Quinta-feira, Julho 2, 2020
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Histórias de chineses em África

 

 

Texto Marta Curto

Fotos Ricardo Franco, em Moçambique

 

Já é normal verem-se chineses pelas ruas de Maputo. Até saindo da capital moçambicana correndo as estradas vermelhas do país, é frequente encontrarem-se chineses com instrumentos complexos, medindo caminhos. Constroem estradas, aeroportos, estádios, procuram ouro e carvão, abrem restaurantes e pequenas lojas. Onde não se encontram chineses é em restaurantes de outras nacionalidades, em jardins, cafés, bares ou discotecas.

Eles estão em Moçambique para trabalhar e não para socializar. Esta ausência de convívio com as outras comunidades acaba por criar uma mística de boatos e rumores sobre eles. E foi para quebrar com esses tabus que duas realizadoras fizeram filmes sobre a comunidade chinesa e os apresentaram, em Setembro, no festival de cinema documentário Dockanema, em Maputo. Yara Costa preferiu explorar os chineses em África, Ella Raidel centrou-se em Moçambique.

Yara Costa é moçambicana, mais precisamente da Ilha de Moçambique, um lugar histórico, mágico, mas muito pobre. Como ela própria diz, de onde todos querem sair. Em 2005, Yara foi visitar a sua terra natal, sendo que hoje é uma cidadã do mundo, vivendo onde o trabalho a leva, e surpreendeu-se com a quantidade de chineses que ali viviam. “Se todos queriam sair da ilha, porque é que os chineses queriam entrar?” Tudo começou assim, com uma pergunta. Entre tantos locais mais ricos e desenvolvidos, entre tantas terras, tantas ilhas, vilas, cidades, porquê a Ilha de Moçambique, que só tinha um pouco de turismo em poucos meses do ano?

O filme Porquê Aqui? Histórias de Chineses em África tentou fugir de tudo o que era óbvio. Chineses na construção, chineses nos países ricos em recursos minerais, chineses em Angola e no Congo. Yara Costa escolheu os locais mais improváveis, e sobretudo os chineses que vinham sozinhos para África, sem estarem integrados numa empresa, só na busca de melhores condições de vida. Escolheu assim como cenários uma pequena vila no Lesoto, a Ilha de Moçambique e a capital do Gana. Três ambientes muito diferentes para mostrar que não há dogmas. Em África, há imigrantes chineses até nos locais mais improváveis.

Quando chegou a uma pequena vila no Lesoto, Yara perguntou-se, mais uma vez, o que fariam ali imigrantes, chineses ou quaisquer outros. Não havia nada. A vila não tinha riqueza, potencialidades inexploradas, não tinha nada. Era uma pequena vila no meio do mato de um pequeno país no meio de África.

A sua entrevistada foi uma rapariga de 20 e poucos anos, que tinha chegado há pouco da China para ajudar o pai a gerir a pequena mercearia que este fundara há uns poucos anos. “Ela contou-me que eles chegaram a dormir na loja, para gastar menos dinheiro. Percebi aí que os chineses tinham uma tenacidade, que eu acabei por admirar. Eles não emigram para conhecer uma nova cultura ou país. Eles emigram para juntar dinheiro e fugir da pobreza das suas terras natais, mas sempre com o objectivo de um dia regressarem à China”, conta a cineasta. “Mal essa rapariga que morava no Lesoto soube que eu era moçambicana, perguntou-me se eu achava que poderiam ter uma vida em Moçambique. Realmente, eles não se importam de estar aqui ou ali. O objectivo é juntar dinheiro para voltarem à China com mais condições do que aquelas com que saíram.”

Yara explica que, desde a abertura da China a África, em 2000, a facilidade de obter um visto de entrada, pedir residência ou mesmo importar produtos é uma grande mais-valia para os chineses que procuram uma vida melhor. Em África, têm o caminho aberto.

Voltando à Ilha de Moçambique, Yara encontrou um senhor mais velho, que fala português e que está no país há 15 anos. Chegou sozinho e descobriu, na Ilha, a galinha dos ovos de ouro: holutúrias, também conhecidas como pepino do mar, ou macadjojo, em Moçambique. As holutúrias não significam nada para os moçambicanos, mas para os chineses são uma delícia gourmet, que se come nos melhores restaurantes e é paga a peso de ouro.

