaram-se nos dois quartos. Macau e Portugal encontravam-se de novo para celebrar a sua amizade de séculos, mas desta vez ao ritmo da dança do leão.

Os alunos de Paulo Araújo despertaram ao som dos toques de tambor, do gongo e dos címbalos. E responderam à provocação. De um quarto para o outro, a música que desperta o leão fez as primeiras apresentações entre as duas equipas. “Ao fim de algum tempo, abriram as portas dos quartos e olharam uns para os outros e disseram ‘you She-si student’ e os nossos ‘you Lo Leong’”. Daí até ao dia em que se despediram não se largaram, o que dá nota da irmandade que existe entre os praticantes de dança do leão, de Portugal e de Macau. Passados mais de 15 anos do único encontro entre as duas escolas, alguns ainda mantêm contacto por e-mail”. E todos sonham. “Os de cá ir lá e os de lá vir cá”. Este é um contacto para toda a vida, pois “somos como uma família”.

– Quando é que se interessou pela dança do leão?

– Iniciei-me nas artes marciais aos seis anos. Após terminar os estudos em Portugal, fui para Macau, onde tenho as minhas raízes “familiares”, na esperança de encontrar o mestre a quem eu tinha sido indicado: o saudoso grande mestre Pun Su Sam. Toda a minha influência nas artes marciais chinesas vem de Macau, todos os meus procedimentos diários são os da minha escola em Macau. O Kuan Kun, as divindades, a minha filosofia de vida tem muito da sua influência. A minha visão do Oriente é através de Macau, que é hoje em dia o meu lugar especial.

Nessa altura o contacto que tinha com dança do leão era pela leitura, mas lembro-me perfeitamente de ter desembarcado no Terminal Marítimo de Macau e ouvir os tambores. Estranho ou não, nada daquilo me era desconhecido e foi uma alegria enorme que me invadiu o corpo, a alma, o espírito, e dei comigo a pensar que aquela viagem ia valer a pena.

– Como evoluiu essa relação com a Lo Leong?

– Fiquei com uma ligação muito directa ao mestre Pun Chong Kuan, filho de Pun Su Sam, e a todos os membros da Associação Lo Leong, tendo ao fim de alguns anos sido escolhido para seu discípulo directo, nomeação que muito me honra e orgulha. Por ser ocidental, torna-se ainda mais valiosa, mas com mais responsabilidade e naturalmente com muitas mais dificuldades. Sou respeitado no meio da comunidade em Macau. Aliás, quando estou em Macau vivo o meu dia-a-dia com eles: como onde só eles comem. É com eles que me sinto em casa.

Ainda há meses regressei de Macau onde fiz um estágio com o Mestre Pun na Lo Leong. Fui apoiado pela Fundação Oriente que me tem ajudado desde o primeiro dia.

Para além disso, todos os anos o mestre Pun vem a Portugal ensinar na Escola She-si, da qual é inclusivamente presidente honorário. Vem ao Porto verificar se os meus ensinamentos estão correctos. Faz da She-si também a sua escola.

– Que colaborações existem hoje em dia entre as duas associações?

– Não existe uma colaboração entre as duas instituições, mas sim uma irmandade. Sou membro da Lo Leong, sou Tai Si Heng (irmão mais velho). Como temos o mesmo mestre, pertencemos todos à mesma escola e temos o dever de preservar esta tradição das artes marciais que é o de querermos que o nome da “família” (escola) se eleve o mais alto possível.

Mas não há só a ligação à Lo Leong, existe ainda o Sao Mou, que é outra associação da família, da qual sou membro e também irmão mais velho, bem como muitas outras.

– Que significado tem para si esta arte?

– Dá-me uma enorme alegria e felicidade. É um grande espírito de camaradagem que se cultiva no meio, a “irmandade”. É a necessidade de viver em comunidade, é o ritual, é o convívio. Depois da dança, lá vamos todos comungar à volta de uma mesa, rir, falar, e discutir sobre o que fizemos.

