Terça-feira, Julho 7, 2020
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A culpa é do sapato

 

 

Texto Vanessa Amaro

Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro, em Dongguan

 

Dongguan, a 50 quilómetros de Cantão e a 90 de Shenzhen, é mais uma daquelas histórias do milagre económico chinês. Em 25 anos deixou de ser uma vila de pescadores para se transformar num centro industrial de sete milhões de habitantes. E há 15 anos é a casa de uma comunidade crescente de 3500 brasileiros que agora chamam a China de casa.

O fenómeno da imigração brasileira para Dongguan começou em meados da década de 90 com a necessidade de mão-de-obra especializada para trabalhar no sector dos calçados e do couro. A indústria chinesa transformava-se na maior força exportadora do mundo, enquanto a brasileira perdia espaço no mercado interno e internacional.

Produzir um par de sapatos no Brasil hoje custa 50 por cento mais do que em Dongguan. Para as empresas brasileiras que viviam da exportação, isso significou sair do negócio. E reabri-lo onde as condições fossem mais estáveis. Os brasileiros foram para a província de Guangdong porque os empregos deles já se tinham mudado para a China.

A Paramount, a maior empresa de calçados sob a responsabilidade de um empresário brasileiro, teve de ir buscar ao Brasil o que lhe fazia falta: empregados especializados. Desde 1995 na cidade, a companhia emprega 80 brasileiros que fazem a intermediação entre os grandes clientes mundiais e as fábricas de calçado na China. Em 2009, por exemplo, a Paramount produziu 35 milhões de pares de sapatos para uma única grande marca norte-americana, valor equivalente a 21 por cento dos 166 milhões de pares exportados pelo Brasil no mesmo ano. Com a definição das características do sapato, a Paramount terciariza a produção para mais de uma dúzia de fábricas chinesas, gerando milhares de postos de trabalho.

Todos os brasileiros, a maioria proveniente da região do Vale do Sino, um grande produtor de calçado no Estado do Rio Grande do Sul, são especializados em alguma parte do processo de fabricação de calçado. E continuam a chegar, apesar de os salários terem caído nos últimos tempos devido ao aumento do número de candidatos disponíveis para cruzar o mundo. Depois de estabelecidos, dão o salto para montar os seus próprios negócios também no sector do calçado ou do couro, ou gerir pequenas e médias empresas que atendem as necessidades da comunidade.

“Os brasileiros em Dongguan dão um colorido verde-amarelo à cidade, como se percebe quando alguém a visita. Essa presença, além de contribuir para o desenvolvimento da região, que se beneficiou da tecnologia brasileira e da criação de empregos resultantes de investimento, serviu para tornar o Brasil e a sua cultura conhecidos neste canto da China”, aponta Kywal de Oliveira, cônsul-geral do Brasil em Cantão.

Há restaurantes com rodízio de carnes, salões de beleza com produtos brasileiros, escolas em português, professor de futebol canarinho, dentista e médico a falar a língua de Camões. Até no “Fede-fede”, a alcunha que a comunidade deu ao mercado público do distrito de Dongcheng, devido ao mau cheiro de há tempos, os comerciantes chineses soltam palavras em português. “Quer cebola? Tomate? Batata? Temos mandioca. Tá tudo bom”, diz uma chinesa de uma só assentada, sem conseguir acrescentar mais nada em português à conversa.

Dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil indicam que hoje vivem na China 6303 brasileiros – um número que duplicou desde 2005. Só em Dongguan estão concentrados mais de 3500, o que significa a segunda maior comunidade brasileira da Ásia, atrás apenas da do Japão, que tem cerca de 230 mil brasileiros. Vivem em condomínios privados considerados de alto luxo para o padrão brasileiro e dizem que na China alcançaram um nível de vida que jamais poderiam ter no seu país natal.

Estimulados pela promessa de sucesso profissional, os brasileiros superam barreiras como o idioma, a comida ou a distância de 18 mil quilómetros. Aterram sem nenhum conhecimento de inglês ou chinês, mas em poucos meses começam a dominar ambas as línguas.

