Quinta-feira, Julho 2, 2020
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Teatro D. Pedro V (1857-1873)

 

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Margarida Saraiva

Investigadora, curadora e educadora

Tiago Quadros

Arquitecto

 

“Entre os edifícios de matriz ocidental, construídos na segunda metade do século XIX, contam-se: “(…) o Farol da Guia (o primeiro na costa sul da China), em 1865; o Teatro D. Pedro V, desenhado por Pedro Germano Marques; o Quartel dos Mouros em 1874, desenhado por Cassuto, arquitecto italiano; o Clube Militar entre 1870 e 1872; o Hospital Militar, com influências do Hospital de S. Rafael em Bruxelas, em 1874; e a fachada do Teatro D. Pedro V em 1873, projectado pelo Barão do Cercal, um Macaense da ‘elite local’; o Hotel Bela-Vista e, na viragem do século, a casa do capitalista Chinês Lou Lim Ieoc.[1] Estes edifícios foram, na sua maioria, construídos em localizações privilegiadas, dentro da cidade, e representavam manifestações claras de uma fantasia romântica de luxo neo-clássica, evocando também uma presença colonial nostálgica.”[2]

O Teatro de D. Pedro V é uma das obras mais emblemáticas da arquitectura civil do território de Macau. As representações teatrais antes da construção deste edifício realizavam-se em diversos locais, desde a encosta de Mato-Mofino até à Praia do Manduco, em tendas e noutras construções improvisadas. Algumas terão também ocorrido na sede da Assembleia Filarmónica e até na ampla residência do Dr. Sequeira Pinto, ilustre juiz de Direito da cidade. Com o objectivo de definirem um local próprio e condigno para a realização de espectáculos de teatro, um conjunto de ilustres macaenses constituiu, em 1857, uma comissão que levaria a bom termo as negociações com o Senado para a obtenção de um espaço destinado à construção de um teatro moderno. O terreno que veio a ser obtido ficava situado no Largo de Santo Agostinho e, em 20 de Abril de 1859, foram aprovados os estatutos do novo teatro de Macau.

O Teatro D. Pedro V em Macau, considerado o primeiro teatro de estilo ocidental na China[3], foi inaugurado em 1860, com projecto da autoria de Pedro Germano Marques (1799-1874). Acerca do autor, também responsável pela direcção de obras, muito pouco se sabe, sendo que a documentação existente apenas refere que “não era arquitecto nem engenheiro, mas tinha engenho e arte e foi ele que desenhou e dirigiu a construção do edifício, que saiu obra apurada.”[4] Contudo, o pórtico – corpo avançado com uma colunata que suporta um imenso frontão triangular – elemento arquitectónico de maior relevo no conjunto edificado é da autoria de António Alexandrino de Melo (1837-1885), Barão do Cercal, e datado de 1873. Quando se procedeu ao restauro do imóvel em 1918, o pórtico viria a ser reconstruído pelo Arquitecto José Francisco da Silva “ficando o mais possível igual à antiga, que fora delineada pelo Barão do Cercal.”[5] Em 1926, o Teatro D. Pedro V recebeu ainda uma intervenção no seu interior. Datam deste ano, os documentos existentes sobre as alterações efectuadas.[6] Finalmente, em 1993 é levada a cabo uma recuperação do edifício, com projecto de Maria José de Freitas.

António Alexandrino de Mello, Barão do Cercal, nasceu em Macau, em 1837, e com apenas 7 anos de idade foi enviado para Inglaterra, onde acabaria por se licenciar em Engenharia Civil. É durante a sua estadia em Inglaterra que toma contacto com algumas das que virão a ser as suas maiores e mais profundas referências. A abundância da linguagem “neopalladiana”, que se verificava em muitas das obras em construção nas cidades inglesas, é disso exemplo. Mais tarde, o Barão de Cercal viria a passar dois anos em Roma, onde estudou pintura a óleo e aguarela, tomando contacto com a arquitectura romana.