O que descobri com isto é que é esta tradição de bem-estar, de alegria, que tenho que transmitir e manter na minha escola. “A tradição do Brinco do Leão”.

– O que sente quando está a actuar?

– Sinto uma enorme responsabilidade, um frio na barriga, medo de falhar, de me enganar e, ao mesmo tempo, uma grande ansiedade de iniciar a actuação, porque sei que depressa tudo passa e se transforma numa alegria enorme, e me transformo num “leão” que vem dar alegria aos outros, trazer sorte, felicidade.

É importante o facto de não existir monotonia, o bater mais forte do coração e o rufar dos tambores. Honrar assim os antepassados e perpetuar algo místico e mágico.

– Já actuou alguma vez no espaço lusófono, para além de Portugal?

– Essa é a minha, a nossa, mágoa. É a nossa maior mágoa e também a deles em Macau, principalmente. Alimento o sonho de um dia poder levar a She-si a Macau, de poder actuar para o povo de Macau. Gostava que nos vissem e se orgulhassem da ligação que existe entre nós.

 

Leões portugueses com raiz em Macau

 

A Escola de Artes Marciais Chinesas She-si nasceu na garagem do pai de Paulo Araújo. “Foi a pedido de um amigo interessado no kung fu, que comecei a dar aulas. Foram aparecendo mais e passei para o salão nobre dos Bombeiros da Areosa no Porto”.

A escola foi fundada em 1986 e hoje tem um espaço próprio, com 600 metros quadrados, com aulas de todas as vertentes das artes marciais chinesas: do kung fu ao taijiquan, passando pelo qigong, pela dança dragão, do leão, e outras. Araújo aposta ainda nas aulas de língua chinesa e de caligrafia.

A ensinar dança do leão e do dragão, “temos cinco professores”, sendo Araújo o mestre. Com um núcleo duro de fãs que está sempre presente nas actuações, a She-si tem uma “muito boa receptividade” do público em geral, pois “o nível dos alunos também é elevado”.

Presidente da Federação Desportiva de Artes Marciais, Paulo Araújo leva os seus alunos a actuar por todo o país, em eventos tão variados como a Queima das Fitas em Coimbra, o Festival de Gastronomia em Santarém, em exposições, congressos, em festivais tão conceituados como o Internacional de Música da Costa do Estoril. Organizou inclusivamente o I Festival Internacional de Artes Marciais Europarque em 1995, onde participaram a Selecção de Wushu de Macau e os Monges de Shaolin (China), com duas centenas e meia de atletas. Também esteve presente no Festival do Oriente, na Universidade do Minho, e na Inauguração da Casa de Macau em Lisboa, em 1999.

Foi terceira classificada no Campeonato do Mundo de kung fu tradicional e Dança do Leão na Alemanha, em 1999 e tem cerca de 1500 associados.

 

Não se sabe ao certo quando foi dado o primeiro passo de dança do leão na China, mas o primeiro registo data do ano 300 a.C. Muitos mitos sobre a sua origem provam a popularidade desta arte que se acredita ter começado como entretenimento da corte, tendo gradualmente atraído o exército e depois o povo 

 

Dança do Leão (校獅)

Em cantonês: mou si

Em mandarim: wu shi

Também conhecida como “O Brinco do Leão”

 

 

Sonhos imperiais

 

Um sonho imperial terá originado uma das lendas da dança do leão na China. É uma das histórias mais populares do país e põe a dinastia Tang (618 – 907) no berço desta arte na China. O imperador da época terá tido um sonho onde uma estranha criatura (leão) salvou a sua vida. Na alvorada seguinte, reuniu os seus ministros e descreveu a dádiva de Orfeu. Queria descobrir que animal era aquele. Assemelhava-se a um animal do Ocidente, o leão, terá dito um dos seus ministros. Por ter salvo a sua vida no sonho, o imperador ordenou a criação de um modelo semelhante ao leão que assim se tornou símbolo de sorte, felicidade e prosperidade.