A qualidade de vida, a par da segurança, é o que mais os tenta a querer ir ficando. Não é para menos. O Governo de Dongguan moveu mundos para tornar a cidade mais verde. Proíbe a circulação de motos e deslocou o parque industrial para fora da zona urbana, transformando a cidade num oásis com baixos níveis de poluição e muita arborização.

No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) registou um aumento de 8,5 por cento e as exportações subiram 18 por cento. Mais deve vir. A Foxconn, responsável pelos componentes para os produtos da Apple, vai investir 640 milhões de yuans na construção de uma fábrica na cidade, que deve gerar mais de 2000 postos de trabalho. Está também em construção o metro e a linha de alta velocidade, que irá reduzir a distância entre as grandes cidades chinesas.

Há 15 mil empresas fundadas por estrangeiros e o Governo municipal estima que haja 10 mil pessoas de 40 nacionalidades a viverem de forma fixa na cidade. Desde há cinco anos, quando houve um boom de estrangeiros a chegar para a indústria dos móveis, outro motor de Dongguan, floresceram restaurantes com comidas dos mais variados lugares do mundo e escolas internacionais. Para facilitar a inclusão social, a Biblioteca Central inaugurou recentemente um piso inteiro com livros estrangeiros. Entre as 32 mil obras, há uns quantos clássicos da literatura brasileira e portuguesa.

Mas nem tudo tem sido pêra doce. A comunidade brasileira sente falta de saber o que se passa a sua volta em português. Não há nenhuma meio de comunicação local em língua portuguesa e até mesmo a religiosidade anda em baixa. Sem igrejas cristãs na cidade, os brasileiros têm de percorrer quilómetros até Macau para a missa ou organizarem cultos considerados ilegais na China.

Ainda assim, a tendência ascendente, segundo Kywal de Oliveira, é para continuar. A cada seis meses, cerca de 6000 empresários saem do Brasil directamente para Guangdong, para participar na Feira de Cantão e tentar firmar parcerias com empresas locais. Esse fluxo tem gerado uma procura inédita de tradutores chinês-português, com uma forte aposta das empresas chinesas em quadros fluentes em língua portuguesa.

“A China é um fenómeno de crescimento, facto ao qual não se pode ser indiferente sob pena de perder-se o passo em relação à História. A China já é o nosso segundo parceiro comercial, com investimentos muito importantes no Brasil. Estes dois aspectos já são suficientes para explicar o interesse que desperta no empresariado brasileiro”, frisa o cônsul-geral em Cantão.

 

De empregado a concorrente

Há sapatos de mulher de variados feitios e diversas cores espalhados por todo o lado. Num espaço amplo no rés-do-chão dezenas de operários chineses fazem moldes, tratam o couro e costuram calçado. É desta grande fábrica no Sul da China que saem os modelos que calçam milhões de pessoas nos Estados Unidos e na Europa que compram marcas como Donna Karan New York (DKNY), Geoxx, Nordstrom, Modern Vintage ou House of Harlow 1960. E o dono do negócio é o brasileiro Ricardo Leite, que chegou a Dongguan há 13 anos como empregado e hoje é patrão e concorrente dos seus compatriotas.

Saído de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Ricardo mudou-se para Dongguan para integrar a equipa técnica da maior empresa de então do sector, a Paramount. Dois anos depois, deu o salto e abriu, com mais um sócio brasileiro, a sua própria firma. Os sapatos começaram a ser feitos e vendidos, mas divergências com o parceiro quanto a estratégias comerciais ditaram o fim da companhia.

Ficou então de mãos atadas, já que o seu contrato dizia que não podia abrir nenhum negócio no mesmo ramo durante dois anos. Durante esse período, deu um passo atrás e voltou a ser empregado. “Era uma empresa norte-americana que produzia 40 milhões de pares por ano. Eu tinha de tocar o negócio e fi-lo então por dois anos.”

Assim que o prazo expirou, Ricardo agarrou na mulher, Valéria, designer de sapatos, e arriscou a criação de uma nova empresa, em 2004, ano em que também comemorou 20 anos de experiência nos calçados. Dos nomes do casal chegou a Rival – Ri de Ricardo e Val de Valéria -, que hoje produz 6 milhões de pares para grandes marcas e emprega 250 pessoas. Na parte administrativa há seis conterrâneos de Ricardo.

