Terça-feira, Julho 7, 2020
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A grande festa

 

A grande festa já acabou. Mais de um milhar de macaenses, de nascimento ou adopção, e espalhados pelos quatro cantos do mundo efectuaram uma viagem ao futuro. Seria ao passado se viessem revisitar a mesma cidade que os acolheu ou os viu nascer. Mas José Manuel Rodrigues tem outros planos. O presidente da Comissão Organizadora do VI Encontro das Comunidades Macaenses mostrou uma cidade nova – “a Macau dos dias de hoje”. Para tal foi concebido um cuidadoso programa no qual José Manuel Rodrigues destaca “dois pontos de honra”: o Patuá – antigo dialecto macaense – e a sua candidatura a Património Intangível da Humanidade da UNESCO; e a constituição solene da Confraria da Gastronomia Macaense.

 

Intangível património

 

No programa deste VI Encontro o Patuá elevou-se a um “lugar de destaque”, sendo-lhe dedicado um dia inteiro. Tratou-se, segundo José Manuel Rodrigues, do “contributo da diáspora” ao grande ensejo de ver o antigo dialecto de Macau elevado a Património Intangível da Humanidade junto da UNESCO. Um debate sobre esta iniciativa constou no programa do Encontro, através de uma conferência, que contou com a presença das personalidades encarregadas de promover candidaturas “irmãs”. A benefício da comissão local, a Comissão de Candidatura do Fado – a mais popular expressão musical portuguesa e imortalizada na saudade de Amália Rodrigues – bem como a Comissão de Candidatura da Ópera de Cantão – expressão artística de palco única do povo do Sul da China – explanam os principais desafios com que se deparam na obtenção do reconhecimento da UNESCO.

A candidatura a património intangível deve ser apresentada, em conjunto, por Portugal e a China, revela José Manuel Rodrigues, que acrescenta que responsáveis dos dois países já revelaram apoiar a ideia de fomentar uma proposta conjunta. Não há ainda nada decidido oficialmente, mas tudo aponta para que isso venha a suceder. A Universidade de Macau vai elaborar o dossier de candidatura a apresentar à UNESCO.

Trocando a tribuna pelo palco, o “Grupo Doci Papiaçam di Macau”, grupo teatral de Macau cujas encenações tomam forma totalmente em Patuá, levaram o dialecto desde a sala de conferências às massas. No seguimento de Encontros anteriores o grupo deliciou a audiência do anfiteatro da Torre de Macau, com a apresentação de mais uma peça teatral onde tudo se respira macaense.

Ainda no âmbito do patuá, a Casa de Macau Usa Inc., traz à memória o grande poeta macaense Adé, aliás, José dos Santos Ferreira. A Comissão de Sábios de Patuá daquela Casa de Macau, sediada na Califórnia – leiam-se anciãos que ainda utilizam o dialecto – encarregou-se de ler alguns dos mais conhecidos versos do autor.

A caminho do coração…

 

Fruto de um protocolo de cooperação entre sete instituições locais de matriz macaense, a Confraria da Gastronomia Macaense viu os seus corpos sociais tomarem posse numa sessão solene especialmente agendada para o efeito durante o Encontro. Para José Manuel Rodrigues, a criação da Confraria cumpre um dever em relação à “preservação da identidade macaense”.

O também presidente da direcção do Conselho das Comunidade Macaenses – instituição agregadora de todas as Casas de Macau na diáspora e demais instituições locais de matriz macaense – entende que a culinária macaense trata uma parcela de cultura que é imperativo “perpetuar e promover” como mais valia única da indústria turística da RAEM.

Integrou ainda o programa outra conferência para a qual foram convidadas personalidades do mundo gastronómico a fim de debater “os benefícios da culinária macaense” bem como uma comparação entre as dietas atlântica e mediterrânica, onde a macaense se insere.

As festas

 

Quem porventura esteve presente no último Encontro terá ainda vivas na memória as dificuldades logísticas com que a organização se deparou. É que aos mais de um milhar de revisitantes vindos da diáspora, juntaram-se outros tantos locais à festa e não houve local suficientemente grande para reunir a grande família macaense. Coisas do passado, diz José Manuel Rodrigues. Desta feita “a RAEM está dotada de grandes e boas infra-estruturas”. A abertura do Encontro decorreu na Doca dos Pescadores, seguindo-se o jantar de boas-vindas, no Centro de Convenções da mesma infra-estrutura, com a presença do Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho.

Do programa constou também um primeiro sarau cultural, a cargo de um conjunto de artistas de Cantão.