Uma outra versão desta história refere-se apenas a um leão colorido que o imperador viu nos seus sonhos. As suas coreografias oníricas fascinaram o imperador que as registou e assim criou a dança, mais tarde modificada e melhorada.

Na dinastia Tang, a dança do leão era apresentada por cinco leões de cores diferentes. Cada um era seguido por 12 homens trajados com fatos coloridos, uma fita vermelha na cabeça e uma escova da mesma cor na mão. Os dançarinos eram apelidados de homens-leão e dançavam ao ritmo da melodia Tai Pin, um conjunto de peças musicais compostas durante a dinastia Zhou (1122-256 a.C). Existem registos de que 140 cantores acompanhavam 64 dançarinos.

 

Terror na vila

 

Apesar de nunca se ter ouvido o rugido do leão na China e da natureza ociosa alimentada pelo poderoso dom da caça da leoa, a verdade é que outra lenda conta que um leão aterrorizava uma pequena vila chinesa. Os ataques eram frequentes e os moradores na tentativa de acabar com o terror juntaram-se para bater potes e panelas com a finalidade de espantar a fera, mascarando-se alguns moradores de leões.

Mais mitológica, outra versão desta história conta que os moradores não conseguindo afugentar o leão, decidiram consultar um monge budista, que terá domado o leão, passando o animal a proteger a vila. O monge é geralmente representado pelo Buda com cabeça grande, visto nas apresentações de dança do leão do sul da China.

Segundo a lenda, o leão nasceu no céu. Traquina, o animal pregava muitas partidas, causando problemas por onde passava. O Imperador de Jade foi uma das muitas vítimas das suas travessuras. Enfurecido, matou o leão, cortando a cabeça e separando-a do corpo, atirando as duas partes para a Terra. Não muito depois deste incidente, a deusa da misericórdia, Kun Iam (Guan Yin) lamentou o destino do leão e decidiu ajudá-lo. Com uma longa faixa vermelha, amarrou a cabeça do leão ao corpo reanimando-o. Ainda hoje a fita integra a dança e diz-se que afugenta os maus espíritos. Kun Iam ainda deu ao leão um chifre para lutar e um espelho para espantar os maus espíritos.

Uma outra versão desta história aponta para a existência de um perito de kung fu que foi para a floresta, onde lutou três vezes com o leão, nunca conseguindo capturá-lo. Chamou então os aldeões e treinou-os na arte marcial com a intenção de matar o leão. Meses mais tarde, regressaram à montanha e conseguiram liquidá-lo. Para celebrar a ocasião, os aldeões seguiram os passos daqueles que lutaram com o leão, hoje coreografia da famosa dança.

 

Lendas

 

A luta entre o leão e o nien Sagrado para os chineses, o leão tem um papel fundamental na mitologia deste povo que faz da fera um dos seus amigos. Uma antiga lenda marcou a importância do leão na celebração do Ano Novo Chinês.

Há muitos, muitos anos, uma criatura muito estranha apareceu na China, aterrorizando e alimentando-se de homens e animais. Apelidada de nien ou nian, som que se assemelha à palavra chinesa “ano”. Nenhum outro animal conseguia destronar o nien, nem a raposa nem o tigre. Em desespero, o povo pediu ajuda ao leão, que abanou a juba e enfrentou a criatura ferindo-a. O nien fugiu com a cauda entre as pernas, mas prometeu vingar-se um ano depois. E cumpriu a promessa. Mas o leão não podia ajudar a população, estava muito ocupado a guardar os portões do imperador e os aldeões decidiram fazer justiça com as próprias mãos. Do bambu e do tecido reproduziram a imagem do leão. Dois homens vestiram a máscara e aproximaram-se do nien. O leão saltou várias vezes de um lado para o outro e rugiu. A fera acabou por fugir de novo. É por esta razão que, por alturas do Ano Novo Chinês, os leões dançam sempre. Estão a espantar o mal para mais um ano cheio de boas energias.

 

Vestimenta de leão 

 

Uma armação de metal, vime, bambu e madeira compõem o esqueleto do leão ou do dragão. Tecido, seda e pasta de papel cobrem a estrutura que ainda se embeleza com decorações diversas como apliques de metal, pelúcia, plástico e pinturas.

