Terça-feira, Agosto 11, 2020
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Jazz para fazer escola

 

 

Texto Nuno G. Pereira | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Uma casa transparente, flutuando nas águas sob o olhar da deusa Kun Iam. O Jazz Club de Macau (JCM) foi um espaço mítico da cidade, sem paralelo nos dias de hoje. José Luís de Sales Marques, actual presidente, recorda esses tempos. “Em finais dos anos 1990, o clube tinha ficado sem sede e a direcção veio ter comigo à procura de ajuda. Eu na altura estava no Leal Senado [a câmara municipal da cidade, no período da administração portuguesa], tendo encontrado a solução que vigorou por dois anos, a famosa Casa de Vidro. Parecia uma estufa, às vezes também na temperatura (risos), mas era um sítio muito bonito, junto à estátua da deusa Kun Iam, no NAPE. Ainda não existiam os aterros, ficava mesmo em cima do mar, com uma esplanada sem igual. Era seguramente um dos melhores clubes de jazz, pelo menos do Oriente, onde as jam sessions eram acompanhadas pelos barcos, em fundo, a atravessar a noite.”

A magia durou entre 2000 e 2002, quando foi interrompida pela realidade. Sem capacidade financeira para manter as exigências do espaço onde, em simultâneo, tinha a sede e o espaço de convívio, o clube perdeu a Casa de Vidro. O regresso a Portugal de vários sócios, nos anos seguintes à passagem do território para administração chinesa, também contribuiu para a erosão da dinâmica do clube. A desmobilização alastrou, conduzindo a uma paragem inevitável.

Os amantes do jazz, porém, nunca encararam este fecho como definitivo. Ao fim de quase dez anos, a vontade de voltar concretizou-se. A actividade foi retomada a 25 de Fevereiro de 2012, com um concerto e uma jam session, onde participaram os Bridge, a histórica banda residente do clube. A Casa Garden, sede da Fundação Oriente em Macau, foi o palco escolhido, passando a ser o ponto de encontro dos amantes de jazz na região.

Uma comissão organizadora, composta por Ana Soares, Ilda Cristina Ferreira e Manuel Almeida, alimentou o processo de renascimento do JCM e preparou as eleições, realizadas a 19 de Maio. Concorreu uma lista única, cujos corpos sociais tomaram posse a 23 do mesmo mês, para um mandato de dois anos. Além do presidente da direcção, Sales Marques, contam-se os nomes, entre outros, de José Isaac Duarte (vice-presidente), Miguel Campina Ferreira (presidente da Mesa da Assembleia Geral) e Miguel Senna Fernandes (presidente do Conselho Fiscal).

 

Arranque inesquecível

Sales Marques não esperava estar à frente do JCM, embora sublinhe que o jazz é um amor antigo. “Quando fui convidado para presidir a uma das listas, que acabou por ser a única, fiquei um bocado surpreendido. Porém, o clube é um projecto pelo qual tenho grande carinho. Gosto de boa música e sobretudo acho que há lugar para o jazz, é importante existirem espaços alternativos em Macau, sem estarem obrigatoriamente em hotéis e discotecas.”

Apesar de não ter feito parte do grupo de fundadores, acompanha o JCM desde a génese. “Sou natural de Macau, conheço o clube desde os anos 1980. Nasceu com bastante pujança, embora com trabalho e participação baseados na boa vontade de algumas pessoas. Sempre foi um clube amador, feito com o coração e não com fins comerciais. O Festival Internacional de Jazz de Macau, ainda nos anos 1980, foi lançado pelo JCM. Tratou-se do primeiro nesta região, julgo até que terá sido o primeiro da era moderna na China.”

Campina Ferreira, presidente da Mesa da Assembleia-geral, lembra-se bem do início do clube.

“A partir da abertura da sua primeira sede na Rua das Alabardas, corria o ano de 1985, o JCM foi, até 2002, um local privilegiado de encontro regular dos amadores de música em Macau. Um centro activo de divulgação de vários géneros musicais, em particular do jazz, e também de formação, através da realização de workshops com a participação de músicos residentes em Hong Kong e Portugal. Foi também no palco do JCM que, anos a fio, se apresentaram regularmente músicos e bandas de jazz locais. Houve concertos e jam sessions memoráveis, em que músicos de passagem pelo território animaram, madrugada dentro, muitas noites de Macau.”

 

Apoios e ambições

Hoje a quota é de apenas 50 patacas por mês. E os sócios são poucos, como sempre acontece em clubes de nicho. “De cerca de 100 já passámos para mais de 200”, revela Sales Marques, explicando que se conseguem boas adesões nos concertos. “Mas obviamente é um número pequeno, que não faz sentido para um clube que se queira afirmar, mesmo tendo em conta que será sempre um espaço alternativo.”

