Quarta-feira, Maio 27, 2020
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Portugal mobiliza-se para atrair investidores chineses

 

 

PTCN

 

Texto Cláudia Aranda

 

A venda de imóveis em Portugal a investidores chineses é uma das prioridades do consórcio PTCN – Missão Empresarial Portugal-China, fundado na cidade do Porto, em Janeiro de 2013, e liderado por Y Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal. O consórcio conta já com 30 entidades participantes, incluindo empresas de construção e de investimento turístico e imobiliário, bancos e escritórios de advogados.

O objectivo inicial é estimular o mercado de investimento imobiliário português, estagnado em resultado da retracção no financiamento e o estado de crise económica do país. O interesse não é só “vender casas”, mas também encontrar parceiros no sector comercial e tecnológico e “promover a internacionalização das empresas chinesas abrindo-lhes portas para a Europa”, através do estabelecimento de parcerias.

A Universidade de Aveiro e a Associação Empresarial de Portugal (AEP) são exemplos de entidades interessadas em atrair empresários chineses para investir em parques tecnológicos e industriais em Portugal. Em entrevista à revista MACAU no Porto, Y Ping Chow, e o vice-presidente do consórcio, Pedro Barros, explicaram a estratégia para atrair investidores chineses a Portugal.

 

O consórcio foi criado basicamente para atrair investimento chinês para o imobiliário. Quais são as outras prioridades?

Y Ping Chow (YPC) – Captar investimento chinês é um objectivo. Outro é conquistar o mercado chinês. Ainda queremos ajudar na internacionalização das empresas chinesas que, neste momento, têm bastante apoio do governo chinês.

 

Como é que o consórcio tenciona atingir esses três objectivos tão ambiciosos?

YPC – Por exemplo, no sector tecnológico está a ser desenvolvido um parque de ciências e inovação que tem uma participação da Universidade de Aveiro e os municípios da zona de Aveiro. O objectivo é estabelecer relações com parques industriais e parques de ciências e tecnologia da China para captar o investimento de capital para o parque de ciência e inovação de Aveiro e, ao mesmo tempo, divulgar os participantes associados (chineses) entre parques de ciências e tecnológicos europeus. Sem esta intervenção da universidade e sem o estabelecimento de relações, as empresas chinesas tecnológicas podem ter dificuldades. Isto também ajuda que as empresas de Portugal possam conquistar o mercado chinês, que é um dos destinos principais para estas empresas tecnológicas, que por regra são mais pequenas e recentes.

 

Já existem relações entre Aveiro e parques tecnológicos na China?

YPC – Através do Governo de Macau e do Governo de Zhejiang, vamos contactar dois pólos de ciência e tecnologia de Cantão e de Zhejiang.

 

E nos outros sectores?

YPC – No sector comercial, estamos a desenvolver um centro comercial. Queremos contactar empresas que queiram lançar as suas marcas na Europa, através de um centro em Portugal. Através deste centro comercial vamos contactar com outros países para divulgar as marcas ou implementar os produtos chineses. No sector de turismo, estamos a tentar criar programas, como hotéis para a terceira idade com assistência médica. Isto através de outra associação que vai entrar no consórcio. Portanto, nestes quatro sectores  – tecnológico, comercial, industrial e turismo – é que vamos desenvolver a actividade, aproveitando a nova lei portuguesa do imigrante investidor.

 

Os negócios vão ser criados em Portugal e também na China?

YPC – O investimento é em Portugal, a indústria é em Portugal, a loja em Portugal e o parque industrial em Portugal. Mas, através de Portugal, vamos manter contacto com outros países e há a possibilidade de reinvestir na China com capital chinês.

 

De que forma o consórcio pretende usar a lei de estrangeiros que privilegia o imigrante com dinheiro para atrair novos investidores?

