Quarta-feira, Maio 27, 2020
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Todos os caminhos vão dar a Macau

 

ICAS

 

Texto Cláudia Aranda

 

Esta é “uma oportunidade rara de reunir os maiores cérebros do mundo para explorar os problemas locais e globais. Será uma grande revelação para o público de Macau, uma experiência que vai mudar a nossa visão e mentalidade”, disse à revista MACAU Tak-Wing Ngo, professor de Ciência Política na Universidade de Macau e secretário-geral do comité de organização da 8.ª Convenção Internacional de Académicos da Ásia (ICAS8, na sigla inglesa). Espera-se que cerca de 1200 investigadores e académicos provenientes de 56 países e de 600 instituições de ensino superior e institutos de pesquisa dos mais prestigiados do mundo participem no evento, com o objectivo de revelarem trabalhos científicos descrevendo conclusões ou “os avanços mais recentes nas suas pesquisas”, acrescentou Tak-Wing Ngo. O programa, para já, abrange 350 painéis de discussão e prevê que decorram 25 sessões em simultâneo.

O evento tem como instituições anfitriães a Universidade de Macau (UM) e a Fundação Macau, que partilham os custos das operações. A série de conferências está orçada em seis milhões de patacas, custo que deverá ser coberto pelos patrocinadores e pelas taxas de inscrição dos participantes. Para marcar a abertura do congresso será oferecida uma recepção aos participantes no dia 24 de Junho, presidida pelo reitor da UM, Wei Zhao, o presidente do Conselho de Administração da Fundação Macau, Wu Zhiliang, assim como por Philippe Peycam, director da ICAS, com sede em Leiden, na Holanda, no International Institute for Asian Studies (IIAS), que é a instituição mentora da ICAS.

De acordo com o vice-reitor da UM, Rui Martins, o apoio desta universidade à conferência ICAS 8 “insere-se na estratégia de internacionalização da UMAC, em particular da sua Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e do seu Departamento de Administração Pública, que coordena a sua organização. “Tratando-se de um evento de renome mundial estamos convictos que o mesmo atrairá académicos de reconhecimento internacional na área dos estudos da Ásia, promovendo internamente a investigação nesta área e externamente o nome de Macau e da sua universidade nesta nova era da vida da UM, que se inicia com a transferência para o novo campus da Ilha da Montanha (Hengqin).”

Outras universidades e institutos de investigação da RAEM, tais como a Universidade de São José (USJ), a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST), o Instituto de Estudos Europeus de Macau (IEEM), entre outros, “têm tomado parte activa no evento”, referiu Tak-Wing Ngo, que é, também, director do Centro para a Regulação e Governação do IIAS. “Este nível de cooperação entre as instituições de ensino superior não tem precedentes em Macau”, apontou Tak-Wing Ngo, que acredita que a organização bem-sucedida de um evento académico organizado em tão grande escala e a tão alto nível “irá aumentar significativamente as credenciais académicas das universidades locais, e estabelecer um novo parâmetro para futuros empreendimentos académicos”.

 

Participação recorde

Os Estados Unidos são a origem de grande parte dos investigadores que vêm participar na ICAS 8. Seguem-se o Japão, República Popular da China, Hong Kong, Austrália, Índia e Alemanha, logo sucedida por Macau. São cerca de 80 os investigadores da RAEM que vão apresentar os seus trabalhos distribuídos por 20 painéis diferentes. “Creio ser um recorde”, afirmou Tak-Wing Ngo. Além das instituições de ensino superior já referidas, vão participar investigadores também do Instituto Politécnico de Macau (IPM) e do Instituto Internacional de Macau (IIM).

A oportunidade de apresentar e discutir investigações a académicos de outros países é um dos aspectos mais úteis apontados pelos participantes enquanto motivação para se inscreverem num evento de escala mundial como este. Para Émilie Tran, directora da Faculdade de Ciências Empresariais, Governação e Trabalho Social da USJ, que participa na ICAS 8 enquanto moderadora de um painel e autora de dois artigos científicos, este evento pode ter “um grande impacto na vida científica e académica dos investigadores de Macau”, já que o trabalho de pesquisa é sujeito a “uma exposição pública mundial com um alcance muito grande”.

Geralmente, “o problema maior de uma participação nossa numa conferência científica de alto nível é o custo da deslocação e da estadia. Às vezes, o custo da própria inscrição é também muito elevado”, referiu José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau (IEEM), que participa como moderador e autor de dois artigos. Mas, no caso da ICAS 8, “criou-se uma oportunidade imensa para os investigadores de Macau poderem participar num evento de grande dimensão sem terem que se deslocar”. Devido à enorme escala do evento existe o risco, no entanto, de nem todos os académicos “conseguirem uma grande audiência”. Mas, esse, sublinhou José Luís Sales Marques, “não será, por si mesmo, um problema de maior se depois houver oportunidade de publicação dos trabalhos científicos”.

Publicar os resultados das pesquisas é o objectivo da maioria dos investigadores, sublinhou José Luís Sales Marques, que juntamente com outros especialistas integra um dos painéis de discussão sobre a relevância de Macau nas relações da China com os países de língua portuguesa. Este painel vai ser dedicado precisamente à divulgação dos resultados de um projecto de investigação mais vasto, “Uma Análise da Fórmula ‘Um país, Dois Sistemas’: O Papel de Macau nas Relações da China com a UE e os Países de Língua Portuguesa”, que tem como coordenadora Carmen Amado Mendes, da Universidade de Coimbra. Os resultados preliminares do projecto foram já publicados na revista científica portuguesa Nação e Defesa. Seguir-se-á um livro contendo os contributos de toda a equipa, mas que só deverá ser publicado depois de “incorporados os comentários recebidos na ICAS”, explicou a investigadora. Por isso mesmo, Carmen Amado Mendes descreveu esta conferência como “uma oportunidade rara” para divulgar os resultados do projecto. “O facto de ser uma conferência desta dimensão e com vários painéis simultâneos tem a grande vantagem de permitir que se concentrem na mesma sala especialistas das mais variadas proveniências interessados em temas bastante específicos que, de outra forma, dificilmente poderiam partilhar opiniões ou mesmo conhecer o trabalho de investigação uns dos outros.”

