Terça-feira, Julho 7, 2020
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Ménage à trois

Ménage à trois

 

Conhecida a predilecção chinesa por números, ordenou-se os diferentes grupos de cineastas por gerações. Assim temos: 1.ª Geração – 1905/1932; 2.ª Geração – 1932/1949; 3.ª Geração – 1950/1960; 4.ª Geração-1960/1980; 5.ª Geração-1982/1989 (1); 6.ª Geração – 1990 até à actualidade. Neste conjunto de artigos não seguiremos uma cronologia pré-estabelecida. Focaremos antes a nossa atenção sobre temas, factos e personalidades que moldaram a história do cinema chinês. Os seus mecanismos de produção apoiam-se em três vértices de um triângulo: China continental. HongKong e Taiwan. Considerando que os processos de financiamento, os circuitos de distribuição, a movimentação de técnicos e actores estão intrinsecamente disseminados por esses centros num constante vaivém, ao analisarmos a realidade do que é o cinema chinês como género, devemos olhar para um todo indivisível, integrando a soma das suas partes, sem quaisquer divisões. Uma ménage a trois altamente fecunda e produtiva.

A nova vaga

 

Na segunda metade dos anos oitenta do século XX, uma série de filmes chineses emergiu de forma algo inesperada e impôsse com mérito na cena internacional. A China ensaiava paulatinamente um processo de reformas e dava-se a conhecer ao mundo, através da sétima arte. Assistíamos com um misto de curiosidade e surpresa, às novíssimas obras de realizadores até então desconhecidos. Tinham por missão inovar e revelavam uma nova atitude de fazer cinema. As marcas profundas deixadas pela Revolução Cultural ainda não se tinham dissipado. No entanto, eles ousavam desafiar os censores e assumiam com frequência uma visão crítica do meio em que viviam. Algo estava a mudar. Eram os primeiros passos de uma longa viagem enquadrada pela política de abertura e modernização, preconizada pelo novo líder Deng Xiaoping, sob o princípio “um país, dois sistemas”.

Títulos dos filmes em língua portuguesa

 

Atribuídos em Portugal:

Farewell My Concubine, Chen

Kaige – Adeus, Minha Concubina

The Curse of The Golden

Flower, Zhang Yimou – A

Maldição da Flor Dourada

The Secret of The Flying

Daggers, Zhang Vimou -O

Segredo dos Punhais Voadores

Hero, Zhang Vimou – Herói

Not One less, Zhang Y1mou

– Nenhum a Menos

The Road Homo, Zhang Vimou

– O Cominho Para Casa

Shanghai Triad, Zhang Vimou

– A Triaeh eh Xongai

Springtime ln A Small Town, Fei Mu – Primovera Numa Pequena Cidade

Eat, Drink, Man, Woman, Ang Lee – Comer, Beber. Homem, Mulher

Days Of Being Wlld, Wong Karwai

– Dias Selvagens

ln The Mood For I..ove, Wong Kar-wai – Disponfvel Poro Amor

The Killer, John Woo – O Assassino Suzhou River, Lou Ye – Os Amantes do Rio

Memoirs or a Geisha, Rob Marshail – Memórias eh Uma Gueixa

Atribuídos no Brasil:

Red Sorghum, Zhang Vimou –O Sorgo Vermelho

Ju Dou, Zhang Yimou – Amor e Sedução

Raise The Red Lantem, Zhang Yimou – Lanternas Vermelhas

The Story or Qiu Ju, Zhang Yimou – A História de Qiu Ju Hannibal Rising, Peter Webber

– Honnibal, A Origem do Mal

Os membros da 5.ª Geração partilhavam o facto de terem frequentado a Academia de Cinema de Pequim (Beijing Film Academy), a única existente na China. A primeira vaga de novos realizadores, num total de 100, concluiu ali os seus estudos em 1982. Causaram um forte impacto, subvertendo cânones e desafiando uma indústria demasiado convencional. O que as suas câmaras captaram tinha invariavelmente uma marca visual muito forte, suportada por um modelo narrativo estruturado de forma diferente do que até então era produzido nos estúdios centrais, dominados por modelos de produção demasiado ortodoxos.   Era o que tinha para nos oferecer esse momento sublime de bom cinema, Yellow Earth (1984). Dirigido por Chen Kaige, como fotografia de Zhang Yimou (também cineasta e colega de Acamemia), tornou-se um ícone do novo movimento protagonizado por ambos e também por Tian Zhuangzhuang, Huang Jianxin, Wu Ziniu, Hu Mei, Zhou Xiaowen, Ning Ying e Zhang Yunzhao, entre outros.