YPC – Queremos desenvolver o negócio de empresários chineses em Portugal, portanto, se as empresas chinesas querem internacionalizar-se podem vir a Portugal aproveitando este novo sistema que o Governo português lançou e criar uma base em Portugal. Vamos trabalhar com esta arma que agora temos.

 

A Espanha está também em processo de criar uma iniciativa semelhante mas por valores inferiores ao mínimo exigido por Portugal para a compra de imobiliário, o que poderia colocar Portugal em situação concorrencial desfavorável. Esta situação poderia afectar os objectivos do consórcio?

YPC – Pode afectar um pouco, embora o sentido da lei espanhola seja diferente, os valores de investimento no imobiliário são mais baixos, mas tem que ter uma permanência mais longa em Espanha.

Pedro Barros (PB) A PTCN, enquanto missão empresarial, tem como objectivo juntar os dois países do ponto de vista da actividade económica, captar investimento chinês para Portugal, levar produtos e empresas portuguesas para a China e servir de plataforma de entrada da China na Europa. Para a China também é importante entrar na Europa e nos países de língua oficial portuguesa. Portanto queremos, com uma escala devidamente adequada à nossa dimensão, captar e marcar posição nesse mercado. A alteração legislativa é importante para nos ajudar a conseguirmos ser competitivos. A globalização está aí, a busca e a tentativa de chegar aos grandes investidores por todo o mundo é uma batalha diária e global. É com estes instrumentos que nós vamos conseguir, mais rapidamente ou menos rapidamente, com mais eficiência ou menos eficiência, atingir os nossos objectivos. Esta lei vai nos ajudar, poderia ser mais ambiciosa, poderia ser mais consistente nalgumas áreas, mas é um instrumento suficiente para nós podermos trabalhar.

 

Quais são as motivações para um investidor chinês apostar em Portugal?

YPC – Para os comerciantes que têm uma marca, é mais vantajoso lançar uma marca em Portugal. É muito mais barato, mais económico do que na Itália e do que em França. Portugal tem boas tecnologias. Investir no parque de tecnologias, (em termos de qualidade e nível técnico) é a mesma coisa que investir em França ou na Alemanha. Através das universidades, os investidores conseguem chegar aos pólos tecnológicos e sai mais barato tecnicamente. Na indústria, Portugal tem mão-de-obra mais barata. Além disso, os investidores têm uma oportunidade de abertura para os países lusófonos como Brasil, Angola e Moçambique.

 

Pode-se dizer que Portugal é uma opção barata para entrar na Europa?

PB – Portugal é mais competitivo. Qualquer investidor vê oportunidades de negócio. Portugal tem muitas janelas de negócio e foi por isso que foram feitos grandes investimentos chineses em 2012 no país. Do ponto de vista estratégico, Portugal pode ser muito interessante para o investidor que quer rentabilizar o seu dinheiro e os seus investimentos. Portugal é competitivo porque tem um papel importante na Europa, porque tem um papel de charneira junto dos países oficiais de língua oficial portuguesa, que são uma prioridade nas políticas da China. Temos aqui um conjunto de situações em que somos muito competitivos em relação a outros países. Temos universidade muito boas, temos mão-de-obra muito qualificada, temos potencialidades enormes em termos de geoestratégia. A nossa localização é efectivamente importante e temos uma história de relações com a China que foi significativa. O grande investimento que foi feito pela China em Portugal no ano anterior e as razões que levaram a esse investimento são uma prova de confiança e um aval a este país e a este povo que tem este saber todo.

 

Já falámos das vantagens competitivas de Portugal. Mas o que é que pode interessar a um empresário chinês vir cá buscar?

YPC – O mais fácil são os vinhos e azeites. O consumo está a aumentar na China. Para entrarmos comercialmente, o mais fácil é através do vinho, do azeite e de outros produtos alimentares. Portugal tem também estilistas e vestuário muito bons. Mas este já é um sector diferente, já é mais difícil de trabalhar.

 

O sector do imobiliário vai atrair investidores chineses?