Por haver barreiras para a abertura de uma empresa por parte de um estrangeiro na China, Ricardo teve de abrir a matriz em Hong Kong e ter uma representação em Dongguan, com o auxílio de um empresário chinês. Mas esse, na verdade, não é o problema. “Com tanta gente neste país, ainda falta mão-de-obra. Esse é o principal obstáculo. Como as zonas rurais estão também a desenvolver-se, os migrantes estão a regressar às suas terras natais, fazendo com que haja cada vez menos trabalhadores nas cidades.”

A actual alta demanda de trabalhadores faz com que os salários aumentem. Com uma nova lei laboral em vigor, que determina a carga de trabalho, os dias de descanso e as férias, é mais dispendioso para um patrão contratar. “Enquanto antes pagava-se 600 yuans mensais a um trabalhador, hoje esse valor é impensável. A média ronda os 2500, sem contar as três refeições diárias, o alojamento e a roupa de trabalho, que ficam por conta da companhia.”

A ideia de transferir a fábrica para o Brasil está completamente posta de parte. O empresário diz que há um risco muito maior, devido aos altos impostos, as fortes variações cambiais e a inadimplência (não cumprimento dos contratos) elevada. “Ainda tenho família no Brasil e as raras vezes que lá vou parece-me que nada mudou. Não vejo geração de emprego, não vejo crescimento real. Na China, é ao contrário. O desenvolvimento e a criação de mais postos de trabalho está à vista.”

 

Casar-se com um dicionário

Fazer sapato não é com Ari Filipini, mas a fazer contas não há melhor em Dongguan. O contabilista foi dos primeiros a chegar à China, há 15 anos, quando a indústria brasileira do calçado começou a transferir-se para Dongguan. Ari ainda lembra de aterrar no aeroporto, entregar uma foto e ter logo um visto de residência. “Naquela altura, o Governo chinês facilitava a entrada de quadros especializados, porque era uma forma de transmitir conhecimentos ao povo.”

Foi para a Província de Guangdong por mero acaso. Conhecia dois compatriotas que já estavam na China e constantemente falavam bem da vida que tinham. Até que um dia avisaram que precisavam de um director financeiro. “Mas na China, rapaz?”, interrogou-se.

Ari já tinha sido gerente de banco e director administrativo numa grande empresa no Sul do Brasil. Estava acostumado a viver em grandes cidades e quando o convite surgiu, pensou que se ia meter num fim de mundo. “Achava que só ia ver velhotes de chapéu de palha a plantar arroz. Até hoje estou à procura dessa miragem que trazia na cabeça”, conta a rir-se.

Quem não achou piada nenhuma foi Sophia Yuan, que já estava na empresa, ia ter um chefe e, “ainda por cima estrangeiro”. “Não percebia porque é que iam meter um ocidental a dizer o que eu tinha de fazer”, queixava-se ela. Quando Ari começou a desempenhar funções, Sophia passou-se. “Ele não falava nada de inglês, muito menos de chinês. A comunicação era impossível”, lembra-se.

Sophia passou então, um pouco contrariada, a dar aulas de inglês ao chefe, e pouco depois nascia uma história de amor sino-brasileira “A única coisa que ele sabia dizer era perfect. Acho que foi por isso que me seduziu.”

A vida de Ari começou a correr melhor do que imaginava. Casou-se com Sophia e mandou vir do Brasil os seus três filhos adolescentes – fruto de uma relação anterior. O filho da agora mulher, na altura com quatro anos, aprendeu português a brincar e é fanático por futebol por influência dos irmãos. Os filhos de Ari fizeram a vida também na China. Dois casaram-se por lá e um decidiu regressar ao Brasil depois de um chorudo pé-de-meia para abrir um negócio próprio.

O contabilista diz que já viu muitos brasileiros a chegarem, mas só uns poucos a partirem. “O pessoal chega aqui e fica impressionado com o nível de vida que pode levar. Vive num condomínio de luxo, tem segurança, come bem e é muito bem tratado pelos chineses. Quer melhor que isso?”