Um pouco de história

 

Chen Kaige foi um dos primeiros estudantes que puderam inscrever-se na Academia de Cinema de Pequim, em 1978, quando a instituição reabriu as suas portas após ter permanecido fechada durante 12 longos anos em que a arte
cinematográfica era olhada de soslaio, de forma suspeita, pelas vanguardas que lideravam a Revolução Cultural. Achavam que estudar cinema era um luxo demasiado burguês. As orientação políticas então vigentes determinavam que os jovens candidatos a realizador deviam antes preocupar-se eminstruírem-se noutras áreas de ensino para se tornarem melhores revolucionários e úteis ao país. Assim as salas de aula mantiveram-se vazias e não puderam testemunhar os acontecimentos dramáticos que tinham lugar em seu redor. As ruas eram um palco de emoções, num frenesim de movimentos populares degrandes massas. Manteve-se num limbo, condenada pelos ventos da História e pelo rumo que as coisas levavam. Muitos professores tiveram que deixar de leccionar e foram enviados para comunas de reeducação. Alguns estudantes foram mobilizados pelo Exército (Hu Mei, Li Shaohong) outros foram colocados em herdades colectivas (Chen Kaige). Zhang Yimou trabalhou numa tinturaria semelhante à que depois filmou magistralmente em Ju Dou. As artes como o cinema de autor eram ostracizadas e condenadas como diabos importados do Ocidente que veiculavam ideias decadentes. Foram momentos difíceis para muitos artistas e professores. Até o filho de Deng Xiaping (Deng Pufang) não conseguiu escapar aos excessos e a Revolução Cultural transformou-o num paraplégico. O jovem estudante de cinema Chen Kaige denunciou o próprio pai (2) aos Guardas Vermelhos, numa sessão pública que lhe causou mais tarde uma profunda angústia, devido ao remorso que sentia por um acto gratuito de exagerado fervor revolucionário. Imperava uma lógica de negação de tudo o que pudesse constituir-se como veículo de difusão de ideias contrárias às teses defendidas pela Revolução Cultural. As câmaras só podiam ser utilizadas como instrumentos de propaganda com o intuito de educar as massas. À excepção de filmes revolucionários e documentários, as únicas obras rodadas nesta fase conturbada, eram meras adaptações de espectáculos da Ópera de Pequim – tão do agrado de Jiang Qing (mulher de Mao, – ela que também for a actriz de ópera chinesa durante a juventude). Após o intenso ciclo revolucionário de dez anos, a Academia de Cinema de Pequim pôde finalmente reabrir as suas portas.  As salas de aula voltaram a fervilhar com novas ideias e propostas arrojadas de jovens realizadores. Procuravam inovar e reflectir sobre as consequências de urna longa década em que se viram privados de estudar e em que o país foi sacudido por uma onda de grande agitação. Fruto dessa reflexão nasce Yellow Earth. As reformas encetadas sob a liderança visionária de Deng Xiaopingfomentaram a criatividade latente à espera de um despertar. A censura era mais branda. Chen Kaige, o realizador, sentia uma liberdade nunca antes conhecida na abordagem de determinados temas. O filme espelhava a ambiguidade com que o seu autor encarava o atribulado passado recente da China. A acção decorre no ambiente genuinamente rural de uma aldeia de Shaanxi, em 1939. Dez anos antes da tomada do Poder pelo regime fortalecido pela Longa Marcha. O quotidiano dos camponeses é-nos mostrado com uma grande riqueza visual suportada por uma excelente fotografia (da responsabilidade de Yimou que é o D.P., (Director of Photography) nesta produção). Embora todos pareçam viver numa aparente harmonia em que os valores individuais se diluem nos mais importantes desígnios comunitários, somos confrontados com o drama de uma jovem camponesa de 14 anos que sonha em escapar às agruras da sua vida sem futuro. Apaixona-se por um soldado comunista e decide fugir da aldeia e de um casamento pré-arranjado pela família, quebrando com a tradição que a prendia ao passado. Kaige incorpora na narrativa valores budistas e taoistas, bem e do mal que serve de veículo para questionar alguns princípios que o pensamento dominante defendera para a sociedade. A 5.ª Geração, da qual Chen Kaige faz parte, afirmou-se por oposição às anteriores, mediante a selecção de temas vincadamente humanistas, com uma preocupação etnográfica. O desempenho do indivíduo como motor da História, em contraponto com o colectivismo, assume um papel fulcral. Os heróis são seres humanos com os quais nos identificamos facilmente. O individualismo sobressai e estabelece um novo padrão nos dramas que discorrem na tela, nos mais diversos enquadramentos. Para trás ficaram as precoupações determinadas pelo rigor do realismo socialista que imperou nas gerações anteriores. Outro aspecto que adquire uma dimensão importante em todos os filmes desta fase é o intenso erotismo e sensualidade que as personagens femininas projectam. É o caso de Gong Li em obras como Red Sorghum (Milho Vermelho), Ju Dou, Raise The Red Lantern (Lanternas Vermelhas) e Shanghai Triad (Tríade de Xangai). A sexualidade surge como um leitmotiv estruturante nas narrativas e deixa de ser um tabu a evitar como for a até então. Celebra-se a metálica e a elipse. O microcosmo da aldeia é uma representação da China; os homens, frequentemente prepotentes e austeros sugerem a velha ordem instituída – as mulheres, jovens heroínas, encarnam as virtudes e revelam-se como protagonistas da mudança. Mutatis mutandis. Mudança. Era a chave dos novos valores que as reformas promoviam. Os filmes da 5ª Geração afirmaram-se como um testemunho privilegiado de uma nova mentalidade enriquecida com a capacidade crítica de julgar os erros do passado e reflectir sobre os excessos cometidos pelas massas revolucionárias de 60 e 70. Reescrevia-se a História. Até este período, os filmes só podiam ser produzidos pelos estúdios oficiais que por sua vez submetiam os projectos à apreciação do Chinese Filme Bureau, um departamento do Ministério da Radiodifusão, Televisão e Cinema que analisava minuciosamente os scripts e storyboards. Esse exercício de fiscalização amenizou-se em meados da década de oitenta em virtude da implementação de algumas reformas que possibilitaram a rodagem de co-produções com o exterior. Procurava-se modernizar a indústria cinematográfica e a entrada de capitais estrangeiros era considerada benéfica. Outro factor determinante foi a nomeação do realizador Wu Tianming (3) para director do estúdio central de Xian. Amigo pessoal de Kaige e Yimou, tinha uma outra visão para o meio e alterou profundamente os mecanismos de produção. Apadrinhou projectos como Red Sorghum (Milho Vermelho) de Yimou e King of The Children de Kaige que foram rodados em Xian sob sua orientação.

