Segunda-feira, Março 8, 2021
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Seda e a história de um segredo

 

Foi um acaso. Ou não. Terá sido Leizu, a mulher do Imperador Huangdi – o primeiro da China – que descobriu que do casulo do bicho-da-seda se extraía um fio possível de esticar até muito mais que o dobro do seu tamanho. Leizu, ainda hoje popularmente chamada a rainha da seda, viveu no século XVII antes de Cristo.

Quase três mil anos antes da nossa Era, quando a China dava os primeiros passos como Império, nascia a Seda. Cinco mil anos depois vamos encontrá-la à venda num mercado da moderna cidade de Pequim – o mercado da seda.

Quatro senhoras esticam sobre uma mesa com mais de dois metros de comprimento uma espécie de gaze branca, colocando camadas sobre camadas. Uma de cada lado da mesa, as senhoras mostram-se habituadas ao trabalho pelo qual o tecido leve e transparente aumenta de tamanho tornando-se cada vez mais fino mas sem nunca partir.

A produção de seda envolve um trabalho minucioso até que o tecido do fino material esteja pronto a ser utilizado para diversos fins. “São mantas de cama” explica uma das senhoras enquanto puxa mais uma camada juntamente com as outras colegas.

Pelas camadas que se sobrepõem, o tecido vai aumentando de volume e recebe um aspecto cada vez mais macio. No final de juntar as várias camadas, as senhoras envolvem a seda para dentro de uma cobertura de algodão. “São 1200 renminbis” diz uma das que termina mais uma manta para venda.

Sem segredos e à vista dos que passam curiosos de perceber a técnica, a seda é trabalhada num pequeno canto do mercado, um cantinho que por simbolismo se baptizou como o “museu da seda”. No entanto, é o próprio mercado, um dos mais frequentados por turistas em Pequim, que deve o nome àquele cantinho.

Um pouco ao lado estão vários casulos numa caixa para amostra. Uma jovem exemplifica como se separa a seda: depois de demolhar o casulo, separa a larva do que é a seda no seu estado mais puro. Os casulos são feitos de um único fio com vários metros de comprimento e, em média, o bicho-da-seda leva três dias a construir um casulo.

Para a jovem chinesa, o mais importante é o fio que se transforma em inúmeros mais curtos depois esticados para secar. Tudo se processa lentamente para dar uma ideia do que é o trabalho desenvolvido.

Para os chineses o orgulho é visível quando se fala da seda. “Isto só se faz na China” diz um outro vendedor ao relembrar a primazia do Império nesta arte. Na venda ao metro, a seda no mercado pode chegar até aos 50 euros por metro. “A de melhor qualidade” asseguram.

Detentores do tecido, os chineses iniciaram há muitos anos as técnicas para lhe dar mais beleza e o bordado foi uma arte desenvolvida quase desde que o tecido começou a ser usado para vestuário.

 

Detentores do tecido, os chineses iniciaram há muitos anos as técnicas para lhe dar mais beleza e o bordado foi uma arte desenvolvida quase desde que o tecido começou a ser usado para vestuário

 

“Há quatro regiões mais famosas” lê-se numa nota de explicação. Sichuan, Jiangsu, Hunan e Guangdong ficaram conhecidas como “as quatro regiões dos bordados chineses”. Antigamente havia mais de cem formas diferentes de bordar. Pequim, capital desde o século XIII, destacou-se pelo aperfeiçoamento dos bordados reais, algo que desde a dinastia Zhou, dois mil anos antes de Cristo, diferenciava as posições dos oficiais e burocratas da Corte de acordo com o que levavam bordado.

Actualmente já não há centenas de formas de bordados mas a técnica manual continua a ser ensinada em algumas escolas especiais em nome da tradição. Flores, pássaros, peixes, paisagens e imagens de pessoas tornaram-se um valor acrescentado na seda bordada à mão.

 

Um artigo de luxo

 

Destinada ao uso da família Imperial e aos nobres, a seda começou por ser usada nas roupas de luxo e em alguns objectos. Suporte de pintura, cordas de instrumentos musicais, papel e redes de pesca, foram outras funcionalidades descobertas para a seda à medida que o uso se tornou mais frequente na corte.

Mas se hoje a maior parte dos visitantes estrangeiros que passa pela China procura levar sempre um “souvenir” de seda – e os lenços de senhora e as gravatas vendem-se às centenas –, não podemos esquecer que foram precisos 2500 anos até que a Seda começasse a sair da China.

Foi o romano Justiniano, conhecido como “o Imperador que nunca dorme”, que conseguiu fazer chegar a si os primeiros casulos que poderiam desvendar o segredo de como se fazia a seda. Sem se conhecerem, o Império chinês e o Império Romano sabiam pouco um sobre o outro mas imaginavam muito.

