Quinta-feira, Julho 2, 2020
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Falando de José Vicente Jorge (1872 – 1948)

 

 

Texto Tereza Sena

Centro de Estudos das Culturas Sino-Ocidentais, Instituto Politécnico de Macau

 

Figura marcante da Macau dos inícios do Século XX, José Vicente Jorge é uma personalidade parcamente estudada, muito havendo a dizer sobre o seu papel de mediador, o seu trabalho de intérprete-tradutor, a sua influência como professor e a sua intervenção na decisão e governação dos destinos de Macau e na Legação de Portugal em Pequim, entre outros aspectos a requererem investigação aturada.

Algo surpreendentemente surge agora um primeiro trabalho monográfico — se bem que memorialista e ecoando a tradição e a representação familiares —,  dedicado a José Vicente Jorge, fruto do labor e persistência de dois dos seus netos, Graça Pacheco Jorge e Pedro Barreiros, a quem se fica a dever a iniciativa e a autoria de José Vicente Jorge. Macaense Ilustre, uma fotobiografia trilingue (Português, Chinês e Inglês), editada pelo Albergue da Santa Casa da Misericórdia.

Trata-se de uma sucinta biografia profusamente ilustrada, norteada pelo propósito de revelar um espólio iconográfico — de que gentilmente nos cederam algumas das fotos que acompanham este artigo —, importante para a compreensão, estudo e preservação da memória de Macau para que tivemos a honra de redigir o texto introdutório.

 

Mas quem foi José Vicente Jorge?

José Vicente Jorge nasceu em Macau em 27 de Dezembro de 1872, na freguesia de S. Lourenço, sendo filho primogénito de Câncio José Jorge (1849 – 1900) e de Aureliana Maria Guterres (1849 – 1919), no seio de uma família macaense originária, pelo lado paterno, de armadores algarvios que se haviam estabelecido na cidade, provavelmente nos inícios do Século XVIII.

Fora com o seu avô paterno, José Vicente Caetano Jorge (1803 – 1857), piloto, proprietário de navios e um dos iniciadores do tráfico de cules em Macau — com o que fez fortuna na década de 1850—, que se processara a integração da família na oligarquia da cidade, à frente dos destinos do Senado. Com efeito, José Vicente Caetano Jorge foi almotacé em 1831, vereador em 1837 – 1838 e procurador em 1840 e 1845, abarcando o difícil e delicado período do relacionamento sino-ocidental que foi o da Iª Guerra do Ópio (1839 – 1842).

Será Câncio Jorge quem dará continuidade a esse processo de inserção local iniciado pelo pai. Após ter desempenhado interinamente o cargo de Cônsul-Geral de Portugal no Sião e nos estabelecimentos britânicos dos estreitos de Singapura, Malaca, e suas dependências entre 24 de Novembro de 1883 e 17 de Maio de 1884, Câncio Jorge integra a vereação do Senado de 1888 a 1890, tornando-se Presidente da edilidade, cargo que seguramente já detinha em Junho de 1892 mas que já não ocupava em Agosto de 1894.

É assim que vemos o nosso José Vicente Jorge experimentar, por um curto período de seis meses, a vida no Sião, por volta dos 11 anos de idade e, depois, frequentar o Seminário de São José quando se tentava implementar o projecto do Seminário-Liceu (1870 – 1881), numa época em que se procedia à integração de Macau na nação portuguesa.

Essa política incluía também a abolição das barreiras espaciais que de há séculos dividiam a cidade cristã das aldeias chinesas e a extensão da jurisdição portuguesa a toda a população de Macau, maioritariamente chinesa — acima dos noventa por cento ao longo de quase todo o Século XIX e XX —, como se sabe.

Por esse motivo, tornava-se urgente a criação de um organismo público regulamentador e fiscalizador das actividades e assuntos chineses. Surge, assim, em 5 de Julho de 1865, a Procuratura dos Negócios Sínicos, já totalmente liberta da esfera do Senado, mas mantendo o estatuto de tribunal privativo da população chinesa, que granjeara de factu em 1849, aquando da expulsão dos mandarins da cidade, sob a égide do Governador (g. 1846–1849) João Maria Ferreira do Amaral (ca. 1803–1849). Acabará por perdê-lo com o avanço da política de centralização da administração colonial, que levará mesmo à extinção da Procuratura em 20 de Fevereiro de 1894, dando azo a diversas tentativas de uniformização e sucessivas reformas do Tribunal Privativo dos Chinas de Macau, no qual José Vicente Jorge serviu de Juiz substituto por diversas vezes na década de 1920.

Fora do âmbito judicial, era também necessário assegurar a tradução oficial entre o Português e o Chinês (Cantonês e Mandarim); apoiar toda a administração no relacionamento com a comunidade chinesa; informar e negociar sobre matéria chinesa; formar e fornecer intérpretes-tradutores para as legações, consulados e missões diplomáticas de Portugal na China e região, motivo pelo qual se cria a Repartição do Expediente Sínico em 2 de Novembro de 1885, quando tais funções se autonomizaram da Procuratura.

