Terça-feira, Agosto 11, 2020
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No mapa da literatura do mundo

 

 

Texto Cláudia Aranda   Fotos Paulo Cordeiro

 

O festival literário de Macau Rota das Letras vai continuar a divulgar e promover o intercâmbio entre escritores da China e de países de língua portuguesa e estimular projectos conjuntos, literários ou outros, com vista a “colocar Macau no mapa da literatura do mundo”, explica Ricardo Pinto, director do festival que acontece entre 10 e 16 de Março. Vários pontos centrais da península de Macau juntam-se à iniciativa para receber eventos ligados ao festival – Albergue SCM, Livraria Portuguesa, Livraria Pin-to, Fundação Oriente, Fundação Rui Cunha e Torre de Macau devem ser alguns dos locais.

A intenção este ano de alargar o evento a autores de outros territórios e trazer ao festival não só escritores mas também jornalistas, tradutores e organizadores de festivais literários visa “aproximar os países, juntando representantes dos diversos círculos do mundo literário e aproveitar as sinergias criadas pela polivalência dos participantes para dar a conhecer Macau, os autores e ajudar a promover o festival internacionalmente”, explicaram os organizadores do evento.

Um dos momentos altos desta segunda edição do festival vai ser o lançamento da compilação de melhores contos passados em Macau, escritos por anónimos que vão ver as suas obras publicadas juntamente com as dos escritores convidados para a primeira edição do certame. Mais de 30 contos estiveram em competição, dos quais foram seleccionados os vencedores, um em cada língua (chinês, português e inglês) pelo júri do ano passado, composto pelos escritores Su Tong, José Luís Peixoto e Xu Xi. Este ano os escritores participantes do festival vão voltar a ser convidados a escrever contos sobre Macau e os interessados poderão participar e escrever um conto, uma iniciativa que visa “fomentar o acto de escrever sobre a cidade”, referem os organizadores.

Estão ainda previstos debates, conferências, workshops e uma feira do livro. Além da vertente literária, o festival contará com a exibição de filmes, exposições e concertos, estando prevista a participação de artistas de Macau na área do cinema, da música e das artes plásticas.

A Rota das Letras deverá continuar a alargar as participações a autores provenientes de países vizinhos e da região, com vista a afirmar-se enquanto festival literário mundial de referência, mas “sem perder o traço identitário português e chinês que lhe está na génese”, sublinhou Ricardo Pinto. O festival é organizado pelo jornal Ponto Final e co-organizado pelo Instituto Cultural e Fundação de Macau, contando ainda com o apoio de diversas entidades, entre as quais a Sociedade de Artes e Letras (SAL).

 

Escritores do mundo

Na programação da segunda edição da Rota das Letras constam nomes de escritores portugueses como Francisco José Viegas, Alice Vieira, Rui Zink e Dulce Maria Cardoso, autora, entre outros, de O Retorno, que aborda a descolonização através do relato de um jovem retornado de Angola. A jornalista Alexandra Lucas Coelho, conhecida pelas reportagens no Médio Oriente e Ásia Central e autora de Oriente Próximo e Caderno Afegão vai também marcar presença no evento. A representar a lusofonia estarão o angolano José Eduardo Agualusa e o timorense Luís Cardoso, que editou, pela Sextante Editora em Janeiro o romance O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação. Paloma e Cecília Amado, filha e neta, respectivamente, do escritor brasileiro Jorge Amado chegam ao território com uma exposição no Albergue SCM, um documentário sobre a vida do ícone da literatura brasileira e ainda o longa-metragem Capitães de Areia.

Da China chegam escritores proeminentes no actual panorama literário chinês, tais como Bi Feiyu, autor de Three Sisters e do argumento do filme de Zhang Yimou Shanghai Triad, de 1996. Outra figura destacada é Bei Dao, pseudónimo de Zhao Zhenkai, um dos poetas notáveis da misty school, grupo de poetas chineses que reagiram contra às restrições da Revolução Cultural e cujo trabalhou inspirou movimentos pró-democracia na China. Foi forçado a exilar-se após os incidentes da Praça de Tiananmen de 1989. Outra figura relevante a chegar a Macau é o escritor Qiu Huadong, director editorial de uma das revistas mais vibrantes da cena literária actual de Pequim, a PathLigh: New Chinese Writing, que é a versão em inglês da revista literária chinesa People’s Literature. ShengKeyi é outra das escritoras que chegam de Pequim. Tem obras traduzidas em diversas línguas e ganhou já diversos prémios literários na China.

