Quarta-feira, Agosto 5, 2020
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Dragão à solta em Macau

 

 

Texto Patrícia Lemos

Fotos Carmo Correia

 

Em Macau não há mal que grasse, nem conflito que perdure. É certo e sabido que, nos últimos anos, a região escapou a epidemias e tufões e prosperou com os casinos. O mestre de feng shui Szeto Fat-ching vai mais longe e lembra as guerras que arrasaram a China no passado e não afectaram Macau. Existirá uma razão para tanta sorte? “Sim”, explica o mestre. “Há um dragão no mapa de Macau.”

Não é como o portento mitológico de asas gigantescas a soltar labaredas pela boca. Este dragão é diferente do ocidental. É chinês e tem o corpo de uma serpente, os olhos de um tigre, os bigodes de uma carpa e as garras de uma águia. Este animal sagrado, que participou na criação do mundo, representa na China a energia do fogo e destrói tudo à sua passagem, permitindo o renascimento.

O mestre conhece bem a influência deste dragão no mapa de Macau. Tanto que, em meados dos anos 80, se mudou de mala e bagagens para a RAEM, deixando para trás a sua Hong Kong natal, com o intuito de se dedicar ao negócio do feng shui. “Este dragão de que falo vem da China. Viaja no ar e na água e manifesta-se nos veios que se espraiam pela região.” Szeto especifica que o grande réptil entra pela Portas do Cerco, deixando aí a sua longa cauda. Ciranda pela cidade e chega às duas chaminés listadas da incineradora da Taipa, que denunciam a presença dos seus longos chifres.

O dragão já foi mais pequeno, mas “a construção de mais duas pontes a ligar Macau à Taipa e o istmo do Cotai fizeram com que exercesse mais a sua influência nas ilhas”. É por isso que a Taipa e Coloane têm prosperado “e continuarão a beneficiar desse poder nos próximos anos”, garante.

 

A sorte do lótus

Do alto da Colina da Penha, o conhecido mestre de feng shui deixa o olhar rolar encosta abaixo para se fixar no mar. Aponta para as pontes novas, mais precisamente para a da Amizade e a de Sai Van, e afirma: “Elas representam a presença do dragão azul e do tigre branco”, respectivamente. Se o tigre de Sai Van simboliza a riqueza e conduz todos ao maior casino do mundo, o Venetian, onde habita o fausto, do outro lado, o dragão da Amizade afirma o seu poder.

Szeto consegue ver alguns indícios do feng shui no planeamento urbanístico, “mas não se pode dizer que os arquitectos e engenheiros tenham desenhado a região tendo isso em mente”. Ainda que Macau não tenha sido construída segundo rigorosos princípios do feng shui, como é caso de Hong Kong, é indubitável a presença de ideias da geomancia.

Para ilustrar melhor o poder do dragão de Macau, Szeto recorda a história de Lai Buyi, um famoso especialista em geomancia da dinastia Sung, que após a reforma seguiu o curso do rio em direcção ao sul em busca do dragão. Quando chegou a Guangdong, viu o veio do dragão bifurcar-se. Um filão seguiu para uma zona entre as ilhas de Hong Kong e Bao’an, agora conhecida como Kowloon (nove dragões), enquanto o outro dirigiu-se para o sopé da Colina do Pico do Lótus (Mong-Há), em Macau. Szeto explica que essa zona “é rodeada por outeiros e pequenos montes e é terreno de cultivo”. Inclui o “Cerco do Dragão” (龍環) e o “Campo do Dragão” (龍田).

Com o veio a pontuar de sorte ainda o sopé da Colina de Mong-Há, outrora conhecida como Colina de Lin Fa (Colina de Lótus), Macau só poderia ser território de bom feng shui. Esta terra é “preciosa”, “de uma beleza natural que ofusca as outras” e ainda tem “boa sorte”. São piropos da cultura chinesa que ainda hoje se repetem pelos quatro cantos da região.