Durante muito tempo para os Romanos a seda vinha da fibra de uma árvore. Incapazes de descobrir o segredo, importavam-na da China através dos Persas. Os livros de História contam que em Roma se denominou os chineses de “Seres” associado ao nome do tecido macio que ninguém sabia como se fazia. Não se sabe ao certo quando começou o comércio entre Roma e a China mas foi preciso chegar até ao século VI da era actual para que em Roma se vissem os primeiros casulos.

Porque negociar a seda chinesa com os Persas, inimigos do Império, era cada vez mais difícil no tempo de Justiniano, dois monges nestorianos ofereceram-se para levar até ele o segredo da seda, trazido da China. Uma proposta que Justiniano aceitou e que trouxe à China os dois monges disfarçados que levaram de volta os casulos até Roma.

Impossível de separar da história do comércio, o artigo de luxo está na origem das trocas entre Estados e sobretudo entre o Ocidente e o Oriente.

As histórias sucedem-se sobre a forma como alguns conseguiam levar casulos desde a China, onde durante muito tempo estava prevista a pena de morte para quem tentasse roubar o segredo da produção.

Hoje já se sabe com certeza que a seda chegou até sítios longínquos como o antigo Egipto. É curioso que é muitas vezes através de descobertas arqueológicas que se vai traçando a rota da seda mas fica por saber como chegava o tecido a tantos sítios do mundo onde o espanto tomava conta dos que pela primeira vez tocavam no tecido.

Mesmo em países como a Coreia, vizinho da China, a seda só viajou através dos primeiros trabalhadores migrantes – chineses que iam para o país vizinho trabalhar e que levaram os primeiros casulos. Ao Japão, que é hoje um dos principais exportadores, o precioso artigo só chegou no século III.

A primazia da China definiu-se desde cedo. As empresas que hoje se espalham pelo país sabem que devem o sucesso a uns bichinhos originários do Norte e que foram sendo levados para fora. Nos tempos imperiais, era comum a China oferecer peças de seda a outros reinos, uma forma de agradecimento mas também uma maneira de os cativar para o comércio com o Império do Meio.

Se a globalização teve um início definido, em muitos livros de economia considera-se que foi Vasco da Gama o seu mentor, porém, muitos anos antes a seda já era um produto procurado a nível global mesmo antes de se saber que tamanho tinha o mundo.

 

Rota da Seda

 

As viagens dividem-se por várias estradas mas o atractivo é o mesmo – “venha reconstituir a Rota da Seda”.

Turismo cultural e turismo de aventura, ir fazer a Rota da Seda é hoje uma forma de férias como apanhar o comboio que atravessa a Sibéria em direcção a Moscovo.

O interesse pela Rota da Seda regressou no século XIX com investigadores, arqueólogos e académicos que queriam encontrar as cidades que se descreviam nas viagens dos mercadores.

A antiga rota continua envolta num significado místico. Embora o nome “Rota da Seda” só tenha aparecido no século XIX, a distância de mais de 4500 quilómetros desde Roma, Italiana Península Itálica, (a Itália ainda não existia) até à cidade de Xian, o ponto de referência na China, foi a mais importante rota da História do mundo comercial nos seus primeiros passos.

Na Ásia Central a Rota da Seda tinha vários caminhos que se escondiam entre as montanhas e os desertos.

 

Na área chinesa pela qual passava, encontram-se ainda hoje em várias províncias restos da história dos mercadores que descreviam as cidades por onde passavam. A rota dividia-se em várias rotas, definidas muitas vezes pelas condições atmosféricas de cada um dos caminhos.

Kashgar, na Província de Xinjiang, é ainda hoje uma cidade onde se viaja no tempo. No bazar e no mercado de domingo encontramos mercadores, chineses da etnia Uigur, que vendem as iguarias da região. No imaginário dos que pensam percorrer a rota, Kashgar era, e ainda é, o primeiro ponto de contacto com o Império do Meio. Cheiros fortes e cores garridas vivem-se na parte da China onde a influência da Ásia Central ainda é mais visível.

O regresso ao livro das viagens de Marco Polo é quase obrigatório. O veneziano (a Itália ainda não existia) que viveu entre 1254 e 1324 é o mais famoso viajante estrangeiro da Rota da Seda. E a descrição de uma viagem no Oriente que durou 24 anos só veio contribuir para aguçar o interesse de mercadores no Ocidente. Hoje continua a inspirar viajantes de todo o mundo que procuram o périplo original por onde passou a família dos Polos.

Devido ao valor excepcional que adquiriu, a seda chegou a ser usada como moeda e forma de retribuição para os poderes estrangeiros durante as dinastias Han e Tang.

O caminho comercial é anterior a Marco Polo mas à medida que os séculos iam passando, as quantidades de mercadoria tornaram-se maiores e com destinos mais longínquos. A rota recebe o nome de seda porque entre todos os produtos que eram comercializados do Oriente para o Ocidente, exemplo do jade, especiarias, folhas de chá, laca, incenso e algodão, a seda tornou-se o mais procurado.

