Terça-feira, Julho 7, 2020
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Celebrar um idioma

 

 

Texto Hélder Beja

Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

O Colóquio da Lusofonia, que passou por Macau e pelo Instituto Politécnico na sua 15.ª edição, tem uma grande costela açoriana. Foi no arquipélago português que a ideia nasceu e é a literatura daquele lugar, que já conheceu nomes como Vitorino Nemésio, que se celebra mais que qualquer outra.

Na RAEM, de 11 a 15 de Abril, a tradição manteve-se. Apesar de o Acordo Ortográfico ter aparecido como tema dominante (ver entrevista com Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara nas próximas páginas), as letras açorianas não foram esquecidas pelas dezenas de académicos e outros convidados. O presidente da Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia, Chrys Chrystello, aproveitou a ocasião para lembrar a sua passagem por Macau, onde viveu há mais de 30 anos, e para lançar o segundo volume do seu livro, ChrónicAçores, e Vasco Pereira da Costa, poeta insular, trouxe consigo a súmula de versos Fogo Oculto.

Macau e as suas especificidades estiveram também em evidência. A começar pelos autores da terra e a terminar no papiaçam maquista, que a organização do Colóquio da Lusofonia quer ajudar a preservar. A ideia passa pela criação de uma cadeira de Estudos de Patoá em uma ou mais instituições de ensino, e pode ganhar força através do protocolo assinado entre a associação que organiza os Colóquios e o Instituto Internacional de Macau.

Chris Chrystello, homem de raízes australianas, olha para a via académica como a única possível para salvar o papiaçam do desaparecimento total. Entende que é preciso dar “condições para, ou via Internet ou via presencial, criar os Estudos de Papiaçam di Macau” e preservar a língua.

Os escritores da terra tiveram direito a vénia. Henrique de Senna Fernandes, Adé dos Santos e Graciete Batalha receberam novos olhares sobre a sua obra. E o mesmo se pode dizer de Camilo Pessanha. Senna Fernandes, falecido no ano passado, foi homenageado com um passeio pela cidade em que os participantes do Colóquio fizeram um ‘roteiro’ dos lugares que escreveu e frequentou.

Ao longo de quatro dias, o Colóquio esteve muito tempo fechado no Instituto Politécnico de Macau – com sessões que foram da presença portuguesa em algumas regiões da Ásia ao ensino do português na RAEM e à tradução – mas também saiu à rua. Houve uma sessão de poesia no Jardim de Camões, junto ao busto do ilustre poeta português que passou por Macau; e ainda o lançamento de várias obras na Livrara Portuguesa.

A 16.ª edição do Colóquio da Lusofonia já tem data e local: acontece de 30 de Setembro próximo a 5 de Outubro, em Santa Maria, nos Açores. Em 2012, o certame volta a Macau.

 

Acordo a caminho

O novo Acordo Ortográfico deve estar completamente em vigor no Instituto Português do Oriente (IPOR) até ao final do ano lectivo que arranca em breve. “Temos programadas acções de formação interna para funcionários do IPOR e workshops para os professores. Publicámos já o manual para o módulo I de ensino de Português Língua Estrangeira com o novo Acordo Ortográfico e está em fase de conclusão o manual para o módulo II”, refere a direcção do IPOR em resposta às perguntas da revista MACAU.

Os responsáveis pelo IPOR, Rui Rocha e Ana Paula Dias, consideram que “muitas das angústias relacionadas com a aplicação do Acordo se relacionam com as generalizações apressadas (ou mal-intencionadas) que se têm verificado”. E por isso dizem ser “essencial” a formação adequada dos professores. “Ao falar com pessoas em conversas informais, ouvimos muitas vezes afirmações que não existiriam se o texto do Acordo tivesse sido efectivamente lido – e é o que aconselhamos nessas situações”, referem.

A direcção do IPOR olha para a história para justificar o que diz: “[O linguista] D’ Silvas Filho relembra o que aconteceu em 1911 com o uso das letras dobradas, do ph, do y. A resistência foi então também grande. No entanto, hoje em dia já não passaria pela cabeça de nenhum de nós escrever dessa forma”.