PB – O imobiliário é uma grande oportunidade para investidores a nível mundial. O imobiliário em Portugal tem passado por dificuldades. O fruto dessas dificuldades é uma enorme oportunidade para os investidores, sejam nacionais, sejam internacionais.

 

Estamos a falar numa aposta em projectos de luxo?

YPC – Temos vários.

PB – O imobiliário é integrado: a oferta imobiliária vai do habitacional ao industrial, ao comercial. Temos no nosso portefólio de membros da parceria diversos projectos em várias áreas do imobiliário, que estão em condições de poderem ser comercializados. Essa comercialização tem vários nichos de mercado, do pequeno investidor, do imigrante investidor, até à criação de fundos de investimento imobiliário. Há uma panóplia enorme de oportunidades.

 

Os investidores chineses procuram imobiliário em Portugal?

PB – Já temos histórico, existem grandes grupos portugueses que estão a trabalhar individualmente esse sector. Estamos convencidos de que o imobiliário vai ter uma oportunidade junto dos investidores chineses.

 

Essas oportunidades incluem a criação de parques industriais para empresas chinesas?

YPC – Temos quatro tipos de imobiliário: habitacional, comercial, industrial, tecnológico e o turístico. São estes os sectores que vamos trabalhar. Vamos trabalhar o imobiliário porque queremos contribuir para estas saídas e captar o investimento, criar os nossos próprios negócios. A finalidade principal, no entanto, é olhar o interesse dos investidores. Vamos gerir, rentabilizar e contribuir para a criação de postos de trabalho. Não é só vender casas para os chineses, é também trazê-los para reinvestir noutros negócios que eles queiram e ajudar a internacionalizar as empresas chinesas. Isto é que é o nosso objectivo final.

 

Que apoios presta o consórcio ao investidor chinês que esteja interessado em, por exemplo, adquirir imobiliário, abrir lojas ou instalar uma fábrica e criar postos de trabalho?

PB – O consórcio presta um serviço chave na mão. Dá apoio jurídico, na legalização, consultoria financeira, fiscalidade, apoio à gestão do investimento, administração de condomínios.

 

Existem já negócios apalavrados, investidores localizados para os diversos sectores?

PB – O consórcio está a criar uma rede de contactos em Portugal e na China, quer de natureza institucional, quer outros, que é necessário para divulgar a existência desta parceria, que se espera possam vir a materializar-se em oportunidades concretas de negócio.

 

Existem condições para a criação de parques industriais para empresas chinesas em Portugal?

YPC – A Associação Empresarial de Portugal (membro do consórcio) é o proprietário maioritário, tem controlo sobre nove parques industriais em Portugal e está disposta a abrir o seu valor capital.

PB – Temos, além disso, outras empresas que têm parques industriais e empresarias que estão receptivas a que companhias chinesas se instalem em Portugal. O objectivo é que a partir de Portugal essas empresas possam também chegar ao resto da Europa. Há grandes empresas na China que por questões de proximidade têm interesse em ter unidades de fabrico, de montagem e de apoio pós-venda em Portugal. Vamos tentar encontrar essas empresas e dar-lhes essa oportunidade para atraí-las para o país.

 

Quais os sectores industriais na China que podem ter interesse em instalar fábricas em Portugal?

PB – A China tem feito melhorias em termos de produção industrial, através de uma qualificação dos seus próprios produtos. Hoje começam a surgir produtos de uma gama muito superior àquela que tradicionalmente era ou é ainda associada aos produtos feitos na China. Nesse sector começam a surgir empresas que já têm marcas e que estão a apostar numa maior qualidade. É essa nova vaga de produtos de mais qualidade que nós gostaríamos de trazer para Portugal e de, alguma forma, trazer para a Europa através de Portugal.