Uma nova dimensão

 

Em filmes como Blue Kite (Tian Zhuangzhuang), The Story of Qiu Ju e To Live (Viver) (Zhang Yimou) debate-se a China at large – o que foi, onde estava a para onde ia. Substituem-se gradualmente os velhos arquétipos do modelo consubstanciado pelo realismo socialista, alicerçados em montagens cinéticas influenciadas pelos mestres soviéticos Eisenstein e Pudovkine, por um estilo menos construtivista, mais próximo da realidade, do quotidiano das pessoas, expondo o seu lado humano, com as suas fraquezas e pequenas glórias. Digna de menção é a forma como a natureza surge tratada nas composições. Ela sublinha e reforça a crença no indivíduo: o Homem surge como a medida de todas as coisas. Mas note-se que é um homem anti-herói: cheio de incertezas, angústias, vulgar, frequentemente perdido na imensidão da natureza. A paisagem adquire um novo papel, até então minimalista. Agora revela-se omnipresente e determinista. Por vezes é enquadrada de forma pouco convencional, fugindo ao classicismo imposto de forma pouco convencional, fugindo ao classicismo imposto pela regra de ouro que rege os enquadramentos, uma disciplina seguida no cinema e herdada da pintura. É o que acontece em Yellow Earth. A Terra passa a ser mais uma actriz que determina o enredo. É interessante analisar a influência que a pintura tradicional chinesa exerce em alguns cineastas da 5ª Geração. Zhang Yimou é O que mais evidencia essa marca, através do seu estilo carregado de simbolismo visual, principalmente em obras como Ju Dou e Raise The Red Lantern (Lanternas Vermelhas), onde obtém imagens de grande requinte plástico e apurado sentido estético. Sobressaem os tons vermelhos numa paleta de cores vivas nas cenas que a sua câmara enquadra e transfere para o ecrã. “O vermelho é a cor da vida, mas também pode representar a morte, através do sangue que escorre”, refere Yimou. É curioso observar a ambiguidade do drama que evolui na tela e que espelha a realidade da história relativamente recente do país. O resultado impressionou vastas plateias em todo o mundo, cativando muitos olhares ocidentais. Yellow Earth era a primeira obra a atrair a atenção da crítica internacional para uma nova vaga de cineastas que se tinha afirmado por direito próprio na China. Os filmes mais influentes deste movimento são One and Eight, Zhang Junzhao (1983), Yellow Earth, Chen Kaige (1984), Horse Thief (4), Tian Zhuangzhuang (1986), Red Sorghum, Zhang Yimou (1987), lu Dou, Zhang Yimou (1989), Blue Kite, Tian Zhuangzhuang (1993) e Farewell To My Concubine, Chen Kaige (1993) que arrebatou a Palma de Ouro de Cannes, em 1993.

Rebelde com causa

 

Ju Dou é o primeiro filme chinês a conseguir uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. De novo, a heroína é uma jovem camponesa. É forçada a casar com um austero proprietário de uma tinturaria artesanal de seda. A diferença de  idades e o desespero empurram-na para um amor proibido: apaixona-se pelo sobrinho do seu amo e senhor. Este filme esteve banido na China devido à exaltação do individualismo e à crítica velada que fazia ao peso das tradições que orientavam a socidade, obrigando a uma total submissão dos mais novos aos anciãos, uma herança confucionista. O recurso a metáforas visuais e a opção estilística pela elipse narrativa são uma característica marcante em Ju Dou e foram empregues noutras obras deste período para tornear temas tabu e evitar problemas com os censores.

 