A lexicografia será “a área mais afectada” pela nova reforma, pelo que “aqui reveste-se de especial importância o rigor dos materiais que são editados para acompanhar o processo de implementação do Acordo, assim como os materiais de referência, como dicionários e prontuários”. Rui Rocha e Ana Paula Dias lembram que “quer a comunidade escolar, quer os utentes da língua em geral necessitam de instrumentos fidedignos aos quais recorrer”.

O IPOR desdramatiza a questão da unificação da ortografia. “A língua não é igual para todos, mas é de todos. Que seja diferentemente utilizada pelos vários falantes que a partilham é não só normal como compreensível e desejável, dado o universo ontológico em que se movimentam ser também ele diferente. Que se simplifique, actualize e harmonize a ortografia dessa língua comum é tão-somente um acto que se repete com alguma, maior ou menor, periodicidade e que reflecte a sua natureza de organismo vivo, mutável e dinâmico.”

O IPOR revela ainda que está a estudar com a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) “a viabilidade de um apoio específico no domínio do Acordo para o corrente ano”.

 

 

Dois homens de acordo

Os professores Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara são dos principais responsáveis pela implementação do acordo ortográfico em Portugal e no Brasil, respectivamente.

Passaram pela RAEM, para o Colóquio da Lusofonia, e a revista MACAU fez aos dois as mesmas perguntas.

Os académicos mostram-se bem sintonizados no que toca à língua portuguesa. Até na palavra de que mais gostam.

 

 

Malaca Casteleiro

 

Qual é a principal vantagem do acordo ortográfico?

A maior vantagem é eliminar uma deriva ortográfica de 100 anos. Havia duas ortografias para a língua portuguesa e eliminar essa dualidade é realmente a principal vantagem.

 

Qual foi a questão mais difícil de resolver durante a feitura do acordo?

A dificuldade que mais encontrámos foi a questão da acentuação, no caso das palavras esdrúxulas e palavras graves com ‘e’ e ‘o’ tónicos, seguidos de consoante nasal, com as quais as vogais não formam sílaba. Por exemplo, para as palavras esdrúxulas, ‘António’, ‘cómodo’, ‘género’; e para as palavras graves por exemplo ‘ónus’, ‘fémore’, ‘bónus’. Há diferença de timbre nos dois lados do Atlântico. Em Portugal e nos países e regiões recentemente mais ligados a Portugal, o timbre dessas vogais é aberto, e no caso do Brasil o timbre é fechado. Do nosso acento agudo, do lado do Brasil acento circunflexo. Este foi o problema que mais difícil se tornou, porque acabámos por chegar à conclusão que o menos oneroso era manter a dupla acentuação e a dupla grafia. Foi uma das decisões mais difíceis.

 

A língua portuguesa fica ou não mais pobre com este Acordo Ortográfico?

Não fica mais pobre. Essa tem sido uma das críticas que se faz muitas vezes, que alterar a ortografia e suprimir as chamadas consoantes mudas é um atentado à cultura portuguesa. Não é possível, porque nós ao longo da história da língua eliminámos tantas consoantes mudas, a língua evoluiu tanto do latim para o português. Estudámos os textos medievais e estamos agora e elaborar o dicionário da língua portuguesa medieval. Há palavras que têm dez ou 15 formas diferentes de se escreverem, é uma confusão. Predomina a pronúncia na forma de escrever, com as variações todas que isso tem, nomeadamente na altura. Sei que as pessoas reagem porque nós, quando aprendemos uma palavra, aprendemos três coisas: o significado, a pronúncia e a ortografia, isto é, a grafia correcta da palavra. E a ortografia correcta fixa-se na nossa mente como uma imagem gráfica. Quando escrevemos fazemo-lo intuitivamente. Um adulto está habituado a escrever ‘óptimo’ com ‘p’. Se tem de começar a escrever ‘óptimo’ sem ‘p’ isso exige uma certa readaptação, um certo esforço. Mas atentado à cultura, empobrecimento da língua, de modo algum. Continuaremos a usar a língua como até aqui. Uma interpretação errada que se faz é que vamos começar a falar como os brasileiros e que isto é uma imposição deles. Nada disso. E até era bom que nós se calhar falássemos mais como os brasileiros, porque éramos melhor entendidos pelos espanhóis. Nós fechamos as vogais, comemo-las, e temos mais dificuldades em ser compreendidos por um brasileiro do que o contrário.

