Domingo, Maio 31, 2020
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Os livros não morrem

 

Manuel Teixeira

 

Texto Inês Dias

 

Manuel Teixeira não se restringiu apenas ao papel de sacerdote. É considerado uma verdadeira instituição da cidade e quem passar pela história de Macau terá de passar obrigatoriamente pelas mais de 50 mil páginas escritas pelo homem que dedicou uma vida à pesquisa, análise e organização de dados. “Não criou muito mas investigou e publicou. Fez muito o trabalho dos copistas da Idade Média, fazendo chegar até nós dados valiosos”, refere a historiadora Beatriz Basto da Silva.

A imagem icónica de um homem de batina branca e longas barbas da mesma cor a atravessar a Ponte Nobre de Carvalho – inaugurada em 1974, a primeira ligação fixa entre a península e a ilha da Taipa – até pela imprensa internacional foi imortalizada. Este trajecto diário Macau-Taipa-Macau era cumprido religiosamente e servia de momento de reflexão. Só uma trombose, sofrida na década de 1990, que o deixou paralisado temporariamente, viria a por termo a esta travessia.

Homem ávido por caminhar e explorar o território, conhecia-o de ponta a ponta.  A sua obra Toponímia de Macau é prova disso. “Vem comigo passear por essas ruas que eu te contarei a sua história como amável guia turístico” é o convite que o padre faz aos leitores no seu prefácio.

O “Monsenhor Macau”, como alguns lhe chamavam, transmontano de nascimento mas macaense de coração, conservador, nacionalista, apaixonado pela história e pela vocação imperial de Portugal, nasceu a 15 de Abril de 1912 em Freixo de Espada à Cinta. O dia em que nasceu faz parte da história universal, como o próprio fazia questão de frisar. “No dia em que eu nasci sucedeu o maior desastre marítimo da História. O navio [Titanic] que nem Deus podia afundar foi afundado como material tão leve como o gelo. Por via disto em Macau quase toda a gente conhecia o dia e o ano do meu aniversário”, referiu na sua coluna Coisas e Loisas, uma rubrica regular que assinava no Seminário Transmontano.

A sua irmã Benvinda de Jesus Teixeira recorda o momento em que o menino Manuel decidiu seguir a vida religiosa: “Um dia, passou junto da loja um missionário que lhe perguntou se ele queria ir para Macau para ser missionário. Abandonou o banquinho onde estava sentado e correu para casa dizendo ao pai que queria ir para Macau para ser padre. O pai duvidou logo daquela vocação repentina”.

Concluída a instrução primária na sua terra natal, lá partiu o menino Manuel a 16 de Setembro de 1924 em direcção a um Oriente misterioso, a bordo do D´Artagnan dos Messageries Maritimes, navio tão grande e viagem tão longa – mais de 16 mil quilómetros percorridos em quase dois meses – capaz de abarcar os sonhos e aventuras de qualquer rapaz de 12 anos. “Cheguei a Macau numa segunda-feira, 27 de Outubro de 1924, vindo de Hong Kong no vapor Sui-Trai. Éramos cinco rapazes naturais de freixo de Espada à Cinta”, recordava no artigo O Seminário do Meu Tempo, no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau. O Seminário de São José, então a grande escola missionária de Portugal no Oriente, foi a sua casa e a sua família durante os dez anos que se seguiram.

Foi uma década numa instituição que lhe providenciou protecção e educação, mas  ao mesmo tempo afastava-o da realidade de uma Macau que só veio a conhecer depois de transpostos os muros da instituição. Apesar do ambiente austero e da disciplina férrea, depressa se integrou, adaptou e fez amigos, dada a sua conhecida capacidade natural de se aproximar do outro. Era estudioso, interessado e com uma memória prodigiosa. Como boas recordações guardava a amizade dos outros seminaristas que consigo vieram de Freixo de Espada à Cinta e do seu professor predilecto, Régis Gervaix. Professor de francês e de grego e autor da Histoire Abregée de Macao, despertou no seminarista o gosto pela investigação histórica.

No dia 29 de Outubro de 1934, é ordenado sacerdote pelo bispo D. José da Costa Nunes na Igreja do Seminário de São José. A 1 de Novembro desse mesmo ano celebrou a sua primeira missa na igreja de São Domingos, passando depois a ser pároco de São Lourenço até 1946.

 

Uma vida dedicada às letras

Com apenas 22 anos não só começa a caminhada do sacerdócio como assume a direcção do Boletim Eclesiástico de Macau – cargo que ocupou até 1947 -, publicação que se tornou internacionalmente conhecida graças aos seus trabalhos e aos contributos de outras figuras como os historiadores José M. Braga e Charles R. Boxer.

