Terça-feira, Junho 2, 2020

Sons da velha guarda

 

 

Texto Patrícia Lemos

 

Macau pode vir a ser o primeiro palco dos Ar de Rock após o lançamento do disco de estreia com versões da banda. Quem o diz é Fernando Cunha, o mentor deste projecto musical que fará desfilar no XXV Festival Internacional de Música de Macau as novas roupagens dos temas dos Heróis do Mar, Delfins, GNR ou LX 90. Estas são apenas algumas das bandas a figurar no alinhamento deste álbum que roda em Macau, logo depois de Rua da Saudade e António Zambujo Quintent aquecerem as hostes na praia de Hac Sá, no dia 29 de Outubro.

“Chegamos no dia 26 de Outubro e regressamos a Portugal no dia 30”, frisa Fernando Cunha. Ou talvez não, sugere depois mantendo o nível de entusiasmo: “Eu até gostava de ficar mais uma semana para visitar o Vietname ou a Tailândia”. Cunha não espera cruzar-se com a mesma Macau que conheceu há mais de 16 anos, quando lá tocou com os Delfins. “Aquilo deve estar irreconhecível”. Mas faz questão de cumprimentar alguns velhos amigos. É o caso de José Chan, que recorda como “o Jimi Hendrix à guitarra”: “Foi o meu primeiro professor de guitarra”. Inclusivamente foi este músico de Macau que o apresentou, ainda nos anos 80, ao Rui Fadigas, o tímido baixista que alinharia por muitos anos nos Delfins. “Eles tocavam juntos na Killers Band.”

Para Cunha, Macau só pode ser um sítio bom para viver. “Há quem vá lá de férias e já não volte. Até o Chan, que veio para Portugal há uns anos, acabou por regressar a Macau.”

Além de rever o amigo, Fernando Cunha promete matar saudades dos restaurantes de Macau. “Comia-se tão bem por lá!” É que, em Portugal, “a comida chinesa não sabe à mesma coisa”.

O ex-delfim lembra-se até do primeiro jantar em Macau. Foi num restaurante de aspecto duvidoso. “Disseram-nos logo que ali ninguém falava inglês ou português. As mesas eram compridas e veio logo um papel higiénico para cada ponta.” Os encontros de terceiro grau não se ficaram por ali. “Antes de vir a comida, distribuíram umas tigelas com um bule de chá e a nossa cantora, a Dora Fidalgo, serviu-se da bebida. O que nós não sabíamos é que aquilo era para lavar as chávenas.” O melhor ficou para o fim porque “a comida era mesmo de chorar por mais”. E assegura: “Comi bem em Macau todos os dias, mas aquela noite foi especial”.

Essas são apenas algumas das situações caricatas que Fernando Cunha destaca dessa estreia no Oriente. Houve mais aventuras, como aquela em que José Cid saltou para a bateria dos Delfins num coreto onde actuavam. Das duas uma, ou Fernando Cunha tem memória de elefante ou Macau deixou marcas indeléveis no dono dos acordes de Ao Passar Um Navio e Nasce Selvagem.

 

Viagens ao passado rock

Fernando Cunha gosta de contar histórias mas há uma da qual se recusa a falar: a sua saída dos Delfins. Não parece um problema ultrapassado, mas também não pôs a guitarra de lado nem fechou o estúdio Underground por causa disso. Depois de ter reinventado o Lotus Bar dos Delfins e abrir aí o Rock N’ Shots 80’s Club, hoje paragem obrigatória da noite lisboeta para músicos, entregou-se a sessões de nostalgia com os músicos do seu tempo. Foi nesse ambiente de revivalismo que nasceu os Ar de Rock. O palco pequeno desse clube de Cascais serviu de “balão de ensaio” para o projecto, como diz o próprio músico. “Juntávamo-nos numa festa anual, em Outubro, na brincadeira. Eram uma espécie de jam sessions.” Lá estavam músicos da cena musical portuguesa, como Flak, Nuno Barroso, Tim ou mesmo o Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, entre tantos outros. Aí tocavam músicas uns dos outros, hits de tempos áureos, que rapidamente se fizeram ouvir fora daquelas quatro paredes. Daí até à Baía de Cascais foi um salto. “Muita gente que ia assistir a essas sessões pediu-nos para levar mais a sério este projecto de celebração da música portuguesa.” O concerto de estreia foi um sucesso e teve direito a convidados especiais – Olavo Bilac, Flak, Zé Manel, Miguel Gameiro e Tim.

A Macau não vai a trupe de amigos que se estreou na Baía de Cascais, nem muitos dos convidados dos Ar de Rock do concerto de beneficência no Campo Pequeno, em Fevereiro, que pôs 19 músicos em palco. “Mas seremos muitos”, assegura.

O repertório dos Ar de Rock é variado mas há critério nas roupagens. “Algumas canções têm malhas temáticas inspiradas nos originais, enquanto para outras só mantivemos a melodia e assim.” De António Variações aos Xutos & Pontapés, passando pelos Táxi e por Rui Veloso, os Ar de Rock não se ficam pela pop e pelo rock dos anos 80 e 90, pois incluem até uma música dos Madredeus que, por sinal, mereceu toques bem arrojados.

Na base de selecção dos temas, deram a oportunidade aos cantores de escolherem as faixas que lhes diziam mais. “Depois, tivemos o cuidado de percorrer os principais autores e ainda as nossas autorias, algumas das quais passaram um pouco despercebidas no passado.” Ou seja, não serão apenas êxitos. “Fez-se isso com os Resistência e funcionou lindamente.” Veja-se o caso de Não Sou o Único, de Xutos & Pontapés, que ganhou mais fama com os Resistência, já que era um lado B do Circo de Feras.

Quem também levou Olavo Bilac à fama foi essa banda de som acústico que deu que falar nos anos 90. O vocalista dos Santos & Pecadores é um dos convidados que os Ar de Rock levam ao FIMM, bem como Rui Pregal da Cunha, com data de nascimento em Macau. “Está radiante com esta viagem.”

Ao todo serão 12 músicos a apresentar no dia 29 de Outubro, em Hac Sá, o disco que chega aos escaparates de Portugal semanas antes da viagem a Macau. E assim a RAEM vai ser palco do espectáculo de lançamento dos Ar de Rock.

 

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