Quarta-feira, Agosto 5, 2020
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A fazer história há 80 anos

 

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Texto Cláudia Aranda | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

No auge da estética arte déco, enquanto em Nova Iorque se erguia o edifício Chrysler, em 1930, e em Lisboa se construía o Cineteatro Eden, em 1932, em Macau inaugurava-se, em 1933, o Jardim de Infância, ao qual foi depois acrescentado o nome de D. José da Costa Nunes, também com traços da mesma estética arquitectónica. “Se atendermos que a estética arte déco ganhou identidade com a exposição de Artes Decorativas de Paris em 1925 (…) e se considerarmos que nesse tempo se viajava de barco para Macau, o edifício da Escola Infantil é uma obra que, para a sua época, deve ser contemplada como de vanguarda”, explica o arquitecto Mário Duque, que concebeu a versão actual do edifício da escola, em texto de sua autoria publicado no primeiro Anuário do Jardim de Infância D. José Costa Nunes 2011–2012, lançado em Maio.

A ideia de editar o anuário dos alunos integrando um conjunto de materiais documentais sobre este jardim-escola, que completa em 2013 o seu 80.º aniversário, partiu da Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes (APCN). O objectivo da edição deste primeiro anuário, cuja capa é uma ilustração da autoria de António Conceição Júnior, investigador, escritor e pintor de Macau, é “fazer a história de um dos mais antigos estabelecimentos de educação pré-escolar da RAEM e contribuir para a valorização do património histórico e cultural de Macau através da divulgação das suas instituições de matriz macaense e portuguesa”, aponta Lurdes de Sousa, membro da Associação de Pais e coordenadora executiva do Anuário.

O Jardim de Infância D. José Costa Nunes é actualmente a única instituição pré-escolar privada de língua veicular portuguesa, com um papel importante na divulgação não só da língua, mas também da cultura portuguesa, como refere Cristina Ferreira, presidente da Associação de Pais. Isso sem perder de vista “a multiculturalidade, respeito e inclusão de outros saberes e experiências, características singulares do contexto social de Macau”, escreve Cristina Ferreira no prefácio do anuário.

Esta será uma entre muitas características que distinguem o jardim infantil de outros estabelecimentos escolares, já que o ensino pré-escolar em português se encontra também disponível na rede oficial de escolaridade gratuita da RAEM. O novo projecto educativo do Costa Nunes, implementado em Setembro de 2009, diferencia-se pela introdução da aprendizagem de línguas através das artes. “Trata-se de construir a partir da sua matriz portuguesa uma escola em que as crianças possam frequentar e descobrir outras linguagens, o mandarim e o inglês, tanto como essas outras linguagens fundamentais produzidas pelas artes e as matemáticas”, explica no texto histórico incluído no anuário Ivo Carneiro de Sousa, que foi também autor do projecto educativo para 2010–2020, ao abrigo de um protocolo entre a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), que tutela a instituição, e a Universidade de São José, da qual Carneiro de Sousa foi vice-reitor.

As infraestruturas singulares constituem outro elemento diferenciador do jardim de infância, já que integra equipamentos e desenho de interiores idealizados e adaptados a uma população escolar “de palmo e meio”. Tal como refere Cristina Ferreira, a instituição tem como acervo um património histórico-cultural e um “valioso património arquitectónico”, composto pelo edifício de 1933 e pelo prédio novo, concluído em 1997, que exibe “uma estética contemporânea” ajustada à actualidade e responde “a um contexto urbano mais complexo e exigente”.