 

Orientação dos leões

 

São vários os estilos de dança do leão, mas as mais populares são a do norte e do sul.

A Norte: Foi nas regiões setentrionais da China que se iniciou esta dança para gáudio da corte imperial. O longo pêlo do leão do norte dá-lhe uma aparência desgrenhada. É em pares ou como uma família, com dois leões adultos e duas crias, que dá um ar da sua graça, abanando o pêlo farfalhudo de cores laranja e amarela. Incorpora ainda um arco na cabeça, vermelho para o macho e verde para a fêmea. A cabeça dourada jaz sob um corpo muito acrobático.

Por causa dos movimentos muito realistas, é muitas vezes comparado a um cão pequinês. Gosta de se equilibrar ou se balançar sobre uma bola gigante e de saltar.

A Sul: Em Cantão nasceu a raiz deste leão, mais atreito às artes marciais do kung fu e a movimentos de cabeça e corpo muito simétricos. Mais simbólica, a sua dança serve para exorcizar os espíritos maléficos, invocando ainda sorte e felicidade. O leão do sul exibe com orgulho um sortido de cores e pisca uns grandes olhos, enquanto um espelho na testa afugenta os espíritos e um chifre reina ao centro da sua cabeça.

Existem leões de Foshan (Montanha do Buda), de Heshan (Montanha do Grou), de Fo-He, um híbrido de Foshan e Heshan. Também o Chow Gar é um estilo menor criado pelos praticantes de kung fu da família Chow. O Qing Shi tem como protagonista um leão verde, popular entre os fuquinenses/hokkianos e taiwaneses.

A Associação Desportiva Lo Leong adoptou o estilo Foshan, usando mais vulgarmente a cabeça de leão do modelo tigre, que era característica da Associação Lei Lau, uma das mais importantes de Macau, possuindo também a do modelo Cheong Fei (cor da cabeça preta). Segundo Ana Maria Amaro, a cabeça do tipo Kuan Kong só terá sido vista em Macau nas décadas de 60 e 70 pela Associação dos Lanes de Peixe, que usava cabeça vermelha. Contudo, era frequente saírem à rua os diversos tipos de leão durante as procissões religiosas e nos festejos do duplo dez (10 de Outubro). Nos tempos mais recentes o leão perdeu o carácter religioso que tinha originalmente.

 

Outros tipos de leão

 

Três outros tipos famosos de leão são identificados como Liu Bei, Guan Gong (Kuan Kung) e Zhang Fei. Eles representam personagens históricas na China, registadas no clássico “Romance dos Três Reinos”:

O leão Liu Bei tem um focinho amarelo, cauda colorida e pêlo branco. É sábio e um dos favoritos dos mestres das escolas de kung fu.

O leão Guan Gong tem um focinho e cauda vermelhas, a mesma cor de pelúcia do Liu Bei. É o mais nobre dos leões, dançando por isso em muitas cerimónias.

O leão Zhang Fei é branco. É o leão mais agressivo e quer provar a sua bravura.

 

As cores do leão

 

Tipos de leão correspondem a cores diferentes que, por sua vez, representam atributos distintos. Se o dourado equivale a vigor, o vermelho é símbolo de coragem e valentia. O verde indica amizade, o preto ferocidade e o colorido é o leão mais pacífico e é conhecido por leão auspicioso, não sendo muito dado a lutas.

As cores mais comuns são o vermelho e o preto, combinando o nariz azul, as orelhas pretas e barba curta.

 

Um felino verde mau da fita 

 

O leão de cara verde com sobrancelhas de aço como lanças tem uma aparência aterradora, evidenciando-se a sua barba preta, apesar de ser pequena. Com dentes que lhe saltam da boca, representa crueldade e ferocidade e é praticamente invencível. Significa o governo manchu durante a dinastia Qing. Combater este leão é lutar contra os manchus.