A dinastia Tang, do século VII ao século X, marca o apogeu da rota entre o Oriente e o Ocidente. Indianos, turcos, iranianos, japoneses, italianos, coreanos, malaios, cruzaram-se entre Xian (antiga Chang’an) e Kashgar na fronteira.

Quando finalmente no século X, a produção da seda já era possível no Ocidente, a China levava três mil anos de avanço.

 

A palavra que se adoptou no Ocidente tem certamente as suas origens na língua chinesa e daí a referência ao nome “Seres” dado pelo Império Romano à China

 

A linguagem da Seda

 

A palavra que se adoptou no Ocidente tem certamente as suas origens na língua chinesa e daí a referência ao nome “Seres” dado pelo Império Romano à China. Em mandarim, o som de seda vem de um carácter lido como “si” que é apenas a primeira parte da palavra. A longa vida da língua chinesa assim como da seda no Império levou a que se desenvolvessem vários conceitos a partir da mesma ideia.

Literariamente utiliza-se a seda num provérbio para referir a forte união de um casamento. Na verdade, tudo o que se relacione com fino e longo acaba por aparecer associado ao carácter inicial de seda. Mas a lista é grande no que a palavra seda cria em chinês. Descrita para sentimentos, pessoas, coisas, a suavidade fica sempre associada ao “sedoso”, palavra importada para inúmeras línguas.

“Porque a utilizávamos para a música, hoje ainda associamos a seda aos instrumentos musicais de corda e sopro” explica um vendedor de seda. Em muitos provérbios, os fios de seda são a metáfora escolhida para explicar tamanho e complexidade.

Por mais anos que passem, a seda não se vulgariza na China. Para a população, a compra da seda não se associa a um “souvenir” como para quem vem de fora. A oferta de uma peça de seda tem de ser do melhor material. E, nestes casos, diz-se que quem vende é que pode saber o que é o melhor. Mas para um ancião chinês basta tocar na seda para averiguar da qualidade, algo que só se aprende com a prática.

Sima Qian, o primeiro historiador chinês que viveu no século II antes de Cristo, começou por contar a história lendária da princesa Leizu e da descoberta do casulo. Mas dando um salto na História, a seda chinesa mantém a sua importância até à II Guerra Mundial quando devido aos stocks japoneses estarem limitados, o Ocidente encontrou substitutos nas fibras sintéticas como o nylon, usado por exemplo em pára-quedas.

As histórias são inúmeras, sendo que muitas se espalham oralmente como os provérbios. A resistência da seda, como material que dificilmente se rompe no seu estado puro, inspira a população. Porque a quantidade de seda utilizável em cada casulo é muito pequena o trabalho envolvia milhares de mãos para o que se queria produzir – a riqueza de um Império.

 

Herança de gerações

 

No mercado de Pequim conta-se que a seda vem de Hangzhou, uma das cidades consideradas berço da produção, ao lado de Suzhou. Esta última, situada a duas horas de Xangai, é conhecida pela sua seda desde há séculos. Em 1991 inaugurou um museu unicamente dedicado à história da seda que reconstitui as várias etapas da produção. A réplica de um camelo logo à entrada mostra qual foi o primeiro meio de transporte para levar o tecido a viajar para além fronteiras.

A produção em série tomou conta do ramo há muitos anos. Para os mais antigos, o melhor sítio continua a ser Suzhou. Contudo, de Norte a Sul encontram-se hoje empresas chinesas dedicadas à seda. As condições para culturas do bicho-da-seda também se espalharam por toda a China que assume o primeiro lugar como exportador mundial.

Na Ásia, a Índia é um dos principais importadores da seda chinesa comprando mais de sete mil toneladas por ano. No entanto, o governo indiano tem vindo a investir na compra de máquinas chinesas para processamento de seda tendo em vista a diminuição da dependência das importações. Há dois anos, a produção indiana foi de 18 mil toneladas, uma oferta que não chega para a procura interna de vinte e seis mil.

É um facto que apesar de haver um acesso cada vez maior a tecidos sintéticos, a seda continua a manter um lugar de destaque. A produção mundial mais do que duplicou durante os últimos trinta anos e a China e o Japão continuam a ser os maiores produtores, responsáveis por mais de metade do que é produzido mundialmente.

Na China fazem-se por ano mais de 70 mil toneladas de seda em bruto. Um número gigantesco.

Tal como ainda é difícil traçar as várias rotas dentro daquela que era a rota da seda, no mundo actual é quase impossível reconstituir o processo de produção seja do que for de tão interligados que estão os países em relações comerciais.

De Inglaterra à Índia, na Internet há empresas a vender peças de roupa em seda ou apenas o tecido a metro. Para um chinês, comprar sem ver é uma ideia que dificilmente convence. Mestres da arte, detentores do saber milenar, não duvidam ao dar explicações sobre como se dobra, como se lava ou como se produz a seda. Conselhos adquiridos depois de muitos anos de técnica. E se algo mais faltasse dizer, ficaria uma verdade sobre a seda – nunca haverá algodão ou lã que resistam a tantos anos de História.

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