A velocidade com que as mudanças se vão sucedendo ainda fascina Ari. “Isto está tão diferente de quando cheguei”, suspira. “Tudo acontece muito depressa. Os chineses querem e fazem. Não é como no Brasil, que está estacionado e atolado em corrupção. A China tem uma dinâmica indescritível.”

Ari diz que consegue virar-se o suficiente em chinês, mas que não é preciso falar fluentemente mandarim porque casou “com um dicionário”. Não dominar por completo a língua também tem vantagens. “O meu sogro pode falar comigo à vontade que eu não entendo nada. Assim nunca dá problema.”

Depois de tantas visitas ao Brasil, Sophia decidiu juntar “o melhor de duas culturas” e abriu um salão de unhas na cidade. O Sophie’s Nails é a única casa de manicura chinesa que esteriliza os equipamentos. “Via que no Brasil essa é uma prática muito comum e resolvi implementar cá. A verdade é que tem sido um sucesso e tenho cada vez mais clientes que dão valor à higiene.” Sophia tem ainda um outro trunfo: a casa de banho. “Vê o meu toilette. Está sempre limpo e a cheirar bem. É um dos nossos pontos fortes”, mostra a rir-se.

 

Com muito sangue, se faz favor

Ninguém entende melhor de carne em Dongguan que Vianei Rodrigues. Não, não. Vianei não foi parar à China por causa do sapato ou do couro. Vianei é uma excepção. O seu negócio é o rodízio brasileiro e a sua meta é ensinar os asiáticos a fazer os melhores cortes na carne bovina e a comerem a picanha “com um pouquinho de sangue”.

Quem levou Vianei, natural de Santa Catarina, para a China foram os japoneses. Antes, passou por Tóquio, onde esteve durante quatro anos a ajudar a matar as saudades de 200 mil brasileiros de um bom naco de carne. O grupo hoteleiro para o qual trabalhava decidiu agarrar o mercado chinês e enviou Vianei primeiro para Xangai e depois para Hunan. Com o boom da comunidade brasileira em Dongguan, o gestor fez mais uma vez as malas.

É no hotel Sofitel Royal Lagoon que Vianei Rodrigues passa os seus dias há 10 anos. Num espaço com vista para as montanhas e uma esplanada à beira da piscina, o restaurante BB’s tem capacidade para quase mil pessoas. Três dias por semana a decoração é alterada para receber casamentos e eventos fechados. “O negócio é muito próspero e temos muita procura.”

O que no início era apenas para brasileiros rapidamente tornou-se uma febre entre os chineses. “Quando eles viam aquelas carnes cruas, com o sangue a escorrer, torciam o nariz e pediam para passar mais. Eu explicava-lhes que eles deviam provar, porque assim é que era bom. Aos poucos acostumaram-se e agora não querem outra coisa.”

Os 42 empregados do estabelecimento são todos chineses, mas quando se aproximam das mesas com um naco de carne dizem os nomes dos cortes em português: “Maminha, madam. Coração de frango, sir”.

Além do rodízio gaúcho, o buffet de saladas e sobremesas é outro ponto forte da casa. “Os vegetais são todos importados, porque há alguns que são difíceis de se encontrar na China.”

Se antes a carne vinha toda do Brasil devido à alta qualidade dos cortes, nos últimos cinco anos o cenário alterou-se drasticamente. “Agora é totalmente made in China. Grande parte do meu trabalho antes era ir aos matadouros ensinar como se fazem os cortes, o que era uma alcatra, uma maminha ou uma picanha. Nos dias que correm, no entanto, já não preciso de me preocupar. A carne chega-me no ponto.”

Além de gerir o restaurante, Vianei também é proprietário de um talho gourmet em Shenzhen. A mulher, uma chinesa que conheceu durante a sua estada em Hunan, é quem gere a loja e garante que só entram produtos de elevada qualidade.

