Terça-feira, Abril 20, 2021
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A união através da moda

 

Nuno Baltazar

 

Texto Luciana Leitão | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

O designer de moda Nuno Baltazar trouxe peças que retratam um amor pela capital portuguesa, enquanto Clara Brito escolheu roupas sintomáticas da sua paixão pelos tecidos orientais. Os trabalhos dos dois criativos estão patentes numa exposição conjunta intitulada “De Lisboa a Macau… uma Viagem de Moda”, que se prolonga até ao dia 5 de Janeiro na Galeria de Moda de Macau. Para a estreia no território, Nuno Baltazar trouxe trechos de 30 colecções apresentadas nos últimos 15 anos da carreira. Procurou trazer alguma “unidade” e, por isso, escolheu peças que ilustrassem Lisboa. “Achei que fazia sentido procurar dentro do meu trabalho algo que fosse recorrente. Percebi que essa linha comum é talvez Lisboa e a forma como vejo Lisboa num prisma feminino, como se fosse uma mulher”, explica.

Por isso, as sete peças de Nuno Baltazar correspondem a “um guarda-roupa para esse filme sobre Lisboa”, mostrando algo do “dramatismo” da capital e a “sua influência na noite e no fado e nessa portugalidade”. As peças em exposição pertencem a diferentes estações, com uma predominância do Inverno, que é a sua altura favorita. “É mais rico – se calhar, a estação combina com esse [meu] lado mais melancólico”, realça.

 

As mulheres como inspiração

Fazendo uma retrospectiva do trabalho, Nuno Baltazar conclui que as figuras femininas são a sua maior inspiração, transpondo-as do cinema ou da literatura para as passarelas. “Sempre que vejo um filme ou leio um livro que tem uma vida, uma história particular e que me inspira, ela acaba por ser mais forte do que eu e entretanto já está numa colecção”, declara. E, normalmente, essa história é protagonizada por uma mulher forte. É por isso que já dedicou colecções à fadista Amália, à Marquesa de Jácome Correia – “a amante do Vitorino Nemésio, internada no hospital psiquiátrico porque se queria separar” -, ou à escritora Virginia Woolf.

Quanto aos homens, não são tão interessantes “do ponto de vista emocional” e, por isso, raramente os catapultou para as suas criações e dificilmente o fará no futuro. “Os homens nunca me inspiraram, mas já me inspirou o trabalho de alguns homens, poetas como Eugénio de Andrade ou Fernando Pessoa. Mas mesmo assim prefiro Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner”, esclarece, acrescentando: “Mais facilmente farei uma colecção para menina do que para homem”.

O fascínio pela moda começou bem cedo com a sua avó. “Tinha 13 anos quando me comecei a interessar pela ilustração de moda, quando descobri umas revistas da minha avó dos anos 1950”, conta. Foram estas as sementes que vieram a trilhar o seu caminho, repleto de momentos positivos e negativos. Entre os mais felizes da sua carreira, é “inevitável” destacar prémios como o Globo de Ouro 2012 ou o Fashion Awards da Fashion TV em 2011, até por constituírem “o reconhecimento do trabalho”.

Quanto aos menos positivos, Nuno Baltazar refere as dificuldades resultantes da actual crise económica portuguesa, que “interferem no mercado e na disponibilidade das pessoas para consumir moda de autor”. Ciente de que nesta altura é preciso alterar a forma de actuar, o designer acredita que é “importante saber dar um passo atrás, mas sempre a pensar em investimento no sentido de não deixar a marca morrer”, procurando, para isso, os parceiros certos.

 

O Oriente como inspiração

Clara Brito, fundadora da marca Lines Lab juntamente com Manuel Correia da Silva, trouxe sete criações da Super Heavy Light (SHL), parte da colecção Primavera-Verão que apresentaram na edição deste ano do Macau Fashion Link. São peças que reflectem esta simbiose entre o design industrial e de moda que a dupla criativa tem vindo a explorar na Lines Lab. “Eu e o Manuel temos um percurso que não é assim muito académico. Viemos de design industrial e sempre misturamos muito as áreas”, explica. “Esta é uma colecção que representa isso, que parte do equipamento urbano, que vem das nossas malas, que posteriormente é reciclado em tecidos e são usados noutros looks da colecção.”

 

Clara Brito

 

Notando-se o recurso à seda chinesa nas peças que Clara Brito escolheu expor, a designer de moda diz que é um material que lhe é particularmente querido. “Como gostava muito dela [da seda chinesa], ia comprando e fazendo algumas peças avulso para clientes”, explica. O lado “inovador” do SHL é a mistura de materiais tradicionais como a seda chinesa com alta tecnologia. “É nesse contraste que a colecção pode ser inovadora, não só pela junção dos materiais mas até pelo processo criativo implícito.”

Clara Brito é licenciada em Design de Equipamentos pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (2003), mas foi sempre uma apaixonada pela moda, sobretudo graças à avó. “Ela passou-me o lado da sensibilidade pelos materiais – é uma pessoa requintada nesse sentido, uma seda tem de ser bem tratada, um bom tecido tem de ser bem tratado, e ela passou-me isso tudo.” Foi com a avó que aprendeu muito do que sabe ao nível da confecção.

Nuno Baltazar assume uma preferência pela figura feminina e Clara também o faz, mas menos conscientemente. “É uma tendência que tenho – parece que com a roupa de homem é sempre tudo mais formal, não podes brincar tanto. Prefiro acentuar o corpo feminino que é mais bonito.”

E, contrariamente ao designer português, não trabalha com temas quando cria. “Não racionalizo muito a inspiração, a minha grande influência sempre foram os materiais. Nunca desenhei nada a pensar na personagem, no cinema. Pode ser um bom desafio, mas acaba por não ser o meu percurso.”

Assumindo que há alguns traços comuns nas suas peças ao longo da sua carreira, como a figura feminina oriental, Clara Brito afirma que é “intuitivo”. Aliás, reconhece até que é tão “intuitivo” que acaba por ter “vícios de desenho” que talvez gostasse de corrigir. “Procuro sempre uma mulher que tento idealizar, muito sofisticada, direitinha, e às vezes devia sujar um bocadinho, porque isso pode dar um lado criativo, que não deixa de ter estilo na mesma. É algo um pouco enraizado em mim, mas não devo deixar de tentar.”

No início da carreira, começou por ser ela própria a confeccionar as suas peças. “Quando tinha o ateliê em Portugal fazia com a minha avó e quando vim para Macau tive de me defender bem, sobretudo porque começamos por entregar às costureiras de cá e percebemos que não ia funcionar”, afirma. E foi por isso que nasceu a primeira colecção do duo criativo, os “Lineless”, peças “bidimensionais que quando vestidas ganham um lado tridimensional”. Hoje em dia, com o avolumar de trabalho, não teve alternativa senão recorrer a costureiras locais, através de um “grande” investimento.

“De Lisboa a Macau… uma Viagem de Moda” junta Nuno Baltazar e Clara Brito a convite do Instituto Cultural e do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia numa colaboração que não é directa, já que ambos trabalharam autonomamente. Sobre uma potencial colaboração mais directa, a fundadora da Lines Lab não rejeita, até porque “faz sentido criar essas ligações”, estabelecendo-se uma “plataforma que pode ser um bom canal de ajuda entre Macau e a China”.

 

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