Tal ilustra o quão desumano era o reino manchu daquele tempo. Em muitos massacres foram mortos milhares de chineses. Para libertarem a raiva que sentiam, os chineses inventaram os leões de focinho verde, que só podem dançar no corpo de praticantes muito experientes.

Mas nem todos os leões verdes são maus. Aqueles que têm sobrancelhas brancas, barba longa e uma boca aberta são os felinos mais velhos. Utilizados em cerimónias de épocas festivas, visitam ainda as aldeias de casa em casa, para dar sorte e prosperidade, afugentando os demónios e os espíritos para que nasçam dias de boas colheitas.

Outro leão verde é o Song Kiang, que é uma fera jovem muito popular em Taiwan para a prática de exercício físico e propósitos recreativos.

 

Padrões da dança do leão  

1. Rezando às quatro direcções

2. Leão saindo da caverna

3. Leão saindo da floresta

4. Leão ao luar

5. Leão a beber no rio

6. Leão a atravessar a ponte

7. Leão a brincar com um Buda de cabeça grande

8. Leão a brincar com uma bola

9. Leão a subir à montanha

10. Leão a subir ao palco

 

 Manobras fixas

 

1. Dragão Azul e Tigre Branco

2. Formação do Minério Dourado

3. Portão Celestial Budista

4. Formação de Oito Trigramas

5. Conheça os Heróis sob a Lua

6. Portão Celestial Budista com Três Paus de incenso

7. Lampião de Confúcio

8. O 18º Lohan

9. Cabeça de Serpente com Ferrão de Escorpião

10. Dragão gémeo e Pérola

11. Formação da Serpente com Nove Segmentos

 

Algumas Regras Tradicionais 

1. Quando uma equipa passa pela sede de outra associação ou um templo têm de dar o batuque de saudação numa manifestação de respeito

2. Quando uma trupe encontra outra no seu caminho, saudações têm de ser trocadas na forma de cartões de felicitação. O leão não pode pontapear ou movimentar a cabeça de um lado para o outro e tem de manter a boca fechada.

3. Durante as festividades chinesas, as equipas de dança do leão encontram-se com frequência com as de dragão. A primeira deve sempre manifestar respeito não vá o dragão atacar o leão. Só se forem extremamente hábeis é que os dançarinos de leão conseguem saltar tão alto para escapar ao cerco do dragão.

 

Leão versus dragão

 

Duração

Dança do Dragão: cerca de 15 minutos

Dança do Leão: entre 20 a 30 minutos

As primeiras referências à Dança do Dragão aparecem em documentos compilados há quase dois mil anos

 

Para provar a sua valentia há quem lute com os touros, quem ande sobre o fogo ou se aventure nos céus. Em Macau, os jovens da Associação Lo Leong testam a sua coragem vestidos de leões. Dançam equilibrados em cilindros de três metros de altura, saltam no ar como cangurus e trepam em paus de bambu como macacos. É assim que mantêm viva a tradição da dança do leão, que há mais de mil anos incendeia os corações asiáticos

Já tinha escurecido quando os membros da Associação Desportiva Lo Leong de Macau se reuniram na sua sede. Todas as noites, numa antiga fábrica da zona da Areia Preta, uma das mais pobres e populosas de toda a região, acordam as fantasias de dragões e leões de pelúcia adormecidos em caixas de alumínio com pantufas cheias de lantejoulas e esferas douradas. Tudo sob o olhar atento do seu deus protector, Kuan Kong, que reina ao fundo da sede num grande altar vermelho cheio de fuminhos, velas e imagens sagradas.

Não é só entre as quatro paredes da sede que dançam os melhores leões de Macau há quase 70 anos. São muitos os jovens a

trepar com arte marcial nos espaldares, a rolar sobre os tapetes que forram o chão, cortando o ar que mal se respira com as suas espadas de “ninja”. Mas só no terraço, ao cabo de um lance de escadas, num caminho que vai descascando as paredes, se revela a magia destas artes do Oriente. Aí mesmo se abre uma pequena porta ao céu da noite. As luzes de grandes holofotes deixam a descoberto um cenário de fantasia com os chineses a fermentar o imaginário ocidental sobre o Oriente. Esse retrato é o dia-a-dia destas gentes. Ali despertam para uma tradição com mais de mil anos de história.