Em 1942, fundou a revista mensal O Clarim. Arquimínio Rodrigues da Costa, bispo de Macau entre 1976 e 1988, refere que Manuel Teixeira “não fazia rodeios na sua escrita”. “Censor cáustico de costumes e atitudes, nunca poupou quem lhe merecesse reparos, fosse quem fosse. Mas sabia também enaltecer os méritos das pessoas”, relembra. O padre colaborava ainda com a imprensa local, onde escrevia colunas regulares, como aconteceu, na década de 1990, no Macau Hoje.

As suas opiniões chegaram também a meios de comunicação do estrangeiro. Colaborou, por exemplo, com o italiano Observatore Romano, com o diário de Hong Kong South China Morning Post e com o português Mensageiro de Bragança.

Das suas investigações surge, em 1965, a obra A Imprensa Periódica no Extremo-Oriente, pretendendo, como refere na introdução, “preencher a lacuna” existente na história do jornalismo português em Macau.

 

O professor

A par das suas funções obrigatórias decorrentes do sacerdócio, trabalhou ainda como professor no Seminário de São José (1932-46 e 1962-65), na Escola Comercial Pedro Nolasco (1962-64) e no Liceu Infante D. Henrique (1942-45 e 1964-70). Luís de Castro Machado, seu antigo aluno, recorda como era o contacto diário com o sacerdote. “Por graça demos-lhe a alcunha de ‘Irmão Manuel da Pêra Branca’, que veio a adoptar como pseudónimo para colaborações na imprensa escrita da época”, conta. O antigo aluno recorda sobretudo as iniciativas de Manuel Teixeira de promover  visitas ao centro de leprosos de Ká Ho, em Coloane. “Na altura, a vila piscatória de Ká Ho era a zona ‘fora-dos-limites’ para o cidadão comum, mas isso não era factor impeditivo para que nós apoiássemos os leprosos e seus familiares que lá viviam, muito carenciados de tudo, especialmente de carinho humano.”

Professor de latim no Seminário de São José e no Liceu de Macau, usava uma didáctica a que chamava “o método do desafio”: era uma espécie de competição, em que interrogava dois estudantes e o que ganhasse amealhava pontos que contavam para as classificações finais. O método resultava e os alunos aprendiam com entusiasmo o latim.

A arte de ensinar e aprender também mereceu a sua atenção para uma detalhada investigação. O seu livro A Educação em Macau, publicado em 1982, relata a história da educação portuguesa e luso-chinesa e, segundo o historiador António Aresta, vem “retirar a história da subalternidade de nota de rodapé”.

 

Defensor da História

O próprio reconhecia que só era feliz quando escrevia. O seu legado escrito começou ainda nos anos de 1930, quando publicou os primeiros artigos históricos no Boletim Eclesiástico. O facto de ter à sua disponibilidade todos os arquivos da Diocese de Macau facilitou o seu trabalho de investigação. Escreveu sobre a vida de cada padre que viveu na cidade nos passados 400 anos, e para tal feito consultou os arquivos de todas as paróquias e de cada igreja.

Os 16 volumes de Macau e a Sua Diocese é, na opinião do próprio, uma das suas obras mais importantes, “pois a história da Igreja de Macau está intimamente ligada à história civil do território, tornando-se difícil dissociar estas duas realidades”.

As obras Os Militares de Macau e Toponímia de Macau foram premiadas em 1981 e 1983, respectivamente, com o prémio História da Fundação Calouste Gulbenkian.

O amor que a história de Macau sempre lhe inspirara é sublinhado por Eduardo Francisco Tavares, um antigo seu aluno, que recorda como o padre salvou um valioso arquivo no auge dos acontecimentos do 123, em 1966. “A 3 de Dezembro de 1966, desce o Padre Teixeira do 3.º andar do seminário de São José numa atitude pouco usual. Perguntei-lhe onde se dirigia tão apressadamente. Com voz preocupada respondeu-me: ‘Olha rapaz, vou salvar Macau!’ Não eram almas que o padre queria salvar, mas os documentos históricos que estavam a ser queimados no Largo do Senado no episódio histórico do 123.”

O Monsenhor passou três dias e três noites consecutivas a resgatar os documentos e conseguiu pôr a salvo outros tantos, impedindo que os prejuízos fossem mais graves para a história de Macau.

