Terça-feira, Junho 2, 2020
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A geometria descritiva de Nuno Barreto

 

 

Texto Carlos Picassinos

 

Há primeiro aquele olhar que nos fita, entre a bonomia e o retraimento, e há depois as ruas da cidade, a luz coada, as naturezas mortas. De Nuno Barreto, artista plástico falecido em 2009, mostrou-se quase nada desde a transição, há 12 anos. Sim, há no Clube Militar alguma obra visível, mas de resto os trabalhos do pintor estão recolhidos em colecções privadas ou institucionais, adormecidas entre amigos e familiares. Por isso, passados estes anos, por inércia ou capricho dos tempos, Nuno Barreto volta a ser para tantos um magnífico desconhecido.

E também por isso é que a exposição que o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) inaugurou, no passado dia 21 de Outubro, assume essa dimensão inesperada que só a patine do tempo consegue garantir. Memorabilia, com curadoria de Ernesto Jorge e Jorge Maneiras, patente durante um mês na Galeria de Exposições Temporárias do Tap Seac, concilia fragmentos de uma singular obra-mosaico em que Macau é o referente.

São 52 peças, acrílicos, mas também aguarelas e gravuras, que se inscrevem num período de cerca de 30 anos, entre 1981 e 2008, significativas pela sua produção ter acontecido, em grande parte, durante a vivência de Nuno Barreto em Macau. Daqui que, além do valor estético, a mostra também apareça investida de certo valor etnográfico, dada essa geografia e tempo histórico.

“Nuno Barreto viveu mais de 20 anos em Macau. Mergulhou profundamente na vida desta pequena cidade considerando-se um pintor de Macau. […] A sua obra explora a temática luso-chinesa e combina vários elementos artísticos. Através do contraste de luz e sombra, bem como em desenhos delicados, a sua obra explora um lado poético, tal como a melhor das prosas ou narrativas de viagens”, justifica Raymond Tam, presidente do IACM.

A biografia de Barreto em Macau não poderia passar incólume estes anos corridos. Docente na Escola de Belas Artes do Porto, onde coordenou durante década e meia a Oficina de Serigrafia, veio para Macau em 1989, para dirigir a Academia de Artes Visuais, tendo, enquanto pedagogo, inspirado e formado um número sensível de artistas, alguns dos quais são, actualmente, figuras de destaque do panorama artístico local. Entre eles, o próprio presidente do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng.

Na apresentação da mostra, em Outubro, o chefe de divisão de Acção Cultural do IACM, U Weng Hong, não deixou de frisar esse aspecto de Nuno Barreto para justificar a homenagem. “É um artista importante na medida em que deixou escola e viveu em Macau mais de duas décadas. Daí a iniciativa de lançar esta homenagem. Foi um dos mais importantes gravuristas de Macau e uma figura de primeira linha, e também um grande representante da cultura luso-chinesa que tão bem captou esta característica de mistura de Ocidente e Oriente.”

Apesar do voluntarismo da instituição e dos curadores da mostra, reunir esta pouco mais de meia centena de peças constituiu um tour de force. “Não há coleccionador em Macau que não tenha peças de Nuno Barreto”, notou Ernesto Jorge. “Foi um pintor muito prolífico e não esteve submetido a modas ou aos estilos mais correntes. Era muito exigente. Vendeu muito. Nos últimos 15 anos, não teve nenhuma exposição em Macau. A última aconteceu na Livraria Portuguesa e depois houve uma sessão de homenagem no Clube Militar”, disse o curador da mostra. Mas Barreto, acrescenta Ernesto Jorge, pela sua singularidade, merece esta homenagem que constitui a primeira de uma série de outras “que creio se vão seguir e que já faziam falta”. E é também, “a possibilidade de podermos exorcizar um pouco o que estava escondido”.

O curador recorda ainda que, depois deste tempo de vazio expositivo e após o seu desaparecimento físico, “o grosso da população local não conhece a obra e, muito menos, a obra completa”.

 

Ambição maior

Ainda assim, “esta é apenas uma pequena mostra”. Pequena, devido a imposições várias. Não só pela fúria criativa do artista ou pela consequente dispersão da sua obra, mas também pelos condicionalismos físicos do próprio espaço para o qual esta exposição foi projectada.

Com esta barreira em mãos, os curadores garantem que o desenho final de Memorabilia resultou de uma “selecção adequada para que os visitantes possam ter uma melhor percepção, sobretudo os mais novos, e em especial os artistas mais novos” da produção artística do pintor. “É preciso ver que, de uma maneira ou de outra, todos os grandes artistas de Macau estão relacionados com ele”, acrescentou Ernesto Jorge.

O curador adiantou ainda que o IACM tem mantido contactos com algumas instituições em Portugal, mais familiarizadas com a obra do pintor, como a Fundação Oriente, que, em 2006, editou o álbum Galeria Imaginária, com base num CD-ROM com o mesmo nome organizado pelo pintor.

No texto de abertura desse álbum, o coordenador Fernando Baptista Pereira considerava que na pintura de Nuno Barreto repousava um “talento muito especial para captar o espírito de um lugar, assim como os sentimentos das pessoas que o povoam”. “Todavia, o pintor fá-lo mediante uma capacidade de invenção que combina o gosto pela síntese por vezes geometrizada do espaço e a ironização sobre os comportamentos e as situações”, sublinhou Baptista Pereira. Memorabilia pretende recuperar esse espírito e aquela estética.

 

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