No auge da correria de um horário de almoço no sábado, Vianei não pára. Vai para o grelhador, entra na cozinha, dá instruções aos empregados, fiscaliza a quantidade de saladas e a qualidade dos grelhados e cumprimenta os clientes. Tudo num mandarim fluente, que aprendeu “por teimosia”. “Saí do Brasil sem falar uma palavra em inglês e tinha de ter um tradutor a tempo inteiro comigo cá. Sentia-me perturbado por não me poder expressar e fui aprender chinês na marra.”

Vianei garante que fez da China o seu lar. Não tem nada que o leve ao Brasil, com a excepção dos pais, que se têm tornado visita frequente em Dongguan. “Adoro viver nesta cidade, gosto muito da forma como os chineses me tratam. Para quê regressar ao Brasil? Cá tenho uma vida que jamais poderia sonhar lá.”

 

O homem das bolas

Não falava uma única palavra em inglês, muito menos em chinês. No primeiro dia em Dongguan, andou perdido pelas ruas com uma bola debaixo do braço. Quando via um grupo de chineses a jogar futebol, entrava em campo. Mateus Martins chegou e venceu na China. Cinco anos depois de ouvir nihao! pela primeira vez, consegue hoje conversar em mandarim como se estivesse a falar em português. O inglês também sai com a fluência de quem esteve anos a estudar.

Passou a vida ligada ao desporto no seu Rio Grande do Sul e meteu na cabeça que queria ser futebolista na China. Um irmão que vivia em Dongguan há nove anos aumentava-lhe ainda mais a vontade. Chegou então ao Sul do país com um emprego garantido na empresa de importação e exportação da família. Aguentou-se seis meses. O inglês era um monstro – e o chinês um bicho-de-sete-cabeças.

Como a linguagem futebolística é universal, Mateus só se sentia realizado quando entrava em campo nos tempos livres. Comunicava com os chineses por gestos, mas o sonho de jogar a sério não tinha tradução possível. Voltou ao Brasil e não sossegou. “Enquanto lá estive, só pensava em voltar. Pensava que deveria ter dado mais tempo e ter ido mais atrás do meu sonho.”

Refez as malas e aterrou em Dongguan há cinco anos. E foi bater de porta em porta com uma meia dúzia de palavras de inglês no vocabulário. Ainda tentou andar com um dicionário no bolso, mas tinha dois problemas: descobrir que palavra estavam a dizer e tentar encontrar alguém que falasse inglês. Ainda assim, arranjou emprego numa empresa de computadores e, paralelamente, começou a jogar futebol amador e a dar aulas de Educação Física numa escola brasileira. A vida dupla foi sol de pouca dura.

Mateus tirou a sorte grande e foi convidado a jogar à bola a tempo inteiro na antiga equipa de futsal da cidade. Ao mesmo tempo, foi contactado pelo clube inglês Arsenal para ser coordenador da nova escola de futebol para crianças na cidade. Golo! “A partir de então, as portas abriram-se. A escola, que antes era apenas voltada para chineses, passou a ser um sucesso. As crianças adoram ir aos treinos e os pais até achavam estranho os filhos terem tanta vontade de sair da cama num domingo de manhã.”

O agora treinador empregou a técnica de “aprender a brincar” e conquistou os mais novos. “Os chineses estavam muito acostumados a ter alguém a dar ordens e eles a cumprirem. Mas no futebol é diferente, é um trabalho de equipa e as minhas técnicas com eles eram muito informais.”

Um ano depois, Mateus já falava mandarim a dormir. Hoje comunica-se fluentemente em inglês e chinês, apesar de ainda não conseguir ler um jornal. “O facto de ser brasileiro e dominar o mandarim abriu-me um novo mundo de oportunidades na cidade. Passei a ser respeitado e conhecido e nunca tive a pretensão de mudar os hábitos chineses. Para vingar, é preciso conhecer a cultura e respeitá-la.”

Enquanto que com as crianças a carreira ia de vento e popa, a sua equipa de futsal estava moribunda. O triste desfecho veio quando o Governo da cidade decidiu encerrar o grupo. E mais uma vez Mateus viu-se encurralado.

