Quinta-feira, Julho 2, 2020
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Dossiê Longevidade: As pousadas dos Guo

 

velhote no meio da rua

 

 

Texto e Fotos Catarina Domingues

 

De Pequim a Shizhuangzi são três mudanças de autocarro e velhas estradas em construção na nova China, atalhos para fugir a essas estradas. A pequena aldeia fica no condado de Miyun, a duas horas de Pequim, mas com as obras demora-se o dobro. À chegada, placas dizem patriotismo, o céu está limpo, e ninguém se lembra que para trás ficou a capital cinzenta.

Já tinha corrido por aí que Shizhuangzi ia receber visitas. Guo Huitian lá estava, à nossa espera, encostado à porta de casa; chapéu de palha, barba que só há pouco começou a dar sinais de velhice, uma bengala a apoiar as pernas de quem deu tudo pelo país.

Guo é veterano de guerra, orgulhoso soldado das batalhas que a China travou contra o Kuomintang, contra os americanos na Coreia do Norte e contra os japoneses. Guo esteve sempre lá. Agora, enquanto andamos, canta músicas patrióticas e saudosas da terra: “Em Agosto a serra está cheia de garças /depois de colher os frutos, come-se o burro/ o chiqueiro com o cheiro dos porcos/ a serra com vacas e ovelhas/ Miyun é um bom local”. Em Shizhuangzi ninguém escuta, não passa quase ninguém na rua, não há pessoas, nem crianças, não há comércio.

Mas voltando à guerra, porque a memória deste homem é a guerra. E aos 88 anos, Guo agarra-se às memórias, e a resistência aos japoneses cabe em todas as frases. “Passei fome, a guerra deu-me cabo do estômago”, diz Guo, que limita as refeições diárias a duas sopas de arroz.

É viúvo há sete anos. Do casamento nasceram três filhos, que vivem na cidade. E por momentos volta ao presente, porque afinal de contas o presente é muito melhor que o passado, e é muito melhor aqui do que nos centros urbanos. “Os agricultores pensam pouco, não precisam de se preocupar, não é como nas cidades.”

Depois Guo volta a parar para descansar as pernas. “Miyun é um bom local/ a água desce da serra/ mil rios dirigem-se ao céu.” Guo aponta para a montanha, explica que a água vem por aí abaixo carregada de ervas medicinais. “Com estas condições de vida, qualquer um pode viver mais 15 anos do que eu.”

Seguimos de barco pelo reservatório. De mãos em concha, bebemos directamente a água milagrosa de Shizhuangzi.

 

shizhuangzi placa

 

Turismo rural

O representante do partido em Shizhuangzi, Guo Huihuan, recebe-nos em casa com uma chávena de chá Longjing. Numa estante ao lado, está uma pequena escultura de uma couve-chinesa em jade. “Chama-se baicai (白菜), e para os chineses representa dinheiro porque o som da palavra é semelhante a 摆财bai cai (colocar riqueza)”, diz Guo.

Mas a fortuna de Shizhuangzi, continua o secretário, é a natureza. “Shizhuangzi tem uma área florestal de 97 por cento e respira-se 40 vezes mais ar puro do que em qualquer cidade do país.”

Também conhecida na China como a aldeia da longevidade, Shizhuangzi tem uma esperança média de vida de 85 anos. Dos 320 habitantes, 135 têm mais de 70 anos e pelo menos 35 já ultrapassaram as oito décadas de vida. Em 2012, morreu uma pessoa na aldeia e entre 2009 e 2011 não houve funerais.

A pequena clínica local apoia os serviços básicos de saúde. Mais do que isso, os habitantes têm de ir à cidade mais próxima. “Mas comparticipamos até 80 por cento de tratamentos graves e temos um sistema de pensões implementado”, assegura o secretário, sem nunca deixar a minha chávena de chá secar.

Guo Huihuan vive no número 119 de Shizhuangzi. A casa foi construída há pouco menos de um ano e é igual a todas as outras. Foi em 2009 que o governo deitou a pequena aldeia abaixo. A ocorrência frequente de deslizamentos de terra fez com que as autoridades reconstruíssem Shizhuangzi numa zona vizinha. O projecto, que ficou concluído em 2012, fez nascer 148 novas casas, cada uma com 133 metros quadrados, quatro quartos, uma cozinha, duas salas, duas casas de banho, uma arrecadação, um pátio e uma pequena horta. As ruas continuaram sem nome, as casas foram baptizadas de “Pousadas de Saúde”.