De França vêm dois autores, “francófonos, mas com forte ligação a Macau e à cultura lusófona”, explica Ricardo Pinto. É o caso de Antoine Volodine, pseudónimo mais conhecido de um escritor destacado da literatura francesa contemporânea que viveu em Macau, fala português e é autor de Macau e de Le Port Intérieur, que evocam a região e o mar da China. Claude Hudelot é sinólogo, historiador, cineasta e escritor. O autor esteve já anteriormente em Macau a apresentar o documentário Hou Bo, Xu Xiaobing Mao’s Photographers e o livro Le Mao, que descreve os objectos de culto da personalidade do antigo líder chinês.

 

Camané e Dead Combo nos palcos

O fadista português Camané, figura proeminente do fado contemporâneo, e o grupo musical Dead Combo, de inspiração jazz, rock e música do mundo, são alguns dos nomes sonantes que vão fazer vibrar os palcos de Macau.

À Revista Macau Camané referiu que esta viagem à região vai ser uma oportunidade para rever alguns amigos e de mostrar o que há de novo na sua música desde a última vez que esteve em Macau, em 2007. Macau pode contar com um repertório que será uma viagem pela carreira do fadista, “todos os meus sucessos serão cantados”.

Camané já colaborou com Dead Combo, um duo formado por Gato Pingado e o Gangster do Jazz, ou melhor, Tó Trips (com participações nas bandas rock Amen Sacristi, Santa Maria, Gasolina, Em Teu Ventre! e fundador de Lulu Blind) e Pedro Gonçalves, da escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, que tocou com Xutos & Pontapés, Sérgio Godinho e outros.

Espera-se que Macau possa ouvir ao vivo a voz do fadista acompanhado pelo grupo instrumental Dead Combo em temas como Vendaval, Inquietação e Ouvi o Texto Muito ao Longe. “Será com o maior prazer que me cruzarei em palco com os Dead Combo, são sempre momentos únicos”, afirmou Camané.

 

 

À conversa com Rui Zink


Esta é a primeira vez que Rui Zink visita Macau. “Já estive no Japão, já fiz dois livros passados no Japão. A minha Ásia tem sido o Japão, por razões diversas nunca fui levado para outra. O ano passado fui à Índia, outro tipo de Ásia”. Rui Zink acumulou, no entanto, uma série de referências e citações sobre a região e, em Lisboa, em conversa com a revista MACAU, o autor prometeu: “Eu antes lia histórias sobre Macau, agora talvez escreva uma.”

 

 

Rui Zink é autor de diversos livros, desde Hotel Lusitano (1987) a O Amante é Sempre o Último a Saber (2011) e a Instalação do Medo (2012). Em 1997 publicou uma novela gráfica com parte do enredo passado em Macau, A Arte Suprema, com ilustrações de António Jorge Gonçalves, que esgotou cinco edições. Este é um dos seus livros favoritos. “Continuo a achar que é um belíssimo livro. Macau é apenas um capítulo final, mas é o clímax, que passa-se numa Macau um bocadinho cliché eu acho que, e se calhar peço desculpa se vou ofender alguém, mas quando uma pessoa diz, ‘as pessoas de Macau só conhecem os clichés’ eu acho que Macau, infelizmente ou felizmente, é também os clichés, ou seja, os clichés são parte de Macau.”

Um dos laços com a Ásia nasceu por ser membro fundador da Associação Wenceslau de Moraes, cujo objectivo é apoiar a cultura portuguesa no Oriente e vice-versa. A relação com Macau acontece através do presidente da associação, o General Pedro Barreiros, macaense, e a sua mulher, Graça Barreiros, que é, diz o escritor, em Portugal, “a pessoa, que mais divulga a fantástica cozinha macaense e quando eu vou a casa deles – felizmente, bastantes vezes – tenho um encontro com Macau”. É assim, e através de um livro sobre Danilo Barreiros, destacada figura macaense do século passado, “que começa e quase termina a minha relação com Macau”, conta o escritor.