Se a sede forrada de medalhas, troféus, colchões e espaldares e o grande altar tinham inscrito o exotismo das artes marciais, aquela imagem de leões e dragões coloridos dançando sob os céus fez arrancar a bobina dos sonhos, perder as âncoras de velhas referências.

 

O sol do felino do sul

 

Do chão de tijolo vermelho o mestre Law Chan Kuong vai chamando as cabeças de leão. Dispõe-as em trio para apresentar o senhor leão do sul. “Existe o de Foshan e o de Heshan. São duas cidades chinesas”. Se o primeiro exige mais domínio das artes marciais, “uma cintura forte e muita força”, diz, apontando para os olhos e maxilar do “felino”. O segundo, o de Heshan, “é mais divertido”. Entra dentro de um dos três leões e acorda-o. As pestanas batem sobre os olhos e o longo maxilar inferior abre-se a todo o comprimento da cabeça, descobrindo-se uma grande língua. Os leões são de muitas cores e, entre os muitos detalhes da sua decoração, saltam pompons que são miniaturas de bolas de futebol em pelúcia. Chegaram ao terraço encapuçados com grandes sacos de plástico para competir visualmente com o corpo do dragão que vai serpenteando o seu grande dorso. Law deixa cair os leões no sono e desperta para o reino da fantasia.

Enquanto o dragão se diverte a perseguir uma esfera dourada, a “pérola do dragão” carregadinha que está de sabedoria, alguns jovens vão espreguiçando as suas espadas no ar em coreografias geométricas, dignas de um filme de Bruce Lee. É o kung fu que há muito se aliou à dança do leão. Treinam no calor da noite de Macau, onde a brisa corre mais devagar que os rios de orvalho que escorrem pelos corpos alvos e esculturais ao cabo das três horas de exercício diário. O mesmo sucede a quem se dedica à dança do leão, inspirada que é no kung fu.

Dave Chang é um desses jovens que se apaixonou pelo leão. Salta sobre uma série de plataformas alinhadas em pares como se aquele fosse um jogo do galo suspenso no ar. De cada vez que sobe “um degrau” faz parar o coração de quem o vê. Salta sem rede mas grandes colchões cobrem todo o redor dos cilindros, assim dispostos para aligeirar a queda. Sobre essas grandes barras de ferro que chegam a ter mais de três metros de altura, Chang equilibra-se em pequenos diâmetros onde mal cabe o pé. “É um dos adereços mais populares”. Chang já caiu, mas nunca se assustou. Gosta de vestir a pele do leão preto de Foshan, “porque é mais feroz”. É um dos melhores dançarinos da Lo Leong. Foi tenista, jogador de voleibol e um atleta de futuro promissor, mas o leão levou a melhor “Corre-me no sangue”. O pai, a mãe e até um irmão partilham essa cumplicidade nas fileiras da mesma associação.

 

Manobra de Ano Novo

 

O ritmo estridente dos gongos, tambores e címbalos acorda outros leões junto a um grande pau de bambu, encimado por uma bandeirola. As cores dos cetins, das sedas, os brilhos das lantejoulas que decoram os leões poderiam agonizar o cenário, mas os detalhes e os movimentos da dança que começa são de tal forma ricos que vão construindo novas texturas, acendendo os cinco sentidos de quem vê dançar assim os leões. É uma manobra especial, uma das mais importantes: o famoso choi ching. É como quem diz “apanhar verduras”.

Law não subtrai a atenção aos seus alunos para contar a história dessa coreografia. “Em diferentes períodos o choi ching teve significados distintos”. Por ching (qing, em mandarim), que significa verde, ser homófono do nome da dinastia Qing e existir, a dado momento, a intenção de derrubar o poder manchu, esta coreografia teve uma intenção propagandista nesse período. Associava-se o choi ching (derrubar os Qing) à queda do poder vigente. “Eram os Han que, de forma tão criativa, passavam assim a mensagem nas ruas. Odiavam os Qing por estes lhes terem roubado as terras” e vingavam-se com garra de leão.