Tal como a maioria dos emigrantes, este veio sozinho. Quando entendeu que estava no sítio certo e que a vida lhe corria bem, mandou vir a família. Quando precisou de mais gente, chamou as pessoas do seu bairro. O negócio cresceu e trouxe gente da sua comunidade. “E é sempre assim. É por isso que, no mesmo local, acabam por estar várias famílias que se conhecem entre si, e que já viviam juntas ou conviviam na China”, explica Yara. Todos os chineses que a realizadora entrevistou vieram de duas províncias chinesas: Fujian e Guangdong.

Por fim, a última história, passada na capital do Gana, era um pouco diferente. Este emigrante chinês viera para Acra integrado numa empresa, mas quando o trabalho acabara, ele decidira ficar e fazer um mestrado em Gestão de Empresas.

Hoje, tem uma loja de computadores e adora viver em Acra, afirmando sentir-se em casa. Este foi o imigrante que Yara considerou melhor integrado na cultura africana. Ainda assim, mantém os costumes e as tradições chinesas, e um dia, por mais que Acra lhe dê a vida que queria, deseja regressar à China.

 

Operários da construção

“A primeira vez que vim a Moçambique vi um autocarro com muitos chineses, vestidos com um macacão vermelho. Perguntei aos moçambicanos com quem estava quem eram, o que estavam aqui a fazer. Responderam-me serem prisioneiros que vinham aqui cumprir pena, trabalhando na construção.” Foi com um boato que a realizadora austríaca Ella Raidel começou a interessar-se pela temática. O autocarro era afinal da Sogecoa, uma empresa de construção chinesa que opera em Moçambique e cujos trabalhadores vestem um macacão vermelho.

Se a associação dos chineses à pena de prisão estava errada, a ilação generalizada de que todos trabalhavam na construção também não estava certa. Mas realmente era a maioria e sobretudo os casos mais visíveis em Moçambique. Há um ano, Ella conheceu um rapaz moçambicano que havia vivido na China e que falava um perfeito mandarim. Este apresentou-o a uma senhora chinesa que importava cimento da China e fornecia às empresas chinesas de construção que operavam em Moçambique. E assim começou um trabalho de dois meses, em que quase sempre trabalhou sozinha e que culminou com o filme Subverses – China in Mozambique.

Ao contrário de Yara, Ella Raidel procurou ir ao fundo das evidências sobre as comunidades chinesas em Moçambique. Se todos realmente associavam os chineses à construção, então ela queria saber quem eram estes operários, porque tinham vindo e o que sonhavam para o futuro.

“Eles vivem em casinhas na obra e não saem do estaleiro de construção. Aos fins-de-semana vão para outra casa, lá dentro, e convivem entre si, jogam ténis de mesa. Os dias passam assim. Mal a construção acaba, eles vão-se embora.”

Ao contrário da experiência de Yara, Ella não encontrou em Moçambique quem quisesse reunir a família. A mesma tenacidade admirada pela realizadora moçambicana – de emigrarem para juntar dinheiro – existe, mas nunca a vontade de ficar e juntar mais. Ella, que viveu sete anos em Taiwan, sabe falar mandarim e conseguiu fazer o documentário quase sozinha, entrando e falando com os operários que bastava ouvirem a sua língua para abrirem-se em sorrisos, contando as suas histórias. “Sempre encontrei gente simpática, generosa, prestável e afável”, conta, acrescentando que a maioria vem de províncias próximas de Pequim.

Com o projecto finalizado, Ella prepara-se agora para viajar para a capital chinesa. “Acabo sempre por regressar à China. Sinto-me muito próxima da cultura chinesa”, diz a austríaca.

 

 

Tambores no mundo e na China

“A percussão está presente em todas as culturas. Nós queríamos tambores árabes, latinos, europeus e africanos. Por isso, o filme Tambores foi rodado no Brasil, Moçambique, Zâmbia, Qatar, Portugal e China”, explica Luana Dias, que andou pelos seis países à procura de personagens interessantes para produzir o filme Tambores, que teve estreia mundial no festival de cinema documentário Dockanema, em Maputo.

Luana encontrou um rapaz moçambicano que usa o tambor para promover acções de combate à Sida no Norte de Moçambique; encontrou um pai-de-santo brasileiro que não dispensa o tambor de Minas no seu candomblé; um músico árabe no Qatar; um grupo premiado de percussão em Portugal, e um grupo de fabricantes dos tambores Budima na Zâmbia. Na China, esteve em Sichuan, onde encontrou uma família de quatro gerações dedicada ao fabrico de tambores enormes, com dois metros de diâmetro que servem as óperas chineses e os templos budistas.