No Festival de Berlim Yimou arrebatou o Urso de Ouro com Red Sorghum (Milho Vermelho) (1987); obteve o Urso de Prata e Grande Prémio do Júri com The Road Home (O Caminho Para Casa) (1988). Em Veneza, conquistou o Leão de Ouro com The Story of Qiu Ju (1992). Sobre a influência das tradições na mentalidade chinesa, Yimou é peremptório: “Durante séculos imperou na China o hábito de se pensar em termos colectivos; é por isso que nós raramente somos capazes de agir de forma autónoma, em resposta aos nossos desejos e emoções pessoais. No entanto, os jovens estão hoje mais interessados em explorar os seus egos, especialmente devido à influência ocidental.” É o cineasta chinês com maior projecção e exposição mediática. Está intimamente ligado sua actriz fétiche, Gong Li, que dirigiu em muitos filmes. Para além de artista favorita, foi sua companheira de facto, até 1995. Personalidade cativante, senhora de um charme irresistível, revela todo o seu talento e dotes artísticos em películas como lu Dou, Raise The Red Lantern (Lanternas Vermelhas) e Shanghai Triad (A Tríade de Xangai). Apostada em diversificar os seus papéis e em afirmar-se internacionalmente, tem participado ultimamente em megaproduções americanas, como é o caso de Memoirs of a Geisha (Memórias de uma Geisha) (2005), Miami Vice (2006) e Hannibal Rising (2007).
A fecunda colaboração artística entre ambos inicia-se com Red Sorghum (Milho Vermelho), primeira obra de Yimou. Gong Li era ainda estudante da Central Drama Academy de Pequim. Tinha então 22 promissores anos. Graduou-se em 1989 e nunca mais parou. Tinha nascido mais uma estrela para a constelação do cinema. Das mais cintilantes. Zhang Yimou e Gong Li são celebridades com um nível de popularidade extremamente elevado. Gozam ambos de grande influência no meio cultural e artístico chinês. Aparecem frequentemente em lugares de destaque nas listas elaboradas pela Forbes, revista especializada em assuntos económicos, que classifica as personalidades do país segundo o rendimento e influência social. Nos últimos anos Zhang Yimou abrandou a irreverência, optando por temas menos controversos dos que lhe valeram alguns dissabores com os censores. Os filmes mais recentes apresentam narrativas inspiradas em factos históricos e lendas tradicionais. HPorquê continuar a abordar os problemas do passado?
– Porquê ilustrar os erros cometidos e que nós agora admitimos?
– É preferível produzir filmes com uma mensagem mais optimista sobre o excelente período que vivemos actualmente. É o que as autoridades me repetem sempre que apresento um novo projectoH, adianta o realizador. Hero (Herói) (2002) teve um excelente comportamento nos mercados internacionais e chegou a liderar o box office americano. The Curse of the Golden Flower (A Maldição da Flor Dourada) (2006), a última produção, insere-se na sua metodologia actual de neutralidade e distanciamento dos temas fortes dos anos oitenta. O engajamento em causas sociais dos primeiros anos desvaneceu-se. Rendeuse aos encantos do show business made in China, mas não deixa de ser uma figura de proa da 5ª Geração  N.A. (1) Muitos dneastas da 5ª Geração continuaram a produzir obras características desta corrente após 1989, como é o caso de The Emperor Shadow de Zhou Xiaowen, rodado em 1996. Determinou-se fechar o delo da 5ª Geração em 