Terça-feira, Julho 7, 2020
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Em busca da identidade cabo-verdiana

 

As ilhas do Cabo Verde foram encontradas por navegadores ao serviço do rei de Portugal por volta de 1460. E para as apresentar na sua génese, nenhum texto escrito o faz melhor que o Prelúdio do poeta Jorge Barbosa:
Quando o descobridor chegou à primeira ilha/nem homens nus/nem mulheres nuas/ espreitando/inocentes e medrosos/detrás da vegetação./ Nem setas venenosas vindas no ar/ nem gritos de alarme e de guerra/ ecoando pelos montes./ Havia somente/ as aves de rapina/ de garras afiadas/as aves marítimas/ de voo largo/ as aves canoras/ assobiando inéditas melodias./ E a vegetação/ cujas sementes vieram presas/ nas asas dos pássaros/ ao serem arrastadas para cá/ pelas fúrias dos temporais/. Quando o descobridor chegou/ e saltou da proa do escaler varado na praia/ enterrando/ o pé direito na areia molhada/e se persignou/ receoso ainda e surpreso/ pensando nEl-Rei/ nessa hora então/nessa hora inicial/começou a cumprir-se/este destino ainda de todos nós.
O descobridor também logo constatou que a relativa secura e pobreza em espécies vegetais e animais não era de molde a interessar e atrair pessoas de alguma qualificação, quer técnica quer económica. Estava fora de questão cativar uma elite, fosse portuguesa ou de outras nacionalidades, como tinha acontecido aquando do povoamento da Madeira ou dos Açores.
Decidida, porém, a vantagem económico-política de transformar Santiago num entreposto do comércio de escravos para as diversas rotas do mundo, houve que começar a povoar a ilha. Além de gente, foram levadas as primeiras plantas que gerariam alimentos, bem como animais. Assim, todos os alimentos básicos, a começar pelo milho e o feijão, mas também a mandioca, a papaia, a batata-doce, apenas para referir algumas espécies, são todas do Brasil, com excelentes resultados na sua adaptação às ilhas no Atlântico. Do mesmo modo que o coqueiro e a mangueira foram levados da Índia, a tamareira saiu do Norte da África e o café, de algures do mundo.
Já no que concerne ao povoamento humano, de início não houve tanta sorte. Isso porque as primeiras levas de colonos enviados de Portugal para Cabo Verde deixavam muito a desejar. Eram criminosos condenados ao degredo, prostitutas arroladas pelas ruas e mendigos. Enfim, uma ralé tão ordinária que, anos mais tarde, deles viria a escrever com desgostoso e evidente exagero o cabo-verdiano Mário Leite, num livro sobre a história das ilhas: Verdadeiros celerados que tinham além de outras, essas tendências anormais: cropolalia, dipsomania, piromania, cleptomania, dromomania.
Por outro lado, havia absoluta urgência por parte de Portugal na efectiva ocupação das ilhas, em grande parte devido às divergências com a sôfrega, gananciosa e poderosa Castela, disposta a tudo arrebatar para o seu domínio. Uma das primeiras medidas adoptadas pela Coroa portuguesa com o objectivo de nas ilhas fixar residentes, foi conceder, através de uma carta tipo foral, datada de Junho de 1466, uma série de privilégios ao donatário e demais moradores de Santiago. Entre esses privilégios, constava o direito especial de poderem negociar em todas as partes da Guiné e vender as suas mercadorias sem qualquer limitação, desde que provassem ser vizinhos da ilha de Santiago. Anos depois, mais precisamente em Fevereiro de 1472, a Coroa viria a impor aos moradores a obrigatoriedade não só de povoarem a ilha, como também de nela produzirem os bens destinados ao seu comércio com a costa.
Essas decisões foram de grande utilidade, mas não chegavam para o povoamento generalizado que se desejava. E assim, por volta de 1600, durante o domínio dos Filipes de Espanha, a Coroa portuguesa acabou por entrar em negociações com os cristãos-novos: contra o pagamento de uma determinada quantia, permitiu que grande número se instalasse em Cabo Verde com as suas famílias e bens.