O famoso esmero chinês é provado pela ausência de um ritual que todos os outros países seguem. Em Moçambique, Brasil, Zâmbia, Portugal e Qatar, a pele é sempre esticada numa fogueira antes de se tocar o tambor. Na China, a pele é logo esticada no fabrico, através de um método que requer paciência, tempo e é passado de geração em geração. São dois dias exclusivamente dedicados à pele que cobre o instrumento. Depois do tambor pronto, a pele nunca mais precisa de ser esticada.

No filme, o que mais se nota é o orgulho de quem mete as mãos na madeira, de quem a mede, de quem estica a pele, de quem coloca as estacas. Uma das senhoras que integra a família entrevistada sorri para a câmara ao dizer que aquele instrumento é tão forte que acorda Buda e este ouve as preces de quem sofre. O sorriso é de orgulho por fazer algo que tem aquele poder.

Os seus tambores já venceram várias competições e todos prémios os enchem de vontade de manter e perpetuar a tradição. “Das filmagens da China houve três pontos que me marcaram. O primeiro foi o frio. Não íamos preparados para aquele tempo e foi complicado trabalhar assim. O segundo foi a língua. Tínhamos um intérprete chinês, mas mesmo esse não entendia tudo o que a família nos dizia. Acabou por ser o nosso motorista local a fazer a maioria das traduções. Por fim, foi a relação chinesa com o tempo. O tempo das acções, o tempo de explicar, o tempo de fazer. Tudo tem o seu tempo e as etapas não podem ser ultrapassadas com frivolidade”, admite Luana.

Por onde a realizadora passou, havia uma linha comum a todos. “O único ponto em comum é a relação entre o homem e o instrumento, a relação ritualista com o instrumento, o seu tratamento cuidado, a sua protecção. Uma força e uma paixão que só o tambor transmite. Por outro lado, também notei que, nos seis países, o tambor tem a capacidade de mudar os ambientes. Está tudo calmo, até começar a tocar o tambor…”

 

 

Porquê África?

“Do ponto de vista económico, a China procura matéria-prima para a expansão da sua economia. Ela não possui matéria-prima e tem de a encontrar, mas todas as grandes reservas das outras partes do mundo já se encontram sob controlo das multinacionais das antigas potências. Apenas a África possui ainda matéria-prima. O que os chineses dão aos países africanos em troca são as infra-estruturas públicas, nas quais são competitivos, competentes, capazes de respeitar os adiamentos rápidos. É justamente disso que tem necessidade a África, em especial a África Central.” Em entrevista ao The Courier, Stefaan Marysse, professor do Instituto de Desenvolvimento de Políticas e Gestão na Universidade da Antuérpia, na Bélgica, e director da ECA (Expertise in Central Africa, em Bruxelas), sintetiza o movimento chinês para África nas últimas décadas. De facto, as áreas mais procuradas pelas empresas chinesas são a construção, mas, sobretudo, a exploração de recursos naturais, sendo que a agricultura tem também ganho o seu espaço nos investimentos. No Gana, por exemplo, a China é responsável por 71% dos investimentos na agricultura, segundo o estudo China – Africa Relations: A Case Study of Ghana do African Economic Research Consortium.

Em troca de contratos e facilidades nos negócios, as empresas chinesas constroem infra-estruturas públicas. Em Moçambique, foi o caso do Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, da Procuradoria-Geral da República, do Estádio Nacional, do Aeroporto Internacional de Maputo e a lista continua. Segundo o site China in Africa, em 2007 estimava-se existirem entre 1500 a 12 mil chineses em Moçambique. A margem de erro é tão grande pela própria natureza dos negócios chineses no país. É que uma obra traz centenas de empregados, e ao terminar, leva-os de volta para a China. A emigração é temporária.

Embora muitos locais acabem por ganhar defesas contra as comunidades chinesas, sobretudo em países pequenos onde a concorrência é mais aguerrida e a concentração de oportunidades também, a China tem impulsionado o emprego em África e tornou mais acessíveis bens básicos, como sapatos e rádios. Segundo o The Economist, o comércio bilateral ultrapassou os 120 mil milhões de dólares no ano passado e, nos últimos dois anos, a China concedeu mais empréstimos aos países pobres, principalmente em África, que o Banco Mundial. Ambas as realizadoras mencionam esta abertura tácita de África com a China, tendo até falado em facilidade de pedir visto e residência, além da importação de produtos chineses. Não será por acaso que, no Lesoto, a embaixada chinesa estima que existam cerca de 5000 chineses, o que perfaz a maior comunidade estrangeira neste pequeno país, segundo o site Migration Information Source. Neste enclave com pouco mais de 2,5 milhões de habitantes, a China foi responsável pela construção da nova Assembleia da República.

 

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