Através de contactos na Federação de Futsal de Guangdong, surgiu uma proposta para ser o dono de uma nova equipa, há um ano. Assim criou o Dongguan Futsal Club, que disputa a primeira liga da Província. Foi, no entanto, preciso reunir um rebanho de jogadores e colectar patrocínios para manter a equipa a funcionar. O dinheiro é dado pelos pais dos seus alunos – grandes empresários de vários tipos de indústria de Dongguan. A escola do Arsenal entretanto mudou-se para Hong Kong, mas Mateus manteve as crianças, fundando a sua própria instituição, a Champion Soccer School. Hoje orienta 80 crianças de todas as nacionalidades dos quatro aos 12 anos. “Tenho chinês, brasileiro, coreano, alemão, inglês, holandês, taiwanês… Olha, nem sei dizer todas as nacionalidades de cor. Só sei que são muitas.”

Além de ser jogador profissional da sua própria equipa (a par de mais 22 atletas que compõem o plantel) e formador de futebol infantil, desde o ano passado Mateus integra a comissão técnica do Dongguan Nancheng Football Club, clube de futebol de onze que disputa a terceira divisão do campeonato nacional. “É um grupo jovem que está a lutar para subir para a segunda divisão. Este tem sido um trabalho de longo prazo. Todos têm 19 anos e começaram a treinar aos 11. Jogar futebol na China ainda não é fácil.”

Mateus não se queixa de nada, mas revela que tem dois grandes inimigos para combater: o badminton e o basquetebol, os desportos mais populares no país. “Geralmente a Educação Física resume-se ao badminton. Depois, as crianças gostam de jogar basquetebol. Ninguém liga para o futebol. Mas se depender de mim, isso irá mudar muito em breve. Pelo menos 80 sementes já estão plantadas.”

 

Sala de aula multicultural

Há crianças louras de olhos azuis e há também as de olhos um pouco puxados. Estão sentadas numa sala colorida a comer bolo brigadeiro, uma especialidade da doçaria brasileira. Num dedo de conversa, misturam o português com sotaque brasileiro, o inglês e o mandarim. É assim o dia-a-dia da Escola Bem Me Quer, que tem 90 crianças registadas entre a berçário e o terceiro ciclo. Segue-se o plano curricular brasileiro e, ao contrário do calendário chinês, o ano lectivo inicia-se depois do Carnaval, em Fevereiro, e acaba pouco antes do Natal, quando se iniciam as férias de Verão no Brasil.

Todas as 15 professoras são brasileiras e já estavam na cidade – devido aos empregos dos maridos na indústria do calçado e do couro. Quem toca o barco é Maira Zimpel, que chegou também com o marido para trabalhar naquilo que todos os brasileiros trabalham. No entanto, uma oportunidade de negócio inesperada trocou-lhe as voltas e Maira transformou-se em empresária da educação.

Esteve duas semanas sem trabalhar, mas não tardou em arranjar um trabalho como professora numa escola para crianças brasileiras. A proprietária da instituição, no entanto, queria passar o negócio e Maira viu na escola uma hipótese de ser patroa. Apesar de ter trabalhado a vida inteira na indústria do calçado na sua terra natal, no Rio Grande do Sul, Maira tirou um curso técnico para ser educadora de infância e decidiu fazer o investimento e comprar a escola. Já lá vão cinco anos e meio.

As festividades brasileiras são levadas a sério e nenhuma data é esquecida. Há festa no Dia do Índio, a 19 de Abril, com as crianças a mascararem-se de aborígenes que viviam no Brasil quando os portugueses lá chegaram, em 1500. Há churrasco com carne da boa no Dia do Gaúcho, a 20 de Setembro, e um desfile com bandeiras do Brasil pelas ruas do condomínio para assinalar a Independência do país, a 7 de Setembro. A Páscoa, o Dia da Criança (a 12 de Outubro no Brasil) e o Dia de São João também não escapam.

Segurança é o que mais prende Maira à China. “Poder andar descansada pelas ruas, sem medo de nada nem ninguém, não tem preço.” Apesar de um dia, “lá bem longe”, querer regressar ao seu Campo Bom, a professora quer fazer muito mais em Dongguan. A filha recém-nascida foi o seu grande projecto e há mais por vir. “A China dá-me as condições para educar um filho que eu nunca teria no Brasil. Aqui tenho qualidade de vida e estabilidade para assegurar um bom futuro para uma família maior.”

