Quinta-feira, Julho 9, 2020
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Como a China abraçou o mundo

 

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Texto Nuno G. Pereira

 

O ex-presidente chinês Hu Jintao fez em 2007 um discurso histórico, perante o Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, onde verbalizou a intenção do seu país em afirmar-se no mundo através do soft power. Ou seja, ganhar influência global recorrendo à cultura e à diplomacia. Uma parte fundamental dessa estratégia assenta no Instituto Confúcio (IC). Aparentemente criado à imagem, por exemplo, do British Council ou da Alliance Française, este projecto mostrou-se desde cedo um veículo de expansão cultural capaz de ir além do ensino da língua.

A ascensão económica da China, sempre em ritmo acelerado, despertou o interesse internacional pelo mandarim – para triunfar nos negócios com o gigante asiático, saber falar a sua língua é a maior das vantagens. O IC surge como a percepção inteligente dessa oportunidade única: se o mundo quer aprender a falar mandarim, é altura de dar-lhe a porta de entrada para que não só o faça como passe a conhecer a cultura chinesa.

O IC tem sido um bem-sucedido instrumento na expansão cultural da China pelo mundo, tradicionalmente fechado à percepção real do que é o país. A descrição oficial do IC não esconde esta realidade ou o cenário que motivou a sua criação. “Com o desenvolvimento económico e a ampliação dos intercâmbios com a China, cresce em todo mundo o interesse e a necessidade de aprender chinês. A partir de 2004, a China deu os primeiros passos rumo à criação no estrangeiro de uma instituição educacional sem fins lucrativos, chamada Instituto Confúcio. O objectivo do projecto é ensinar o chinês e divulgar a cultura chinesa, com base nas experiências de divulgação do idioma que tiveram, por exemplo, Reino Unido, França, Alemanha e Espanha.”

As missões assumidas pelo IC são aumentar o conhecimento da população mundial sobre a língua e a cultura chinesas, promover os intercâmbios culturais entre a China e outros países, e impulsionar as relações bilaterais. Em algumas universidades internacionais onde estão sediados os institutos, a cooperação atinge já, por exemplo, projectos conjuntos de investigação.

Há países que ainda não têm uma sede do Instituto Confúcio, mas que participam no programa através da chamada Sala de Aula Confúcio, uma versão simplificada do IC, onde se ensina mandarim. Outros, como os EUA, têm acima de tudo IC, mas também algumas Salas de Aula, nomeadamente em escolas e liceus.

O quartel-general do IC é o Hanban (abreviatura de Departamento Nacional Chinês para o Ensino do Chinês como Língua Estrangeira), que criou e gere o projecto. Este organismo assume-se como uma entidade independente, embora com apoios do Estado chinês.

 

Capacidade financeira

Os princípios orientadores do IC são um claro exemplo de como objectivos e métodos são bem definidos. “Desde o estabelecimento do primeiro Instituto Confúcio, persistimos no princípio da cooperação educacional com os países estrangeiros. A solicitação e a aprovação de implementação do projecto num país estrangeiro cumprem rigorosamente os regulamentos do ‘Estatuto do Instituto Confúcio’. A parte estrangeira, se interessada, apresenta o pedido de adesão à parceria. Feitos todos os trâmites, as duas partes assinam o acordo de cooperação com base na consulta completa.”

Competência e clareza de intenções são essenciais no êxito do IC, mas teriam pouca eficácia sem o seu orçamento bem nutrido. Em oito anos, o desenvolvimento do IC foi tão rápido como o crescimento económico chinês. Um dado mais significativo do que mera coincidência. Com o seu músculo financeiro, o IC pôde oferecer condições únicas aos estabelecimentos de ensino internacionais, incluindo universidades de topo mundial.

O Hanban disponibiliza aos estabelecimentos de ensino que assinam protocolos com o IC condições extremamente vantajosas: materiais necessários para os cursos, docentes especializados, salários para outro pessoal necessário, formação e apoio financeiro directo. Este último item, sempre apetecível, torna-se ainda mais sedutor quando o quadro económico actual das universidades mais prestigiadas, na Europa e nos EUA, as fragiliza. Um cenário, aliás, visto nas outras áreas para lá da educação.