No entanto, prossegue Rui Zink, “como sou um leitor e um escritor – quando escrevo não aprendo muito, mas quando leio aprendo bastante – tenho, como toda a gente, ao longo das décadas, peças acumuladas que me dão uma imagem de Macau. Posso partilhar convosco umas três ou quatro frases que li num romance escrito por um senhor americano, Martin Cruz Smith. Ele escreveu uma espécie de Casablanca passado na Segunda Guerra em que, a certa altura, há um oficial nazi que se apaixonou por uma chinesa e o protagonista do livro diz ‘Epá não vás para a Alemanha, se vais para Berlim o Führer ainda te trama. Vai antes para Macau, que os portugueses são gente do mundo, aquilo é um sítio muito convivial e passas lá a guerra sem que ninguém te chateie’. Eu gostei muito da expressão ‘The Portuguese are worldly people’, que dita precisamente o que é Macau”.

Entre as referências acumuladas encontram-se também a escritora Maria Ondina Braga, que viveu em Macau e “escrevia maravilhosamente”, e que lhe deu “algumas pistas” sobre a região, e o filósofo, poeta e ensaísta Agostinho da Silva. “Uma vez”, conta Rui Zink, “fui levado à casa de Agostinho da Silva. Ele dizia sobre Macau que o importante – isto foi antes de 1999 – é que as pessoas saibam conviver e que haja um sítio onde se possa tomar chá, comer um pastel de nata e conversar. Depois ele disse uma coisa que se colou à minha imagem de Wenceslau de Moraes – aliás eu confundo-os os dois – a ideia de que cada homem é uma embaixada… Basta haver uma pessoa (para que a cultura se propague)…e nós habituamo-nos a amar um país pelas pessoas que temos à nossa frente. E, para mim, o Pedro e a Graça Barreiros fazem-me amar a Macau crioula, ou seja, a Macau crioula das pessoas que são mais portuguesas que chinesas. Eu para amar a Macau chinesa preciso de encontrar alguém de Macau com quem estabeleça laços”. Para o escritor, este convite para participar no Rota das Letras é a sua oportunidade de descobrir a outra parte da cidade.

O autor esperava conhecer muitos mais portugueses que falassem mandarim ou cantonês.  “Pelos vistos nunca houve. Muita gente não teve essa curiosidade e eu lamento porque tomarmos a língua do outro pode parecer um acto de submissão, mas é um acto de conquista. Quando falo com alemães e consigo arranhar em alemão e eles não conseguem arranhar em português, eu sinto que por um lado estou a mostrar submissão, mas não, estou a mostrar uma conquista, porque eu tenho um código secreto e eles não têm. E o que aconteceu em Macau durante muitos anos, eu imagino isso, uma parte grossa da população tinha um código secreto. Eu se tivesse crescido em Macau imagino-me hoje a falar um cantonês magnífico sem sotaque. Se calhar estou a ser presunçoso.”

Conta o escritor que a sua curiosidade em visitar Macau antes não era muito grande – agora é maior – e isso era “porque como eu não falava cantonês chateava-me um pouco ir para um sítio e sentir-me como não tivesse saído de casa e eu gosto mais de atravessar a rua.”

A comida é a “nossa segunda maior abertura para o mundo”, diz Rui Zink. “O que nós comemos define-nos e o que nós comemos também nos separa. Li isto há um ano ou dois num artigo do Vasco Pulido Valente. Li, registei, gostei, porque ele disse isto de forma tão límpida. Portanto, quando encontramos povos que comem o mesmo que nós há logo ali um elo, sentamo-nos e podemos comer. Portanto a comida, alguém gostar da nossa comida começa logo por ser uma ponte de ligação.” Rui Zink, por sua vez, deixa claro que gosta muito de comida chinesa.