O governo apostou no turismo rural e muitas famílias deixaram as plantações de castanha e dedicaram-se ao negócio. “Antigamente as pessoas saíam da aldeia para ir procurar melhores condições de vida na cidade. Agora estão a regressar porque com este negócio sentem que podem fazer dinheiro.”

 

guo furong4

 

As mulheres de Shizhuangzi

Com o aparecimento do turismo rural, também o papel das mulheres mudou. “Já não precisamos de fazer trabalhos pesados como antes, já não temos de moer os cereais com aquelas máquinas grandes”, nota Guo Furong, de 85 anos.

A vida de Guo começa pouco antes das sete da manhã, umas coisinhas aqui, outras ali. Ocupa os dias com pequenas tarefas. Hoje a tarde é de sol. Guo arrasta uma cadeira e senta-se à beira da horta, puxa uma das mangas da camisa de seda para cima e atira um sorriso para a câmara. “Foram os japoneses que me fizeram isto, um dia entraram em minha casa, eu fugi, caí e magoei o braço.”

Guo fala de uma vida pobre, passada entre os campos e as roupas e sapatos que cosia. “Não estudei porque os professores não apareciam com medo dos japoneses.” Mas foi sobrevivendo. “Naquela altura, as mulheres morriam aos 40 anos, ninguém vivia para lá dos 60, morria-se com febres altas.” E por momentos baixa a manga da camisa. “A febre trata-se assim: basta colocar o intestino de uma galinha em cima do corpo.”

Tratamentos como estes há muitos no livro de receitas de Guo. “Naqueles tempos não havia remédios, hoje o governo oferece medicamentos. Assim podemos viver mais de um século.”

Viúva há quase 20 anos, Guo conta com a ajuda dos filhos, como a maior parte dos idosos de Shizhuangzi. “Esta é uma aldeia tradicional, os filhos têm responsabilidades e tomam conta dos pais. Essa é uma virtude chinesa”, revela Zhao Suqin. Detentora da pasta das mulheres, Zhao é a única pessoa desta reportagem que não se chama Guo porque é oriunda de outra aldeia e não pertence ao mesmo clã. “A situação das mulheres melhorou substancialmente após 2012”, considera ainda a responsável pelo emprego das mulheres, pela manutenção de uma boa vizinhança, distribuição de medicamentos e de contraceptivos.

As mulheres de Shizhuangzi viram no turismo rural uma nova galinha dos ovos de ouro. Recebem viajantes que por aqui passam e cozinham especialidades, como ovos com cogumelos. E no Outono, nascem cogumelos nas montanhas.

 

guo huitian4

 

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À procura do elixir da juventude

 

  • Em Bama, na Região Autónoma Zhuang de Guizhou, por cada 100 mil pessoas, vivem 31 centenários. Com 270 mil habitantes, o município já se tornou num destino de peregrinação e centro de turismo de saúde. Em 2013, mais de 2,5 milhões de turistas visitaram Bama. Acredita-se que a quantidade de iões negativos no ar é superior a outros locais na China, o que faz com que os residentes sintam energia e bem-estar. Diz quem lá vive que a água é “divina”, tem efeitos medicinais e que a ingestão diária do vegetal Huoma é garantia de uma vida longa.

 

  • Jin Tu, na Província de Guangdong, também foi baptizada de vila da longevidade. Aqui vivem mais de 150 habitantes com idade superior a 80 anos e pelo menos sete centenários. Os habitantes vivem da agricultura e nos tempos livres tocam flauta e dedicam-se à dança do leão.

 

  • Em 2011, Rugao, na Província de Jiangsu, entrou para a lista das cidades com maior esperança média de vida na China. Com uma população de 1,4 milhões de habitantes, a cidade tem 265 centenários. Nos parques de Rugau é habitual encontrar nonagenários a dançar e a fazer exercício.

 

  • Xinjiang é a região com mais centenários na China. No início do século, os censos revelaram que dos 3765 centenários do país, 865 viviam aqui. A Sociedade Internacional de Medicina Natural designou a Prefeitura de Hetian como um dos locais com maior longevidade do mundo. Dos 2400 habitantes pelo menos 16 têm 90 anos. Pães a vapor recheados e vegetais fazem parte de 77 por cento da dieta de Hetian.

 

 

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China envelhecida

Com a implementação da política do filho único no final da década de 1970, a China passou por fortes mudanças demográficas. As alterações na estrutura familiar, associadas a uma menor fertilidade e mortalidade, aceleraram o processo de envelhecimento no país. Previsões apontam que, em 2050, um quarto da população chinesa terá mais de 65 anos. Para cada 100 pessoas entre os 20 e 64 anos, haverá 45 com mais de 65, em comparação com as 15 de hoje.

 

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