YPC – A marca chinesa na Europa ainda não está muito valorizada. Há muitas produções chinesas que são feitas e mesmo etiquetadas com marcas europeias. Queremos ter parceiros na China que possam criar um produto com design e boa relação qualidade e preço. Isto tem vantagens para que o produto possa entrar, por exemplo, nos mercados de países africanos lusófonos. O produto fabricado em Portugal e na Europa inspira uma confiança maior.

 

Que garantias existem que os empresários chineses vão investir em Portugal?

PB – Um dos maiores investimentos da China no ano passado foi precisamente em Portugal. A China vê uma oportunidade e nós temos de aproveitar. Perante os investidores, Portugal é um mercado competitivo e atractivo, há oportunidades muito interessantes. É nas crises que se fazem os grandes negócios e temos que estar atentos a essa grandes oportunidades. A China esteve atenta e por isso fez um grande investimento em Portugal em 2012.

 

 

YPC

 

Digressão frutífera pela China

Y Ping Chow esteve em Pequim, Zhejiang, Xangai, Nanjing, Zhengzhou e Cantão a liderar uma delegação comercial que, em Abril, esteve na República Popular da China, com uma breve passagem por Macau. O objectivo da viagem foi iniciar contactos e angariar apoio junto de entidades oficiais e empresariais chinesas à iniciativa de um conjunto de empresas, bancos e escritórios de advogados portugueses, que pretendem atrair investidores individuais ou institucionais chineses a apostar em Portugal. Em Macau, Y Ping Chow e dois dos seus associados Pedro Barros, do Grupo Templo, e João Oliveira, do Banco Carregosa, foram recebidos por representantes do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM). A entidade da RAEM afirmou estar “aberta para atender e apoiar a iniciativa”.

Y Ping Chow afirmou que a receptividade foi “muito positiva” junto de representantes dos governos provinciais e municipais da RPC, assim como de federações de comércio e indústria e de promoção do investimento internacional. “Todos manifestaram interesse em organizar eventos na China e viagens de empresários a Portugal para conhecerem os projectos”.

Cantão, capital da Província de Guangdong, foi a escala mais proveitosa para o consórcio. Nesta província Y Ping Chow manteve encontros com empresários do sector imobiliário, que manifestaram interesse em reunir investidores chineses para se deslocarem a Portugal “para possíveis aquisições de propriedades e moradias de luxo”, afirmou Y Ping Chow.

África e a possibilidade de internacionalização das empresas chinesas em países africanos de língua oficial portuguesa, com apoio do consórcio, foi um dos aspectos que também atraiu a atenção das entidades oficiais chinesas. Por outro lado, o processo de privatizações em curso em Portugal interessou à federação de indústria e comércio em Cantão, que manifestou vontade de organizar um encontro empresarial no segundo semestre deste ano.

Y Ping Chow referiu ainda que os interlocutores mostraram-se interessados na possibilidade de aquisição de autorização de residência em Portugal mediante a realização de actividade de investimento. No entanto, a fiscalidade em Portugal, assim como a obrigatoriedade de falar e escrever a língua portuguesa para a obtenção da autorização de residência permanente ao fim de cinco anos, foram vistas pelos interlocutores chineses como entraves. Daí que Y Ping Chow tencione que a Liga dos Chineses em Portugal tente que seja criada uma excepção na lei para grupos de empresários “com capacidade e com capital para investir”, mas que não tencionam viver o tempo suficiente em Portugal para aprender a língua.

 

Atendimento trilingue no Consulado de Portugal em Macau

O Consulado-Geral de Portugal em Macau abriu em meados de Abril um balcão específico para atendimento personalizado a candidatos ao visto dourado, que possibilita uma autorização de residência a estrangeiros que tencionem desenvolver actividades de investimento em Portugal.

O novo cônsul-geral na RAEM, Vítor Sereno, explicou ter sido criada uma zona especial com atendimento trilingue em português, chinês e inglês.  O consulado-geral de Portugal em Macau passou a dispor também de uma linha de atendimento telefónico (+853 8394 8132) para os candidatos.

 

 

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