Hoje em dia, esta é uma das cerimónias mais populares no Ano Novo Chinês. Durante a festividade, os dançarinos visitam as lojas para desejar aos negociantes sorte e prosperidade. Os comerciantes amarram um envelope vermelho com dinheiro, o tradicional lai si, numa alface e penduram-na em frente à porta dos seus estabelecimentos. O leão dança em torno da alface, engole-a, cospe as folhas e fica com o dinheiro, fonte de rendimento das associações.

O mestre Law conta que o choi ching é realizado em outras ocasiões importantes como inauguração de lojas ou eventos e casamentos. Desta feita, os alunos da Lo Leong vão apresentar a popular coreografia numa competição no Vietname e o choi ching terá outras características. Em vez da alface é erguida uma bandeira num pau de bambu com cerca de cinco metros. “Não é uma manobra tão perigosa como andar sobre as plataformas de metal, mas exige alguma experiência”, assegura Law que vai aperfeiçoando a actuação dos seus alunos com apelo a uma maior expressividade e esforço técnico.

Os leões lutam em refinados movimentos, menos complicados e violentos que os de outrora. Em tempos idos alguns bailaram sobre pernas de pau e outros formavam pirâmides. “Vamos tentar vencer no Vietname e a actuação vai demonstrar o elevado nível dos nossos dançarinos”, apesar de serem todos amadores. Mas… coleccionam medalhas por onde passam.

 

Ser leão por amor

 

O presidente da Lo Leong, Pun Keng Man, chega em cima da hora ao terraço para motivar os alunos, orgulhoso do sucesso da sua receita de amadorismo para a vitória. Custa crer que os dançarinos de Macau sejam amadores e vençam profissionais do interior da China, de Hong Kong e tenham até ficado classificados em campeonatos internacionais? “Conforme o interesse do aluno, ensinam-se técnicas específicas, concentrando-se o estudante numa determinada área. Noutras associações a aprendizagem não é tão segmentada e especializada”. É uma das razões por que Raymond, amador há nove anos, prefere ser leão por amor. “Seria muito duro ser profissional, pois teria de treinar a toda a hora. Prefiro ser dançarino por paixão”. Além disso, “os mestres da Lo Leong têm um conhecimento profundo a nível técnico, o que também acelera a aprendizagem e a torna mais eficaz. O espírito de família da associação também contribui para que todos se dediquem à dança do leão”.

Nem um avo é cobrado aos estudantes pelo testemunho. O mestre Law vê nisso um estímulo à camaradagem entre todos, motivando o espírito de entreajuda sempre que é necessário. “Sentem outra responsabilidade e participam nas actuações que é onde angariamos os fundos para a associação. Inclusivamente, como ensinamos no colectivo, sentem-se mais integrados no grupo”.

Ao presidente da Lo Leong agrada a paixão de tantos por esta arte. Só a sua associação tem 300 membros e existem pelo menos mais dez colectividades no território. “Cada vez somos mais solicitados para actuar. O Governo de Macau convida-nos muitas vezes, mas também os lojistas nos pagam para animar as festas de abertura dos seus estabelecimentos. Estamos presentes em muitos momentos da vida de Macau”, sublinha orgulhoso.

Por toda a cidade de Macau, em verdadeira explosão de crescimento, há inaugurações diariamente. As lojas brotam como cogumelos, nascem casinos como erva daninha e é costume antigo convidar os leões a dançar nos festins.

Law orgulha-se da nova geração de dançarinos e fala deles como se fossem seus filhos. “Somos como que os mentores destes miúdos, orientando-os não só na prática desta arte, mas também na vida”. Nos anos 70 e 80 quando Macau não era uma região muito desenvolvida, “os mestres eram mais autoritários”. A disciplina era fundamental e quem queria aprender esta arte tinha de pagar a um mestre e à associação. Porém, Law admite que nessa época “talvez existisse mais devoção e empenho”. Hoje em dia, a adesão é muito grande e a informação passa de boca em boca. Pun acredita que “se a associação anunciasse as vagas a resposta diminuiria”.