Consubstanciava-se num outro enquadramento político-administrativo e, a breve trecho num outro contexto político-diplomático post Tratado de 1887, o papel desde sempre reservado ao intérprete de Macau abarcando os domínios da língua, da informação e da diplomacia.

Por esses motivos também, e a partir de 1 de Fevereiro de 1879, passa a incluir-se regularmente no Boletim da Província de Macau e Timor legislação, regulamentação e noticíário em língua chinesa. Essas taduções eram então elaboradas na Procuratura dos Negócios Sínicos, onde o pai de José Vicente Jorge, Câncio Jorge, terá sido intérprete-tradutor, embora viesse a abandonar a profissão, por falta de perspectivas de progressão.

Contudo, será precisamente nessa carreira que José Vicente Jorge vingará, ingressando ainda como aluno, em 12 de Março de 1890, na Repartição do Expediente Sínico, que chefiará (como titular do cargo) entre 27 de Dezembro de 1911, dia em que completava 39 anos, e 19 de Março de 1920 quando foi declarado incapaz para o serviço pela Junta de Saúde. Aposentou-se em 14 de Abril seguinte, com 47 anos de idade, num momento de grande tensão no relacionamento entre Macau e Cantão.

 

Mediação linguística e cultural

Com a progressiva laicização do Estado e a abolição das ordens religiosas (1834), a responsabilidade de formação de intérpretes foi teoricamente trazida para a esfera da instrução pública, embora se tenha mantido ligada, de uma forma ou de outra, ao Seminário de São José quase até aos finais do Século XIX.

É a partir de então que se distinguem no ensino do idioma sínico nomes saídos da comunidade macaense, e do Expediente Sínico — dotado de escola própria formalizada e regulamentada, mas pré-existente, a partir de 1905 —, como Pedro Nolasco da Silva (1842 – 1912), Carlos Augusto Rocha d´Assumpção (1862 – 1932) — a quem se ficou a dever o primeiro manual para o ensino do Mandarim a portugueses publicado em Macau em 1893 —, e mais recentemente Luís Gonzaga Gomes (1907 – 1976), homens que excederam em muito as suas funções de intérpretes, professores e diplomatas, tornando-se verdadeiros e empenhados obreiros de uma mediação cultural entre os dois mundos em que viviam. Sinólogos experientes e reconhecidos, mestres no ensino do idioma sínico, poliglotas, foram também cidadãos intervenientes, defensores da instrução e do associativismo cultural macaenses, homens de letras, colecionadores de arte chinesa e divulgadores culturais.

Não será demais lembrar a acção encabeçada por Pedro Nolasco da Silva — para além de toda a sua actividade enquanto professor e da sua produção pedagógico-didáctica para o ensino da língua chinesa, sobretudo do cantonês — que leva à fundação em 1871 da Associação Promotora para a Instrução dos Macaenses, APIM, — ainda hoje actuante — e a sua acção em prol de uma escolaridade específica da juventude local adaptada às necessidades do seu principal mercado de trabalho, ou seja, as companhias comerciais estrangeiras estabelecidas nas grandes metrópoles da região como Hong Kong, Xangai, Cantão, Amoy (Xiamen), Funchau e Liampó (Ningpó). Para já não falar no impulso que deu ao associativismo cultural macaense ao dirigir o Clube União, fundado em 1879 com o fim de adquirir o Teatro D. Pedro V, entranto caído em decadência.

Ou a incansável labuta e invulgar esforço de aproximação entre os universos culturais chinês e português protagonizados por Luís Gonzaga Gomes, ao verter para português temas da cultura chinesa, suas lendas, contos e festividades, mas também textos clássicos de Láucio, Mêncio, para além das suas incursões na historiografia de Macau, onde revelou uma atitude pioneira para a época ao explorar fontes chinesas. Familiarizado desde cedo com a língua chinesa, e após ter concluído os estudos secundários, Gonzaga Gomes iniciara a sua vida profissional na Repartição Técnica do Expediente Sínico depressa chegando a intérprete de 1ª classe, traduziu também para Chinês em 1953, de parceria com Tcheong Iek Tchi, a obra Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo — Adaptação de João de Barros, língua na qual também publicou, em 1955, um resumo da História de Portugal (P´ou-Kuók Si-Leok).

Quanto a José Vicente Jorge, e para além dos seus manuais para o ensino da língua chinesa e a sua actividade de professor, quer de Chinês, quer de Inglês, a sua principal contribuição neste domínio revelou-se na parceria que estabeleceu com o seu irmão maçónico Camilo Pessanha (1867 – 1926) e no seu profundo conhecimento da arte chinesa, que coleccionou com dedicação, esmero e persistência.