 

Passagem por Singapura

Em 1948, Manuel Teixeira partiu para Singapura como superior e vigário geral das Missões Portuguesas de Singapura e Malaca. Como pároco da igreja de St. Joseph na cidade-estado tinha sobre a sua asa cerca de mil “católicos de confissão”, como frisava.

Homem frontal e sem medos, não hesitou em confrontar o icónico primeiro-ministro e fundador da República de Singapura Lee Kuan Yew, durante uma homília em que Manuel Teixeira encorajava os fiéis a não darem ouvidos à política de um filho único.

Em 1959, ainda em Singapura, celebra as suas Bodas de Prata mas recusa o jantar que lhe é oferecido pelos seus paroquianos. Em vez disso,  sugere que com esse dinheiro se crie o Fundo dos Estudantes Pobres (St. Joseph Church Book Fund) para “eles poderem comprar os livros e uniformes”.

Ao longo de 14 anos em Singapura (1948-1962) mostrou mais uma vez a sua vertente de escritor, ao fundar a revista Rally e o boletim paroquial Stop, Look and Go, ambos em Inglês.

Regressou a Macau em 1962, já com 50 anos, deixando para trás a cidade onde afirmava ter vivido dos “momentos mais felizes” da sua vida. No mesmo ano passa a ser Capelão do Convento de Santa Clara, começa a exercer funções docentes no Colégio de S. José (1962-65) e na Escola Comercial Pedro Nolasco (1962-64). Entre 1964 e 1970 é professor de Religião e Moral e de Latim no Liceu Nacional Infante D. Henrique. A par das restantes responsabilidades, assume o cargo de director dos Arquivos de Macau (1976-80) e do Boletim do Instituto Luís de Camões.

Traz o hábito de beber o que chamava de “chá da Escócia”. A historiadora Beatriz Basto recorda servir-lhe, nas muitas visitas de Monsenhor a sua casa, a sua ementa preferida de bananas e uísque.

 

O regresso à terra

“Eu tinha resolvido não mais regressar à metrópole devido ao choque violento que recebi no dia 25 de Abril com a chamada ‘exemplar descolonização’”, confessou quando decidiu abrir uma excepção em 1988 e regressar a Portugal para gozar licença graciosa, já que não tinha férias desde 1972.

Em Janeiro de 1994, meses antes de completar 82 anos, Monsenhor Manuel Teixeira deu entrada no hospital Conde de São Januário vítima de uma trombose e subsequente paralisia facial periférica. Durante dez meses mudou-se para o “melhor hotel de Macau”, como chamava ao hospital. Apesar da sua saúde se encontrar fragilizada não deixava de celebrar missa todos os dias, às sete da manhã, na igreja de Santa Clara, no Colégio de Santa Rosa de Lima.

Finalmente foi forçado a regressar definitivamente a Portugal em 2001. A sua principal preocupação então era o seu espólio que não queria abandonar. Reuniu-se com Beatriz Basto da Silva e Isabel Rasquinho e entregou-lhes tudo quanto possuía. Todo o material foi parar ao Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, onde estão catalogados cerca de 4000 manuscritos, monografias, livros, fotografias e cartas. Todas as peças estão inventariadas e disponíveis para consulta através do catálogo online da biblioteca do Centro.

Na Biblioteca Central de Macau, na Sala de Macau, podem ser consultadas as monografias da sua autoria ali conservadas. São 133 títulos, editados entre 1937 e 1999, e mais as suas colaborações com as publicações locais.

Durante os três anos em que esteve em Portugal continuou a escrever. Fernando Vinhais Guedes encontrou-o no lar de Chaves, em Santa Marta, instituição que ajudou a construir em 1980 com uma doação de 75 mil contos (cerca de 3,75 milhões de patacas). O amigo lembrava-se da sua “frontalidade às vezes grosseira” e do seu “sentido de humor”. “Apareceu-me sentado numa cadeira de rodas, com ar combalido de quem tinha sofrido um AVC. Perguntei-lhe: ‘Como vai o homem de Freixo de Espada ao ombro?’, ao que Monsenhor respondeu comovido: ‘Você é daqui? Ai meu Deus! Que bom! É trasmontano, é bom homem!’”

O “homem do desporto”, como o padre chamava ao amigo, passou a ir visitá-lo diariamente. “Todos os dias o visitava para falarmos de Macau. Esse era o assunto de eleição.” Recebia muitas visitas, incluindo as do ex-governador de Macau Rocha Vieira e a da sua mulher, Leonor Rocha Vieira, a quem Monsenhor chamava de “Santa Leonor”.