As primeiras 48 horas em Macau vão ser fundamentais para a percepção da cidade em si e para o processo criativo que daí resultar. “Imagino que é o momento em que eu estou em estado de vigília, meio a dormir, meio acordado, e esse lusco-fusco entre o dormir e o meio acordado muitas vezes é quando aparecem os mosquitos em África, mas para a nossa cabeça é também quando aparecem os mosquitos da imaginação e os mosquitos da compreensão e da empatia com o mundo.”

Quantos aos livros que vai levar para Macau, Rui Zink prometeu procurar na memória algo que acrescente ponto. “Sou um escritor ambicioso. Tento escrever para mudar a perspectiva sobre algo. Quero contar uma história mas também quero questionar o que é aquela história”. Ou pelo menos tenta: “Eu sou o escritor que tenta. Para mim a definição de escritor é a pessoa que tenta, que tenta com palavras dizer aquilo que não pode ser dito por palavras, isso é que é giro, é contar uma história que não pode ser contada”.

Mais importante do que tudo o mais, Rui Zink vai “viajar com aquilo que os escritores devem viajar, que é os olhos a mente e os ouvidos abertos. E, já agora, as papilas gustativas”.

 

 

Cenário de ficção

 

Os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata adiantaram algumas pistas à Revista Macau sobre o filme A Última Vez que Vi Macau, galardoado em vários festivais e que vai ser apresentado na Rota das Letras.

 

 

Em A Última Vez que Vi Macau, a cidade é o território imaginário para um filme que entrecruza documentário com a ficção e conjuga duas memórias, uma memória real, vivida e inspirada na infância feliz de João Rui Guerra da Mata, que viveu em criança em Macau, e uma memória ficcional, de João Pedro Rodrigues. Esta última trata-se de “uma realidade não vivida, memória essa que vem do cinema americano, do período clássico, inspirada no filme Macao de 1952, de Josef von Sternberg e Nicholas Ray e protagonizado por Jane Russel e Robert Mitchum;  do filme de James Bond, o Agente Secreto britânico 007, em O Homem da Pistola de Ouro, que foi parcialmente filmado em Macau na época em que João Rui vivia em Macau; do cinema asiático contemporâneo, da pintura, da literatura, e da própria história da região”, explicam os realizadores.

O filme começa com a trama clássica do melodrama ou filme negro americano, um género cinematográfico de Hollywood dos anos 1940 e 1950, em que Guerra da Mata, o protagonista masculino que tem, por coincidência, o mesmo nome que o realizador, regressa a Macau 30 anos depois, assim que recebe uma mensagem da amiga Candy, de quem ele não ouve falar há anos e que está em apuros.

João Rui explica que quando chegaram pela primeira vez a Macau, em 2009, aperceberam-se de que não era um documentário o que queriam fazer, apesar de ser essa a ideia inicial para o projecto.

Os realizadores optaram por deixar-se “contaminar” pelos estímulos que a própria cidade lhes foi oferecendo.  “Sentimos como que a cidade estivesse a contar histórias, era como se a cidade nos estivesse a mostrar sítios e nós à procura deles e que a cidade estava a revelar-se ou o território estava a revelar-se enquanto lá estávamos”, explica João Pedro. João Rui sublinha que a preocupação foi fugir ao óbvio e ao exotismo imediato. “Macau conta imensas histórias, apetecia-nos filmar em Macau e apetecia-nos filmar em locais que habitualmente não são os locais que se vêm nos documentários e nos filmes.”

A longa-metragem foi sendo realizada ao longo de três incursões na região a partir de 2009, que deram origem também à curta-metragem Alvorada Vermelha.  O tema asiático havia já começado a crescer na obra de ambos realizadores em 2007 com o documentário China, China, filmado em Lisboa.

A China, aliás, vai continuar a fazer parte do enredo dos filmes de ambos cineastas. João Pedro revelou que em 2013 tencionam concretizar uma nova curta-metragem em Macau, num projecto intitulado Hotel Central. Ambos têm interesse em continuar a trabalhar na região, aproveitar as dinâmicas que a cidade oferece e estabelecer parcerias. “Há pessoas em Macau interessadas em mudar a paisagem do cinema local. Macau é uma cidade viva e em mudança. É preciso agora concretizar projectos”, referiram os realizadores.

 

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