 

As  meninas da beleza

Mulher brasileira é vaidosa e não quer deixar de ter o tratamento de luxo que tinha no país natal. Rejane Guassu, Michele Vecchietti e Mabiane Seefeldt viram na área da beleza um filão de negócio e abriram juntas, em Maio do ano passado, o salão Equilibrium com tudo aquilo que as brasileiras gostam – manicura e pedicura, cabeleireiro com produtos made in Brazil, massagens adelgaçantes e tratamentos para manter a pele impecável.

Sexta-feira, três da tarde. O salão das “meninas”, como são chamadas, não pára. Michele faz as unhas, Mabiane estica cabelos e Rejane faz uma limpeza de pele. No sofá, há mais três clientes à espera. Todas brasileiras. Todas com maridos na indústria do calçado e do couro. “Estamos sempre na correria”, desculpa-se Michele. Encontrar um horário na agenda das esteticistas é tarefa complicada. “Somos o único salão de Dongguan que usa apenas produtos brasileiros. Só compramos aqui coisas descartáveis. O grosso vem mesmo do Brasil”, justifica assim a procura, Mabiane.

Sem forma de importar as tintas de cabelo ou os vernizes para as unhas para a China, o trio tem de ir duas vezes ao Brasil abastecer o armazém do salão. “Os produtos brasileiros são muito diferentes. Por exemplo, se uso uma tinta de cabelo feita a pensar nas asiáticas, não consigo o mesmo efeito numa ocidental. Temos de trazer isso tudo do Brasil… Toca a pagar excesso de bagagem sempre”, conta a cabeleireira a rir-se.

Mabiane e Michele chegaram a Dongguan há cinco anos a planear ficar “no máximo dos máximos um ano”. Os maridos trabalham na indústria do sapato e do couro e elas ainda arriscaram-se a tentar. “Como eu não falava uma palavra de inglês, não me consegui safar”, diz Michele.

Nunca tinham sido cabeleireira ou manicura antes, mas a necessidade de ocupar o tempo falou mais alto. Michele começou a arranjar as unhas das amigas em casa sem cobrar nada e Mabiane fazia alguns penteados nos tempos livres. Pouco depois, transformaram o hobby em negócio e começaram a atender clientes em casa. Até que o boca-a-boca correu demais e a clientela ficou engrossou para o pequeno espaço.

Foi assim que há quase um ano juntaram-se a Rejane, especialista em tratamentos corporais e faciais, e abriram um salão dentro do condomínio privado onde vive o maior número de brasileiros. Num apartamento espaçoso de quatro assoalhadas, as clientes são recebidas de forma a sentirem-se em casa. Há chá quente, bolo de morangos com chantilly e muita conversa sobre o Brasil. “A comunidade sente falta deste tipo de recepção brasileira. Sabem que no salão vão ter um pedacinho do Brasil e vão sair arranjadas da mesma forma de antes. Porque a mulher brasileira quer continuar a fazer na China os mesmos tratamentos que fazia no Brasil. E aqui têm essa oportunidade, a pagar o mesmo de lá”, relata Rejane.

 

Entre sapatos e noitadas

De dia é o Ruben, um homem sério sentado num gabinete a tratar das burocracias de uma empresa de calçados. De noite, vira o senhor Vitabar, o gestor de um ponto nocturno de sucesso na rua de bares do distrito de Dongcheng.

Ruben teve a sorte de nascer numa família que tem o “bar” no apelido. E pensou que se calhar era esse o seu destino – ter um bar. O detalhe de ser na China, esse, nunca havia passado sequer nos seus sonhos.

Ruben nasceu no Uruguai mas passou a maior parte da sua vida no Rio Grande do Sul, no Brasil. De lá só saiu para mudar-se para a China, em 2000, quando o emprego que tinha na região do Vale do Sino fugiu para o outro lado do mundo. Chegou “para ver como a coisa era” e foi ficando. E criando raízes. Há seis anos, decidiu que queria passar o resto da sua vida em Dongguan e fez por isso.