Com tão curto financiamento interno, a solução tem de passar por outras opções. “O clube tinha e tem muitas dificuldades, porque a quota pedida aos sócios tem de ser obrigatoriamente pequena. Por isso, o funcionamento depende de patrocínios. Temos feito pequenos concertos assim (e também graças a pessoas que conhecem bandas de zonas próximas, ultrapassando um custo incomportável para nós que é pagar viagens). Se quisermos fazer uma coisa de grande nível, na linha do Festival Internacional de Jazz de Macau, só com um grande patrocínio, vindo do Governo, de uma fundação ou de uma grande empresa.”

O discurso é realista, mas Sales Marques sublinha que as dificuldades não afectam o optimismo dos membros do JCM. Aliás, a sua direcção tem já bem definidos os objectivos para os próximos dois anos: arranjar uma sede para o clube funcionar, organizar um concerto por mês e criar uma escola de jazz. Lá mais para a frente, no final de 2013, pensar então em reavivar o Festival Internacional de Jazz de Macau. A prioridade, sem dúvida, é o lugar para o clube. “Queremos pôr de pé um espaço físico. Houve alguns sinais de essa possibilidade se realizar, mas para já tudo tem sido muito difícil. Temos de trabalhar em cooperação com uma empresa ou uma entidade. Admitimos também partilhar um espaço ou fazer uma parceria.”

A falta desta sede, contudo, não coloca em causa a realização de eventos públicos. “A Fundação Oriente, através da Casa Garden, tem-nos proporcionado local para fazer concertos. Felizmente, por termos este apoio fantástico, com grande boa vontade e gosto pelo nosso clube, não estamos presos à necessidade de ter um espaço físico próprio para concertos, que estão a acontecer com regularidade. Naturalmente, desejamos o nosso próprio espaço para 2013, assim como termos também um concerto mensal e, para o fim do ano, conseguir realizar o Festival Internacional de Jazz de Macau. Queremos relançar esta ideia, mas precisamos de músculo financeiro.”

Para lá dos espectáculos, Sales Marques marca outra grande ambição do JCM. “Seria pouco ficarmo-nos pela organização de concertos. Temos também um outro objectivo, que é a parte educativa, através da criação de uma escolinha de jazz. Para isso, é fundamental a existência do espaço físico. Há vários músicos de Macau disponíveis para ensinar, além de que gostariam de tocar jazz e ter ambiente para isso.”

 

 

Notas de um clube de jazz
– As origens do JCM reportam-se remontam ao final dos anos 1970, quando um pequeno grupo de amadores de jazz decide organizar um concerto em 1979 com o saxofonista e flautista Rão Kyao, no Jardim Lou Lim Ieok, acompanhado, entre outros pelo contrabaixista Zé Eduardo. A este grupo de entusiastas juntam-se outros, recém-chegados a Macau, frequentadores dos Festivais de Cascais e do Hot Clube de Portugal, que decidem unir esforços e fundar uma associação, sem fins lucrativos, destinada à divulgação da música de jazz em Macau.

– O JCM foi formalmente fundado em Julho de 1985 e os seus Estatutos publicados no Boletim Oficial n.º 31 de 3 de Agosto do mesmo ano.

– A primeira Comissão de Gestão do JCM foi eleita em Fevereiro de 1987 e os primeiros Corpos Sociais em Junho de 1988, tendo estes renunciado em Março de 1990. Em Abril de 1991 foram eleitos novos Corpos Sociais que, com algumas alterações na composição, foram sucessivamente reeleitos até Março de 1999.

– Em Maio de 1999 tomam posse novos Corpos Sociais, que evoluem para uma Comissão de Gestão, empossada em Setembro, a qual viria a ser substituída por outra em Maio de 2000. Esta decide-se pelo encerramento das instalações do clube na Rua das Alabardas, em Agosto de 2000, e reabre-as na Casa de Vidro, na marginal do NAPE.
– Em Janeiro de 2001 tomam posse novos Corpos Sociais e em Dezembro de 2002 é formalmente posto termo ao acordo relativo à utilização da Case de Vidro, pelo IACM (que sucedeu ao Leal Senado. A partir de 15 de Fevereiro de 2002 o JCM deixa de ter instalações próprias que lhe permitam desenvolver actividade normal.
– Em Janeiro de 2003 tomam posse novos Corpos Sociais que, confrontados com a incapacidade de fazer reverter a situação, terminam o respectivo mandato em Março de 2004, sendo então nomeada em Assembleia-geral uma Comissão de Gestão encarregue de zelar pelo património do clube.

– Em Maio de 2012 são eleitos novos Corpos Sociais. A nova direcção, liderada por Sales Marques, está agora a tentar devolver ao JCM o brilho de outrora.

–  Com organização da inteira responsabilidade do JCM realizaram-se 13 Festivais Internacionais de Jazz de Macau, que contaram com a presença de músicos de várias proveniências, de Portugal ao Japão, de Macau e Hong Kong a Estados Unidos, França e Inglaterra.

 

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