Além deste apoio financeiro,  ganham algo óbvio, mas que importa repetir: novas valências que enriquecem o portfólio de estudos oferecidos por quem passa a contar com o IC. E uma universidade que ensina a compreender a China está, como é lógico, a exibir uma mais-valia no mercado de atracção estudantil.

 

Mais conhecimento

Os números mais recentes divulgados pelo Hanban carecem de actualização, pois reportam a 2009. Ainda assim, são bastante esclarecedores sobre a tendência de crescimento do projecto IC. Nesse ano entre Institutos e Salas de Aula Confúcio, em todo o mundo, contabilizaram-se 9000 cursos de chinês, abrangendo 260 mil formandos. Houve também 7500 actividades de intercâmbio cultural patrocinadas pelo IC, envolvendo a participação de três milhões de interessados. Números que duplicaram em relação a 2008, dando pistas evidentes sobre o que se passou de então até agora. Há pouco tempo, em Novembro de 2011, outro número impressionante foi apresentado. Segundo um artigo publicado no site noticioso Bloomberg, a China já tinha investido mais de 500 milhões de dólares norte-americanos no projecto.

A disponibilidade financeira é sem dúvida um ponto essencial na expansão conseguida. Para lá de resistências normais, porém, os factos evidenciam uma realidade, na qual o IC tem tido papel preponderante: hoje, o mundo conhece melhor a China. E o abraço que este país lhe deu tem sido recebido com um sorriso.

 

 

Instituto Confúcio em quatro passos

 

Qual a sua definição

Oficialmente, na sua definição mais simples, é uma instituição educacional sem fins lucrativos, que se dedica a ampliar o conhecimento da população mundial sobre a língua e a cultura chinesas.

 

Quando e onde foi criado

O projecto deu os seus primeiros passos em 2004, em Pequim.

 

Quem criou

Segundo informação do próprio Instituto Confúcio, foi criado pelo Hanban, forma abreviada de Departamento Nacional Chinês para o Ensino do Chinês como Língua Estrangeira. Este organismo assume-se como independente, embora receba apoios do Estado chinês.

 

Porque foi criado

As suas principais atribuições são: ensinar chinês (maioritariamente mandarim simplificado); formar professores; qualificar e certificar docentes de chinês; informar sobre educação, cultura, economia e sociedade chinesas; promover e orientar pesquisas sobre a China contemporânea.

 

 

Quem foi Confúcio

A inspiração para nomear os Institutos Confúcio vem de um dos mais importantes filósofos chineses: K’ung Fu-Tzu. O pensador e a sua obra foram trazidos para a Europa pelo jesuíta italiano Matteo Ricci, o primeiro a latinizar o nome para Confúcio. A filosofia do mestre, em traços muito gerais, assentava em fortes princípios éticos, defendendo justiça, sinceridade e sabedoria.

A real dimensão da sua vida e a prova de autoria de muitos textos que lhe são atribuídos permanecem ainda hoje em debate, mas as teses históricas mais comuns dizem que viveu entre 551 e 479 a.C., tendo nascido onde hoje fica a província de Xantung, no nordeste da China. Estudou História e Arqueologia, e possivelmente conheceu Lao Tzu, quando este trabalhava nos arquivos da corte. Embora influenciado por Lao Tzu e pelo Taoismo, Confúcio escolheu um caminho alternativo. A sua filosofia não está tão preocupada com a vida após a morte, como acontece com hindus e taoistas, mas sim centrada nas relações harmoniosas entre as pessoas.

Ao valorizar a moral nos actos pessoais e dos governos e o respeito nas relações sociais, além dos valores já citados, o Confucionismo ganhou força em relação a outras doutrinas, como o Legalismo e o Taoismo, durante a Dinastia Han, concretamente entre 206 a.C. e 220 d.C.. Os seus ensinamentos podem ser encontrados na obra Analectos de Confúcio, uma colecção de aforismos, compilada muitos anos após a sua morte.

 

 

Instituto Confúcio no mundo

Uma expansão de crescimento imparável

 

Com uma influência em contínuo alargamento, o Instituto Confúcio está presente em 103 países, num total de 834 cooperações estabelecidas. Números que incluem institutos e salas de aula Confúcio, sofrendo alterações constantemente, devido ao seu rápido crescimento em todo o Globo.

 

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