Foi através de um workshop de dança do leão, a outra forma que a associação encontra para recrutar jovens, que Kami, de 16 anos, se aproximou dos leões: “Conheci o mestre Pun num curso de Verão, em 2003. Gostei tanto que decidi fazer-me sócia da associação”. Já Edith, de 17 anos, está na Lo Leong “para conhecer mais gente”, e Joan, de 12 anos, interessou-se pela dança “por curiosidade”. Diz que agora é “menos tímida”. Um sentimento que Yen, de 18 anos, passa a papel químico. “Também me sinto mais valente”. Não são as únicas raparigas da associação. “Há cerca de dez, mas nenhuma de nós pode ser dançarina por que só os homens têm força para actuar”, explica Joan que não lamenta esse cartão vermelho. “Posso ajudar e ainda tocar no grupo de percussão que acompanha os leões”, como fazem as suas amigas que não larga de vista no terraço do edifício.

No choi ching que vai ao Vietname, Joan é responsável pelos címbalos, tocando ao lado de um rapaz muito corpulento que no tambor lidera a trupe de músicos. A essas percussões se junta o gongo que vai ajudar os leões a dançar bem no Vietname, porque “a música embala esta arte”, frisa o mestre Law.

As bandeirolas da Lo Leong prometem continuar a voar bem alto, onde a trupe pisar o palco. Seja perante o júri das competições ou apenas para animar o público, mas será sempre por amor que Macau dançará com os leões.

 

Dançar com garra de leão

 

Antes do Presidente da Associação Desportiva Lo Leong de Macau, Pun Keng Man, descrever o que é uma boa actuação de dança do leão, discrimina-a logo à partida. “Existem dois tipos de apresentação. Há actuações mais artísticas para um público mais generalista e as de competição”. Para as últimas existem regras específicas que têm de ser respeitadas, como a duração.

Certos números artísticos não podem ser apresentados em eventos desportivos. “Numa competição, a dança do leão tem de ter pelo menos 14 minutos de duração e de respeitar um critério específico de avaliação, totalizado em dez pontos. O primeiro é a dificuldade dos movimentos (três pontos), a expressividade do leão (três pontos), até os músicos são avaliados (dois pontos). O ritual de apresentação da equipa também é um dos critérios em análise (um ponto), bem como a coordenação dos dois dançarinos que vale apenas um ponto.

A nível competitivo, quem se esconde na cauda do leão deverá ter entre 12 e 27 anos. Quem assume a cabeça vai dos 12 e aos 30 anos. “A diferença de idades impõe-se pela maior resistência de costas que exige estar na cauda do leão.”

Num espectáculo, o público de hoje não é tão conhecedor da dança do leão como no tempo em que “esta arte era mais exigente quanto à forma, à temática da história contada durante a actuação e às técnicas, se estas estavam de acordo com o requerido”. Hoje em dia, Pun não considera esses critérios importantes, por isso “a dança do leão mais artística evoluiu em termos de produção e uma boa composição visual marca mais pontos a favor. As novas gerações não estão interessadas nos movimentos convencionais”.

Também a moral, o poder mental, a força e o espírito de equipa são determinantes de uma boa performance, sublinha o mestre Law Chan Kuong. “Os movimentos têm de evidenciar a personalidade do leão”. Existem cerca de 15 histórias básicas para as manobras e nove movimentos: alegre, zangado, triste, feliz, medroso, desconfiado, ganancioso, inquisitivo e traquina. Um dançarino tem de assimilar essas nuances de humor e ser megafone destas durante a apresentação. Os primeiros passos devem ser dados quando “o corpo começa a ganhar maturidade. Entre os 12 e os 13 anos é o momento certo para aprender”, garante Law.

 

 

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