 

Macau no mapa

Os painéis e trabalhos científicos foram seleccionados por dois comités de selecção, um deles responsável pela organização dos painéis e mesas-redondas, o outro pela selecção dos trabalhos individuais, sob a supervisão da sede da ICAS, na Holanda. Os critérios de escolha incluíram a importância e relevância dos tópicos de investigação, a inovação dos temas, e a coerência dos trabalhos no contexto do painel. “A selecção foi uma tarefa difícil e não faltaram debates durante o processo”, contou o professor Tak-Wing Ngo. Os participantes não têm que estar necessariamente ligados a uma universidade. Embora, “a maioria das pessoas que apresenta trabalhos científicos sejam académicos, também temos curadores de museus, diplomatas, detentores de cargos em organizações não-governamentais (ONGs) e jornalistas. Não estabelecemos qualquer exigência nas qualificações académicas. As inscrições foram julgadas principalmente pelo seu mérito científico”. Ainda assim, 85 por cento dos participantes são professores universitários com doutoramento, os restantes são estudantes de doutoramento e pessoas sem ligação académica.

Tak-Wing Ngo acredita que a ICAS vai trazer novos conhecimentos e perspectivas para Macau, através do intercâmbio com investigadores de nível mundial. Este evento é também uma oportunidade para Macau afirmar-se enquanto destino preferencial para a organização de reuniões, convenções e exposições e consolidar-se na indústria emergente do MICE (sigla em inglês para Meetings, Incentives, Conventions and Exhibitions). É importante “mostrar à comunidade académica internacional a relevância de Macau na criação de conhecimento e na sua divulgação. Muitos dos participantes são académicos seniores com influência significativa nos seus países. Eles vão levar consigo a experiência de Macau e contribuir para promover a região no resto do mundo”, concluiu o professor Tak-Wing Ngo.

Esta é também a opinião de José Luís Sales Marques, que acredita que Macau tem condições para se tornar num centro de conhecimento de relevância no mundo. A cidade “tem grande capital de simpatia”, que é resultante de aspectos culturais, urbanístico e de outros. “As próprias instituições académicas, que são jovens, que têm vontade de fazer coisas, e que se houvesse uma estratégia mais global e uma estratégia acertada sobre essa matéria, de certeza que iam todas pegar nessas ideias e desenvolver projectos que, no fundo, acabam por colocar Macau no mapa de uma maneira diferente e que ajudam a prestigiar a região”, concluiu o presidente do IEEM.

 

 

Informação prática

A Convenção Internacional de Académicos da Ásia (ICAS) foi fundada em 1997 enquanto plataforma para os representantes da academia e da sociedade civil se dedicarem ao estudo de questões críticas para a Ásia e, por implicação, para o resto do mundo. Macau acolhe a oitava edição da convenção que se realiza cada dois anos. As anteriores edições aconteceram em Honolulu (2011), Daejeon, na Coreia do Sul (2009), Kuala Lumpur (2007), Xangai (2005), Singapura (2003), Berlim (2001), e Leiden(1998). A média de participação tem variado entre os 1250 e os 5000 académicos, tendo sido o Havaí quem atraiu mais participantes até agora. A organização vai ainda levar a cabo a 5.ª edição do ICAS Book Prize (IBP) é celebrada, que atribui prémios ao Melhor Estudo em Humanidades, Melhor Estudo em Ciências Sociais, Melhor Dissertação em Humanidades, Melhor Dissertação em Ciências Sociais e ainda a Escolha dos Colegas.

 

Pacote Diário

US$ 80 / MOP 640 (com direito de admissão a todos os painéis do dia em questão). O registo pode ser feito directamente no Venetian Macau Resort Hotel, no Cotai.

 

Idioma

Inglês

 

Actividades abertas à comunidade

•          Sessões de cinema com mais de 20 documentários e filmes de curta duração sobre vários temas asiáticos, seleccionados e apresentados pela Asian Educational Media Service da Universidade de Illinois.

•          Exposição cultural com uma apresentação fotográfica itinerante, que inclui textos, mapas e relíquias sob o tema “O Islão, Comércio e Política através do Oceano Índico”, preparada pela British Library and British Academy.

•          Performance cultural multimédia, que combina música e leituras dramáticas, assim como a projecção de imagens digitais do mapa mundo de 1602 feito por Matteo Ricci, recordando o intercâmbio cultural entre jesuítas italianos e chineses cultos na China do século XVII. O tema é “O Mapa e música de Matteo Ricci” e combina trechos de música italiana, contemporânea de Ricci, e música tradicional chinesa, assim como composições modernas, executados pelo conjunto ¡Sacabuche! da Escola de Música de Jacobs, da Universidade de Indiana.

•          Feira do Livro – editoras internacionais e de Macau, e editoras associadas a universidades foram convidadas a fazerem-se representar em stands durante os quatro dias de convenção e a juntarem-se a uma feira do livro. Esta é a maior em termos de edições académicas e universitárias alguma vez realizada em Macau.

 

 

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