Pouco a pouco, Monsenhor e Vinhais Guedes começaram a fazer pequenas caminhadas à volta do “Pentágono”, nome que deram ao jardim do lar. Esses passeios passaram a ser complementados com cerca de dez minutos de bicicleta estática, apesar da resistência de Monsenhor que se queixava: “ Não quero que me vejam! Agora anda aqui um velho a pedalar, a pedalar, e não sai do sítio!” Durante os fins-de-semana iam para os montes ver os pinheiros que o lembravam da sua terra natal “onde nunca quis regressar”, apesar de Vinhais Guedes se ter oferecido para o levar.

Apesar da difícil adaptação inicial do Monsenhor, o amigo garante que houve momentos “de grande satisfação”, especialmente durante a homenagem que lhe foi prestada em que “parecia estar nas nuvens”. A 2 de Março de 2002, numa iniciativa promovida pelo Semanário Transmontano, Monsenhor Manuel Teixeira recebeu comovido a homenagem dos transmontanos. Estiveram presentes governadores civis, os bispos de Vila Real e de Bragança e ainda cerca de 20 Câmaras da região. As escolas flavienses também participaram. A sua idade avançada não o impediu de proferir a palestra “Os Padres Transmontanos no Oriente” durante a cerimónia.

Durante o seu discurso, relembrou a importância dos padres transmontanos no Oriente e classificou-os de “exemplos admiráveis”. A lista era longa, mas teve de encurtar a homenagem porque, nas suas palavras “se me referisse a todos, nunca mais me calava”. Escolheu como exemplos o padre Coroado e o padre Francisco  Teixeira, apelando ao reconhecimento das sua obras e sugerindo a sua canonização.

No final da cerimónia, Monsenhor recebeu a Medalha de Perpétua Homenagem (a primeira de uma edição limitada de 200 exemplares) com a inscrição da conhecida frase do monsenhor: “O Homem é pó, a fama é fumo, o fim é cinza. Só os meus livros permanecerão.”

Monsenhor Manuel Teixeira morreu a 15 de Setembro de 2003, aos 91 anos.

 

 

Um estudo sistemático

Estávamos em finais de 2000 quando a historiadora Tereza Sena foi convidada para trabalhar no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, a quem o Monsenhor Manuel Teixeira tinha doado, em Novembro de 1999, o seu espólio através de uma simples declaração. Coube à académica tratar dos trâmites legais para que essa declaração se transformasse numa doação formal que permitisse, nomeadamente, a consulta de obras desse espólio por parte dos investigadores.

Apesar de frisar que ainda “há artigos por inventariar”, a investigadora do Instituto Politécnico de Macau considera que deveria ser feito “um estudo sistemático da sua vida, obra, posicionamento, da construção da sua imagem, das suas relações e motivações, especialmente de escrita, que era quase compulsiva um “apostolado da palavra”, como o próprio dizia. “Aí entrará uma análise desse espólio.”

A historiadora começou a fazer esse trabalho e tem, neste momento, 100 páginas escritas. Quer concluir o projecto “daqui a uns tempos”.  “Pensei fazer uma edição desse estudo para assinalar os dez anos da sua morte, mas não vale a pena. Quero concluir a investigação de uma forma fundamentada que vá desde os seus tempos de seminário até às suas relações de família e pessoais, muito na perspectiva do autor e interventor cultural. Haverá um pouco do pároco e de interveniente político, mas não é o principal objectivo.”

Do percurso daquele a quem foi atribuída a Medalha de Ouro da cidade e reconhecido como Cidadão Emérito pelo Leal Senado a 23 de Junho de 1998, Tereza Sena recorda um coleccionador de dados, mais do que historiador, pela falta de trabalho crítico sobre as fontes que recolheu. “O que é importante na obra histórica dele não é apenas a vastidão temática e geográfica, como também o seu âmbito cronológico, pescada em inúmeros fundos documentais, alguns dos quais hoje desaparecidos ou de difícil acesso, infelizmente nem sempre devidamente identificados. Para além disso, temos a sua intervenção cívica e crítica do presente, com as suas crónicas nos jornais.”

“É uma figura e um símbolo de Macau, que perdurou para além do fim da administração portuguesa”, tendo monopolizado, sobretudo na década de 1970 e início da de 1980, após a morte de Luís Gonzaga Gomes, todas as revistas culturais de Macau”, defende a académica, que proferiu o elogio à Monsenhor Manuel Teixeira na ocasião da cerimónia de atribuição do título.

 

 

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