 

Mota Amaral representou Portugal

 

Os organizadores previam que 1200 pessoas se deslocariam a Macau para participar no Encontro. “Com os de Macau é provável que o número ultrapasse os 1500”, nota José Manuel Rodrigues, que destaca a presença de Mota Amaral, como represente do Presidente da República portuguesa, Cavaco Silva. É um sinal, sublinha, da importância que Lisboa atribui ao Encontro. O antigo presidente da Assembleia da República e do Governo dos Açores é, segundo José Manuel Rodrigues, “uma pessoa com grande experiência política e é actualmente o chanceler das Ordens Nacionais de Portugal”.

O presidente da comissão organizadora destaca ainda a presença da juventude no encontro. O objectivo é criar no futuro o Conselho de Jovens Macaenses. Cada casa enviou ao encontro três jovens. “A renovação das associações é prioritário e devemos caminhar no sentido de organizar o Encontro dos Jovens das Comunidades Macaenses”, frisa José Manuel Rodrigues.

 

Reencontros

 

A grande família macaense já se reuniu cinco vezes nos últimos 14 anos. Os pontos altos dos Encontros, revisitados

Este será o sexto Encontro das Comunidades Macaenses. É muita história carregada de grande emoção. Tudo começou há mais de uma década, com o despacho do então Governador de Macau da criação de uma comissão “com o objectivo de organizar o 1.º Encontro das Comunidades Macaenses”. Hoje pouco resta da pacata cidade, de onde a numerosa diáspora originou. Mas, em contrapartida, muito há para redescobrir, numa cidade que nos últimos anos se redesenhou numa conjuntura económica muitíssimo favorável. Foram porventura os últimos revisitantes, em 2004, os que se depararam com maiores mudanças, mas outros Encontros ficaram para a memória.

 

O mais participado

 

Dos cinco Encontros já realizados, o mais participado foi o terceiro. Corria o ano de 1999.Foram muitos os que quiseram revisitar Macau na véspera do regresso do território à Pátria. Nesse mês de Março, Macau seria varrido por mais de um milhar e meio de filhos da terra, desejosos de absorver de tudo um pouco do que a cidade tinha para oferecer – as paisagens urbanas – gravadas em tempos idos; a gastronomia – da loja de sopa de fitas em tal recanto; os “tintins” – e as suas “bugigangas” dignas de serem suportadas na bagagem de regresso a casa; os livros e as pinturas; as imagens gravadas em milhares de películas de celulóide para mostrar aos netos e garantir a posteridade.

 

O primeiro

 

Aquele que seria o primeiro Encontro das Comunidades Macaenses depois do estabelecimento da RAEM – o quarto no conjunto – foi o que “maior significado político” consagrou. O presidente da Comissão Organizadora do evento, José Manuel Rodrigues, recorda o ponto alto do programa com a entrega, por parte do Chefe do Executivo, da bandeira da RAEM aos presidentes das doze Casas de Macau. “Foi o reconhecimento do valor que a RAEM confere não só à diáspora, mas também à comunidade macaense em geral”, interpreta o também presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM). “Se qualquer incerteza se abatia sobre o futuro do papel da comunidade [macaense] no novo capítulo da sua História, sobre administração chinesa, dissipou-se com os actos do Chefe do Executivo”, acrescenta o mesmo responsável.

 

Monumental

 

No quarto Encontro, ou segundo Encontro sob a bandeira da RAEM, teve lugar a inauguração do Monumento dos Macaenses, em homenagem à diáspora. Numa cerimónia solene, representantes das Casas de Macau, da comunidade local, e membros do Executivo da RAEM, depositaram grinaldas de flores dando forma a uma das imagens mais simbólicas de todos os Encontros. Com a assinatura do arquitecto José Maneiras, o monumento é hoje um local de romagem da diáspora e ponto obrigatório dos Encontros.

 

Conselho magno

 

O quinto e mais recente dos Encontros, em 2004, viu como ponto alto a criação do Conselho das Comunidades Macaenses (CCM) – instituição que congrega as doze Casas de Macau na diáspora e as demais instituições locais de matriz macaense. A comunidade fazia-se ouvir, pela primeira vez, a uma só voz. Entre os principais objectivos do CCM perfilava-se a atribuição de sedes próprias a cada uma das Casas de Macau – e que terá sido alcançado. “Era essencial proporcionar às Casas espaços dignos à concretização do desígnio que o Executivo de Macau lhes atribuiu, na promoção da RAEM nos seus países de acolhimento, tanto ao nível turístico como empresarial e comercial”, argumenta o presidente do Conselho Permanente do CCM, José Manuel Rodrigues.

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