A Pessanha revelou os segredos da poesia chinesa, que com ele anotou e reviu, conforme o próprio escritor reconhece na apresentação da sua tradução — efectuada sob a orientação de um letrado chinês — das “Oito Elegias Chinesas”, mas também os da arte chinesa, que ambos coleccionaram.

O palacete de José Vicente Jorge na Rua da Penha nº 20, recheado até à exaustão por “cerca de 10.000 peças, representando os principais ramos de arte chinesa — cerâmica, bronze, jade, pintura, caligrafia, escultura, gravura, esmalte, laca, bordado e mobília”, como nos diz na Introdução da sua obra Notas sôbre a Arte Chinesa  — elaborada a pensar na Exposição do Mundo Português —, era ponto de passagem obrigatória para todo o visitante ilustre de Macau, desde cabeças coroadas da Europa e da Ásia, colecionadores, diplomatas, artistas a escritores, como, por exemplo, Ferreira de Castro (1898 – 1974). Se bem que destruído há muito, e desbaratada a colecção, é precisamente a Luís Gonzaga Gomes que se deve uma das mais pormenorizadas e coloridas descrições  do palacete e do seu recheio, onde a arte imperava, o que lhe mereceu a mordaz alcunha dos seus contemporâneos de “Barão do Pau Preto”.

Agentes da diplomacia portuguesa no Extremo-Oriente, estes funcionários do Expediente Sínico, incorporavam como tradutores e secretários as missões mais sensíveis e espinhosas, como as conducentes ao Tratato de 1887, neste caso Pedro Nolasco da Silva; a Missão Diplomática Portuguesa para a negociação da questão dos limites de Macau e o estabelecimento de uma via férrea Macau-Cantão em 1901–1902, no caso de Carlos Augusto Rocha d´ Assumpção, para apenas dar alguns exemplos, e continuando a deixar de lado os letrados chineses que os coadjuvavam — os verdadeiros experts da língua e do cerimonial, quando não os elementos de ligação chave, que sempre os acompanhavam, mas que tão esquecidos têm sido pela História.

Os intérpretes-tradutores eram também colocados como adidos nas legações e consulados portugueses da região. Assim aconteceu também com José Vicente Jorge que, entre Junho de 1908 e Março de 1911, foi destacado para a Legação de Pequim, onde terá, entre outros assuntos, contribuído para o reconhecimento da nóvel República Portuguesa pela ainda China imperial.

Após o seu regresso a Macau, José Vicente Jorge, que já detinha desde os finais de 1907 o cargo de 2º intérprete-tradutor de 1ª classe, sub-chefe, assegura a chefia interina da Repartição do Expediente Sínico na ausência do respectivo titular e seu co-cunhado, Carlos Assumpção, então destacado no Consulado Geral de Portugal em Cantão, e a quem substituirá, interinamente primeiro e definitivamente depois, após a aposentação deste nos finais de 1911.

Por tais serviços, eram os seus méritos reconhecidos, não apenas pelas autoridades de Portugal mas nalguns casos também pelas autoridades de Pequim, como aconteceu com José Vicente Jorge ao ser agraciado com a condecoração do Dragão Duplo, nº 1 de 3ª classe, e com o seu antecessor no Expediente Sínico, Carlos Augusto Rocha d´Assumpção. Ou mesmo pelas de outros países, como foi o caso de Assumpção, distinguido pelo governo de Espanha com o grau de  Cavaleiro da Ordem de Isabel, a Católica.

Assim se vê que a mediação exercida por estes homens não se circunscrevia ao quadro do relacionamento luso-chinês num período tão difícil e conturbado à escala mundial como aquele que José Vicente Jorge viveu, sofreu e mediou enquanto intérprete-tradutor ou Chefe do Expediente Sínico, nomeadamente a Iª Guerra Sino-Japonesa (1894 – 1895); a Revolta dos Boxers (1898 – 1901), as Repúblicas Portuguesa (1910) e Chinesa (1911) e a Iª Guerra Mundial (1914 – 1918).

Testemunhou também a Guerra Civil Chinesa (1927), embora já afastado do activo e integralmente devotado ao ensino, e, enquanto solicitador ou simplesmente reformado, o surgimento do Estado Novo (1933), a Longa Marcha (1934 – 1936), a IIª Guerra Sino-Japonesa (1937 – 1941) e a IIª Guerra Mundial (1939 – 1945). E foram precisamente as privações, dificuldades e receios vividos durante a Guerra do Pacífico, que o fizeram procurar abrigo em Portugal em 1945, onde faleceu, longe de Macau, em Lisboa, aos 22 de Novembro de 1948, contando 75 anos de idade, quando a China se consumia numa violenta Guerra Civil.

Eis, em traços largos, um percurso de vida que ajudou a tornar possível a existência de uma Macau maioritariamente chinesa sob a bandeira portuguesa num período em que Portugal e a China aboliam monarquias e experimentavam a República, defrontavam o imperialismo ocidental e oriental, sofriam guerras e convulsões sociais, num mundo todo ele em profunda e violenta transformação.

 

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