De acordo com Daniel Rosa[7], “Se olharmos para o pórtico do teatro de um ponto de vista formal, podemos constatar a clara influência da sua formação académica em Inglaterra, de gosto “neopalladiano”. (…) Como clara referência portuguesa e referência para a sua obra, podemos afirmar o provável conhecimento por parte de António Alexandrino de Melo das edificações teatrais levadas a cabo pelo arquitecto italiano Fortunato Lodi em Lisboa: o teatro das Laranjeiras e o Teatro D. Maria II. Este último que terá sido um dos modelos de referência para a edificação da frontaria do Teatro D. Pedro V, foi certamente do conhecimento do Barão do Cercal, visto todo o alarido, sobretudo ao nível dos periódicos, em torno da sua atribuição a um “arquitecto estrangeiro” e à “estranheza” do seu estilo na capital. Um conjunto de litografias, provavelmente amplamente difundidas e datadas de 1843, gravadas por Augusto Guigliermi e editadas pela Litografia de Manuel Luís da Costa, onde se incluía representado o alçado do Teatro D. Maria II virado para o Rossio[8] (que apresenta claras afinidades com o pórtico do Teatro Dom Pedro V), podiam ter sido igualmente do conhecimento do Barão do Cercal.”[9]

Podemos concluir que são as influências inglesas e italianas, recebidas por António Alexandrino de Melo que estão na origem do desenho do pórtico do Teatro D. Pedro V, semelhante nas suas formas à obra de Fortunato Lodi, em Lisboa, à imagem da arquitectura monumental com que terá tomado contacto em Roma e à interpretação das formas “neopalladianas” de influência inglesa, originária da sua formação académica.[10] Nesse sentido, podemos afirmar que o primeiro teatro de estilo ocidental construído na China teve clara influência da arquitectura teatral que se fazia em Portugal, em consonância com os novos gostos e tendências. Ao contrário do que sucede em muitas das suas obras, ao desenhar o pórtico para o Teatro D. Pedro V, o Barão do Cercal não opta por um estilo neogótico, desinibido, imaginativo e eclético. Com efeito, António Alexandrino de Melo procura no Teatro D. Pedro V, seguir um exemplo dentro da especificidade que caracteriza o imóvel – e desse modo seguir o modelo dos teatros de raiz italiana.

Apesar de não termos documentação que nos clarifique a profundidade das obras de restauro de 1873, um artigo, datado de 1873, sugere que possam ter sido feitas algumas alterações no interior do imóvel: “Abriu esta noite os seus salões o THEATRO DE D. PEDRO V – restaurado, elegante e perfeitamente armado, obras estas que deve à actual e incansável direcção (…).”[11] Refere ainda Manuel Teixeira[12] na sua obra, citando um folheto da autoria de Manuel de Castro, datado de 1864 (ou seja, antes do restauro), a propósito de uma festa organizada no Teatro no contexto dos festejos em Macau pelo nascimento do Rei D. Carlos que o “Theatro de D. Pedro V não tem camarotes. Há ali um vasto salão, onde se collocam cadeiras, dispostas por ordem para os espectadores (…). este salão está contudo rodeado de janelas, que fingem camarotes.”[13]

Na passagem para o século XX, o Teatro D. Pedro V assumia-se já como principal pólo cultural da cidade: “O chique e o bom-tom eram as récitas e os concertos do Teatro de D. Pedro V, então muito activo, a que se ia de trajo de rigor, costume este que perdurou até ao advento da Segunda Guerra Mundial. As récitas, embora realizadas por amadores, tinham incontestável nível, como, por exemplo, “A Ceia dos Cardeais” de Júlio Dantas, levada à cena em 30 de Abril de 1905 e cuja estreia tanta celeuma suscitou em certos sectores da cidade.”[14] Contudo, não esqueçamos que o teatro representava uma fonte programática ideológica de exposição, de consumo e reprodução da cultura do mundo colonial. Este foi um tipo de edifício que trouxe segregação social e racial, com os Europeus e Macaenses a assistirem aos espectáculos e os Chineses a ocuparem lugar na parte de trás do palco. Aliás, esta parece ter sido uma noção aceite e generalizada sobre o papel social do teatro e do cinema, dado que os projectos submetidos ao governo até 1930, apresentavam, nos seus desenhos, a indicação desta segregação racial. Havia o Foyer, a plateia, o fosso, os lugares centrais, o palco e por trás dele, o espaço para os Chineses.

É provável que o desenho inicial de Pedro Germano Marques fosse o de um teatro mais austero do ponto de vista da linguagem. Com efeito, o Teatro D. Pedro V, tal como o conhecemos desde 1873, apresenta uma delicadeza que se manifesta no balcão que se eleva sobre a plateia, na planta em ferradura (comum nos teatros de raiz italiana), nas colunas coríntias estriadas no primeiro terço do fuste. Parece evidente, que a intervenção de 1873, revela a intenção do Barão do Cercal de harmonizar as linhas clássicas do interior com as do exterior, e que o Teatro D. Pedro V é o primeiro no género (de raiz italiana), edificado no Oriente.

