Quinta-feira, Julho 2, 2020
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Portas de Macau sem cerco

 

 

Texto Patrícia Lemos

Fotos Paulo Cordeiro, em Lisboa

 

São muitas as exposições temporárias que vão animar o Museu do Oriente (MO), em Lisboa, a partir de Setembro, com especial destaque para Macau. O território continua em agenda, com uma mostra de 20 fotografias a preto e branco datadas entre 1930 e 1970. Diz respeito às várias modalidades desportivas tradicionais, entre elas, o futebol, o ténis, o badminton e o hóquei em campo. As fotografias são representativas de “uma memória desportiva de Macau, que continua bem viva, ainda hoje, sobretudo no Grande Prémio de Macau, nos Jogos da Ásia Oriental, nos Jogos da Lusofonia e nos Jogos Asiáticos em recinto coberto”, lê-se numa nota divulgada. Disponíveis no Centro de Documentação do Museu, “as imagens fazem parte de uma colecção de fotografias sobre Macau, com cerca de 3000 exemplares, de 1874 até aos anos 90 do século XX”, revela o administrador da Fundação Oriente (FO), João Calvão.

Já em Setembro, inaugura, na Galeria Sul do museu, uma grande mostra colectiva de jovens artistas chineses. “Olhem para Nós!” fica em exibição um mês inteiro, para ver pelos olhos desta nova geração as mudanças que operam na China, nas áreas da pintura, da escultura, da fotografia, do vídeo e das instalações. Adou, Ke Chen e Qiang Zheng são alguns dos artistas representados.

Até ao dia 18 está ainda patente a exposição “Japão, O Paraíso das Mascotes”, para quem tem curiosidade sobre as origens históricas e culturais da manga ou do anime e do lugar que ocupam na sociedade japonesa do nosso tempo. De 25 de Novembro até ao final do ano, o MO recebe “Tinta-da-china – Uma Exposição de Pintura Chinesa Contemporânea” que, depois de Lisboa, vai será exibida em várias cidades da Europa.

 

Macau de palanquim

O Museu do Oriente tem apenas três anos de existência, mas é hoje paragem obrigatória de turistas e curiosos do Oriente. Além da roda-viva de actividades que vai animando aquele espaço cultural durante o ano, o público pode ainda desfrutar das colecções permanentes “Presença Portuguesa na Ásia” e “Deuses da Ásia”, ricas em objectos orientais diversificados no tempo, na temática e nos materiais, que surgem distribuídos pelos dois primeiros andares do museu.

O festim dos sentidos começa logo no final do primeiro lance de escadas, com a luz da entrada a forrar os degraus como nuvens a caminho de outro universo. A promessa desse novo mundo revela-se na inscrição “Macau” na primeira parede que se vislumbra. E é assim que o museu nos convida a entrar na sua representação da Ásia.

Quem conhece Macau mata logo a saudade na primeira sala, com a tentação das vistas da Praia Grande e os quadros de Chinnery, à direita, e as peças de mobiliário chinês, à esquerda – algumas poderiam ter decorado as casas macaenses do século XIX que tão bem compõem o cenário idílico do Lilau.

Há um magnífico biombo de seis folhas que se abre com uma representação da cidade de Macau da segunda metade do século XVIII. Com madeira lacada, prata, ouro e papel, nesta peça seduz o apuro técnico do desenho e a harmonia de cores. Pede-nos que viremos a página para descobrir, por detrás, a cidade próxima – Cantão. Esta é uma das muitas peças adquiridas pela FO que, nesta zona ribeirinha de Lisboa, tem ajudado a desvendar Macau aos visitantes portugueses e estrangeiros.

É sem dúvida a tradição chinesa que marca a toada desta exposição sobre a RAEM, num aceso namoro com o Ocidente. Nestes muitos objectos, que cruzam inspirações tão distintas, é possível ver como os chineses ora dão notas do seu aprumo no detalhe oriental, ora se perdem no jogo de sombras da arte sacra, sua então grande desconhecida. Uma das peças que melhor ilustra estas trocas culturais é o biombo de Coromandel, do século XVII/XVIII, representando episódios da vida de Cristo e cenas posteriores à sua Ressurreição. Aí se vêem muitos santos de estranha compleição. Dá nota do trabalho dos artistas chineses formados no seminário de pinturas ocidentais. As figuras são pintadas com alguma ingenuidade. Impõe reflexão esta abordagem distante de elementos tão familiares da religião cristã que ali convivem com dragões.

Muitas das obras presentes pertenceram a ilustres portugueses. Como as vistas da Baía da Praia Grande pintadas no tampo de uma cómoda papeleira com madeira de sissó, que fez parte do recheio do Palácio das Necessidades, ou o pano de armar, de 1879, bordado com caracteres chineses, que foi oferecido ao Visconde de Paço d’Arcos.

O casamento continua naqueles corredores escuros do museu que mais parece uma sala de cinema feita labirinto onírico. O visitante vai criando o seu próprio filme de Macau e da China de outros séculos.

Os olhos postos em muitas porcelanas com brasões colam-se depois à mescla das pinturas da China Trade, para em frente imaginarmos a presença das senhoras daquela sociedade a abanarem leques parecidos com os que D. Catarina, mulher de D. João II, terá seduzido as cortes europeias.

Não são só os portugueses e chineses que aparecem representados, os holandeses que não conseguiram conquistar Macau no século XVII terão esculpido na pedra o seu retrato, imortalizando a “Figura de Ocidental”, que ali irrompe no breu sob um foco de luz.

