Terça-feira, Abril 20, 2021
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Perfeccionista ilustrado

 

 

Texto Carlos Picassinos

 

Articula umas palavras em português em resultado do ambiente e da educação doméstica, mas a fluência não resiste durante muito tempo à conversa no pátio do Albergue SCM, num fim duma tarde de Outono, em que Fortes Pakeong Sequeira, artista gráfico, músico, performer, revisita as suas opções artísticas, o estado das artes em Macau e o momento em que se encontra o seu trabalho.

É aqui que a conversa escorrega para o céu de Lisboa voltando a Março do ano passado quando, numa iniciativa inédita, a Fundação Oriente organizou uma  colectiva de artistas de Macau na capital portuguesa. A mostra possibilitou a deslocação à capital portuguesa de uma delegação de artistas locais onde se encontrava Pakeong. Se a viagem a Portugal não significou para o luso-descendente uma epifania, a mudança de ares andou lá perto. “Passei a ter cor, passei a usar cor!”, sublinha. “Não sei se notaram, mas nesse meu trabalho aconteceu o que nunca tinha acontecido antes de ir a Lisboa. Usei vermelho”, afirma, inspirando fundo como se regressasse ao local daquele “ar leve, acolhedor, suave, tão diferente”, recorda ele a sensação.

A ambiência foi tão determinante que passados estes meses ainda faz comparações com o que se passa na Ásia. “Por exemplo, em Taiwan é verdade que são todos muito simpáticos, que na Malásia as pessoas costumam ser muito dialogantes, e no Japão, muito formais. Por isso, quando fui a Lisboa senti alguma coisa diferente. Senti-me muito acolhido”, recorda. “Mas eu próprio também achei que tudo aquilo, de alguma forma, era inspirador. Foi a primeira vez que me senti bem a usar uma cor nos meus trabalhos. Quando voltei ao museu, pus-me a pintar com vermelho.”

Esta vocação para as artes descobriu-lha a tia, quando Pakeong tinha quatro anos. “Reparou que eu desenhava muito bem.” Neste pequeno embalo, a família foi notando a inclinação do petiz. Na verdade, a família e o universo alucinado da sua infância atravessam, em resíduo, toda a produção de Pakeong.

A exposição que, em Fevereiro deste ano, inaugurou na galeria do Art for All recupera essa memória infantil de refúgio, de introspecção e solidão profundas. Soul Out, o título genérico da mostra, assumia certa dimensão autobiográfica. Os trabalhos eram atravessados pela expiação sentimental de uma família quebrada, da sua deriva pela grande cidade de Hong Kong, onde trabalhou ainda adolescente, e onde chegou a ser traficante e consumidor de estupefacientes. Pakeong, nascido em 1978, contava ter vivido à custa desse mundo, na marginalidade que lhe está associada, até que aos 17 anos decidiu regressar a Macau e recomeçar os estudos.

Nestas peripécias de adolescente, a música ou a pintura foram sempre companheiras de estrada. É verdade que, pragmaticamente, jamais ambicionou tornar-se naquele pintor cuja obra conheceria, mais tarde, no Instituto Politécnico de Macau, onde estudou, e o único que verdadeiramente o impressionou: Salvador Dali. Nunca se projectou assim.

Não porque o génio o tivesse abandonado, mas simplesmente porque acabou por pesar mais nele a geografia (e a economia) de Macau do que o sonho pueril. E daí a opção pelo Design Gráfico e não pelas Belas Artes. “Seria difícil sobreviver”, explica. “Não sou uma pessoa rica. As pessoas não sobrevivem com a pintura, ainda hoje é muito difícil e, na altura em que estava a estudar, mais difícil era.”

Apesar de tudo, o panorama está longe de ser o mesmo de há dez ou 15 anos, quando Pakeong estava a tirar o curso. Hoje, a dinâmica artística e a internacionalização de Macau trouxeram oportunidades que antes não se imaginariam.

Pakeong Sequeira impôs-se no meio como designer gráfico. Mais concretamente como ilustrador, designação que hoje já diz ser equívoca. “O meu trabalho é uma mistura de várias linguagens, mas nunca prescindo do computador porque quando me vem uma ideia importante à cabeça a única maneira de a agarrar é ter ali o computador à mão.”

Ainda assim, alguém mais familiarizado com o meio artístico local e com as sucessivas exposições desta jovem geração de artistas identifica Pakeong  pelo seu trabalho directo na tela. “Deixo-me levar pela minha imaginação automaticamente. Pinto no impulso. Surreal mas nem sempre. Acho que há uma palavra que designa bem o meu trabalho: vida. E vida porque nos meus desenhos, que não é apenas pintar ou desenhar, há acção envolvida.”

Foi um toque que lhe ficou dos grafítis que, a determinada altura, também lhe interessaram. “Cheguei a ser writer e hoje penso que há qualquer coisa dessa linguagem no trabalho que vou fazendo. Há um fogo na alma que nos impele para essa acção.” O mesmo fogo que lhe faz buscar o perfeccionismo.

“A ilustração hoje é muito determinada pelo trabalho no computador, mas isso ajuda-me mesmo muito porque sou um perfeccionista. O que eu procuro é a perfeição, a linha perfeita, suave, limpa.”

Da pintura, ou da ilustração para a fotografia, seria um passo natural, e da fotografia para o vídeo, outro passo, mas nunca foi por aí. Nunca até ao recente Festival Fringe, para o qual preparou uma instalação-performance. Na verdade, Pakeong acaba por reconhecer que se considera um performer, destacando a relação que estabelece com o público quando, nas galerias ou nos museus, desenha directamente na tela.

“Esse lado performativo interessa-me muito. Quando estou a trabalhar as pessoas vêm falar comigo e essa ideia entusiasma-me muito, estar a trabalhar e ao mesmo tempo estar a conversar com as pessoas, como se aquilo fosse um palco”, nota. “Sinto-me mais a fazer performance do que, propriamente, ilustração ou pintura.” Uma intervenção que se prolonga na música e na sua banda Blademark, na qual é compositor, letrista e cantor, estando a finalizar um novo álbum de originais.

Instalado num território de multiplicidade, Pakeong é ainda um artista em transição. Experimentando, arriscando, num jogo entre novos mundos. Na sua arte, assim como na sua biografia.

 

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