A Casa de Ana Paula Cleto

É desde Janeiro a Casa Garden, morada da delegação de Macau da Fundação Oriente (FO). Ana Paula Cleto – investigadora e coordenadora da Língua Portuguesa na Universidade de Macau (UMAC) – aceitou o convite da FO e preencheu um vazio de seis meses, aberto com a saída de Rui Rocha para a presidência do Instituto Português do Oriente

 

 

O escritório de paredes altas dá para o jardim. É aqui, sem carros e com o chilrear dos pássaros que Cleto, 49 anos, nascida e criada em Alenquer, nos recebe. “Este convite para a FO foi o mais inesperado de todos, porque toda a minha carreira se construiu na área da linguística e do ensino do português como língua estrangeira”, conta a mulher que também foi directora do então Centro de Difusão de Língua Portuguesa e do Centro de Língua Portuguesa do IPOR. O convite para a FO apareceu para que fizesse mais um interregno numa carreira dedicada ao ensino, que a trouxe pela primeira vez a Macau em 1990.

Mas voltemos à casa. Com o novo cargo que ocupa, o dia-a-dia de Ana Paula Cleto alterou-se substancialmente. A professora mora a cinco minutos da UMAC e, por isso, “acabava por ficar enredada na universidade”. “Vivia muito fechada, passava semanas em que não vinha a Macau”, confessa. E agora? “É o paraíso. Trabalhar na Casa Garden todos os dias é agradabilíssimo.” A equipa é pequena – uma pessoa no secretariado, um motorista, dois guardas, um jardineiro, uma empregada e “um cão e um gato”, brinca. Isso, porém, não a impede de cortar caminho.

Quando assumiu a delegação da fundação presidida por Carlos Monjardino, sabia que era “um trabalho de risco, porque a FO era ou é mal amada, por causa de um certo isolamento”. Mas Ana Paula Cleto define-se como aventureira, gosta de arriscar e de coisas que a estimulem. Decidiu aceitar o repto, ainda que avise: “Não vim para ser a salvadora da Fundação”.

As novas funções fazem-na comunicar com instituições, com pessoas que apresentam projectos ou parcerias. Mal começou, fez um périplo pelas associações ligadas às artes, das de matriz portuguesa às completamente chinesas. “É muito interessante o que faço no dia-a-dia, por todos os contactos que se estabelecem, por um manancial de conhecimento desta área cultural. Valeu a pena ter avançado para esse desafio.”

Das actividades organizadas pela FO desde Janeiro, o Salão de Outono, mostra de artistas locais organizada em parceria com a associação Art For All, foi a mais visível. Agradou a Ana Paula Cleto “ter visto tantos chineses dentro da casa”. Isto porque, defende, “às vezes a comunidade portuguesa esquece-se que não deve ser isolada”.

A delegada da FO considera que a cultura lusa “tem de ser essencialmente mostrada aos que menos a conhecem”. Apesar de achar que já muito se faz a nível cultural em Macau, aponta que “é importante que aconteçam mais coisas que venham de fora” e, através da Fundação, promete a visita de artistas portugueses ao território.  Conta ainda “levar coisas chinesas de Macau para Portugal”.

Projectos não faltam a Ana Paula Cleto. Propôs recentemente à FO a criação de uma bolsa artística que financie um artista chinês para estudar em Portugal, na Faculdade de Belas-Artes, e as coisas estão bem encaminhadas. Para 2011, e depois das obras que em Janeiro interditarão o espaço, a programação da Casa Garden será intensa, com exposições, workshops, festivais, concertos. Cleto quer mais e sugere a criação de um mês português. “Seria qualquer coisa não tanto com o carácter da Lusofonia, mas algo que tivesse cinema, teatro ao ar livre. E não poderia ser feito só por nós, mas em parceria. Não temos capacidade de organizar uma coisa dessas sozinhos.”