 


[1] A imprensa local, desde o início do século XX, refere-se aos Chineses prósperos como “Chineses capitalistas”.

[2] VICENTE, Manuel (Setembro 1982). “Macau: a arquitectura da cidade in Sábado – n. 22, Macau, p. 17.

[3] AAVV (Julho 2005). “Macau Património Mundial in Revista Cultura – n. 15, Macau, p. 24.

[4] TEIXEIRA, Manuel, s/d, O Teatro D. Pedro V, Macau: Edição Clube de Macau, p. 7.

[5] Ibidem, p. 21.

[6] Processo do Teatro D. Pedro V, Arquivo Morto da DSSOPT, 1926-1993.

[7] Investigador do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

[8] CARNEIRO, Luís Soares (2002). Teatros portugueses de raiz italiana, Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto: Dissertação de Doutoramento em Arquitectura apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, p. 318.

[9] ROSA, Daniel (2010). “Introdução ao estudo do Teatro D. Pedro V de Macau: A influência portuguesa no primeiro teatro de raiz italiana na China”, in Teatro e Imagens, Lisboa: Edições Colibri, p. 102.

[10] Influência essa que tanto se notou na sua obra, especialmente na recorrente utilização de pórticos de gosto neoclássico.

[11] Gazeta de Macau e Timor (Setembro 1873). 2º ano, n. 2.

[12] TEIXEIRA, Manuel (1942). Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX, Macau: Imprensa Nacional, p. 25.

[13] CASTRO, Manuel de (1864). Memoria dos Festejos que tiveram logar em Macau por ocasião do fausto nascimento de Sua Alteza Real o Senhor D. Carlos Fernando precedida de breves considerações sobre o futuro de Portugal e selada com Elogio e contada na mesma ocasião no Theatro D. Pedro V em Macau, Macau: Tipographia de J. da Silva.

[14] SENNA FERNANDES, Henrique (Outubro/Dezembro 1991). “O Cinema em Macau. O Tempo do ‘Mudo’ – I in Revista Cultura – n. 16, Macau, p. 33.

 

 

BIBLIOGRAFIA

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BURNAY, Diogo (1994). Modern Architecture in Macau. Architecture, modernism and colonialism in Macau, Londres: The Bartlett, University College London: Dissertação de Mestrado em Arquitectura apresentada à University College London.

CARNEIRO, Luís Soares (2002). Teatros portugueses de raiz italiana, Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto: Dissertação de Doutoramento em Arquitectura apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

CASTRO, Manuel de (1864). Memoria dos Festejos que tiveram logar em Macau por ocasião do fausto nascimento de Sua Alteza Real o Senhor D. Carlos Fernando precedida de breves considerações sobre o futuro de Portugal e selada com Elogio e contada na mesma ocasião no Theatro D. Pedro V em Macau, Macau: Tipographia de J. da Silva.

DIAS, Pedro (2005). A Urbanização e a Arquitectura dos Portugueses em Macau. 1557-1911, Lisboa: Portugal Telecom.

INFANTE, Sérgio, et al. (1995). Cem anos que mudaram Macau, Macau: Governo de Macau.

MARREIROS, Carlos (2003). “Por uma cultura arquitectónica de Macau”, in Architecture for the New Millennium, Macau: Museu de Arte de Macau, pp. 272-279.

MATTOSO, José (2010). Património de Origem Portuguesa no Mundo – Ásia, Oceânia, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

ROSA, Daniel (2010). “Introdução ao estudo do Teatro D. Pedro V de Macau: A influência portuguesa no primeiro teatro de raiz italiana na China”, in Teatro e Imagens, Lisboa: Edições Colibri, pp. 99-106.

SENNA FERNANDES, Henrique (Outubro/Dezembro 1991). “O Cinema em Macau. O Tempo do ‘Mudo’ – I” in Revista de Cultura – n. 16, Macau, pp. 31-61.

TEIXEIRA, Manuel, s/d, O Teatro D. Pedro V, Macau: Edição Clube de Macau.

TEIXEIRA, Manuel (1942). Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX, Macau: Imprensa Nacional.

VICENTE, Manuel (Setembro 1982). “Macau: a arquitectura da cidade” in Sábado – n. 22, Macau, pp. 14-23.

 

 

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