 

Diga uma palavra com a qual tenha tido dificuldade nos seus tempos de aluno, uma palavra em que se enganasse com frequência.

Uma palavra que me enganava era ‘meteorológico’. ‘Meteorológico’ ou ‘metreológico’. É claro que compreendia a origem da palavra, não há mais confusão, porque ‘meteorológico’ vem de ‘meteoro’.

 

E uma palavra de que goste muito?

É um pouco difícil… Mas é o problema da ‘saudade’, que até já teve trema no ‘u’ e desde 1945 que não tem trema. É uma palavra muito bonita, bem tipicamente portuguesa e característica da nossa língua.

 

 

Evanildo Bechara

 

Qual é a principal vantagem do acordo ortográfico?

A aplicação do espírito do acordo, de simplificação e unificação, é tão profunda que é difícil escolher de entre os factores importantes o mais importante. Não sei se o mais importante é o pedagógico, na medida em que você facilita o aprendizado da escrita às crianças; se é o factor cultural de a unidade facilitar o caminho das obras escritas em língua portuguesa em todas as direcções; se a importância é política para a coesão do grupo lusófono; se a importância é comercial, do ponto de vista da aproximação dos povos, de abrir novas portas de troca de interesses comerciais. É difícil escolher um. Eu, como professor, escolheria o lado didáctico-pedagógico que a simplificação ortográfica pode trazer.

 

Qual foi a questão mais difícil de resolver durante a feitura do acordo?

Em relação ao grande público, foi a mudança de hábitos. A mudança é sempre muito mal vista pela pessoa que vai enfrentá-la. Nem todo mundo está de acordo com o horário de Inverno e o horário de Verão. Mas essa mudança existe e tem seus resultados positivos para a comunidade. A primeira dificuldade que a gente encontra é justamente essa. A segunda é a de pessoas abrirem mão da sua maneira de escrever e terem de adoptar um outro sistema, ainda mais na língua portuguesa, em que num espaço de dez em dez anos aparece sempre uma reforma ortográfica. Agora, a verdade é que, aplicada a reforma, o sucesso aparece. Ainda me lembro da primeira declaração de um velho jornalista do Record que disse que implantou a reforma sem dificuldade e que acha a reforma um passo de simplificação na vida dele. Ele confessava sentir certa saudade das consoantes que deixava de escrever, mas que a falta delas simplificava a maneira de escrever é um facto que ele reconhece.

 

A língua portuguesa fica ou não mais pobre com este Acordo Ortográfico?

Uma língua não está empobrecida pela sua ortografia. A língua geralmente se empobrece pela diminuição do nível de cultura. É o índice de cultura que empobrece ou enriquece a língua. De modo que a reforma ortográfica não traz qualquer pobreza para a língua. A ortografia é como a vestimenta da língua: você não enriquece nem empobrece pelo facto de mudar de camisola, de mudar de vestimenta. A ortografia é um artefacto que compõe a língua em toda a sua plenitude.

 

Diga uma palavra com a qual tenha tido dificuldade nos seus tempos de aluno, uma palavra em que se enganasse com frequência.

Não era bem uma palavra, era uma letra. É uma coisa curiosa, porque isso se repetiu em algumas gerações dos meus parentes. A grande dificuldade que eu tinha para aprender o abecedário era a letra ‘d’. Quando chegava à letra ‘d’… ‘Que letra é essa, menino?’ Aí já sabe… (risos). Curiosamente isso aconteceu com o filho do meu tio-avô, com o irmão da minha mãe e aconteceu comigo. E ainda não fiz um inquérito no resto da família (risos).

 

E uma palavra de que goste muito?

Gosto muito da palavra ‘saudade’. Acho que ‘saudade’, pela sua sonoridade, alivia a dor que ela provoca. A forma sonora é como se fosse um contrapeso da dor da saudade pela ausência de uma pessoa amada.

 

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