 

Livro com história

Com a edição do anuário dos alunos – que teve o apoio financeiro do Consulado de Angola e do Consulado Honorário da Guiné-Bissau na RAEM, da Santa Casa da Misericórdia, da CESL-Asia e da Geocapital, e o apoio institucional do Consulado de Portugal na RAEM – a Associação de Pais pretende “oferecer um livro que possa ser uma recordação para os alunos da sua passagem no Jardim de Infância D. José Costa Nunes”, diz Lurdes de Sousa. Mas, sobretudo, que esse livro possa também incorporar “as raízes históricas e culturais macaenses e portuguesas da instituição, e por extensão, também de toda a comunidade lusófona de Macau que tem os seus filhos nesta escola”, sublinha a coordenadora executiva do Anuário. Foi assim que a Associação de Pais decidiu convidar um conjunto de personalidades de Macau que, com as suas contribuições e testemunhos, “mostrassem a multiculturalidade do jardim de infância e vincassem a matriz portuguesa e macaense da instituição”.

Durante mais de 70 anos o jardim foi um estabelecimento público sob a direcção dos diferentes serviços educativos, transformando-se no ano lectivo de 1998/99 em instituição de educação pré-escolar privada sob a tutela da APIM. A escola hoje acolhe 110 crianças de diversas origens e culturas, como dos países lusófonos, indonésias, filipinas, tailandesas, russas, italianas, japonesas e outras. “Antes não tínhamos crianças chinesas, mas de há três anos para cá, com a implementação do novo projecto educativo, e na sequência da divulgação que foi feita, o jardim de infância começou a ser procurado por famílias chinesas e agora também temos crianças de pai e mãe chineses”, constata Vera Gonçalves, directora da escola.

Lurdes de Sousa acredita que esta é uma tendência nova que se vai acentuar nos próximos anos. “Tem havido uma procura e interesse por parte das famílias chinesas de Macau sem qualquer ligação a Portugal que começam a querer inscrever as crianças neste jardim de infância, justamente por perceberem que a aprendizagem da língua portuguesa pode ser uma grande vantagem a nível profissional, devido ao papel que Macau assume como plataforma de relacionamento entre a China e os países de língua portuguesa.”

As diversas acções dirigidas a pais e crianças em geral, que começaram por ser promovidas pela Associação de Pais a partir de 2009, incluindo actividades de férias de Verão e da Páscoa, contribuíram para divulgar o jardim de infância e o seu projecto educativo. “A abertura da escola à comunidade, com a realização do Dia Aberto, permitiu que muitos pais viessem conhecer e visitar as salas de aula e, a partir daí, tomarem uma decisão”, explica Sara Araújo, vice-presidente da Associação de Pais. Neste momento, a escola faz visitas em português, inglês e mandarim, contando para o efeito com o apoio de pais, educadoras e auxiliares.

 

Guardar memória

Para o arquitecto Francisco Vizeu Pinheiro, o actual conjunto arquitectónico do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes é um caso bem conseguido de preservação de património e da memória histórica da cidade. O projecto de arquitectura de 1997, da autoria de Mário Duque, conseguiu recuperar e manter o contorno primitivo do Jardim de Infância de 1933 e ampliar as instalações, encontrando uma solução para a articulação com o complexo nó rodoviário, que na altura já se adivinhava com as obras de construção do viaduto de acesso ao túnel da Guia, no cruzamento entre as avenidas Horta e Costa e Sidónio Pais.

O importante “é preservarmos a memória e não só a fachada, como infelizmente acontece em muitos outros casos”, aponta Vizeu Pinheiro. Manter toda a estrutura do edifício “é a solução de preservação de património mais autêntica e integral. Neste caso do Jardim de Infância, conseguiu-se: manteve-se o edifício antigo que permanece isolado e autónomo das duas novas estruturas, uma delas separada da antiga pelo viaduto e estrada de acesso ao túnel da Guia. No exterior os edifícios estão separados, mas no interior unidos, permitindo uma circulação segura para os utentes”, aponta o arquitecto.

A Associação de Pais prevê editar ainda em 2013 o livro comemorativo dos 80 anos do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, por forma a continuar a fazer a história da instituição e contribuir para a memória institucional e patrimonial da RAEM. O Anuário é uma iniciativa que a Associação de Pais vai repetir já no próximo ano lectivo, estando o anuário a ser pensado. Pretende-se que o de 2013/14 conte com mais testemunhos de antigos alunos.

 

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