De todos os objectos emana uma história. Foram vividos na primeira pessoa e há marcas disso mesmo em cada um. O palanquim do século XIX parece arrancado das cartas da primeira americana que viveu em Macau – Harriet Low. Se o sonho se materializasse, vinha do canto da sala passear-se na vista do Porto Interior, cujas arcadas têm hoje tantos vestígios da cultura portuguesa. E entramos nesse palanquim imaginado para a ala dedicada à China, atraídos pelas pinturas, que podiam muito bem ter inspirado o poeta Camilo Pessanha, e muitas porcelanas, rolos, trajes chineses, terracotas e objectos tão antigos como frascos de rapé, da colecção do presidente da república Manuel Teixeira Gomes, porque o tabaco moído chegou à China pela mão dos portugueses. Entra como medicamento em meados do século XVI para as dores de cabeça e até para curar maleitas das vias respiratórias, acabando pouco tempo depois como marca de estatuto social em Pequim.

 

As madeiras de Timor

Uma das secções mais impressionantes desta exposição permanente é dedicada a Timor. Com esculturas em madeira meio místicas e disformes, que contrastam com o perfeccionismo de vizinhos asiáticos, como o Japão e a China, estas peças mais parecem brinquedos gigantes. Dão conta da importância que o movimento tem naquela cultura antiga.

A directora do museu, Manuela d’Oliveira Martins, conta como foram adquiridas essas relíquias – uma história que é, no mínimo, curiosa. “Fomos avisados que havia uma série de peças relacionadas com Timor prestes a entrar num contentor em Jacarta e iriam serem enviadas para os Estados Unidos.” Era um pedido de ajuda sentido para salvar as obras, não havendo tempo a perder. Um perito foi destacado para avaliar os trabalhos e, em poucos dias, receberam o relatório favorável, prosseguindo depois à aquisição das peças.

 

“Deuses” no andar de cima

No segundo andar do Museu do Oriente, encontramos uma série de objectos e o seu apelo místico é tal que esta mostra permanente foi intitulada “Deuses da Ásia”. Porém, conforme explica Calvão, este piso vai ser todo alterado no próximo ano, “porque são peças muito frágeis, de papel, de tecido e madeiras que têm de ser periodicamente substituídas”. Fazem parte de uma colecção que começou a ser constituída em Hong Kong por Kwok On, transitou para França e “foi doada à fundação com o objectivo de a manter bem preservada, sempre em exibição e aumentada, através de aquisições feitas em missões dos colectores a países da Ásia.”

“Deuses da Ásia” inclui uma temática ligada às religiões populares “que o Ocidente conhece mal”. No próximo ano, vão estar em mostra cerca de 200 cartazes de propaganda chinesa, que pertencem a essa colecção. Desses posters destacam-se temáticas variadas ligadas à agricultura, às festividades chinesas, entre outras.

 

 

Do pescado à arte asiática

É o Edifício Pedro Álvares Cabral, em Alcântara, que alberga todas as relíquias que a Fundação Oriente (FO) andou a coleccionar durante 20 anos. Foi um sonho ali criar o seu quartel-general, mas não foi fácil. Afinal, aquele grande e degradado armazém de pescado iria ser renovado num grande museu europeu. “Na adaptação do edifício tivemos dois problemas graves: pés-direitos muito baixos e centenas de pilares. Para além de termos aplicado nas partes mais baixas, tectos tensionados, reflectores, para dar uma sensação de maior altura, cortámos alguns pilares e englobámos outros nas vitrinas. Tudo isso teria de ser acompanhado por uma cor escura para, com a adequada iluminação, realçar as peças. Mas este é um espaço dinâmico que estamos sempre a tentar melhorar”, descreve o administrador da FO, João Calvão.

Enquanto os arquitectos João Luís Carrilho da Graça e Rui Francisco adaptaram o edifício para acolher o museu, Gonçalo Ribeiro Telles cuidou do seu enquadramento paisagístico. Aí foi criado um jardim de inspiração oriental, com pequenos lagos artificiais que lembram os pântanos junto às Casas-Museu da Ilha da Taipa. As águas turvas são animadas por uma flora diversificada com o amarelo dos lírios em claro destaque. Concorrem sem êxito as magnólias, as murtas, as casuarinas, entre outras plantas, que não deixam por isso de dar magia àquele cenário bucólico.

Há degraus que conduzem ao interior do pequeno jardim, ali criado para barrar o ruído da Avenida 24 de Julho e dos comboios. É uma espécie de encosta que poderia representar também algumas colinas de Lisboa, com dois degraus a dar para o empedrado escuro que emoldura a entrada do museu.

O edifício rectangular é gigantesco e quase compete com o Centro Cultural de Belém, apesar de Calvão avisar que a FO “não tem qualquer financiamento do Estado”. Mas essa falta de apoio, não obsta à criatividade da equipa do museu que trabalha arduamente nos muitos núcleos do museu, por forma a torná-lo rentável.

Além do serviço educativo, que funciona como “um dos grandes motores deste museu”, salienta Calvão, o edifício Pedro Álvares Cabral ainda alberga o Centro de Documentação António Alçada Baptista. Aí se encontram muitos espaços de leitura e um tradutor a trabalhar, ladeado por muitas estantes com livros. O edifício inclui ainda um auditório com mais 360 lugares para espectáculos, brindado pela voz de Teresa Salgueiro ou pelo piano de António Pinho Vargas. Este espaço serve ainda para visionamento de filmes e ainda é sala de conferências e congressos de pequena e média dimensão. A complementar o auditório está o Salão Macau servido de um grande terraço. É ideal para encontros, seminários e reuniões científicas. “O Museu tem de funcionar de uma forma muito completa”, daí que se vejam com bons olhos as iniciativas de empresas, seja a apresentação de um produto ou uma conferência.

 

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