Foi um salto qualitativo importante. Os judeus que podiam pagar a sua instalação em Cabo Verde eram gente não só de cabedais, como de instrução, com fortuna suficiente para armar navios e resgatar na costa, vindo desse modo a contribuir fortemente para a criação e afirmação de uma importante elite na ilha de Santiago.
Concomitantemente, chegavam escravos da África continental: do Senegal, do Sudão, da Guiné, do Congo e de Angola. A maioria destinada à reexportação, mas grande parte para o serviço na ilha, sobretudo na cultura do algodão, primeiro em Santiago e posteriormente no Fogo.
Um problema que cedo viria a causar preocupações à metrópole foi a miscigenação, que começou de forma desenfreada logo que os brancos entraram em contacto com as escravas negras. A famosa aldeia do Sapes, nos arredores da cidade de Ribeira Grande, em Santiago, terá sido o primeiro laboratório de miscigenação antes de o fenómeno se alastrar pela ilha e depois pelo arquipélago.
No intuito confesso de limitar o uso da mulher preta pelo homem branco, o rei D. Manuel I ordenou que todas as mulheres portuguesas que tivessem de ser degredadas, deveriam sê-lo especialmente para Cabo Verde, pretendendo desse modo prover os homens brancos de mulheres da sua cor.
Contudo, tal estratégia não resultou, ou pelo menos não terá sido suficiente. Um autor da época gracejou que as degredadas, mulheres conhecedoras do mundo, em vez de se deixarem iludir pelas almiscaradas palavras de amor, antes preocupadas com o seu próprio bem-estar, não se prendiam por questões de cores. Preferiam entregar-se àqueles que melhores garantias lhes ofereciam, nesse caso os pretos e mulatos que, para as possuir, não olhavam a sacrifícios. Quanto aos brancos livres, estes temiam a desenvoltura das degredadas conhecedoras da vida, optando pelas virtudes, graça e inocência das pretas e mulatas. E, por isso, entre estas escolhiam as suas esposas.
Restavam os portugueses degredados. A uma compatriota pobre, escolhiam uma preta ou mulata que fosse rica. De sorte que, acrescenta o cronista da época, o grave problema político da extinção da raça preta e mulata proposta pela metrópole, vai-se antes resolvendo pela sua mais ampla propagação.
Bem entendido que nada disso se fez de forma pacífica, como hoje pode parecer. Houve mesmo um bispo, de nome Vitoriano Portuense, que esteve em Santiago por volta de 1690 e que, desesperado com a concubinagem que reinava na ilha, pessoalmente ia todas as noites tirar as mancebas das casas dos clérigos e de alguns seculares. Não tendo poder para punir os homens, castigava as mulheres: as que fossem escravas mandava-as para o Rio de Janeiro; as que fossem forras, para a ilha de Santo Antão.
Para desvendar um dos primeiros factores da construção da identidade cabo-verdiana, não se pode excluir, sem qualquer dúvida, a concubinagem e a consequente miscigenação por ela provocada. Mas há ainda outros factores não menos importantes. O sociólogo e historiador cabo-verdiano António Correia e Silva enfatiza a forma exemplar como a fazenda insular substituiu a comunidade aldeã africana, e acabou por ser o seio no qual o homem das mais diversas partes do continente foi transformado no escravo cabo-verdiano. Foi a fazenda, escreve ele, lugar de trabalho, habitação, repouso, convívio, de festa e de morte, onde o quotidiano se desenrolava nas suas múltiplas dimensões, o espaço privilegiado de aculturação de escravos originários de uma África imensa, cada qual com a sua língua, religião e estrutura de parentesco.
Assim, pode-se concluir, numa primeira abordagem, que a concubinagem e a fazenda são os dois elementos que desde muito remotamente se apresentam como os principais definidores do que viria a ser a identidade nacional cabo-verdiana.

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