 

Aprender a ensinar

A sala de aula está intimamente ligada ao percurso de Ana Paula Cleto. Começou a frequentá-la no externato Damião de Góis, em Alenquer. Foi na capital portuguesa que continuou como estudante, ingressando na licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, variante Inglês-Alemão, da Faculdade de Letras. Depois de uma passagem de um ano por Munique, encetou a actividade docente em Lisboa.

Por essa altura já o encontro com Maria Antónia Espadinha era um reencontro. “Conheço a Ana Paula desde pequena, porque frequentávamos a mesma praia na zona de Sines”, conta a professora da UMAC. Mais tarde, é Macau que volta a juntá-las. Ana Paula Cleto veio primeiro e, anos depois, juntou-se a Maria Antónia Espadinha que entretanto chegara para dar aulas na UMAC. “Ela é uma pessoa muito disponível, que gosta de partilhar experiências e começar coisas novas. É alguém em quem se pode confiar a todos os níveis, porque cientificamente também é muito boa. Os alunos, apesar de não exagerar nas notas, apreciam-na e reconhecem que é justa”, acrescenta Espadinha.

A nova etapa de Ana Paula Cleto na FO é encarada por Espadinha como “uma escolha”. “Que ela desempenha muito bem o lugar acho que está à vista”, analisa. A professora deixa, no entanto, um desejo: “Espero que ela volte à universidade”.

Tal não acontecerá pelo menos no próximo ano, que Ana Paula Cleto garante querer passar ao leme da delegação da FO. Depois se verá. O regresso à UMAC para prosseguir investigação aparece como natural e, em paralelo, há já outra ideia: criar uma associação de professores de português na China.

Até agora, a docente conta um mestrado em Linguística Portuguesa e um doutoramento em Linguística Aplicada. A tese de doutoramento, entregue em 2005, versa sobre um dos grandes interesses de Cleto: as especificidades dos alunos chineses que aprendem português. “A Aquisição da Concordância de Plural no Sintagma Nominal por Aprendentes Chineses de Português Língua Estrangeira” levou-a a analisar o discurso de diferentes alunos em duas fases e a perceber evoluções ao nível da concordância. “Nós temos uma língua muito rica em morfologia flexional e que muda a cada pessoa, tempo, etc. Imagine o quebra cabeças que isto é para um chinês”, observa.

Por isso, defende que em Macau as crianças têm de ter acesso a um bom ensino de português, já que é nessa fase que a aquisição de outra língua pode ultrapassar os obstáculos da diferença. “Dar uma formação sólida nas nossas escolas primárias e secundárias é muito importante. Esses são os nosso futuros intérpretes, mediadores entre a China e os países de língua portuguesa.” Cleto adita que a RAEM tem “todo o potencial para ser o grande centro de ensino de português como língua não materna”.

 

Além do ofício

Esta é uma mulher que gosta de trabalhar e di-lo. “Às vezes até me pergunto se não sei fazer outra coisa.” Mas sabe. Na estantes da professora não existem apenas livros de linguística. Sabe, por exemplo, de cozinha, e gosta de fazê-la para os amigos. “Tenho uma biblioteca enorme de livros de cozinha; qualquer programa de gastronomia que eu veja, tiro notas; vou a um restaurante e tento perceber que sabores estou a experimentar…”

Gosta de música e cinema, de nadar e jogar ténis. Um dos seus sonhos – além de ter sido música, bailarina ou mesmo estilista – é ter um restaurante de cozinha portuguesa e mediterrânica, um espaço que “não fosse só de comida, fosse também de arte”.

Ana Paula Cleto acredita que as pessoas nascem com vocações. Uma das suas pode estar à volta dos tachos. A outra é a que já sabemos: ”Acho que nasci com vocação para ser professora. Tenho saudades, mas se neste momento me perguntar: ‘Quer voltar?’ Não, já não quero”. Só depois de arrumar a casa.