Numa conversa durante um almoço com um amigo taiwanês, Ruben foi questionado se não tinha vontade de ter um negócio próprio, como um restaurante italiano. “O meu amigo de Taiwan disse-me que eu tinha jeito e sugeriu que eu trouxesse a minha mãe, que é italiana e vive no Brasil, para ser a chef de cozinha. Achei a ideia um tanto ou quanto descabida. Coitada da minha velha atrás do fogão”, conta a rir-se.

A ideia de ter um negócio próprio ficou instalada nos pensamentos. Ruben não precisou de partir a cabeça para perceber que um bar era a sua vocação. Era o investimento perfeito – podia continuar com o trabalho de escritório e ter um pé-de-meia no horário pós-laboral. Usou o apelido e inaugurou o Vita Bar há pouco mais de dois anos.

Quando se entra no espaço pela primeira vez, a pergunta que vem à mente é “Isto é mesmo na China?” O bar é um ponto de encontro de todas as nacionalidades estrangeiras em Dongguan, que rondam as 40. Ouve-se chineses a falar espanhol e ocidentais a conversar em mandarim. Fuma-se charutos, joga-se snooker e dados, e passa-se a noite a beber uísques com Coca-Cola ao som de uma banda com músicos filipinos e brasileiros.

Mas nem sempre foi assim. Quando abriu o espaço tinha apenas a comunidade brasileira como alvo. Até que viu que não podia fechar-se só para uma nacionalidade. “Comecei então a explorar os hábitos e gostos dos chineses para poder trazê-los para o bar. No início foi muito difícil. Depois deste ‘estudo’, fiz uma grande remodelação do espaço e pus atractivos que os chineses procuram.”

Os lucros avultaram-se assim como a vontade de continuar em Dongguan. “Eu iria embora só se fosse louco. Adoro viver na China. Pelo menos para os próximos 20 anos está fora de questão sair daqui.”

 

Filho de sapateiro músico é

“Deve ser um lugar muito pobre e sujo.” Foi esse o primeiro pensamento que Jader Vieira teve quando os pais ponderaram a ideia de aceitar uma oferta de trabalho na China. Mas quando já não havia dinheiro para comprar o pão do dia-a-dia, os pais mudaram-se e ficaram fascinados quando aterraram em Dongguan. “A empresa onde o meu pai trabalhava no Brasil estava muito mal e quando ele recebeu a proposta para ir para a China torceu o nariz. A necessidade, no entanto, falou mais alto. E ainda bem que assim foi. Eles ligaram-me a contar coisas que eu jamais imaginaria.”

Jader, que na altura tinha 17 anos, ainda estava a estudar – obviamente, num curso vocacionado para a indústria do sapato. Há três anos, os pais convenceram-no a ir de férias à cidade da Província de Guangdong. Chegou com as roupas contadas na mala e com passagem de regresso. Até ver com os seus olhos as maravilhas que os pais haviam contado por telefone. “Isto aqui é bom demais.”

Não tardou para começar a trabalhar com sapatos, como a larga maioria dos compatriotas. Mas não via a profissão de técnico de couro para a vida. O que Jader queria mesmo era cantar. Então, juntou dinheiro e no Verão do ano passado foi para os Estados Unidos fazer um curso de música. “Eu já tinha feito uma loucura muito grande indo para a China. Não seria nenhuma loucura investir numa carreira na música”, justifica-se enquanto encolhe os ombros.

Quando regressou a Dongguan, foi convidado para entrar para uma banda de filipinos que anima as noites na rua dos bares, no distrito de Dongcheng. “Agora só vivo da música”, diz orgulhoso no auge dos seus 21 anos. Ultimamente, está a tentar ensaiar músicas brasileiras com os colegas da banda. E algumas em chinês. O público dos seus concertos, composto maioritariamente por chineses, delira com as baladas internacionais e já começar a haver um clube de fãs para Jader.

As saudades do Brasil foram ultrapassadas pelo desejo de viajar pela Ásia e de desfrutar “a óptima qualidade de vida” da China. “Parece-me que o meu futuro está aqui.”

 

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