 

 

Garra perdida na San Ma Lo

Apesar de ser poderoso, o dragão de Macau não é intocável. Segundo o mestre de feng shui Szeto Fat-ching, “não se deve construir sobre os veios” deste venerado animal da mitologia chinesa. Menos conhecedores desta arte, os portugueses de Macau cometeram alguns erros no passado. “Quando a Avenida de Almeida Ribeiro estava em construção, uma das garras do dragão foi arrancada, o que quase o matou.” O mal só foi sanado nos anos 80, quando um muro com a forma de um leque foi construído na encosta da colina, na Taipa, virado para o Hotel Lisboa. Szeto explica que “simbolizava a cauda do dragão” e considera esta “a obra que deu nova vida ao dragão”.  

 

Gaiola no Hotel Lisboa

Além das pontes e das colinas, a marca do dragão está ainda presente em alguns edifícios. É o caso do Hotel Lisboa, cuja forma arquitectónica se assemelha a uma gaiola de pássaros. Conforme explica o mestre, “em cantonês, a pronúncia da designação do dragão (龍) é igual à da gaiola (雀籠)”. A ideia desta grande jaula é atrair centenas de pássaros. Ou seja, os muitos jogadores que passeiam por Macau. “Este efeito do feng shui é arrasador!” No topo do edifício-gaiola é possível ver várias estruturas brilhantes a apontar em todas as direcções, como que reforçando essa atracção, para assim fazer a colheita da riqueza daqueles que entram no edifício.

 

Mestre com crédito nos casinos

Hong Kong é a terra natal de Szeto Fat-ching, mas foi em Macau que se notabilizou como mestre de feng shui. “Cheguei em 1985. Conheci a nora de um grande general chinês e ela tinha negócios nos casinos. Foi assim que me tornei consultor desta indústria, dando conselhos sobre a decoração das salas VIP e das zonas de jogo.” Szeto empregou algumas técnicas taoistas para dar mais poder aos donos dos casinos. E os jogadores? “Não era para eles que estava a trabalhar”, explica com um sorriso travesso.

 

 

A tempestade antes da bonança

Já perdeu a conta às vezes que lhe perguntaram sobre se o mundo ia realmente acabar em 2012. O mestre de feng shui Szeto Fat-ching garante que a vida na Terra continuará, mas “não vai ser um ano fácil e haverá muitas convulsões, cheias e tremores de terra a nível global”.

Por ser um animal muito poderoso, o dragão entra logo em força no mês do Ano Novo Chinês, em Fevereiro. “Ele é muito activo e anda dentro e fora de água. Por isso, vai dar nas vistas no que diz respeito ao clima.” Segundo Szeto, à medida que 2012 for passando, também o poder do dragão vai esvanecendo. Daí que “a onda de transformações se acalme na segunda metade do ano”.

O mestre aconselha os homens de negócios a pensar várias vezes antes de agirem e os governantes a buscarem uma forma mais harmoniosa de viver, tornando-se até mais amistosos.

 

Dragões confiantes

O dragão é o único signo do zodíaco chinês que não corresponde a um animal real, mas a uma criatura mítica. Os nascidos no Ano do Dragão trazem qualquer coisa de novo e de bom e felicidade para a família.

São bastante decisivos nas suas acções e deixam marcas por onde passam. Entusiastas, têm uma imaginação sem limites, uma profunda confiança em si próprios e um idealismo que não se deixa abater pelas dificuldades. Esses são os traços fundamentais que a tradição chinesa atribui aos dragões. Se nascer durante uma tempestade, o dragão terá uma vida agitada e cheia de perigos. Caso contrário, terá um temperamento suave.

Para o mestre de feng shui Szeto, “há pessoas que podem ser prejudicadas por nascerem nesses anos, por serem por si só muito poderosas, como é o caso dos imperadores”. Talvez seja por isso que o actor Bruce Lee morreu jovem. Afinal, ele nasceu no ano, no dia e na hora do dragão, e o seu nome em chinês – Lee Shao-lung – significa “pequeno dragão”.

 

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