1989, devido ao surgimento das primeiras obras da 6ª Geração em 1990. (2) Chen Huai’ai, também realizador e ex-KMT durante a guerra dvi!. Nesta acção, os guardas vermelhos saquearam a casa familiar situada num bairro elegante de Beijing, atirando os livros para uma fogueira, num auto-de-fé revolucionário consumado com o rapar da cabeça de Chen Ruaiai. (3) Wu Tianming, natural da província de Shaanxi, realizador da 4ª Geração, também formado pela Beijing Film Academy. Pelo entusiástico apoio dado a muitos realizadores como director do Xian Central Studio, é conhecido como o “padrinho da 5ª Geração”. Exilou-se nos E.U.A. em 1989, por motivos políticos. Regressou à China em 1994, continuando a trabalhar na indústria cinematográfica e televisiva da R.P.G. (4) O conceituado realizador norte-americano Martin Scorsese considera que Horse Thief de Tian Zhuangzhuang é o melhor filme da década de oitenta (1980-1990)
Fontes para uma leitura posterior:
China on Screen – Chris Berry e Mary Farquhar (Columbia University Press, 2006) Chinese National Cinema – Zhang Yingjin (Routledge, 2004)

Gang Li

Actriz

Data de Nascimento: 31 de Dezembro de 1965 Natural de Shenyang, Liaoning Os primeiros anos foram passados em Jinan, capital da província de Shandong, para onde foi viver com a famOia. Os pais eram professores. Decidiu ser actriz desde muito nova. Na escola gostava de interpretar papéis e de cantar nas pequenas peças e encenações que eram apresentadas no âmbito das actividades lectivas. Apesar de reprovada duas vezes no exame final do secundário, logrou ser admitida em 1985 na Central Drama Academy de Pequim e graduouse em 1989. Era ainda estudante quando foi convidada pelo realizador Zhang Yimou para ser a protagonista do filme de estreia de ambos, Red Sorghum que arrebatau o Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim em 1988. Os dois mantiveram uma intensa relação amorosa até 1995, apesar do realizador ser casado. Integrou o elenco artístico de todos os filmes realizados por Zhang Yimou entre 1990 e 1995:)u Dou, Raise The Red Lantem, The Story ofQiu)u, To Live e Shanghai Triad. Só em 2006 volta a participar numa obra do realizador, ao protagonizar Curse ofThe Dragon Flower, que constitui o maior sucesso de bilheteira da China, tendo quebrado todos os recordes. Membro do Congresso do Povo da República Popular da China. Galardoada pelo governo francês com a Ordre des Arts et des Lettres em 1998 pela sua contribuição para a arte cinematográfica. Representa vários organismos internacionais sob a égide das Nações Unidas e grandes nomes do mundo da moda e cosmética como L’Oréal e Shanghai Tang entre outros. Convidada para membro do Júri dos maiores Festivais Internacionais de cinema, é uma actriz que atrai constantemente as atenções. Extremamente sensual e fotogénica, foi eleita pela People Magazine como uma das 50 personalidades mais atraentes do mundo. Emest Hemingway achava que Ava Gardner era o mais belo animal do mundo. Se ainda fosse vivo, o celebrado romancista da lost generation talvez encontrasse uma nova destinatária para o seu elogio, na pessoa de Gong Li. Tem o raro dom de permanecer bela e sedutora, sem acusar as marcas do tempo. A popular banda de rock “Red Hot Chilli Peppers” dedicou-lhe um tema que tem o seu nome e que foi editado com o single “Scar Tissue”.

Zhang Yimou

Realizador

Data de Nascimento: 14 de Novembro de 1951 Natural de Xian, província de ShaanxiDesde muito cedo sofreu com a discriminação que a sua família era alvo, devido ao passado político do pai. Foi membro do K.M.T., com a patente de major, durante a turbulenta guerra civil (1927-1949). Serviu nas forças vencidas pelo Exército Popular de Libertação, pelo que não foi nada fácil para a família viver o período pós-guerra, que coincidiu com os verdes anos de Zhang, Estigmatizado socialmente, o pai teve que aprender a viver com o drama do desemprego. Apesar de excelente aluno, a Zhang foi sempre recusado o acesso a organizações de juventude, um trampolim para o Partido e os bons empregos. Introvertido, sem amigos, teve que aprender a não revelar os seus pensamentos e ideias. Aos quinze anos inícia uma experiência marcante que mais tarde servirá de inspiração para alguns dos seus filmes. É a Revolução Cultural que o atira para os mais diversos lugares e ocupações, por entre fábricas e herdades colectivas de produção. Essa vivência permitiu-lhe conhecer o que era o país real, ao aprofundar os contactos com os compagnons de route que viviam uma aventura semelhante. Rapidamente percebeu que para lá da “cortina de bambu”a realidade era bem diferente do que a propaganda fazia crer. Compra a primeira máquina fotográfica com o dinheiro resultante da venda do seu próprio sangue,o que lhe permitia juntar algumas economias. Em 1978 decide inscrever-se na Beijing Film Academy, mas a sua candidatura é rejeitada com o argumento de ter 27 anos, idade superior ao que era permitido, Recorre da decisão e em desespero de causa, apresenta o seu portfolio de fotografias. As portas da instituição finalmente abrem-se perante a evidência do seu talento como fotógrafo. É admitido no Departamento de Cinematografia. Torna-se amigo de colegas que estudavam realização, entre os quais se contam Chen Kaige e Tian Zhuangzhuang. O resto já é história. Participa como D.P. (Director de Fotografia) na primeira obra de Kaige, Yellow Earth (1984) que marca o início da 5ª Geração do cinema chinês. Inicia-se na realização com Red Sorghum (1987) e na tela desponta o talento da sua actriz de eleição, Gong Li, O sucesso Internacional permite-lhe obter fundos estrangeiros para realizar as suas obras seguintes: Ju Dou (1989) e Raise The Red Lantern (1990). Estes três filmes formam uma trilogia que cimentou a reputação internacional de Yimou. Inicialmente benidos na R.P.C. devido à sua forte mensagem anti-establishment, puderam finalmente ser projectados após ter aceite realizar uma obra apoiada pelas autoridades, The Story of Qiu Ju (1992). Este comprometimento com o sistema marca o início de uma fase em que é evidente um certo declínio na sua criatividade e irreverência. Mestre na utilização da luz e da cor, é exímio na arte da composição criativa, sabendo enquadrar de forma a reforçar o efeito dramático das cenas que dirige no plateau. Foi nomeado pela Comissão Organizadora dos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) para dirigir as cerimónias de abertura e de encerramento, em que se pretende um grande aparato cénico-coreográfico, com milhares de figurantes.

Palmarés das participações nos principais Festivais Internacionais de Cinema: Festival de Cannes Grande Prémio do Júri em 1994 – To Live Festival de Veneza Leão de Prata em 1991 – Raise The Red Lantern Leão de Ouro em 1992 – The Story of Qiu Ju Leão de Ouro em 1999 – Not One Less Festival de Berlim Urso de Ouro em 1988 – Red Sorghum Urso de Prata em 2000 – The Road Home

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